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Muito se tem falado e discutido sobre a questão da laicidade no Brasil em razão da atual força política que detém a Bancada Evangélica no Congresso Nacional (FISCHMANN, 2009; RANQUETAT, 2012). Com um total de 76 deputados federais, a Frente Parlamentar Evangélica, se fosse um único partido, seria o terceiro maior na Câmara Federal, perdendo para o PMDB que conta com 82 e o PT com 89 deputados (GAZETA DO POVO, 2013).

Esse valor expressivo tem proporcionado aos parlamentares evangélicos ocupar espaços importantes no cenário nacional, como a liderança do PMDB na Câmara exercida pelo Deputado Federal PMDB/RJ e pastor da Igreja Sara Nossa Terra do Rio de Janeiro Eduardo Cunha e a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, que colocou em evidência nacional Marco Feliciano, que tem sido alvo de inúmeras críticas por seu posicionamento contundente e implacável sobre as questões LGBT.

O crescimento da representação política evangélica no cenário nacional pode ser entendido e compreendido sobre dois aspectos fundamentais: o aumento exponencial do número de evangélicos na população brasileira e, a evolução no pensamento evangélico sobre a possibilidade de compatibilizar o exercício da cidadania política com os interesses da religião. Segundo dados do último censo do IBGE, os evangélicos já somavam em 2010 42.300 (quarenta e dois milhões e trezentas mil) pessoas em todo o território nacional. Para

compreender a dimensão destes números, basta dizer que ele corresponde ao equivalente da população do Estado de São Paulo.

Não há como negar que esses números em primeiro momento garantem aos parlamentares evangélicos um enorme poder para ser utilizado como moeda de troca na persecução de seus objetivos, em troca de seu apoio político, como foi possível verificar nas eleições para a presidência em 2010, quando a candidata Dilma Rousseff, foi “obrigada” a realizar concessões aos parlamentares evangélicos, em troca de seu apoio nas urnas, modificando ou até mesmo excluindo de seu programa de governo temas complexos, como foi o caso da legalização do aborto.

A força da Frente Parlamentar Evangélica está, sobretudo, apoiada na capacidade de seus políticos direcionarem os votos de sua base de sustentação, as igrejas evangélicas, predominantemente pentecostais e neopentecostais, para os candidatos que eles apoiam. Se por um lado os parlamentares evangélicos possuem um grande eleitorado cativo, por outro, é corrente o entendimento de que os evangélicos não costumam votar em uníssono pelo simples fato do candidato declarar-se cristão, fato esse comprovado quando em 2002, o pastor e candidato à Presidência da República Antony Garotinho não conseguiu se eleger Presidente, entretanto, não se pode desprezar sua votação de 15.180,097 (quinze milhões cento e oitenta mil e noventa e sete) votos, perfazendo um total 17,86% (dezessete ponto oitenta e seis) pontos percentuais dos votos válidos.

Esse quadro revela que o simples fato do candidato se declarar evangélico não garante apoio incondicional e irrestrito das comunidades evangélicas, muito menos, o esperado êxito nas urnas com sua eleição. Os evangélicos como qualquer outro grupo social e político, se alinham com os candidatos mais próximos de suas convicções religiosas e posicionamentos doutrinários, sem desprezar ou menosprezar compromissos de campanhas de candidatos sem vínculo institucional religioso na hora de exercer a cidadania do voto. Outro elemento importante para a compreensão desse universo, está no fato de ser formado por inúmeras denominações, que não raras vezes, são antagônicas entre si por divergências doutrinárias, o que pode criar uma rejeição muito maior a uma candidatura evangélica e apoio à candidatura de um político sem vínculo com denominação religiosa.

Isso nos leva à compreensão de que o eleitor evangélico busca dentro de sua própria comunidade, candidatos com perfis identitários e valores ideológicos próximos de suas convicções religiosas para que ele efetivamente sinta-se representado politicamente. Deste modo, a ausência de associação política entre as igrejas evangélicas na consolidação de candidaturas aos diversos cargos do Poder Executivo são da mesma forma, refletidas nas

candidaturas legislativas, com ampla supremacia da eleição dos candidatos das Igrejas Assembleia de Deus38, maior denominação evangélica brasileira, sobre as demais denominações.

Com um total de 22 parlamentares eleitos, a Assembleia de Deus supera os parlamentares da Igreja Batista e IURD, de modo que, sem o seu apoio toda e qualquer investida da Frente Parlamentar Evangélica, pode estar destinada ao fracasso.

