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Tax havens and institutional quality

In document Tax havens and development NOU (sider 62-0)

4 The effects of tax havens

5.5 Tax havens and institutional quality

Chegamos ao momento no qual o presente revisita o passado: como se percebem os webegressos em relação a EaD, em relação a experiência que eles tiveram ou em relação à comunidade acadêmica? E se seus eventuais anseios, mantiveram-se, dispersaram-se ou se agravaram após portar o diploma? O que permanece em sua identidade?

Alguns sujeitos da pesquisa mais que outros, despertam reflexões importantes, pos- sibilitando a reconstrução dos caminhos de um estudo científico. A persona, a quem chamarei de Ana, é um desses: ela tem 49 anos, divorciada, encontra-se em um relacionamento estável. Ela e seu companheiro fazem cursos a distância na mesma instituição. Ela tem dois filhos do primeiro casamento: a filha mais velha já realizou diversos cursos, inclusive a distância, sob influência da mãe; e o caçula que ainda cursa uma faculdade presencial.

Primeiramente, Ana graduou-se em pedagogia presencial na década de 1990. Con- tudo, nunca atuou profissionalmente nessa área de formação. Ao ingressar no mercado de tra- balho, atuou na área administrativa da Federação das Indústrias do Ceará (FIEC). Sua experiência profissional inicial a conduziu a uma reorientação em sua formação acadêmica: optou por fazer um mestrado em administração. Com o mestrado, ampliou sua empregabilidade tornando-se professora universitária. Com a perspectiva de fortalecer suas possibilidades no mercado trabalho, optou por fazer uma segunda graduação: serviço social. Alegando “não dis- por de tempo” e por não se sentir à vontade em “estudar com uma turma muito jovem”, decidiu por um curso a distância.

Ana possuía múltiplas formações a distância: não sabia do fato até reencontrá-la. Interessou-me saber, principalmente, o porquê de repetidas escolhas e como ela se percebia em relação aos diplomas. Diante de mim estava uma mulher simpática, demonstrando muita segu- rança nas afirmações. Vestia-se sobriamente: uma camisa de botões, saia com comprimento abaixo dos joelhos, salto baixo. Maquiagem discreta e cabelo preso. Era final de tarde e a en- contrei em seu ambiente de trabalho, na sala de professores de uma faculdade privada em For- taleza. Duas semanas antes havia feito contato por whatsapp, com o número que deixou

CAPÍTULO 5 – O que disseram os webegressos

disponível no questionário na ocasião da primeira entrevista. No mesmo dia ela respondeu se prontificando e mediamos local e horário para a conversação.

Quando a entrevistei pela primeira vez, em 2015, ela estava cursando Serviço So- cial; em 2017, ao reencontrá-la, Ana já havia concluído esse curso e também uma especializa- ção a distância, na área de gestão; além disso, estava concluindo uma terceira graduação, igualmente a distância: Gestão em Recursos Humanos. Contou-me que a especialização e essa terceira graduação, ambas a distância, foram feitas concomitantemente.

O objetivo dessa terceira graduação, era preencher a lacuna na formação que o mes- trado e a especialização não preencheram: ao possuir uma graduação incompatível com suas pós e, sobremodo, com sua atuação profissional, Ana deparou-se com uma situação paradoxal: em processos seletivos, apesar da experiência, da pós-graduação e do mestrado nas áreas de administração, os editais exigem graduação na área de gestão. Ela possuía duas graduações: uma em Pedagogia e outra em Serviço Social, mas “era como se eu não tivesse graduação...!” – afirmou, pelo menos, três vezes. Assim, mesmo se colocando como uma “administradora”, ela não estava “alinhada” com as exigências do mercado. Nesse sentido, sua identidade estava incompleta, comprometida; apesar da encenação perfeita, do domínio de palco, o público não a aceitava plenamente por não portar o diploma indicado para aquele tipo de atuação: era uma intrusa, uma outsider.

Pesquisador: Por que Serviço Social...? Por que não optou logo por Administração, de modo dar conformidade a sua atuação profissional?

