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3 Basic literature

3.2 Classification methods

A situação de crise que um sujeito vivencia é promotora de consequências que afetam sua interação nas suas relações múltiplas de vida, e que, portanto, é desestruturante da sua dimensão social. O sofrimento psíquico grave que remete a um processo de crise psicótica leva as dimensões sociais de vida do sujeito a recorrer às instâncias técnicas, buscando encontrar uma retirada do sintoma e retorno à forma anterior deste sujeito, exigindo dos técnicos a necessidade de recorrer de forma imediata nas ações de intervenção. Segundo Vieira Filho (1998), existe um risco permanente das ações terapêuticas de reprodução de um circuito de interação

patógenas.

Este circuito está relacionado com a necessidade de cuidar da crise pela simples eliminação de sintomas, esquecendo a própria construção de cotidiano social, a história do sofrimento psíquico, a crise como processo de vida e não somente o sintoma como estático, e o quanto o processo afeta basicamente o contexto social de vida. Portanto, o complexo contexto de crise traz demandas de cuidados também complexos de um sujeito social, e que deverá ser criterioso e flexível.

Vieira Filho (1998) afirma que

o termo ‘crise’, se entendido negativamente remete à fatalidade, catástrofe, desregulação periódica de uma condição dita de anormalidade. E ‘psicose’, nesta perspectiva é vista então como uma doença crônica degenerativa que aliena socialmente o sujeito (sujeito objetivado) em decorrência dos distúrbios profundos da personalidade de que ela é supostamente o efeito. Este ‘olhar’ em relação à demanda do cliente contribui à reprodução do circuito hospitalocêntrico e da ideologia da exclusão social. Este

contexto induz ao terapeuta a objetivação das representações das ‘doenças’ como invalidez e cronicidade, cuja conseqüência é a distorção da ação terapêutica. Distorção que se concretiza com uma ação de custódia e de controle social em relação à pessoa que sofre, encaminhando-a à internação/contenção hospitalar ‘ como única solução’ para este tipo de atendimento(p. 58).

A grande preocupação da psiquiatria, ao longo da história, foi observar e intervir nos fenômenos adquiridos pelo sujeito, esquecendo outras formas de construção como sujeito social e singular. O cuidado se restringia em isolar para intervir, distante da dimensão social, na tentativa de reenquadrá-lo em um padrão de normalidade esperado.

As doenças mentais são, na medicina contemporânea, um paradigma da cronicidade, marginalizadas pelas formas de atendimento. É o expoente máximo de uma assistência custodial na qual se confunde o social com o sanitário (Desviat, 1998). A investigação da crise se constrói pelo ser biológico e unitário, esquecendo-se que este ser constrói, ao mesmo tempo, um universo que utiliza como uma evolução do seu ambiente.

Dell’aqua & Mezzina (1991) consideram a dificuldade de uma conceituação única de crise em psiquiatria e que a problematização do tema requer compreender o ingresso de “pessoa em crise” no circuito psiquiátrico. Referem que este valor, é certo valor-limite de um ingresso, que se baseia na construção social, que variam pelo o quê acreditamos ser normalidade/anormalidade, sofrimento, periculosidade, miséria, ruptura das relações familiares, sociais e/ou trabalho. E concluem de ser entendida como uma série de nexos que são capazes de torná-la compreensível e não de conceituá-la em si.

Este ingresso do entendimento e cuidado da crise, segundo Nicácio e Campos (2004), será possível se for revertido pela aproximação, presença e a disponibilidade da equipe para entrar em relação, reconhecendo necessidades, mediando relações, administrando conflitos, potencializando saberes, transformando e diversificando as respostas. E justificam que

a partir de uma situação codificada e invalidante “ele é louco” emergiam, processualmente, as experiências de sofrimento, as necessidades, os problemas, os desejos, os recursos das pessoas, a desigualdade das contratualidades, os conflitos entre as pessoas com a experiência de sofrimento psíquico e as pessoas de sua rede de relação, entre as diversas demandas presentes, entre as distintas avaliações da situação de crise(p. 75).

“Os acessos passam, mas a doença fica”, como diria Krapelin (citado por Desviat, 1998), como uma forma de cristalização de um saber psiquiátrico que acreditava conhecer o futuro das doenças mentais: uma evolução cronicizada, com destino demencial.

No cotidiano, a crise é descontextualizada dos sentidos singulares do sofrimento psíquico, e dos aspectos do cotidiano de vida social. A família, a produção laborativa, suas habilidades e funções sociais, seu cotidiano de vida diária e de vida prática, são dimensões sociais isoladas da avaliação estática de cada crise. Com esse conteúdo, a complexidade das situações de crise não é um dado isolado, único. E deve ser redimensionada nas relações, conforme Dell’acqua & Mezzina (1991) reforçam:

A crise torna-se então um “evento histórico” que a história retorna com a qual se coliga, na qual o impacto do serviço resulta com freqüência determinante, propriamente na sua condição de evento histórico, que pode criar uma expropriação e evidenciar uma ruptura ou, inversamente, operar uma tendência de busca e de resposta. A crise enquanto evento “no curso do tempo” pode ser adequadamente superado se o serviço conseguir abrir ou deixar aberto ao sujeito um espaço social de manobra, contrastando a limitação do contexto em torno dele, a

progressão dos mecanismos de controle, o

estabelecimento dos círculos viciosos de reprodução da doença (p. 76).

As crises recorrentes de um sujeito são entendidas como o histórico momentâneo, reflexo do percurso efetivo, social e institucional da pessoa, além da ruptura da sua experiência social e vínculos afetivos.

A falta de complexidade de entendimento do processo de crise de um sujeito, a intervenção médica e medicamentosa como única intervenção terapêutica, as diversas formas de percepção e interpretação do processo saúde-doença, a presença/fragilidade das redes de suporte, o problemático acesso aos serviços substitutivos, a presença/ausência de respostas institucionais e sociais, promovem, ao longo do tempo, um envolvimento na doença e um afastamento de processos sociais de saúde.

Na experiência de Basaglia, em Trieste, com usuários institucionalizados, foi identificado como situação de crise pelo menos três das cinco seguintes condições: grave sintomatologia psiquiátrica aguda, grave ruptura de relação no plano familiar e/ou social, recusa nos tratamentos, com afirmação de não necessidade do mesmo, recusa obstinada do contato psiquiátrico, e situações de alarmes no contexto familiar e/ou social, com incapacidade de afrontá-las (Dell’acqua & Mezzina, 1991).

A intervenção hospitalar integral deve ser um dos recursos de cuidado e produto de direito de cuidado do sujeito nas situações de crise, mas não pode ser o único recurso. Uma “hospitalidade” que o hospital deve oferecer deve ser um momento de buscar entender a crise como processo complexo, singular e contextualizado em relação ao sujeito, seu familiar e sua vida. Cada vivência de uma crise no circuito psiquiátrico não pode ser finalidade em si, mas deve inscrever-se nos itinerários terapêuticos e requer produzir continência e suporte, operar com flexibilidade e plasticidade, ativar as múltiplas possibilidades de permeabilidade de dentro e fora.

Portanto, a cada situação de crise, deve-se buscar os vários atores e diferentes estratégias de mobilidade e flexibilidade no serviço, para ativar o contexto de vida do sujeito, as alianças com sua rede relacional para reconexão e contratualidades, que, ao final, objetivará uma diminuição das recorrências de crise e uma possibilidade de estratégias de promoção de saúde mental e de exercício de direitos de cidadania.