Os participantes desta pesquisa são os alunos da 5a série do Ensino Fundamental II, a professora de Ciências de uma Escola da Rede Estadual de Ensino, localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo, e eu como pesquisadora.
A escolha de alunos da 5ª série D aconteceu por sugestão da própria professora de Ciências. Diante do trabalho de leitura e escrita que realizava com a 5ª série, ela avaliou como mais oportuno e relevante para a pesquisa, a observação dessa série e não de outra, o que foi aceito por mim. Essa turma da 5ª série D, nas aulas de Ciências observadas, apresentou uma boa aceitação da minha presença, muitas vezes me incluindo nas atividades desenvolvidas. O vínculo com os alunos pareceu ficar ainda mais estreito quando substituí a professora, a pedido da coordenação da escola, em razão
25/11 2/12 9/12 11/12 Observação da 8ª aula. Prova. Conversa reflexiva: Avaliação da atividade em grupo.
Observação da 9ª aula (reforço) Tema: Resumo do que aprenderam sobre a composição do ar.
5ª Sessão reflexiva.
Tema: papel do professor representante na APEOESP. O papel do resumo na aula de reforço. Observação da 10ª aula: reforço após pré‐conselho 6ª Sessão reflexiva: Questionário final com a apreciação da professora sobre as questões trabalhadas ao longo da pesquisa.
de um atraso da professora participante. Sabendo que atrasaria, a professora deixara uma atividade, solicitando que eu a realizasse com os alunos. Essa aula não foi utilizada para análise dos meus dados, por se tratar de uma aula planejada pela professora e ministrada por mim, o que dificultaria a análise dos dados sobre a produção de resumos como instrumento de ensino- aprendizagem em Ciências, já que não daria para separar os meus sentidos e os sentidos da professora. No entanto, me parece relevante para contextualizar minha relação com os alunos, uma vez que a postura deles diante de uma nova situação foi de respeito e participação nas atividades propostas.
Houve ainda uma aula planejada em conjunto por mim e pela professora participante no decorrer da pesquisa, e que no momento de executar o que havíamos planejado, a professora pediu minha contribuição, o que foi aceito pelos alunos, pelos motivos já citados, de um bom vínculo estabelecido. Em outras situações diversas, como no dia do aniversário da professora, os alunos também pediram minha participação na organização do “parabéns” surpresa e do bilhete coletivo feito por eles para presentear a professora. Esses momentos com os alunos da 5ª série D (6º ano) se configuraram sempre de maneira afetiva, facilitando a minha presença na classe para a produção dos dados da pesquisa.
De modo geral, a postura dos estudantes era adequada, respeitavam os pedidos da professora, pegavam o material no momento em que lhes era solicitado, sentavam em suas carteiras quando a professora entrava em sala e realizavam em silêncio os momentos de cópia de lousa. Em relação a esse último fato, gostaria de me ater mais profundamente no capítulo de análise e discussões dos dados, por acreditar que esse silêncio pode ser muitas vezes enriquecedor, mas também pode denotar falta de atenção ao que copiam, falta de oportunidade para questionarem sobre o que aprendiam. O silêncio dos alunos e as poucas e inaudíveis participações durante as discussões sobre os temas propostos pela professora, devem ser ressaltados aqui para contextualizar a classe, mas serão mais bem analisados no capítulo seguinte.
A escolha por uma professora de Ciências deve-se ao estudo que vem sendo feito hoje na rede pública de ensino municipal e estadual de São Paulo, sobre Ler e Escrever nas Diferentes Áreas. Esse já era um tema de meu interesse desde que eu trabalhava na rede particular de ensino, como
Orientadora Educacional do EF II. Percebendo que era também um tema de relevância para a rede pública e para e Educação em nosso país, escolhi trabalhar a leitura e a produção escrita nas disciplinas cujo foco não é a linguagem, e segui a área de Ciências por afinidade com os conteúdos estudados nessa disciplina.