Ana: Quando trabalhei na FIEC conheci o “Sistema S” e vi a ampla atuação do assistente social. Não estou ainda atuando nessa área profissional, mas vejo como um possível campo no futuro. Ainda não estou registrada no Conselho, até porque é muito dispendioso: aproximadamente dois mil reais ao ano. Tenho pensado também em fazer psicologia... (riu). Adoro estudar! Amo ler! Realmente eu deveria ter feito administração, mas como já tinha o mestrado não achei que era importante. Na universidade aprendi que você é selecionado a partir da sua graduação, para que você tenha aderência às disciplinas. É como ocorre nas universida- des: não importa se eu tenho mestrado ou doutorado, se eu não tiver graduação na área, sou excluída do processo. Optei por Gestão de Recursos Humanos por dois motivos: por ser mais curto e por não ter tantas disciplinas de matemática... (risos). Além disso, eu dou aula em cursos de RH; é nessa área que tenho experiência.

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Pesquisador: No seu questionário você alegou que a opção mais importante para a escolha da EAD era a comodidade. Esse é ainda o principal fator para suas escolhas? Além de Serviço Social, você fez mais dois cursos em EAD...

Ana: É realmente o principal motivo. Veja bem: eu posso estudar em qualquer lugar ou momento; eu faço meus horários. Você deve saber disso... Quando a gente trabalha muito, quando a gente está no mercado de trabalho, e tem que cuidar de casa e de outras tantas coisas... mulheres têm tripla jornada, né? (risos)... Não teria condições de ficar indo e vindo pra facul- dade. Além disso, essa garotada fica enrolando os estudos... sou professora e vejo a dificuldade deles estudarem! Eu não teria condições de ir para um curso presencial... Imagina eu indo à “X UNIVERSIDADE” [omiti o nome], por exemplo... O tempo pra chegar! O tempo pra estacio- nar! O tempo pra andar até chegar na sala! Aí o professor não vem! Ou os alunos ficam con- versando! O rendimento ficaria ruim... Enquanto isso minha cabeça estaria em casa. Nas coisas que deixei pra fazer... Não... Num curso a distância nada disso ocorre. Além disso, quem faz o estudo é o aluno! Em casa eu consigo estudar melhor.

Pesquisador: Sua primeira faculdade foi presencial. Não sentiu falta do contato com os colegas, com os professores?... Ou o contato pelo AVA é igual?

Ana: Não, não é a mesma coisa. Na EAD é tudo muito impessoal. Eu até peguei o mesmo tutor em uma ocasião, mas não é realmente como no presencial, que você vê os profes- sores fora da sala de aula. Na minha faculdade tinha professores que até iam a barzinhos. O clima é muito diferente... Na EAD você realmente está só, por sua conta. Está tudo ali... vídeos, material... mas não há encontros presenciais! Os poucos colegas que vi do meu curso foi total- mente ao acaso, nas filas pra fazer prova. Via o pessoal lendo os mesmos livros e aí chegava e perguntava... Mas tem grupos no face! No serviço social temos até grupo no whatsapp! Mas whatsapp e facebook não é a mesma coisa...

Pesquisador: Mas você sentiu falta? Acha que isso alterou, influenciou sua forma- ção?

Ana: Senti um pouco sim... Tinha momentos que queria ter um grupo de estudos. Eu tinha isso na época da minha primeira faculdade... Mas acho que é diferente também com o tempo, né?... Hoje vejo os meninos estudando pouco... (risos). Mas sério... Senti falta, mas não me prejudicou. Até porque eu já tinha experiência, conhecimento... Se fosse minha primeira faculdade acho que me prejudicaria sim. Não sei como foi com você, mas na minha faculdade

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eu tinha grupo de estudo mais no começo, nos primeiros semestres. Depois, mais pro fim do curso, a turma vai ficando menor e muitos vão se desencontrando, porque alguns se reprovam, e acaba ficando meio sozinho também... Mas aí a gente já está mais perto de se formar.

Pesquisador: Você fala de sua primeira faculdade como “minha”... (senti ênfase nesse “minha”) Você atribui uma importância maior a essa primeira formação? As outras se- riam menos importantes?

Ana demorou alguns segundos, pensativa, mordeu um pouco os lábios, cerrou as sobrancelhas e respondeu:

Ana: É diferente. Acho que é [por ser] a primeira faculdade. Não sei como é com os outros, mas comigo foi muito boa, guardo ótimas recordações. Foi lá inclusive, que conheci meu “ex”... Ele fazia Engenharia. Fiz grandes amigas que tenho até hoje... Quando comecei o curso eu tinha dezoito anos... Depois fui trabalhar. Fiz pedagogia por influência da mamãe... Mas não tinha menor vontade de trabalhar com crianças. Meus pais tinham um comércio e sempre gostei da área de gestão.

