4. EVALUERING AV LÆRERIKT 2002-2003
4.3 KONSEPTEVALUERING - UTVIKLINGSPROSESSEN
4.3.6 Kommunikasjon
Figura 12 – A família: mãe, avô, avó, tias, irmão, irmã. Damião e o seu irmão gêmeo, Cosme, são as duas crianças loiras com shorts iguais.
Fonte: Acervo de Irene Ximenes(2014).
Nós nascemos em Tocaia, uma localidade que pertence à Santa Quitéria93. Na época,
e ainda hoje é, um lugar desabitado. A casa mais próxima era a do meu avô, não tinha comércio e nem escola. Éramos cinco irmãos: eu, a mais velha, Antônio, Cosme, Damião e Cícero. Quando eu tinha nove anos os gêmeos tinham seis, nos mudamos para Arararas, que hoje é a cidade de Varjota, para que pudéssemos estudar. Foi em Varjota que nasceu Raimundinho e Irina, a irmã mais nova.
A gente mudou pra Varjota, pra cidade mesmo, porque a mamãe queria botar a gente para estudar e ela falava muito sobre estudo, inclusive a minha mãe foi uma incentivadora assim muito grande para a gente estudar, eu lembro ela dizia assim “olha, nós somos pobres porque papai nunca botou a gente para estudar”.
93 Santa Quitéria é um município da Região Norte do Estado, distante 41,3 Km de Varjota. Disponível em: <www.entrecidadesdistancia.com.br>. Acesso em 14 set. 2012.
Eu ouvi mais da mamãe sobre a necessidade de a gente estudar e isso gerou no meu coração grande desejo de estudar, de me formar, de ser alguém, de ter uma profissão, porque eu vi assim que o estudo era a saída pra gente sair daquela vida tão ruim, que a gente vivia de tanta dificuldade. Logo que a gente chegou ela matriculou a gente na escola.
A figura materna está muito presente na narrativa de Irene, sempre descrita através de “traços morais” (BOSI, 1994, p. 428) que se configuram em cuidados, preocupação e dedicação aos filhos. Quanto à figura paterna, há uma ausência na sua narrativa. Nos encontros que tivemos, o pai de Damião foi mencionado poucas vezes e de forma pontual. No entanto, em Pereira (2001) há um depoimento de Irene em que a figura paterna surge como um homem rude, grosseiro: “Ninguém ousava desobedecer a uma ordem dele, nem tínhamos o direito de falar, a não ser que algo fosse perguntado [...]”. “Damião e todos nós só tínhamos amizade superficial, não era permitido receber amiguinhos em casa, nem ter amizade com ninguém”. “E neste regime crescemos” (p. 121).
O meu pai era agricultor, ele gostava muito, ele criava também, a gente tinha animais, ele gostava muito de fazer caças, acho que os meninos aprenderam isso com ele, eu lembro que eles eram pequenos e iam pro mato e tiravam abelha, tiravam muita abelha, mel de abelha e enchia litros e vendia. Aprenderam lá na Tocaia nos matos. A gente lá teve uma infância muito boa, apesar de pobre, nossa infância, eu tenho uma recordação muito boa lá da Tocaia, a gente brincando, eu e os meninos, nós cinco correndo na chuva, quando chegava aquela chuva a gente tomava banho de chuva correndo nos terreiros. A gente não tinha nada era mais feliz, eu me lembro assim a gente era muito feliz, a gente não tinha nada e era mais feliz que hoje. Eu lembro da nossa casinha assim, se eu soubesse pintar eu pintava perfeito a casinha quea gente morou, a casinha de taipa com os pés de cajueiro no quintal.
A lembrança da casa onde viveu parte da infância ao lado dos seus irmãos é um “espaço da memória” de Irene importante na biografia da família. De acordo com Bosi (1994, p. 434), “o espaço da primeira infância pode não transpor os limites da casa materna, do quintal, de um pedaço de rua, do bairro”. “Seu espaço nos parece enorme cheio de possibilidades de aventura”.
A casa de Irene, com as possibilidades de brincadeiras que a cercavam, devido estar localizada no espaço rural, mesmo com as proibições paternas, surge em sua narrativa como local privilegiado de descobertas que foram vivenciadas em comunhão com os irmãos e em convivência afetiva em que o desvelo da mãe se faz presente como a dirigir os “limites” do mundo a ser descoberto.
Quando chegava a época dos cajus a gente fazia a maior farra com os cajus e subia e tirava. Tem uma história que eu contei e a Nadine registrou no livro dos cajus que a mamãe não queria né, que chupasse os caju na parte da tarde porque tava quente e o Damião era o mais impulsivo do que os outros, sempre era assim, mais teimoso, mais impulsivo, ele até arrumou um meio de chupar o caju né, ia lá, a mãe “não pode tirar, não pode tirar”, mas tirar ela dizia assim, aí ele ia lá e chupava o caju no cajueiro, a gente encontrava o caju chupado com as castanhas. Ele não desobedecia a mamãe né, ele era mais perspicaz, ele era mais danado como a mamãe dizia.
