Além do histórico ciclo de violência anteriormente citado, fundado no sistema patriarcal, com início na educação baseada em conceitos preestabelecidos e equivocados de gênero e nos maus tratos sofridos pelas crianças e adolescentes, os quais se acostumam com um ambiente violento, de dominação, e discriminatório contra as mulheres e passam a reproduzi-lo ao longo da vida adulta como algo natural; há ainda o famoso ciclo de violência contra a mulher, mais perceptível em nosso cotidiano.
A mulher violentada nem sempre vive nessa situação ininterruptamente, quando há uma relação com o agressor, há períodos penosos no convívio, mas também há períodos harmoniosos, de aparente carinho e amor. Nestes momentos, as mulheres normalmente oferecem nova oportunidade ao algoz, diante de promessas e da idealização do parceiro. Assim, a violência segue um ciclo.
O fenômeno se desenvolve em um ambiente em que a mulher se vê submissa à violência praticada pelo homem pelos mais diversos motivos: financeiro, emocional, psicológico, religioso ou moral.
Em geral o ciclo da violência de gênero ocorre nas relações de afeto ou no âmbito domiciliar; e ele é dividido em três fases marcantes: a tensão inicial, a explosão e a lua-de-mel ou reconciliação, as quais variam em intensidade e em tempo, podendo alguma delas inclusive não ocorrer a depender do caso concreto.
A primeira fase diz respeito ao acúmulo da tensão no relacionamento, por meio de brigas constantes, desentendimentos, agressões verbais e também físicas em menor grau. Trata-se da construção da violência.
Segundo Marie France Hirigoyen, os atos perversos estão inseridos no cotidiano, e acabam passando despercebidos, “... começam com uma simples falta de respeito, uma mentira ou uma manipulação. Não achamos isso insuportável, amenos que sejamos diretamente atingidos.".33
Acontece que o agressor se torna gradativamente mais violento, enquanto a mulher em geral procura a justificação para os abusos em problemas que em tese fundamentariam aquele comportamento. Até a louça suja é vista como um motivo para a prática de arbitrariedades.
33 HIRIGOYEN, Marie-france Assédio Moral - A Violência Perversa no Cotidiano; tradução de Maria HELENA Kuhner. 9° Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. P. 19
31 A companheira pode tentar controlar a situação e agradar o homem, no entanto, a tendência é que a tensão se intensifique, fazendo-se insuportável, o que leva à segunda fase.
Neste momento, ocorre uma descarga de toda a tensão acumulada na primeira fase do ciclo, por meio de um ato principal e grave de violência física contra a mulher, como um espancamento ou uma tentativa de homicídio. Esta fase é mais curta do que as outras duas.
A partir daqui, a vítima pode tomar duas atitudes: romper o ciclo, buscando ajuda e deixando o companheiro; ou se culpar pela violência sofrida, a qual desorienta a mulher e pode fazê-la ficar em silêncio.
Muitas mulheres guardam segredo sobre os abusos e chegam a se perguntar o que fizeram de errado. Estas vítimas tendem a aceitar o comportamento do agressor para adaptarem-se mais facilmente à situação, enquanto aquelas que procuram ajuda, muitas vezes apenas denunciam o agressor como tentativa de reordenar o relacionamento e não com o objetivo de conscientemente romper o ciclo e punir o algoz.
O silêncio ocorre por medo, dependência financeira e/ou emocional, submissão, valorização da família, questões religiosas, status social, entre outros motivos, enquadrando- se na construção histórica e social de gênero já exposta anteriormente.
Assim, as vítimas permanecem em um relacionamento violento e o segredo sobre as agressões contribui muito para a manutenção e para o aumento da violência contra as mulheres.
No mais, mesmo quando a mulher toma uma atitude e denuncia o agressor, por exemplo, não há em regra o fim do ciclo. De acordo com Barbara Musumeci Soares34:
...romper o ciclo da violência é um processo prolongado e, por natureza, cheio de hesitações. Supor que o ato da denúncia seja o momento definitivo desse processo é não conhecer o “ciclo da violência”. É ignorar a dinâmica das relações abusivas. É imaginar que, para a vítima, seu casamento, sua família e sua história tenham o mesmo significado de um assalto sofrido na esquina por um ladrão qualquer.
Ou seja, de qualquer forma, independente da reação da mulher após o segundo momento do ciclo, na terceira fase da dinâmica das relações abusivas, em regra, há a reconciliação, ou ao menos uma tentativa.
O homem se mostra arrependido, gentil e amoroso, tendo consciência de suas ações errôneas. Promessas de melhora e pedidos de perdão são proferidos pelo agressor. Este
34 SOARES, Barbara Musumeci. Mulheres Invisíveis: violência conjugal e novas políticas de segurança. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. P.224.
32 se compromete a não mais violentar a companheira, no entanto, em alguns casos, nesta fase apenas há a ausência da violência.
As mulheres que acreditam no parceiro, diante da dificuldade em se separar do agressor e da esperança na modificação da triste realidade que vivem, continuam na relação.
Ocorre que, a terceira fase, em algum tempo a depender de cada caso, traz de volta a tensão da primeira e o ciclo da violência recomeça. O arrependimento do agressor vai progressivamente sendo substituído por novos pequenos incidentes de violência que reiniciam o processo.
Destaca-se que, quando não são resolvidos, os incidentes tendem a se repetir mais grave e frequentemente.
Diante da complexidade do quadro, as vítimas sequer têm consciência do processo. O ciclo é comum e muitas vezes entendido como um “destino” das mulheres em razão da frequência com que ocorre.
Não há dúvida de que os ciclos se inserem em um processo de caráter social dentro dos papéis masculinos e femininos construídos historicamente no sistema que continua patriarcal, marcado pela violência e dominação sobre as mulheres, não só física, mas psicológica, o que propicia as reconciliações e o silêncio das vítimas.