• No results found

Enquanto o jornalismo informativo descreve os acontecimentos, o jornalismo opinativo argumenta sobre os acontecimentos. Em vez da objetividade, a subjetividade e a abertura de espaço nos jornais para outros atores sociais, além do repórter: o colaborador externo, o leitor, o próprio veículo de comunicação. Assis situa a origem do gênero simultaneamente nos Estados Unidos, com a evolução da discussão “anticolonial”, e na França, com a “antiabsolutista”. À época, as folhas da imprensa se transformavam em verdadeiras arenas de combate.52

No Brasil, o caso mais emblemático foi o de Hipólito da Costa, fundador e redator de Correio Braziliensexiii, fundado em 1808 e escrito e impresso a partir da capital inglesa, Londres. O rigor do período colonial impunha a censura aos materiais produzidos em terras tupiniquins. Embora pioneiro, considerado por alguns estudiosos nosso primeiro jornal, o Correio Braziliense expunha exclusivamente a opinião manifesta de seu criador, característica elementar do pasquim, que encontraremos em detalhes na seção 4.3.2.

Como pretende defender posições e ganhar o público, o jornalismo opinativo tem na credulidade fator preponderante. A multiplicidade de vozes que a opinião traz tem pouca valia se a confiabilidade do autor e do veículo de comunicação for tacanha. A

50 Ibidem. 51 Ibidem.

relação da opinião com os acontecimentos também assume importância, caracterizando- se como a angulagem que dá sentido aos fatos (seja ela temporal ou espacial). Dificilmente o repórter de coberturas diárias (cidades, esporte, polícia) tem liberdade para opinar em seus textos, ficando essa tarefa a cargo de profissionais alheios ao jornal ou de repórteres especiais (entre eles, podemos considerar o correspondente de guerra).

Para a professora e jornalista Thaïs Mendonça-Jorge, “escrever em primeira pessoa” só deve ser feito se o repórter “viveu realmente uma experiê ncia relevante”, que sirva “de lição ou alerta para o restante da humanidade”. 53 Voltaremos a esse debate acerca da subjetividade na correspondência de guerra, mais adiante, na seção 3.3. Cabe agora a apresentação dos oito formatos básicos do jornalismo opinativo:

e) Resenha: também configurada como crítica, pois está associada à opinião sobre obras e expressões culturais. De autoria explícita, a resenha não possui caráter de continuidade, havendo pouca ligação entre um e outro texto. Marques de Melo observa que a resenha faz uma “apreciação ligeira”, sem penetrar no âmago das questões culturais, sendo então destinada “a orientar o público na escolha dos produtos culturais em circulação no mercado. Não tem intenção de oferecer julgamento estético” 54. A organização textual interna contém introdução, histórias sobre o produto e seu autor e, por fim, opinião do crítico, aprovando ou reprovando. Em muitos casos, os jornais adotam uma escala de satisfação, indo de uma a cinco estrelas, por exemplo.

f) Coluna: tem espaço e autor antecipadamente definidos, sendo de conhecimento prévio do público o conteúdo abordado. A coluna tem forte sincronia com os acontecimentos, sendo pautada pelos bastidores das notícias. Marques de Melo a define como “um mosaico, estruturado por unidades curtíssimas de informações e de opinião” e como “comentários rápidos sobre situações emergentes”. Mais direto, aponta a coluna como “pílulas, flashes, dicas”. A coluna social, a política e a esportiva são as mais usuais atualmente.55

