Comparative Analysis
8.3 Evaluation of Decisions Made in the Models
Ainda que tanto no período de Logische Untersuchungen quando em obras posteriores Husserl estabeleça uma relação de identidade entre evidência e verdade, e que as análises da obra de obra de 1901 mantenham-se, ao menos a esse respeito e a grosso modo, nos escritos posteriores, há controvérsias sobre em que medida e com quais limites a teoria da verdade modificou-se a partir da chamada “virada idealista” da fenomenologia. Ingarden comenta, a partir de suas considerações sobre a concepção de verdade das Investigações Lógicas, que Husserl teria rejeitado muito do que havia desenvolvido nesse período149.
148 É também digno de nota a grande influência de Husserl nas concepções de verdade pregadas por
outros fenomenólogos, como Heidegger e Merleau-Ponty, o que por vezes passa despercebido aos estudiosos. Quando Heidegger refere-se, por exemplo, à verdade “antepredicativa” e ao “desvelamento” e afirma ser o conceito tradicional de verdade como correspondência algo fundado em um conceito anterior e mais fundamental, o filósofo não está tão distante de seu professor. Ver HEIDEGGER, Martin. Sein und
Zeit, p. 213-19, Heidegger, Martin. Vom Wesen des Grundes, p. 11-7. Para um estudo sobre as diferenças
entre as concepções de verdade de Husserl e Heidegger, ver TUGENDHAT, Ernst. Heideggers Idee von
Wahrheit, assim como o importante trabalho de Tugendhat: Der wahrheitsbegriff bei Husserl und Heidegger, esclarecedor também no que diz respeito especificamente ao conceito de verdade em Husserl.
149“A evidência ‘oral’ de que Husserl considerou sua posição (...) como falsa foram suas palavras em uma
conversa comigo no outono de 1927. Quando ele perguntou qual foi o assunto das minhas aulas na Universidade de Lwów, eu disse que em uma delas eu li, entre outras coisas, o primeiro volume das
Investigações Lógicas, especialmente o último capítulo. Husserl respondeu: ‘Ach, warum haben Sie dies
gelesen, da habe ich mich so verrannt’ [Ah, por que o senhor leu isso, eu me equivoquei muito ali]” INGARDEN, Roman. On the motives which led Husserl to transcendental idealism, p. 8. Vale ressaltar, também, que essa é uma das razões pelas quais optamos por analisar a concepção das Investigações
68
Segundo Günther Patzig, não podemos compreender os desenvolvimentos posteriores como apenas um complemento em relação ao que foi estabelecido nas primeiras obras de Husserl, pois por trás da identificação entre evidência e verdade, podemos encontrar duas concepções com resultados bastante distintos: uma coisa é entender a verdade como fundada na evidência, de modo a alegar que só podemos tratar da verdade como algo com sentido quando há evidência, e outra coisa é reduzir verdade à evidência, como sendo uma e a mesma coisa. Segundo o intérprete, essa é uma diferença fundamental entre os escritos da chamada fase “realista”, que adota a segunda opção, e aqueles da fase “idealista”, que adota a primeira150.
Em Logische Untersuchungen Husserl entenderia o julgamento evidente como algo que é, ao mesmo tempo, um caso particular e uma experiência da ideia de verdade, e desenvolveria uma teoria de identidade tal que não poderia haver graus de evidência, pois, dada a identificação com verdade, isso abriria margem para dizer que algo é “mais
ou menos” verdadeiro, ou um pouco verdadeiro e um pouco falso, contrariando axiomas
lógicos fundamentais151. Um julgamento evidente seria composto por três momentos: o ato de julgar, a percepção de um estado de coisas (seja ideal ou real) e o insight de que aquilo que é expresso no juízo corresponde de fato ao estado de coisas percebido152. Haveria, portanto, a necessidade de estabelecer uma ponte que garantisse o sucesso do
insight, uma justificativa adequada para a ponte entre o juízo e o estado de coisas
percebido que garantisse sua objetividade153.
Segundo a leitura de Patzig, foi justamente a falha em encontrar uma
Lógicas, no que diz respeito à concepção de verdade, a partir do segundo volume.
150 PATZIG, Günther. Husserl on Truth and Evidence, p. 179. Ver também ver PATZIG, Günther. Kritische
Bemerkungen zu Husserls Thesen über das Verhältnis von Wahrheit und Evidenz.
