Para se entender melhor a proposição da complexidade de interação no universo virtual do Second Life, recorremos ao desenvolvimento do pensamento complexo de Edgar Morin, que recomenda um olhar mais abrangente para se compreender questões fundamentais. Segundo o autor, nesta época de “mundialização”, o pensamento reducionista da ciência ocidental, que imperou durante muito tempo, não é mais suficiente. Não basta estudar as partes para se entender o todo, nem mesmo é possível entender o todo sem o estudo das partes. Para Morin, “[...] o princípio de separação torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto” (2000, p. 2).
Morin aponta a importância das interações como formadoras da sociedade, pois, para o autor, não é possível entender o ser humano apenas pelos elementos que o constituem. As interações produzem cultura, que produz e modifica as interações, em um círculo retroativo e auto-organizável.
Da mesma maneira. Somos produtores da sociedade porque sem indivíduos humanos não existiria a sociedade, mas, uma vez que a sociedade existe, com a sua cultura, com os seus interditos, com as suas normas, com as suas leis, com as suas regras, produz-nos como indivíduos e, uma vez mais, somos produtos produtores (MORIN, 2000, p. 4).
O pensamento complexo evoca a importância de outros aspectos, que normalmente não são levados em conta pela civilização ocidental, ao se estudar as sociedades. São os discursos poético, mitológico e religioso que devem conviver com o científico e racional, na tentativa de se compreender as sociedades.
Isso significa ainda que damos vida às nossas idéias e, uma vez que lhes damos vida, são elas que indicam o nosso comportamento, que nos mandam matar ou morrer por elas; vale dizer que tais produtos são os nossos próprios produtores, e que as realidades imaginária e mitológica são um aspecto fundamental da realidade humana (idem, p. 7).
Sob a luz do pensamento complexo, observa-se que os universos virtuais crescem à semelhança de nossa sociedade, mas assumindo aspectos lúdicos e
fantasiosos, inserindo, no dia a dia dos residentes, a realidade mitológica e imaginária de Morin.
Para Wagner Au, o SL é um universo virtual com características próprias, diferente de outras plataformas multiusuários. O autor identificou três grandes diferenciais, que chamou de: Realidade Bebop, Sociedade de Impressões e Crescimento Espelhado.
A Realidade Bebop refere-se ao aspecto de improviso que faz parte da natureza do SL. Os “papéis” desenvolvidos pelos avatares não obedecem a um script, baseiam-se mais na experiência de seu representado, ou no desejo de explorar diferentes aspectos de sua identidade. A Sociedade de Impressões remete à natureza instintiva dos avatares de julgar e avaliar o que é criado ou construído, sem usar o filtro social, denso e impregnado de conceitos acumulados durante milhares de anos de nossa formação cultural e social. Au afirma que: “[...] entre os cidadãos do Second Life, qualquer contribuição, seja ela cultural econômica ou social, é julgada e avaliada na proporção direta de seu talento criativo e orgânico e pelo efeito que é capaz de produzir” (2008, p. 17). O Crescimento Espelhado seria a crença de que o que ocorre de positivo no Second Life deve trazer benefícios para a vida de seus residentes também fora dele, ou seja, “[...] as contribuições positivas para o Second Life podem e devem ter impacto positivo nas vidas reais dos Residentes – e vice-versa” (idem).
A análise feita por Au permite observar a complexidade das interações possíveis no SL, que passam pelo alto grau de imersão e envolvimento dos interagentes com o ambiente virtual. E o resultado é que as interações se dão, não apenas em um ambiente virtual, mas com este ambiente, graças a sua qualidade gráfica e seus recursos tecnológicos.
Quando você está em um mundo virtual envolvido com alguém lá dentro, duas realidades coexistem. Você tem consciência de suas mãos sobre o teclado, das palavras que cintilam e das imagens que se movem na tela. Você também tem consciência de que outros avatares no mesmo espaço são controlados por outras pessoas. E você sabe que as pessoas que os controlam têm mais ou menos as mesmas imagens em seus monitores. (AU, 2009, p. 27).
Outro aspecto relevante de sucesso dos universos virtuais, assim como de outras plataformas digitais, é a questão do anonimato do interagente. Os avatares, usados como verdadeiras máscaras gráficas, permitem a exploração das identidades, das fantasias, dos jogos sociais de poder e de sedução. O ambiente
virtual se torna um playground das identidades, que podem ser ocultadas ou expostas, em um simulador de “superestimulação simbólica” (CASTELLS, 2000, p.385).
Na vida on-line, as pessoas encontram-se em situação de poder desempenhar papéis diferentes, adotando diversas personalidades nos diferentes lugares da Rede. Vêem e experimentam inúmeros aspectos delas mesmas. Vivem intensamente tal multiplicidade (Sherry Turkle em entrevista para CASALEGNO, 1999, p. 119).
A questão do poder também é fundamental para se entender a vida em um universo virtual. O poder de criar e controlar sua própria realidade é um aspecto de grande sedução desses universos.
O SL tem abertura suficiente para que comunidades inteiras e seus projetos possam, de forma não programada, aparecer, juntar-se a outros e inspirar vários e novos grupos a se diversificar. Essa é a alquimia do Second Life como uma Sociedade de Impressões: uma contribuição positiva leva a outra; uma forma de conteúdo de qualidade (arquitetura urbana) atrai outra forma de conteúdo de qualidade, totalmente diferente (role-play dinâmico), para construir tudo (AU, 2009, p. 68).
Podemos perceber, portanto, que a complexidade se reflete nas várias camadas de subjetividade que compõem o Second Life. E ao mencionarmos as expressões “anonimato”, “identidade” ou “liberdade de controle” estamos nos referindo às possibilidades de poder existentes no SL. Talvez este seja, de fato, o princípio fundamental da complexidade que reside no universo virtual, incomparável às outras plataformas virtuais de comunicação.
O aspecto open source de livre criação, que permite a produção de novos aparatos, objetos ou casas, e o acesso gratuito on-line que permite que qualquer pessoa com um computador de configuração avançada conectado à internet de banda larga possa experimentá-lo, complementam o potencial exclusivo de interação que o universo virtual do SL proporciona. Ainda segundo Au, “[...] isso faz com que a coisa toda se pareça com uma experiência literária coletiva ou com aquelas brincadeiras de faz-de-conta da infância – só que conduzida por códigos on- line” (idem).