53 Mendonça-Jorge, 2008: 73-4. 54 Melo, 1985: 128.

g) Comentário: comumente usado nos jornais como ‘análise da notícia’, pois complementa o texto do jornalismo informativo e destaca espaço especial para a opinião diretamente relacionada ao fato. O comentário tem autor estabelecido, frequentemente um jornalista veterano, e angulagem temporal manifesta. “O comentário surgiu como tentativa de quebrar o monopólio opinativo do editorial”, afirma Marques de Melo, ao citar dois dos grandes nomes do formato no Brasil: Newton Carlos (1927–) e Paulo Francis (1930-1997).56

h) Caricatura: em vez de texto, a imagem. A caricatura tem no traço a emissão de opinião pelo exagero ou ausência de feições de uma personagem. Conta com um profissional específico e atento ao dia-a-dia, pois a caricatura caminha em paralelo à coluna: no sincronismo dos acontecimentos. Sua “finalidade satírica e humorística pressupõe a emissão de juízos de valor”, de acordo com Marques de Melo. Há outras versões de caricatura, quais sejam: charge (humor por imagem de um fato), cartoon (crítica de fundo, composta por desenhos e sem personagens reais) e comic (história em quadrinhos). Nossos primeiros caricaturistas foram Frei Vicente do Salvador (1564-1636), Gregório de Matos (1623-1696) e Padre Lopes da Gama (1793-1853).57

i) Crônica: tem o objetivo, segundo Marques de Melo, de ser o “relato poético do real, fronteira entre informação de atualidade e a narração literária”. A crônica tem relação total com o acontecimento, vai ao seu encalço, observando outras perspectivas. Autores consagrados da literatura tiveram vida longa nos jornais com publicação de crônicas periódicas, como Machado do Assis (1839-1908) e José de Alencar (1829-1877), na época de ouro dos ‘jornais literários’, que abordaremos na seção 4.3.2. O caso mais ilustre, entretanto, é o de Rubem Braga (1913-1990), que seria correspondente na Segunda Guerra Mundial.58

56 Idem: 106. 57 Idem: 163. 58 Idem: 146.

j) Editorial: único texto de autoria do veículo de comunicação, sendo conhecida como ‘opinião da empresa’. Em verdade, compreende-se ‘a empresa’ como os interesses em torno do veículo, seus acionistas, anunciantes e corpo profissional. O editorial repercute e analisa os acontecimentos em curso, tendo a temporalidade como recurso fundamental que dá sentido à opinião institucional. Marques de Melo advoga quatro atributos do editorial: impessoalidade (texto sem assinatura), topicalidade (tema bem definido), condensalidade (breve, claro) e plasticidade (efêmero, ligado ao acontecimento).59

k) Artigo: também se caracteriza pela autoria explícita, variando entre o jornalista e, na maioria dos casos, o colaborador externo: especialista ou acadêmico. O sucesso do artigo está intimamente ligado ao desempenho estético-argumentativo de seu autor e se organiza com título, introdução, discussão/argumentação e conclusão. Sinteticamente, Marques de Melo categoriza: “Trata-se de uma matéria jornalística onde alguém (jornalista ou não) desenvolve uma ideia e apresenta sua opinião”. Há duas espécies: o artigo, propriamente dito, e o ensaio, respectivamente, o texto mais curto, com opiniões provisórias e conhecimento pessoal do autor, e o texto longo, com conhecimento alicerçado e pesquisa documental para fundamentar a opinião.60

l) Carta: texto pelo qual o público se manifesta, repercutindo e analisando no ‘rastro’ dos acontecimentos. A carta se configura como o único formato capaz de responder ao conteúdo permanente dos jornais. Na antiga União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS), o líder comunista Vladimir Lênin (1870-1924) se preocupava tanto com a participação popular nos jornais que chegou a defender a formação de “correspondentes operários e camponeses”. Contudo, o comum nos jornais brasileiros é a publicação de cerca de 2/5 das cartas recebidas.61 O advento da internet fez crescer significativamente o acesso à carta do leitor. Basta acessar uma página

59 Idem: 100. 60 Idem: 118. 61 Idem: 175-6.

noticiosa e postar sua própria opinião. Vale lembrar que o termo carta refere-se ao jornal impresso; a ligação telefônica, ao rádio e à televisão; e o comentário, à web.