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A filosofia da práxis e o trabalho são categorias intimamente relacionadas que tratam das ações e produções humanas sobre a natureza, do ser humanizado nessas ações e produções. Considero que a filosofia da práxis e o trabalho são os elementos fundantes da concepção de Ensino Integrado que defendo como possível na forma integrada de educação profissional, por isso dedico este tópico para aprofundar as duas categorias buscando apresentar suas interfaces.

Adoto o termo “práxis” de acordo com a linha de Vásquez (2007), cônscio de seu significa original de “prática”, que, devido ao uso mais restrito à filosofia, não foi impregnado pela associação com atividade exclusivamente utilitária comum na conotação cotidiana. Assim como Vásques, penso que a palavra mais adequada para atingir o conceito que pretendo traçar seria poieses que, em sua origem grega, significa produção ou fabricação de um objeto fora do agente, já o significado originário de práxis corresponde a uma ação com fim em si mesma. Mas como persiste na nossa língua corrente a sonoridade de poieses em palavras como poeta e poesia limitando-a uma um tipo de criação utilizá-la prejudicaria o caráter de atividade consciente e objetiva em geral. Prossegue Vásquez (2007, p 28) “[...] a práxis ocupa o lugar central da filosofia que se concebe a si mesma não só como interpretação mundo, mas como elemento do processo de transformação. Tal filosofia não é outra senão o marxismo”.

Martelli (1996 apud SEMERARO, 2005) caracteriza a filosofia da práxis como a fusão de três ingredientes: técnico-produtivo, científico-experimental e histórico-político. No primeiro, focaliza o trabalho, produto/produção histórica do/para o homem agindo sobre a natureza, no segundo, inclui o pensar científico como trabalhar com e para a construção do conhecimento e da ciência em favor da humanização e como ponte teoria/prática e, no último, posiciona-a como elemento de ação e reflexão político, histórico e social para mediação Estado e sociedade civil.

Aprofundando o significo de práxis volto a Vásquez (2007, p 219): “Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”. A afirmação embasa-se na definição de atividade como ato ou conjunto de atos executados por um sujeito ativo (agente) para alterar a matéria- prima dada evocando o significado de ação e antônimo de imobilidade. O agente, a matéria- prima, o tipo de ato e seu produto não são indicados, podem ser físicos, psíquicos, biológicos, sociais e estar em diversos níveis: instintivo, sensorial, reflexivo, racional. A generalização deve-se ao fato de a atividade ser uma causa atual com um efeito.

O ser humano também é produtor de atividades, mas as realizações tipicamente humanas são marcadas pela intervenção consciente, marca da práxis, essencial para diferenciá-la de atividade. A intervenção consciente advém principalmente da antecipação do resultado real em um resultado ideal. O ideal norteador nega a realidade dada, que não é necessariamente a matéria concreta, visando transformá-la em algo ainda não existente. O fim adotado, no entanto, não é régua de qualificação do resultado real, pode haver uma inadequação entre o intento e o obtido por desvios na realização frutos da vontade do agente ou dos limites da realidade em que atua presentes no momento da produção. Ao ser gerada teoricamente, a atividade adquire teor cognoscitivo e teleológico, e pode ou não passar para ação física (VÁSQUEZ, 2007).

A questão é que somente será práxis se, depois de ser teórica, for materializada objetivamente no enfrentamento da matéria natural adquirindo existência no mundo exterior independente do agente ou grupo de sujeitos que a projetou. Portanto, o trabalho será práxis quanto for trabalho concreto.

Vásquez (2007) salienta que para/na práxis a prática detém a primazia, sendo vista como mais claramente no início e como fim da teoria, posto que a teorização se origina das exigências e problemas da realidade e concebe uma nova modulação que, para ser levada- a cabo, necessita de um novo modo de execução, ao mesmo tempo que, pelo mesmo motivo (a elaboração do ideal) a teoria goza de relativa autonomia da prática para ir além do alcançado.

A teoria é construto da/para a prática tanto quanto a prática é construto da/para a teorização. Essa interação desvela-as como unidade sem que, contudo, percam-se suas identidades.

As matérias-primas da práxis podem ser: o dado ou entes naturais, produtos de uma práxis anterior (o aço do trabalho operário, a tela do trabalho artístico) ou o próprio homem.

Conforme o tipo de relação entre a matéria-prima alterada e a atividade prática que promoveu a mudança, Vásquez (2007) propõe as formas de práxis: produtiva, artística, experimental e política. A exposição a seguir está pautada neste autor.

