2. Background Theory 5
2.2. Evolutionary Algorithms
Realizamos um levantamento de pesquisas que tinham como objeto o professor formador, desenvolvidas no âmbito de programas de Pós-Graduação em Educação, utilizando, como critério, a referência a esse termo em seus títulos. Nesta subseção apresentaremos uma síntese de alguns desses estudos, os quais apresentam diferentes formas de abordar o tema, em conformidade com os enfoques adotados, os tipos de dados sobre os quais se debruçam, as abordagens metodológicas e as perspectivas teóricas que os embasam.
O estudo desenvolvido por Nascimento (2006) buscou analisar as trajetórias de formadores de professores para as séries iniciais do ensino fundamental que atuam no Curso de Pedagogia em universidades do Rio de Janeiro, com o intuito de compreender os modos como foram construídas as disposições para a docência e para a atuação na formação docente nesse nível de ensino. Seus dados basearam-
se em relatos orais de vinte professores que atuam no Curso de Pedagogia em universidades públicas do Rio de Janeiro, selecionados com base nos seguintes critérios: o tempo mínimo de oito anos de atuação no ensino superior e a diversidade de sexo, idade, tempo de formação, titulação e disciplina lecionada, de forma a atender à diversidade existente entre os profissionais que atuam nesse campo. Nas entrevistas foram abordados aspectos relacionados à socialização familiar, à trajetória escolar, à escolha da profissão e à trajetória profissional desses professores, a fim de encontrar vestígios dos processos de socialização nas disposições que orientam suas atuações como formadores. Como aporte teórico central, foram adotados os conceitos de habitus, campo, estratégias e capital, a partir do sociólogo Pierre Bourdieu.
A análise dos dados revelou a diversidade de trajetórias construídas pelos professores formadores e das razões para a escolha da profissão docente e da atuação na formação de professores para as séries iniciais, motivadas por uma multiplicidade de fatores que se interpenetraram: uma opção interpretada como “vocação”; uma “escolha do necessário”; ou uma opção decorrente das oportunidades concretas que foram surgindo. Em relação aos vestígios dos processos de socialização pré-profissionais, os dados apontaram a força dos investimentos familiares na escolarização e das imagens modelares, sobretudo para a escolha profissional, confirmando a perspectiva de que as estruturas de um habitus anterior comandam o processo de estruturação de novos habitus produzidos em novas agências socializadoras. Quanto à socialização profissional, foi evidenciada a importância das entradas na profissão e das primeiras experiências profissionais para a construção de suas identidades docentes e das representações sobre o Curso de Pedagogia, a formação de professores e o campo em que exercem sua profissão. Os dados permitiram à pesquisadora constatar que os professores formam um grupo heterogêneo, tanto do ponto de vista das trajetórias percorridas quanto das condições de existência passadas e presentes. Constituem um conjunto de agentes atravessado por diferenças quanto aos volumes de capital econômico, cultural e social, à formação recebida, às disposições em relação aos estudantes, às identidades profissionais, bem como às estratégias acionadas para movimentarem-se no campo em que atuam. Em suas trajetórias, eles se afastaram
de ou recuperaram histórias vividas, construindo suas próprias práticas por meio das quais reagem às condições sociais em que estão inseridos.
A pesquisa empreendida por Azevedo (2009) procurou identificar os saberes de orientação mobilizados por professores formadores que atuam nas disciplinas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado no Curso de Licenciatura em Química de uma universidade da região Sul do Brasil em suas ações tutorais. Os saberes de orientação são concebidos como o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes utilizado pelos professores durante a orientação dos alunos nas atividades formativas e pré-profissionais. A influência das condições de trabalho a que estão submetidos os docentes no contexto em que atuam é considerado fator imprescindível para a compreensão e a análise de sua ação profissional ao mobilizar esses saberes. Partindo de uma abordagem qualitativa, foi investigado o trabalho de quatro docentes, selecionados em razão de atuarem nas disciplinas já referidas, utilizando-se questionários, entrevistas individuais e coletivas, além de análise documental do Projeto Pedagógico do Curso. Os aportes teóricos que embasaram a pesquisa são numerosos e variados, mas os principais provêm de estudos sobre saberes docentes, sobre tutoria e sobre as funções do professor orientador de estágio, incluindo, entre outros, aqueles desenvolvidos por Tardif, Gauthier, Alarcão e Tavares, Bruner, Sanchez, Zeichner.