Ele caiu mais que os outros, teve mais acidente com ele, quando eram pequeninhos, assim, eles eram idênticos, idênticos, eram bem loirinhos, bem loirinhos assim, cabelinho cortado na testa, pegava muito sol aí o cabelo em cima ficava assim branquinho. O Damião levou uma queda e ficou uma cicatriz na testa, durou muito tempo, aí a gente reconhecia pela cicatriz. Depois o Damião subiu num fogão de barro que a gente tinha, não tinha fogão a gás, cozinhava a lenha, e quebrou o braço. Ele sempre foi o mais danado, aí eu lembro que a gente nem foi pro o hospital, o osso emendou lá só, mamãe foi lá, amarrou, fez as gambiarra dela e ele sarou mesmo por conta dele.
Ao tecer os fios da memória familiar e inseri-los em uma narrativa sobre Damião, Irene escolhe a “face ideal” do seu irmão, aquela que deve se perpetuar: o irmão era o mais “danado”, o mais perspicaz e também o mais inteligente. Durante o nosso primeiro encontro em Ipueiras, Irene revelou que Damião tinha “alma artística” e “habilidades inventivas” e para comprovar a sua afirmação mostrou o pincel de barbear “que ele mesmo confeccionou e usava sempre”.
Depois aconteceu outra coisa com ele. A gente tinha oiticica, muito pé de oiticica próximo de um riacho e a vovó dizia assim “se vocês forem apanhar oiticica, eu pago vinte e cinco centavos a lata” e nesse negócio de oiticica a gente brincava também porque o riacho passava debaixo das oiticicas, a gente tomava banho no riacho e apanhava, aquilo na verdade era mais diversão do que um trabalho pra nós. Nessa
brincadeira ele foi num mato que tinha maribondo assim bem grande, ele mexeu, eu não sei se ele foi lá mexer com maribondo, eu sei que as abelhas atacaram ele, e ele ficou cheio, cheio, a mamãe disse que tirou dezoito ferrões da pele dele, aí a noite ele teve febre, não sei como não teve complicações, ele levou muita ferroada, então assim, lá não tinha médico, a assistência médica era zero, a gente se virava com remédio caseiro, por isso eu digo que era igual a índio.
O bom era que dava tudo certo né, aí a gente cresceu assim, aí brigavam, porque irmãos brigam mesmo, a gente brigava, eu mesmo briguei muito com Damião, eu lembro, um dia quando a gente mudou né, isso já não é mais lembrança de Tocaia né, quando a gente mudou pra cidade e eu lembro que um dia, eu não lembro porquê, mas eu briguei com o Damião, nesse dia a gente se embolou pelo chão eu e ele e os meninos tiravam. Era assim daqui a pouco a gente tava brincando de novo, ele também brigava com o Cosme, com o gêmeo, agora eles eram muito mais ligado assim, tinha uma diferença a gente notava, é assim, o Cosme e o Damião tava sempre junto, em tudo. A gente falava assim, o Cosme e o Damião, a gente não dizia assim só Cosme e Damião, alguma coisa assim, era como se eles fossem uma pessoa só. Eles eram muito unidos e essa união quebrou quando o Cosme já estava adolescente quase chegando na maioridade que foi para o Rio de Janeiro, aí separaram. Ele foi por falta de condições de vida assim, pelo desemprego, primeiro foi o meu irmão mais velho, a intenção dele era chegar lá, trabalhar e depois que estivesse estabelecido levar um irmão, depois levava outro.
Foi o Antônio, ele pensava assim né, pouco tempo depois ele disse assim que o Rio de Janeiro era uma ilusão pro cearense, que lá não era a vida que a gente pensava, mas todos os meninos tinham essa vontade de trabalhar e ganhar dinheiro dele né, melhorar de vida, quem não tem vontade de melhorar de vida, aí eu lembro que ele foi levar assim, por ordem cronológica né, a idade, aí ele levou primeiro o Cosme, apesar do Cosme e do Damião terem a mesma idade, mas Cosme foi o que nasceu primeiro né, então o Cosme a gente considerava mais velho que o Damião porque nasceu primeiro, só cinco minutos de diferença. Eu lembro que o Damião queria muito ir, eu também queria ir, mas aí eu meu irmão não podia levar dois, não tinha condição de receber duas pessoas lá e arranjar emprego pra dois, eu acho que isso mexeu muito com ele assim, eu acho que ele ficou frustrado né, naquela época eu não percebia isso não.
A separação dos dois gêmeos, segundo a avaliação de Irene, pode ter “contribuído para a doença de Damião”. Mesmo com a perspectiva de buscar novas
possibilidades, principalmente econômicas, Cosme também sentiu o impacto da separação do irmão, de acordo com Irene, porque no Rio de Janeiro teve uma crise, “estava neurótico” e foi internado em um manicômio. Após a estabilização do seu estado psíquico, Cosme foi mandado de volta para o Ceará e atualmente se encontra em tratamento ambulatorial.