Na práxis produtiva o sujeito age sobre a matéria e forças naturais criando “[...] um mundo de objetos úteis que satisfazem determinadas necessidades” (VÁSQUEZ, 2007, p 226). Essa práxis, fundamental para um mundo humano ou humanizado, gera produtos e meios de produção, vinculando-se às relações de produção.

Diferindo da anterior, na práxis artística não se visa a uma peça prático-utilitária. Sem esse limite, a práxis artística leva às últimas conseqüências a humanização no trabalho plasmando uma nova realidade que reponde aos anseios de transformação do ser humano.

Típica da investigação teórica e da comprovação de hipóteses, a práxis experimental condiz prioritariamente com a produção científica, mas comporta os campos artístico, educativo, econômico e social. Mesmo com objetivo imediato teórico, a práxis experimental pode ter efeitos palpáveis quando produz ou desvenda as diretrizes de mecanismo natural, artificial ou social.

Voltada para o âmbito sociopolítico a práxis política tem como agentes grupo ou classes sociais ou ações do Estado impulsionadoras de modificações na sociedade.

Pelo nível de profundidade da consciência do sujeito no processo prático e da criação ou humanização evidente no produto (matéria transformada), a práxis pode ser criadora ou reiterativa, respectivamente mais reflexiva ou mais espontânea, sem ser exclusivamente uma ou outra na práxis total.

A práxis criada é vital para o homem por engendrar novas respostas para novas situações, ou seja, uma ação transformadora inédita. A inovação carrega dois aspectos entrelaçados: o da consciência e da realização; apresentados em reflexos/espelhos subjetivos e objetivos, interiores, exteriores. De outro modo: um ato psíquico, respondendo à materialidade (resposta a ato psíquico anterior) formula uma pergunta com uma hipótese voltada para o ideal, e é respondida por um ato real, que reestruturará a matéria não passiva que, ao impedir que o ideal se concretize, resulta em outro contexto imprevisível motivando outra pergunta. Penso que um conjunto de perguntas e respostas do agente para si e sobre a matéria aproximam-se da síntese desse percurso no espaço-tempo: o que quer? Quer; o que pode?Pode; como agir?Age; o que consegue? Consegue.

Segundo Vásquez (2007), a práxis criadora é mais plena na revolução e na arte, ambas campo da unidade indissolúvel subjetivo/objetivo, imprevisibilidade no resultado e no processo e unidade do produto como expressão da objetividade, da subjetividade e da imprevisibilidade. Mas é notada também na produção artesanal e científica em que se diluí “a diferença entre trabalho intelectual e físico, pois todo trabalho manual é, ao mesmo tempo, trabalho ou atividade da consciência” (VÁSQUEZ, 2007, p 279) e vice-versa.

Na práxis reiterativa ou imitativa, há adequação do ideal e do modo de fazer elaborados na práxis criativa, diminuindo sua margem de imprevisibilidade e de inovação. A repetição do “roteiro” criado amplia e consolida a transformação obtida. Compreende-se que a práxis reiterativa tem muita similaridade com a práxis criadora que toma por modelo, mas não

a igualá-la, bem como não é seu avesso já que assimila e acumula o resultado criativo, gradativamente preparando o estado da realidade para a próxima práxis criativa. No entanto,, caso seja enrijeça, a práxis imitativa degrada-se em cópia maquinal, inviabilizando a práxis criativa quando a realidade solicita, decai sua qualidade em favor somente de sua quantidade. Na forma e conteúdo incomunicáveis o molde, real no lugar do ideal, enche-se apenas de seu tipo de matéria, e agora se executa uma atividade prática.

O antagonismo entre o pensar/querer e o fazer em que se sacrifica “[...] o particular concreto ao universal abstrato” (VÁSQUEZ, 2007, p 277) prefigura o formalismo burocrático no social, no rotineirismo e normativismo artísticos e no trabalho específico em uma partícula da produção, realizável e imposto aos homens indistintamente. A tentativa de manter ou agudizar um único estado social como o capitalismo, contexto gerador da divisão da produção, onde produto e processo são impessoais, desqualifica o trabalho e, portanto, o trabalhador sendo nomeados por Marx de “idiotismo profissional” (apud VÁSQUEZ, 2007, p 281) e trabalho abstrato (ver Ilustração 07).