A professora de Ciências participante desta pesquisa leciona na rede estadual há 22 anos. Há dois anos está na escola pesquisada, trabalhando com os alunos de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental II. É representante dos professores de sua escola junto à APEOESP10 atuando em congressos e encontros, sempre tentando envolver os professores nas discussões sobre os direitos da sua classe. Nas reuniões pedagógicas e de planejamento (HTPCs), apresenta com frequência uma postura questionadora, não aceitando regras impostas que contradigam as suas ideias sobre educação. No final do ano em que ocorreu a pesquisa, apresentou uma postura contrária a procedimentos normalmente adotados para promover o aluno, como, por exemplo, alteração da nota para a aprovação. Além de colocar a sua posição para colegas e coordenação durante o HTPC, conversou ainda com os alunos sobre essa sua atitude e o seu significado. Disse que não queria formar alunos com uma representação falsa de seus saberes. Marislei e eu conseguimos construir uma relação de respeito pelos nossos diferentes saberes; ela desenvolveu uma postura, ao longo da pesquisa, de interesse pelos temas de nossas discussões e mostrou-se sempre disposta a colaborar com a pesquisa, desde o primeiro momento. Seus questionamentos como professora, ao longo das nossas conversas, o que compartilhamos sobre leitura e escrita em Ciências, é um tema que irei aprofundar e descrever no capítulo de análise e discussão sobre os dados, mas posso adiantar, para melhor descrever o contexto do trabalho, que a professora participante é uma profissional disposta a rever as suas ações. A relação com as crianças – o que se revela em seu discurso – era pautada em afetividade e intenção sobre formar alunos cidadãos. No capítulo de análise e discussão dos dados aprofundarei e discutirei essa minha observação.
Figura 2: Foto – professora participante (Marislei)11
Como pesquisadora, tenho graduação em Psicologia pela Universidade São Marcos e pós-graduação em Psicopedagogia pela mesma Instituição. Durante o curso de pós-graduação iniciei um trabalho no Instituto Qualidade no Ensino (IQE), onde atuei na área de formação de professores das redes municipais de São Paulo, Barueri, Campo Grande e Salvador, tendo como foco as relações de ensino-aprendizagem em Língua Portuguesa. Nesse Instituto conheci as teorias de linguagem que me proporcionaram a compreensão dos processos de leitura e escrita como instrumentos de transformação do sujeito. Foi no IQE que estudei, pela primeira vez, os conceitos de linguagem como interação, em uma visão do homem sendo modificado por ela e modificando o seu meio social. Linguagem como instrumento-e-resultado.
Após o trabalho realizado com o IQE, busquei atuar em sala de aula e tive a oportunidade privilegiada de trabalhar na Escola da Vila12, com alunos de 3ª e 4ª série do Ensino Fundamental I. No entanto, após 1(um) ano em sala de aula, percebi que poderia contribuir de modo mais eficiente na escola se estivesse fora da sala de aula, num trabalho coletivo com os professores e
11 O uso da imagem foi autorizado pela professora.
alunos. No ano seguinte, integrei a equipe da Orientação Educacional do Ensino Fundamental II, na mesma escola. Desse lugar, podia ter uma visão mais abrangente do processo de ensino-aprendizagem da leitura e escrita nas diferentes áreas do conhecimento. Foi numa reunião de Conselho de Classe, pensando em possíveis estratégias, para que os alunos avançassem em suas produções escritas, em suas respostas de prova, que percebi o caminho por onde passariam meus estudos dali pra frente. Naquela reunião, entendi que não daria para justificar as fracas produções, colocando a “culpa” apenas na fase da adolescência, em que o aluno desperta para inúmeras outras coisas e se dispersa em relação aos assuntos escolares. Precisávamos ir mais fundo e pensarmos em atividades e propostas que permitissem que o aluno entrasse em contato com seus textos de forma significativa, que visse sentido em suas produções e pudessem de fato ler e escrever de modo cada vez mais contextualizado. E como fazer isso? E como fazer isso nas disciplinas de Ciências, História, Geografia cujo foco está nos conceitos das áreas e não na linguagem?
Por esse motivo, busquei em minha pesquisa de Mestrado compreender como a colaboração – no caso, entre uma professora de Ciências e uma pesquisadora – pode favorecer a criação de um espaço crítico e reflexivo sobre os processos de produção escrita nas diferentes áreas do conhecimento. A escolha por uma pesquisa crítica de colaboração tem relação com a minha crença no ser humano, em seu poder de transformar o outro, a si mesmo e seu ambiente. Transformar pelo diálogo, pela escuta atenta, pelo respeito a diferentes valores, foi, desde a minha formação como psicóloga, uma busca. O interesse pelo outro, pelo valor que embasa as escolhas humanas sempre me guiou na direção de uma prática colaborativa crítica, mesmo antes nomeando de outras maneiras o que hoje digo que é compartilhamento de significados. Durante a graduação em Psicologia fiz escolhas pela área da Educação, sempre acreditando que a Escola pode e deve ser um espaço de crescimento.
Figura 3: Foto – professora e pesquisadora participantes13