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Objective 4 - Lyrics optimisation

6. Evaluation and Discussion 63

6.1.4. Evaluating questionnaire results

Tendo em vista que todo procedimento analítico fundamenta-se em pressupostos teóricos, e que na análise de práticas é imprescindível ter em conta, como postula Rio (2010, p. 24), que estas não se referem somente às ações dos indivíduos, mas também carregam sentidos sociais que os sujeitos produzem num determinado contexto social e historicamente situado, necessitaríamos de um aporte teórico que orientasse nosso olhar sobre os dados constituídos durante a pesquisa, de modo a não perder isso de vista. Para tanto, recorremos à contribuição teórica do linguista antropólogo William Hanks (2008), que discute as relações entre linguagem e contexto no âmbito do seu investimento teórico sobre a língua como prática social, a partir das contribuições da teoria da prática, de base sociológica, e de teorias linguísticas.

Como assinalado por Hanks (2008, p. 169), a relação entre linguagem e contexto tem constituído um dos focos centrais das pesquisas sobre a linguagem. No âmbito dos estudos já desenvolvidos, as formas de conceber o contexto variam em conformidade com os diferentes campos disciplinares. As chamadas abordagens individualistas ou locais, baseadas na linguística, na psicologia e na microssociologia, concebem o contexto como o cenário imediato, dessa forma, local e efêmero, já que coexistente à fala e à interação. Desse ponto de vista, o contexto deriva da conversação e da interação, estando centrado sobre o processo emergente da fala. O quadro de referência e de explicação baseia-se, pois, nas atividades individuais de fala e nas interações verbais em que ocorrem, o que contribui para que se reduzam as estruturas sociais aos comportamentos individuais (HANKS, 2008, p. 171).

Já as abordagens denominadas globais, baseadas em teorias sociais amplas e na história, entre as quais o estudioso cita a perspectiva foucaultiana de discurso,

a perspectiva bourdesiana de mercados linguísticos e de capital simbólico e cultural e a perspectiva da Análise Crítica do Discurso, adotam um ponto de vista oposto, ao conceber o contexto como global e duradouro, com escopo social e histórico maior do que qualquer ato localizado. Para as abordagens globais da língua e do discurso, a produção dos enunciados não é considerada o centro gerador do contexto. Os sistemas de referência explicativos passam a ser as condições sociais e históricas anteriores à produção do discurso, que, dessa forma, atuam como elementos que o restringem (HANKS, 2008, p. 171-172).

Embora não negue as grandes contribuições dessas diferentes abordagens teóricas para a compreensão da linguagem e de suas relações com o contexto, Hanks considera que os enfoques adotados geram uma polarização pouco produtiva que impede a identificação dos aspectos fundamentais para o seu estudo. Como o autor assinala, “dado que o discurso responde ao contexto em graus variados, e que nenhum cenário social efetivo pode ser caracterizado apenas sob micro ou macroperspectiva”, tanto as abordagens individualistas quanto as abordagens em larga escala estão inevitavelmente contrapostas uma à outra (HANKS, 2008, p. 173)72.

Interessado tanto nas especificidades semióticas das práticas discursivas quanto em seu encaixamento social e histórico, o autor procura integrar esses diferentes níveis de concepção do contexto, propondo que a análise das práticas discursivas pode ser enriquecida por uma concepção dialética de contexto. Propõe, então, abordar o contexto a partir de duas dimensões abrangentes, que ele chama de emergência e incorporação/encaixamento (emergence and embedding) (HANKS, 2008, p. 175).

A emergência refere-se a aspectos linguístico-discursivos gerados no curso da interação, ou seja, diz respeito à atividade mediada verbalmente, à interação, à

72 A teoria da prática pode ser citada também como exemplo da tentativa de se evitar a

polarização na explicação de fenômenos complexos. Essa teoria serve inclusive de base a Hanks (2008) no desenvolvimento de uma concepção de contexto que ultrapasse as abordagens dicotômicas do fenômeno. Desenvolvida por Bourdieu (1983), a teoria da prática resulta de um esforço do sociólogo para instaurar uma relação dialética entre as ações dos atores sociais e as estruturas sociais, na perspectiva de superar a dicotomia pouco produtiva entre as teorias subjetivistas, de base fenomenológica, e as teorias objetivistas, fundadas no estruturalismo. As noções de habitus e campo decorrem, pois, da tentativa de integrar dialeticamente as relações entre indivíduo e sociedade, interioridade e exterioridade.

copresença, à temporalidade, em um contexto restrito como um fato sensível, social e histórico. A incorporação designa, por sua vez, a relação entre os aspectos contextuais relativos ao enquadramento, centração ou assentamento do discurso em quadros teóricos mais amplos (HANKS, 2008, p. 175).

Essa abordagem do contexto, tal como desenvolvida por Hanks (2008), considera a relação complexa, nas práticas, entre aspectos que emergem no interior das situações de interação e aqueles que estão incorporados a campos sociais mais amplos. Sua relevância para nossa pesquisa repousa no fato de que nos permite considerar que, nas práticas, os aspectos que emergem local e situacionalmente podem estar incorporados a um ou mais campos sociais, do mesmo modo que o contexto mais global pode ser modificado por práticas singulares que emergem no curso das interações.

Tendo em vista o exposto, elegemos essa noção de contexto, articulada às noções de habitus e de campo, a partir de Bourdieu (1983, 2004a, 2004b), como os aportes a partir dos quais procuramos analisar as práticas discursivas de que participou a professora formadora, captadas a partir da observação e do registro realizados durante o acompanhamento às suas práticas docentes, em seu cotidiano de trabalho. O registro dos depoimentos da docente concedidos nas entrevistas, além de ter sido utilizados para sua caracterização neste capítulo, servirão de apoio à análise de suas práticas, sendo utilizados sempre que se mostrarem relevantes à compreensão dos dados ou a sua contextualização. O capítulo subsequente servirá, pois, para o desenvolvimento da análise dos dados.

CAPÍTULO 3 ANÁLISE DOS DADOS

Neste capítulo, serão descritos e analisados os dados obtidos a partir da observação e do registro de práticas de trabalho da professora formadora, durante o desenvolvimento de atividades de estágio supervisionado junto a uma turma que cursava o sexto período da Licenciatura em Letras.

Para tanto, discutiremos inicialmente os modos como as práticas da professora formadora são afetadas por determinações oriundas da conjuntura acadêmico-institucional local e dos campos mais amplos em que estão inseridas ou com os quais mantêm relações: o campo da educação superior, o campo da formação de professores, o campo escolar. Nessa perspectiva, enfocaremos as estratégias utilizadas pela docente para lidar com as injunções oriundas de fenômenos gerados nesses campos e que se impõem ao seu trabalho.

Em seguida, abordaremos mais pontualmente o processo de alinhamento da professora ao habitus profissional do novo campo de trabalho, na intenção de refletir sobre os modos como ela vem se tornando professora universitária e, particularmente, formadora de professores. Com essa segunda parte do capítulo, complementaremos nosso olhar sobre a trajetória profissional da docente, da qual apontamos alguns aspectos já ao longo da discussão na parte inicial.

3.1 As práticas docentes no Estágio Supervisionado II: os desafios de fazer