Portanto, o trabalho permeado pela práxis é o “que retira a existência humana das determinações meramente biológica” (LESSA, 2002, p 27) e cria a existência social, que por sua vez, engloba o trabalho. O trabalho abstrato, distintamente, apesar de ser uma atividade social, é medido como tempo de trabalho produtor de mais-valia e submissão do trabalhador.

Assim, o trabalho responde em primeiro nível, as necessidades da vida biológica, mas atinge a escala da vida genérica, identidade do indivíduo na humanidade, como produção consciente e intencional sobre a natureza. Tal produção tem seus elementos potencias, na sua localização temporal e geográfica e seus resultados geram a vida cultural, social e estética que, pelos mecanismos da aprendizagem/divulgação, comportam a universalidade. Conseqüentemente, o trabalho desenvolve o conhecimento, a ciência e a tecnologia por acumulação e aperfeiçoamento pela humanidade de procedimentos e instrumentos que tornem mais eficiente o corpo e as ações humanas para favorecer a vida. No entanto, o trabalho que assume certas formas históricas – entre elas, o trabalho escravo, assalariado – e sua associação com atividades manuais restritas degeneram-no e desumanizam o homem que o produz. Tal acepção de trabalho, segundo Marx (2002, p.119) revela-se quando

[...] a atividade vital, a vida produtiva, aparece agora para o homem como único meio que satisfaz uma necessidade, a de manter a existência física. A vida produtiva, entretanto, é a vida genérica. É a vida criando vida. No tipo de atividade vital está todo o caráter de uma espécie, o seu caráter genérico; a atividade livre, consciente, constitui o caráter genérico do homem. A vida revela-se simplesmente como meio de vida.

Vásquez (2007, p 284-5) recorre ao simbolismo da mão19, mediadora entre a ação e a cognição que assume aspectos contraditórios, pois “acariciam ou aproximam os homens no aperto de mãos; mas os homens não só se acariciam ou cumprimentam como também brigam”. E no trabalho abstrato “[...] as mãos que trabalham maquinalmente, vazias de espírito, são mãos sem vida porque nelas não pulsa a inteligência do operário”.

Nesse simbolismo entrevi, na História da Arte, naquelas consideradas como as primeiras pinturas, as mãos em positivo ou negativo20, encontradas em grutas como a de Gargas, nas mãos intencionalmente maiores do Davi de Michelangelo, nas meta-pinturas de René Magritte21, como “Perspicácia”, pintada em 1936 e o que, talvez, justifique a quase obsessão ocidental pelo toque entre as mãos de Adão e Deus do afresco da Capela Sistina, novamente de Michelangelo.

A mão simbólica, instrumento do homem à disposição da inteligência na práxis criativa/ trabalho, será mão-de-obra a serviço da máquina no capitalismo. Apartadas mão e inteligência consciente, há uma cisão entre a teoria e a prática fragmentando o conhecimento unitário da práxis que, ao manter os contornos das duas áreas, propicia uma interseção em que as trocas contribuem para o enriquecimento mútuo. Portanto, para almejar-se o Ensino Integrado não se deve “abrir mão” de suas partes: a prática e a teoria, tanto do ensino médio quanto do ensino técnico, mas se facilitar seus (com) tatos e a conscientização dos seus sujeitos sobre de onde viemos, onde estamos e qual o projeto em que construímos nossa ação.

Entendo que os sujeitos diretos da educação: professores, alunos, gestores, pesquisadores, pelo do trabalho como princípio educativo entendido pela práxis - sem esquecer as nuances que essa pode assumir nas relações sociais – e, conseqüentemente, a consciência de/como seres histórico-sociais com capacidade de alterar a realidade não- passiva, podem viabilizar o Ensino Integrado.

19 Que recorreu, por sua vez, aos evolucionistas Darwin e Haeckel, a Aristóles, aos filosófos Engels, Marx, Hegel, entre outros e ao operário Georges Navel.

20 Do período Aurienaciense, cerca de 30.000 a 20.000 a.C., na mão em positivo a mão entintada foi impressa sobre a parede, na mão em negativa, sopra-se tinta sobre a mão apoiada na parede (Coleção História da Arte, Pintura vol. I, 1995)

Práxis Consciência Realização Do Sobre Matéria Agente Transformação Artística Revolucionária Produtiva Natureza Produto Homem (sociedade) Criativa Reiterativa Burocratismo Rotinisno Trabalho abstrato Atividade Reiterativa maquinal produto realidade Práxis