Pesquisador: Você é pedagoga?

Ana: Não... (respondeu hesitante). Veja bem: eu tenho o diploma, mas ninguém sabe que tenho. É como se não tivesse... Inclusive houve recentemente um concurso no Instituto Federal do Ceará e fiquei com vontade de fazer. Mas como eu sou graduada em pedagogia, não poderia fazer para administração, porque não tinha o diploma na área. Não teria a menor con- dição de eu prestar esse concurso! Imagine eu voltar a estudar coisas de trinta anos atrás pra fazer um concurso desses...? Concorrer com gente que está no mestrado, que atua nessa área, que tem todo o conhecimento fresquinho na cabeça...?!

Pesquisador: E assistente social? Você se vê como uma assistente social?

Ana: Não... (risos). Eu estudei! Mas sou mesma administradora, gestora em RH, professora universitária. É onde me vejo.

Pesquisador: Do que você lembra quando se fala em EAD? O que te vem a mente? Ana: Estudos. Muitos estudos. Horas estudando, lendo, assistindo vídeos... vendo sites... Uma experiência muito boa. Não imaginava que iria gostar.

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Pesquisador: Você havia dito no seu questionário que não se sentia prejudicada no mercado de trabalho por buscar um diploma em EAD. Isso mudou?

Ana: Ninguém pergunta! Ninguém sabe se o curso foi presencial ou a distância. Acho que realmente não é importante. Não sei como é para outras pessoas, mas no meu caso, minha trajetória profissional é o meu cartão de visitas. Acho que isso pesa mais na cabeça da pessoa na hora de escolher o curso ou a faculdade, porque acha que curso presencial é mais sério ou melhor... Mas depois que se forma, diploma é diploma. Lógico que ter um diploma da UFC ou da USP são diferentes, mas não aparece se é ou não EAD.

Ana suscitava alguns pontos relevantes, que se repetiam nas falas de outros entre- vistados: o primeiro deles, que a construção da identidade estava fortemente vinculada ao exercício profissional, tornando secundária a experiência acadêmica. O diploma tinha sua importância minimizada ou mesmo ignorada em razão das práticas no mercado, apesar da me- mória evocar positiva e prazerosamente a primeira graduação. Ana não falava das graduações a distância com o mesmo prazer ou “brilho no olho” ao se referir a sua primeira graduação, apesar de não ter atuado profissionalmente: o que para muitos poderia ser motivo de frustração. O segundo ponto, é a forma como a formação acadêmica é percebida enquanto um produto que se tira da prateleira para consumo. Os momentos enfatizados como “eu gosto de estudar” não suscitava a ideia da educação no seu sentido emancipatório, mas no sen- tido de desenvolvimento de habilidades ou competências técnicas. As menções ao “estudar” ou ao “diploma” eram acompanhadas de gestos (linguagem paraverbal) que reforçavam a ideia de algo comum, de menor importância, tais como arqueamento de ombros ou acenos negativos de cabeça; em outras palavras, as expressões corporais contrapunham-se ao discurso. Igor, um dos entrevistados, por Skype, webegresso da área de tecnologia da informação disse de modo mais claro ou direto, com um sorriso no canto da boca e com um “leve acenar” negativo de cabeça: “O mais importante é a experiência! Diploma não abre portas, a falta dele é que te fecha as portas!”. De um modo geral, a fala de Ana apontava a educação como um investimento profis- sional.

Ao indagar sobre a solenidade da colação de grau, Ana informou que não participou da solenidade de colação de grau. Ela, assim como muitos dos egressos entrevistados, não tive- ram essa experiência, pois optaram pela “colação de grau especial”, ou seja, trata-se de um período estabelecido pela instituição no qual o formando apresenta-se à secretaria de alunos,

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assina os documentos necessários, presta juramentos nos casos exigíveis, e está feito. O pro- cesso é individual: dissociado de elementos cerimoniais que explicitem o ingresso desse for- mando a uma comunidade de profissionais ou seu egresso de uma comunidade acadêmica.

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