Se por um lado a força e supremacia da bancada assembleiana pode gerar conflitos, por outro a obtenção de seu apoio apresenta-se muito mais fácil e viável do que o apoio das inúmeras denominações que compõem a Frente Parlamentar Evangélica, com representação de um ou dois parlamentares que representam crenças identitárias bem distintas e com objetivos mais terrenos que divinos na concessão de seu apoio político.

Esse quadro demonstra que os parlamentares evangélicos tem se adaptado às regras fundamentais e complexas do “jogo político”, cedendo ou negando seu apoio de acordo com suas aspirações e intenções políticas, votando inclusive com bancadas que elegeram seus candidatos com valores opostos aos cristãos, como é o caso da Bancada Ruralista e Bancada da Bala, como é conhecida a frente parlamentar composta por políticos ligados à indústria de armamento, ex-policiais e militares de modo geral.

Casos como a questão da demarcação das terras indígenas, lei geral da copa, novo código florestal e kit anti-homofobia, dão a dimensão da capacidade de articulação política dos parlamentares evangélicos perante as demais forças que compõem o cenário político

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http://www.feminismo.org.br/livre/index.php?option=com_content&view=article&id=7004:um-estado-laico- com-bancada-evangelica&catid=79:space&Itemid=616 Acesso em 15 de agosto de 2013.

nacional e, como esses conchavos políticos são capazes de mudar os rumos da política nacional e, principalmente, as aspirações do executivo que vê nos acordos políticos o método mais fácil para governar o país.

O secretário executivo do Cimi Cleber César Buzatto afirma que é evidente no Congresso a existência de uma aliança bem costurada entre diferentes bancadas em votações que pretendem atingir direitos e ou a imagem dos povos indígenas. As bancadas ruralista e evangélica estão votando em bloco contra os povos indígenas. (CUNHA, 2013).

A questão levantada pela jornalista e professora Doutora Magali do Nascimento Cunha, representante da Igreja Metodista junto ao Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas, proporciona um panorama amplo para o entendimento das mobilizações partidárias nos bastidores políticos, de modo que arranjos sobre votações de temas controversos no cenário político-social possam garantir força política, que se traduz necessariamente, em concessão e obtenção de favores políticos.

Assim, a Frente Parlamentar Evangélica tem costurado acordos relevantes com as bancadas políticas, que apesar de não possuírem os mesmos objetivos que os seus, comungam dos mesmos interesses quando o tema é o entrave do processo político na aprovação de leis que são contrárias às suas ideologias ou não abrangem os interesses defendidos pela bancada evangélica.

Deste modo, fica latente que temas comumente condenados nos púlpitos das inúmeras denominações cristãs evangélicas, como violência urbana, crimes ambientais e infidelidade religiosa não recebem o mesmo tratamento pelos parlamentares que compõem a Frente Parlamentar Evangélica, de forma a compreender e aceitar a “coerência política” como mais importante para o processo constitutivo eleitoral, sendo colocada acima da coerência partidária e religiosa, criando um sistema de sentidos, onde o que prevalece são os aprendizados políticos e não os conceitos morais absolutos formados em uma base cristã de ensinamentos, para que uma política cristã seja antes de tudo, capaz de compactuar com políticas “profanas” quando o propósito é a obtenção e manutenção do poder político que garante não somente votos, mas projeção política para o futuro.

Seja com for, a Frente Parlamentar Evangélica tem demonstrado competência para costurar alianças políticas, que lhe permitam interpor-se entre os grupos políticos de apoio às reivindicações LGBT e a base de apoio e sustentação do governo no Congresso Nacional, forçando o governo a rever posicionamentos nas políticas públicas voltadas à concessão de direitos especiais a homossexuais, como forma de acalmar os ânimos dos parlamentares

evangélicos e minimizar as perdas políticas nas derrotas como a tentativa de distribuição do kit anti-homofobia para as escolas públicas.

Essa força evangélica no Congresso Nacional tem seus correspondentes estaduais e municipais, e talvez, essa correspondência seja a responsável em grande parte pelo sucesso dos parlamentares evangélicos federais, na persecução seus objetivos e aprovação de leis ligadas aos interesses religiosos, ao mesmo tempo em que inviabilizam a aprovação de leis fundamentadas em reivindicações LGBT.

3.5 Frente Parlamentar Evangélica uma força a ser temida pelo seu poder real ou por