Como resultado dessa pesquisa, foram identificadas as seguintes categorias de saberes de orientação: a) dialógicos e afetivos, relacionados principalmente a uma habilidade do professor para a percepção das necessidades dos alunos e de estabelecimento de relações baseadas no respeito e na confiança mútuas; b) de auto-formação e auto-organização baseados na reflexão permanente, que delimitam uma capacidade do docente de desenvolver ações que promovam a reflexão contínua e sistemática sobre seu fazer docente, bem como sobre o contexto em que atua; c) para a ação colaborativa, relacionados à necessidade de estabelecer parcerias tanto no âmbito interno do curso em que atua, junto aos seus pares, quanto no âmbito externo, junto a outras instituições; d) os técnico-científicos e pedagógicos, relativos ao conhecimento aprofundado de determinadas áreas do conhecimento; e) os processos teórico-práticos de aprendizagem da docência, relacionados à capacidade de compreensão dos processos que potencializam a aprendizagem da docência por parte dos futuros professores. Os dados analisados
revelaram que os saberes de orientação relacionados à ação colaborativa, os técnico-científicos e pedagógicos, bem como os processos teórico-práticos de aprendizagem da docência precisam ser mais mobilizados, tanto no âmbito interno da universidade quanto nas parcerias interinstitucionais.
A pesquisa permitiu ainda verificar que embora existam iniciativas, por parte dos professores formadores, no sentido da implementação de práticas formativas pautadas em uma racionalidade reflexiva (crítica) e emancipatória, a dinâmica do curso, as condições de trabalho, o distanciamento entre universidade e escola e a carência de projetos colaborativos impõem um tipo de racionalidade prática, o que resulta em um processo de formação mais focado no espaço das aulas do que nas práticas de ensino e nos estágios. Em virtude desse quadro, a estudiosa propõe o redirecionamento das políticas e ações institucionais que garantam o exercício pleno da atuação desses professores junto às escolas campos de estágio, de forma a ressignificar essas atividades e as condições de trabalho, como condições de efetivo desenvolvimento de seus saberes de orientação.
O estudo realizado por Costa (2010) intencionou investigar os modos como os formadores de professores descrevem e compreendem sua docência na Licenciatura, em termos das aprendizagens construídas em sua prática docente na Licenciatura como também em outros espaços; daquilo que eles priorizam ao ensinar os futuros professores; além dos modos como organizam seu trabalho docente e os saberes aí mobilizados. Inspirada na abordagem qualitativa, a pesquisa contou com a colaboração de dois professores do Curso de Matemática e uma professora do Curso de Letras de uma universidade pública, em um campus no interior da Bahia. Os dados foram obtidos a partir da realização de entrevistas semiestruturadas com os docentes. Os aportes teóricos que fundamentaram a investigação são numerosos e variados, mas os principais provêm de estudos que focalizam a docência no ensino superior, a partir das contribuições de Masetto, Zabalza, Pimenta e Anastasiou, entre outros; o professor formador, contando com as contribuições de Almeida e Hobold, Passos e Costa, Mizukami; os processos de aprendizagem e desenvolvimento profissional da docência, a partir das reflexões desenvolvidas por Garcia, Imbernón, Nóvoa, Tardif, entre outros; além da legislação relacionada à formação docente nas licenciaturas.
Para a análise dos dados, a pesquisadora partiu das seguintes categorias: aprendizagens vivenciadas na docência; prioridades na atuação com a formação inicial de professores; saberes e práticas na formação dos licenciandos; observações sobre o aluno e sua formação. A partir da análise, a pesquisadora constatou, entre outros aspectos, que: i) os professores formadores identificam-se com as áreas específicas de sua formação, mas seu trabalho e as prioridades que estabelecem podem ser influenciados pela atuação em outros contextos de trabalho, em outros níveis de ensino e na formação inicial na licenciatura; ii) as prioridades que elegem em seu trabalho emergem como uma proposta pessoal de cada formador, carregando muitas ambiguidades ou divergências, principalmente quando o projeto de formação do curso em que atua não está muito claro; iii) na ausência de ações institucionais de formação desses docentes, eles encaminham um processo de autoformação, buscando alternativas para as suas necessidades e para os desafios enfrentados nas atividades de ensino e de pesquisa.
O estudo coordenado por Marli André, denominado “O trabalho docente do professor formador” e desenvolvido entre os anos de 2005 e 2009, objetivou conhecer o professor formador que atua nos cursos de Licenciatura e analisar as condições em que desenvolve seu trabalho. A partir de uma abordagem qualitativa, foram realizados quatro estudos de caso em universidades públicas e privadas das regiões Sul e Sudeste do Brasil, tendo sido entrevistados cinquenta e três professores formadores e analisados os projetos pedagógicos dos cursos em que atuavam (ANDRÉ et al, 2010). No artigo a que tivemos acesso, são discutidos dois conjuntos de dados resultantes desse estudo. Um deles refere-se às mudanças, observadas pelos docentes, no perfil do aluno que vem ingressando nas licenciaturas, conforme discussão apresentada no subtópico 1.4.2. Os aspectos recorrentemente destacados nos depoimentos estão relacionados às mudanças de interesse, motivação, postura e expectativas desse alunado, no que concerne especialmente à relação estabelecida com a docência e com a escola básica; a uma relação mais utilitarista com o conhecimento; bem como à falta de domínio, por parte dos alunos, de conhecimentos básicos que deveriam ter sido adquiridos na escolarização anterior. O outro diz respeito às tentativas de respostas dos professores formadores às novas demandas ao seu trabalho. Os dados revelam, por um lado, os diferentes saberes mobilizados pelos docentes e a utilização de
diferentes estratégias para fazer frente a essas demandas, demonstrando ações comprometidas e um empenho pessoal dos formadores, mas, por outro lado, também revelam a ausência de uma política institucional voltada ao enfrentamento desses desafios.