151 PATZIG, Günther. Husserl on Truth and Evidence, p. 187-8.
152 Ibidem, p. 191-2. Embora concordemos em linhas gerais com a argumentação de Patzig aqui
apresentada, não estamos de acordo com a leitura que faz da suposta rejeição de Husserl aos graus de evidência no período de Logische Untersuchungen e, portanto, da total identidade entre evidência e verdade. Acreditamos, ao invés, que nesse aspecto em particular a teoria da verdade não se modificou tão substancialmente. De fato, Husserl afirma que evidência em um sentido estrito diz respeito ao ato de
“uma síntese perfeita de preenchimento”, mas o filósofo também reconhece que “faz sentido falar de graus e níveis de evidência” (HUSSERL, Edmund. Logische Untersuchungen, Hua 19/1, VI, §38, p. 651).
Portanto, embora em Logische Untersuchungen não seja desenvolvida uma gama tão específica de classificações e tipos de evidência como nas obras posteriores, isso não significa que Husserl já não atentasse para o fato, pois inclusive o reconhecesse explicitamente. Acreditamos que esse teria sido, inclusive, um dos pontos problemáticos da teoria da evidência, no sentido da dificuldade de conciliá-la com o tipo de filosofia desenvolvida por Husserl nesse período.
69
justificativa adequada para a noção de evidência, assim como a sua relação com a verdade nesses termos, que conduziu Husserl ao idealismo. A dificuldade por trás do desenvolvimento da noção residia em parte na concepção de lógica pregada pelo filósofo nesse período, que procurava justificá-la como uma ciência que investiga fatos objetivos (relações de objetos ideais, unidades ideais de significado, etc), os quais seriam apreendidos a partir de um insight intuitivo154. Husserl acabaria, ao fim, por estabelecer um argumento circular para fundamentar sua concepção de lógica: ele refere-se à noção de evidência para justificar a existência de objetos ideais, mas na própria noção de evidência (identificada de antemão com verdade) ele pressupõe que é evidente o acesso a tais objetos como existentes e, portanto, que é verdadeira sua existência objetiva155.
A enigmática virada idealista de Husserl (...) pode ser em parte compreendida se considerarmos que ele foi levado à virada pela tensão das mesmas dificuldades que se apresentaram contra sua teoria da evidência. No lugar do problema de como verificar uma realidade objetiva, surge o problema da constituição de um mundo unificado de objetos intencionais da consciência pura. Se a evidência para o primeiro Husserl era a ponte entre ato e objeto, garantindo sua verdade, agora não é nem necessário nem adequado construir tal ponte, uma vez que a fundamentação cartesiana foi adotada em uma formulação husserliana. A separação entre ato e objeto que inicialmente precisava de uma ponte, agora desaparece: temos o mundo de antemão em nossas cogitationes, e fenomenologia pode agora ser entendida como a descrição e análise da constituição do mundo em nossos atos de consciência. (...) É somente no contexto de uma posição estritamente idealista que é possível manter, sem contradição, uma identidade entre evidência e verdade. É surpreendente o preço que Husserl paga para salvar sua teoria da evidência. Um preço que parece excessivamente alto, de modo que preferiríamos rejeitar essa tese atrativa (...)156.
Assim, Patzig entende que a necessidade de justificar a objetividade foi responsável pela teoria da identificação entre evidência e verdade, mas que as falhas na sua argumentação, reconhecidas posteriormente por Husserl, o conduziram para o idealismo, no qual poderia manter sua teoria – embora também a tenha reformulado, a partir da abertura dada pelo novo contexto. O idealismo seria uma solução atraente na medida em que previne contra a necessidade de buscar uma ponte entre ato e objeto, já que os próprios atos constituem os objetos. Segundo o intérprete, portanto, Husserl
154 Ibidem, p. 195. 155 Ibidem, p. 192. 156 Ibidem, p. 192.
70
prefere ser levado ao idealismo do que abrir mão de sua teoria da verdade, o que constitui uma falha grave no seu pensamento.
Estamos de acordo com o argumento central de Patzig – segundo o qual a teoria
da verdade e da evidência foi em parte responsável pela “virada idealista” –, mas não
acreditamos que ela tenha se dado pelas razões apresentadas. No nosso ponto de vista, não foi para manter uma concepção de verdade em conexão com evidência que Husserl
foi conduzido ao “idealismo”, mas sim que essa sua concepção o levou a perceber os
equívocos dos pressupostos que o conduziam na primeira fase de seu pensamento. Além disso, conforme pretendemos demonstrar ao longo desse estudo, o idealismo desenvolvido por Husserl, ao menos em alguns aspectos fundamentais, representou um progresso frutífero e vantajoso da sua filosofia, de modo que tampouco concordamos com a avaliação de Patzig.
