A neurociência cognitiva engloba a interdisciplinaridade entre as análises cerebrais e comportamentais. Nesse trajeto, encontra-se a psicologia fisiológica no início do século XX, a Neuropsicologia, assim como as Neurociências em 1960, em análises mais amplas. Esses estudos se baseiam em três vertentes que analisam os níveis de organização das estruturas, a relação entre cérebro, corpo e estruturas, assim como a evolução, a origem e o desenvolvimento das estruturas cerebrais individuais (JUNIOR, 2011).
Desse percurso, entre os séculos XVIII até o começo do século XX, alguns aspectos relacionados ao cérebro, como o uso da frenologia e as dimensões métricas de tamanho do crânio para estabelecer traços de sucesso acadêmico ou habilidades, eram destacados. Seguidamente com o passar do tempo, esses conhecimentos foram se desenvolvendo, fornecidos por Broca, em 1862, e Wernicke, em 1847, associando as áreas da linguagem a domínios cerebrais específicos. Já em 1909, foram fornecidos gráficos com as áreas do cérebro e as recentes descobertas relacionadas a sinapses (ESPINOSA, 2008).
Consequentemente, têm-se o ponto de partida das correlações entre Neurociências e educação por meio de Espinosa (2008). A autora associa os conhecimentos neurocientíficos à educação na junção dos campos da Neurologia, Psicologia e Pedagogia, objetivando uma melhor análise das diferentes possibilidades do aprender e ensinar, como forma de potencializar a aprendizagem. Diferentes termos são utilizados para definir essa ligação de diferentes áreas, como educação baseada no cérebro, Neurociência pedagógica, Psicologia Educacional, Neuropsicologia cognitiva, Neurociências Cognitiva, que se atrelam na discussão entre Neurociências e Educação, conectando o conhecimento de duas áreas – a Neurológica, por meio dos estudos científicos, e as práticas pedagógicas, oportunizadas pela Pedagogia.
Nessa trajetória, o maior ponto de impacto que relaciona cérebro e aprendizagem deu- se no século XX com o advento das tecnologias para as pesquisas (LISBOA, 2014). Das autopsias até o uso de Neuroimagens e técnicas já pré-estabelecidas, denota-se a aproximação entre os achados neurocientíficos e as suas conexões com a educação. Compara-se ao nivelamento da condição de ter um cérebro e a de ser uma pessoa, ou a definição das características de um ser humano a partir das qualidades e peculiaridades cerebrais. Nesse sentido, “a pesquisa sobre o cérebro manifesta o que muitos educadores sabem intuitivamente:
que os alunos aprendem de diversas maneiras e quanto mais maneiras se apresentarem, tanto melhor aprendem a informação” (MORAES; TORRE, 2004, p. 88). Temos assim uma mudança importante de condição indispensável: o cérebro passa a ser analisado e compreendido como o órgão capaz e envolvido na formação dos modos de subjetivação.
Partindo disso, tem-se que o ser humano entende o mundo por meio de seu sistema sensorial que envolve seus sentidos e a sua memória. Em busca de respostas para as percepções, os raciocínios e os resultados do agir, o indivíduo tem suas conexões neurais em ininterrupta reestruturação e seus padrões de conexão são alterados a todo tempo, sendo mediados por processos de consolidação ou diminuição de sinapses. No cérebro, temos inúmeros neurônios sempre prontos para estimulação. A ação mental estimula a reconstrução de conjuntos neurais, convergindo as experiências linguísticas e de saber em processos de feedback da informação (LENT, 2010).
O cérebro – como resposta ao comportamento humano na interação com o ambiente – percebe tais informações por meio das células nervosas que constituem redes neurais. Tal interação é mediada por neurotransmissores, em uma constante troca de informações entre neurônios. Dessa forma, o cérebro permanece em constante atividade, na qual vários neurônios são ativados ao mesmo tempo em uma sincronia entre trocas e respostas (LENT, 2010).
Além disso, ele pode ser visto como um sistema dinâmico de interação com as diversas áreas presentes nele mesmo. Conforme Izquierdo (2004) e Mora (2004), o processo de aquisição de novas informações que serão gravadas na memória é intitulado de aprendizagem. Por tal processo, somos capazes de influenciar o comportamento e o pensamento. Memória é relativa ao processo de arquivamento seletivo de informações, por meio do qual se pode evocá- las consciente ou inconscientemente. A noção de memória, que será mais bem explorada mais à frente, pode ser compreendida também como a soma de processos neurobiológicos e neuropsicológicos que possibilitam a aprendizagem.
Ratey acrescenta que pensar é uma função do cérebro e o seu processamento corresponde ao ato de receber, perceber e compreender, armazenar, controlar e responder ao fluxo constante de informações e dados. Concomitantemente, o autor comenta que “[...] a capacidade para ligar de forma competente as informações oriundas das áreas de associação motora, sensorial e mnemônica é decisiva para o processamento do pensamento e para a consideração e [o] planejamento de futuras ações” (RATEY, 2001, p. 198).
Destaca-se que estudos comprovam que o cérebro humano se baseia em quatro configurações para a representação mental. Segundo Matias et al. (2001), primeiramente esse processo envolve uma imagem visual que se caracteriza em um modelo bidimensional de uma
figura; a representação fonológica que envolve o planejamento e a organização de sílabas e sons na mente e movimentos articulatórios orofaciais; a representação gramatical que engloba as estruturas gramaticais em níveis hierárquicos, a manipulação dessas sentenças e o seu uso na linguagem; e, por último, o mentalês que envolve o pensamento e o conhecimento teórico. Assemelha-se à leitura de um conteúdo, na qual o que é absorvido é a ideia central e não os detalhes, as frases e os trechos dispostos de forma organizada. Analisa-se o entendimento geral. Concomitantemente, as informações vindas do ambiente e que se manifestam de dispares formas são interpretadas por diferentes sujeitos. Dessa forma, reforça-se a necessidade de estudos que analisem mais enfaticamente as desigualdades, partindo dos pressupostos neurocientíficos para a análise do sucesso e mau desempenho escolar (FARIA; JUNIOR et al., 2015).
Todos esses achados levaram 50 mil pesquisadores da Europa e a mesma proporção nos Estados Unidos a se reuniram para discorrer sobre as contribuições das Neurociências aliadas à Educação. Essa movimentação de pesquisadores recebeu o nome de “aprendizagem baseada no cérebro”, na década de 1990, produzindo uma série de relatórios que lançavam mão dos conhecimentos neurocientíficos aliados à Educação (PHILLIPS, 2005).
Phillips (2005) denota que as pesquisas em neurociência cognitiva oportunizaram ao professor o conhecimento quanto à emoção nos processos de aprendizagem, o ensino conectado ao cérebro e as análises neurocientíficas para uma melhor compreensão desses mesmos processos. Pesquisas que envolvam tais análises precisam estar em constante prática com os professores como forma de potencializar e compreender a aprendizagem dos alunos, além de apoiar práticas de ensino contextualizadas.