List of Tables
3 Basic literature
3.6 Fire scenarios
3.6.3 Estimations of fire scenarios
3.6.3.3 Experimental studies on temperatures of post-flashover fires
Para compreendermos as formas de cuidar de sujeitos com sofrimento psíquico grave que apresentam o quadro de cronicidade, necessitamos, como pré-requisito, buscar uma lógica que contemple estarmos disponíveis a um encontro pessoal genuíno, ou seja, entre pessoas, para que se possam produzir ações que convertam em saúde mental.
Portanto, é necessário considerar a ética do cuidado como um capítulo específico, para demonstrar a necessidade de se ampliar o cuidado, para além da ética meramente profissional, ou seja, uma ética voltada para cuidado do Ser. E se pensarmos no paradigma da clínica psicossocial e na desconstrução do cuidado, que substitui o olhar da doença pelo do sujeito social, faz-se necessário pensarmos em construirmos um saber da ética sobre esse prisma.
O sujeito, em uma situação de cronicidade nos remete a uma imagem pré- determinada a partir da clínica. Mas essa clínica deve ser revista a partir da singularidade do sujeito, como este se coloca neste mundo, independente do seu quadro sintomatológico que a própria clínica tradicional instituiu.
E, nesta situação, superar a rotina que está a priori no cuidado médico, reduzindo ao plano de prescrição medicamentosa, esquecendo-se as outras formas de cuidado. A relação de um modo geral baseia-se numa minimização da pessoa, com um olhar preconceituoso, ou de infantilização e dependência. Portanto, devemos pensar para que possamos modificar esta posição, sendo importante nos ater primariamente numa ética do humano.
Segundo Boff (1999), enfrentamos uma crise civilizacional generalizada. Precisamos de um novo paradigma de convivência que funde uma relação mais benfazeja para com a terra e inaugure um novo pacto social entre os povos no sentido de respeito e preservação de tudo o que existe e vive. Ressalta que os vários pensadores contemporâneos referem, sobre o mal estar nas civilizações que desemboca no aparecimento do fenômeno do descuido, do descaso e do abandono, portanto da falta de cuidado.
Boff (1999) apresenta várias formas de descuido como, por exemplo: o descuido pelo destino dos pobres, pelos desempregados, cultural, espiritual. E dentre estas várias formas de descuido, ele cita o descuido no cuidado em saúde, referindo-se à questão da política pública como insuficiente e vergonhosa.
Acrescentaríamos, dentre as várias formas de descuido que ele relaciona, a forma de descuido na continuidade do cuidado na clínica, não oferecendo o cuidado na forma de uma clínica de retomada de vida cotidiana dos sujeitos com diagnóstico de cronicidade, com histórias de internações frequentes ou com história de institucionalização, e com muito tempo de tratamento. Portanto, o descuido está relacionado, a falta de uma ética do cuidado de integração com o cotidiano desses sujeitos.
Cuidado, segundo Buarque (2002) significa “atenção, aplicação a alguma
coisa; precaução, cautela, diligência, desvelo. Inquietação de espírito, preocupação; encargo, responsabilidade” (p. 408). O sentido etimológico da palavra é originário do latim que significa cogitatus, como agitar no espírito, remoer um pensamento, pensar, meditar, projetar, preparar.
Heidegger (citado por Deslandes, 2006) iniciou suas investigações filosóficas acerca das dimensões ontológicas através da preocupação como cuidado. Ele desenvolveu a hipótese da ação de “estar cuidando” como a que melhor nos permite compreender o sentido da nossa existência como seres humanos. E afirma que é na condição de cuidar, que é por um lado um ato individual e individualizador, mas por outro lado, uma relação com o outro, que partilhamos a compreensão da existência humana, propondo o cuidado como categoria que mais expressivamente consegue colocar o homem no processo de transcendência e que gera o plano de imanência.
A ética do cuidado pode ser apresentada através de várias linhas de pensamento. Boff (1999) acredita que existe uma urgência de um ethos1, ou seja, ser aquela porção do mundo que reservamos para organizar, cuidar e fazer o nosso habitat, que ganhará corpo em morais concretas e consoante às várias tradições culturais e espirituais.
Heidegger (citado por Boff, 1999) conceitua que “do ponto de vista
existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato” (p. 34). Cuidado para ele seria “um fenômeno ontológico existencial básico”, uma essência de todo ser, algo do Dasein, não podendo ser totalmente desvirtuada, por ser da construção ontológica. O modo de ser cuidado revela a concretude como ser
1 Em grego significa a toca do animal ou a casa humana; conjunto de princípios que regem, transculturalmente, o comportamento humano para que seja realmente humano no sentido de ser consciente, livre e responsável; o ethos constrói pessoal e socialmente o habitat humano.
humano. Portanto, seria uma atitude que se projeta e que embute características singulares de ser humano.
O conceito de cuidado para Boff (1999, p. 33) seria “o que se opõe ao descuido
e ao descaso”. Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com os outros. Cuidado no sujeito crônico seria uma forma de estar ai com o outro, na forma de um encontro, em que ambos têm motivos, direitos e deveres e que produzem processos de construções. Esta forma de cuidado não é meramente um ato estático, mas uma atitude próativa de empoderamento e de saúde.
Freire (citado por Teixeira & Bucher-Maluschke, 2008), em seu estudo crítico sobre o cuidar da saúde do outro como dimensão ética, afirma que perspectivas mais humanas e sociais mostram, de forma impertinente, aspectos como a transitoriedade dos atos humanos, variadas verdades e a dimensão cultural da experiência humana. E acredita que uma questão a ser considerada na ética do cuidar seria a disposição de um trabalho das políticas públicas na introdução desta concepção na população, valorizando a organização dos grupos sociais e a cultura da solidariedade e da defesa da vida.
Para Merhy (2007), o cuidado seria de “lugares onde se encontram ou
relacionam-se territórios sujeitos, em acontecimentos e aconteceres” (p. 26). Este autor faz uma crítica ao formato de cuidado em que os serviços de saúde mental atuam. Estes encontros (usuário e técnico de saúde), nesta micropolítica, ocorrem, de um modo geral numa necessidade de interditar sujeitos territórios, inclusive no seu pensamento e porque não na sua forma de ser e estar no mundo. Significa encarcerar numa normativa social, de tratamento, institucional.
Entendemos que a cronicidade, enquanto uma expressão desta falta de cuidado está presa nesta lógica. Concordamos como Mehry em que “parece que o outro, como
estrangeiro, e porque não complementar, diferente, estranho, incomunicável, distante, é para o outro (técnico de saúde, por exemplo), um grande incômodo, não suportando a possibilidade de este existir nem como imaginador”(p. 26).
Mehry descreve duas formas de tutela entre Estado com a sociedade, presente nos serviços de saúde que responde pelo cuidado, a saber:
Quadro 1: Formas de Tutela entre Estado com a sociedade
AGIR CASTRADOR AGIR LIBERTADOR
TUTELA