Como constatam André et al (2010, p. 139):
Nas instituições investigadas, as iniciativas para obter melhores resultados nas práticas formativas ocorrem principalmente no âmbito individual ou, quando muito, em parcerias compostas por dois ou três professores que têm maior empatia. Faltam ações de âmbito institucional, projetos pedagógicos que não sejam mera formalidade.
Considerando o quão recente é a emergência do professor formador como tema de estudo no campo acadêmico brasileiro, estudos como os apresentados aqui trazem contribuições importantes para a compreensão das concepções que os formadores têm sobre seu trabalho, sobre seus alunos e sobre as instituições onde trabalham, bem como sobre os modos como vêm construindo sua identidade profissional, em especial, como vêm se constituindo professores que formam outros professores. Embora não focalizem as formas pelas quais a organização das instituições em que atuam afetam o trabalho dos formadores, no âmbito de suas práticas docentes, os resultados a que chegaram apontam para a relevância de se voltar o olhar para esse aspecto, como um meio de se ampliar a sua compreensão.
Conforme já expusemos e explicamos no início deste capítulo, o ponto de vista que adotamos para desenvolver nosso estudo sobre o professor formador é o trabalho docente. Dado nosso interesse de pesquisa e nossos objetivos, a análise do trabalho do professor formador se volta para suas práticas, enfoque com o qual consideramos poder contribuir para as reflexões já desenvolvidas sobre o tema.
Tendo concluído a apresentação do panorama teórico e reflexivo que embasará a análise dos modos como se configura o trabalho da professora formadora sobre cujas práticas docentes realizamos nossa investigação, informamos que outras contribuições teóricas foram mobilizadas no interior do capítulo de análise, em função seja da necessidade de explicação de fenômenos que emergiram do exame dos dados ou para que pudéssemos elucidar questões por eles suscitadas. No capítulo seguinte, descreveremos o contexto, a população e a metodologia da pesquisa.
CAPÍTULO 2
CONTEXTO, POPULAÇÃO E METODOLOGIA DA PESQUISA
Para investigar os modos como se configura o trabalho de uma professora formadora, na articulação entre as esferas acadêmico-institucional e sociocultural nas quais se insere e a esfera da sala de aula, foi necessário mobilizar um aparato metodológico que nos possibilitasse realizar essa tarefa em toda sua complexidade. Nosso enfoque nos conduziu a implementar a pesquisa a partir de dois movimentos principais e complementares, que explicitaremos neste capítulo: i) o acompanhamento às práticas cotidianas da professora colaboradora por um dado período; ii) a realização de entrevistas com a docente. A intenção foi ter acesso às práticas de trabalho da professora, às interações das quais participa, para testemunhar os modos como se efetivam, além de procurar melhor conhecê-la e a sua trajetória no ensino superior, descobrir-lhe as motivações e as necessidades, perscrutar-lhe os sentidos atribuídos a seu ofício e a suas vivências. Queríamos saber como ela vem construindo seu percurso como docente de um curso de licenciatura, em uma universidade pública no interior da Amazônia, percurso esse compartilhado por outros professores, cujas práticas se entrecruzam nesse contexto, sendo por ele determinado, mas cujas histórias singulares contribuem para sua contínua reconfiguração.
Nesse sentido, nosso objetivo inicial neste capítulo é descrever o campo institucional em que a docente atua, de modo a poder situar suas práticas de trabalho. Para isso, apresentaremos um breve panorama histórico da constituição da Universidade Federal do Pará, desde a interiorização até a atual configuração em Universidade Multicampi. Enfocaremos em seguida o Campus de Bragança, descrevendo sua constituição e sua consolidação como polo de ensino superior na Microrregião Bragantina do estado do Pará. Faremos então uma exposição sobre o Curso de Letras, fornecendo uma descrição de sua constituição desde a implantação na unidade e apresentando, de forma resumida, seu desenho curricular, com destaque para os estágios supervisionados. Apresentaremos também uma caracterização dos sujeitos que participaram da pesquisa — a professora formadora e a turma de alunos que ela orientou em suas atividades de estágio. Por fim,
voltamo-nos para o aparato metodológico utilizado na consecução de nosso estudo, descrevendo: a abordagem metodológica adotada, o processo de geração e de tratamento dos dados e os procedimentos de análise.