Levinas desenvolve uma análise que vai, em parte, na mesma direção. Ele mostra que Maurice Pradines, em um dos primeiros trabalhos publicados na França acerca da filosofia husserliana157, criticava justamente esse aspecto que Patzig aponta como sendo o problema que Husserl evitou ao converter sua filosofia em um idealismo: para manter a concepção de verdade em sua conexão com a intuição preenchida (a evidência), seria necessário explicar a relação entre a intuição e a coisa a qual ela se dirige. Em outras palavras, partindo de um ponto de vista realista, é necessário explicar como se tem garantias de que a intuição foi realmente preenchida de maneira correta e que a suposta evidência de fato corresponde com o estado de coisas ao qual a consciência teria acesso.
A dificuldade que Pradines percebe na intuição, que é incapaz de explicar ‘o
enigma’ de sua própria transcendência, não abrange o caráter intencional da
consciência. (...) Como podemos confiar em uma intuição que pretende apreender o ser, um ser que na hipótese realista existe por si mesmo? Como, quando descrevemos os dados intuitivos, podemos ultrapassar a esfera da
‘descrição psicológica’ e obter asserções ontológicas? (...) Para responder a
tais objeções, nós precisamos voltar à noção husserliana de ser, (...) o realismo de Logische Untersuchungen foi apenas um estágio na elaboração da fenomenologia, e o que agora é chamado de idealismo de Ideen deve aparecer para fornecer um valor ontológico para os dados da intuição. O idealismo de Ideen é um idealismo intencional e consequentemente concebe de uma nova maneira o modo de existir e a estrutura da consciência, assim
como a existência ‘fenomênica’ das coisas. O idealismo parece resolver o
71
‘enigma da intuição’158.
Levinas entende, portanto, que essa dificuldade só se configura no contexto do realismo das Investigações Lógicas, mas não no idealismo de Ideias. Segundo sua leitura, o idealismo transcendental, ao contrário de evitar fazer asserções ontológicas, como sustentam alguns intérpretes – ou nem mesmo dever fazê-las, como alegam outros
–, permite justamente uma investigação ontológica das coisas elas mesmas. Isso torna-
se possível, tal como apontou Patzig, por toda a “realidade” ser constituída na própria consciência, de modo que não é mais necessário buscar uma ponte que conecte de modo seguro a consciência e os objetos. Nesse sentido, o “enigma da intuição” identificado pelos críticos de Husserl, dissolve-se a partir da defesa do idealismo.
Como esclarece Levinas, por trás de tal solução está uma concepção particular
de consciência enquanto uma esfera absoluta: “a noção de existência absoluta da
consciência – e sua primazia com respeito a outras regiões da realidade – nos autoriza a dar credibilidade ao que a intuição reivindica”; ou seja, é somente na medida em que a consciência é prioritária em relação a outras regiões de ser que podemos confiar nos
dados que ela apreende como evidentes. “A intuição é um ato cujo sentido intrínseco
consiste em fornecer-nos objetos ‘em pessoa’; desse modo, os dados da intuição não necessitam, para serem verdadeiro, de comparação com um ser verdadeiro independente
da consciência”159. Na verdade, mais do que isso, o caráter absoluto da consciência faz
com que nem mesmo seja possível tal comparação, na medida em que não há – como afirmam as polêmicas passagens “idealistas” de Husserl – nenhuma realidade independente da consciência160.
Assim, tais análises, ainda que remetam a uma série de outras questões e dificuldades dentro da fenomenologia, são suficientes para compreender, em linhas gerais, qual o entendimento de Husserl sobre os critérios para a definição de verdade e conhecimento. É importante reiterar, portanto, que os conceitos empregados no que diz respeito a esse tema – como intenção, evidência e verdade – são bastante amplos e ramificados, de modo que é necessário avaliar sempre de acordo com cada contexto
158 LEVINAS, Emmanuel. Théorie de l’intuition dans la phénoménologie de Husserl, p. 138. 159 Ibidem, p. 153.
72
qual o sentido empregado. Além disso, fica também destacado que a concepção fenomenológica de conhecimento desenvolvida a partir da “virada idealista” de seu pensamento, ainda que possa parecer à primeira vista bastante tradicional, afasta-se da definição clássica na medida em que se mantém fiel à redução fenomenológica.
73