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4 Evidence on consumption and income inequality

4.2 The partial insurance framework

4.2.1 Estimation with panel data

Figura 3 – Patriarca São Bento e ornamentos acima da entrada principal52

Entre os dois arcos basilares simétricos com forte influência românica encontra-se, em destaque, o guardião e patrono da ordem monástica beneditina São Bento. Sobre seu nascimento:

Após porfiados estudos, os historiadores monásticos beneditinos convencionaram situar os parâmetros biográficos de São Bento, o santo monge, natural de Núrsia, centro da Itália, entre os anos 480- 547. Por sua Regra monástica que lhe é atribuída, ficou conhecido como o patriarca do Monaquismo Ocidental.53

Indumentado com seu manto54, com postura de vigília e com uma das mãos estendida para a cidade, a estátua alude à intenção de proteção ao mosteiro, enquanto espaço de sublimação ao Sagrado, e tal gesto parece delimitar as fronteiras exercidas que o espaço

52 Foto do autor, em 08 de fev. de 2013, por volta das 11 horas da manhã, horário de Brasília.

53 DIAS, Geraldo J. A. Coelho. A regra de São Bento, norma e vida monástica: sua problemática moderna e

edições em português. História. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, III série, v. 3, p.9-48, 2002, p.3. Disponível em <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2278.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2013.

54“O monge ou a monja, no momento de se retirar do mundo, ao vestir o hábito e pronunciar seus votos, se

cobre com um manto ou capa. Esse gesto simboliza a retirada para dentro de si mesmo e para junto de Deus, a consequente separação do mundo e de suas tentações, a renúncia aos instintos materiais.” CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução de Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro: José Olimpo, 2012, p.589.

urbano estabelece, visto que “na tradição bíblica e cristã, a mão é o símbolo do poder e da supremacia. Ser alcançado pela mão de Deus é receber a manifestação do espírito”.55

O espaço sacromonástico intensifica-se por meio da construção arquitetônica do mosteiro e de seus elementos componentes ligados à simbologia cristã católica, conforme registrado no ato fotográfico. Portanto, a ideação das construções católicas ou, neste caso em específico, a estética das grandes e importantes abadias monásticas beneditinas espalhadas pelo mundo, seguem uma evidência e permanência histórica comum, talvez não tão perceptível ao longo da duração temporal56. Nesse sentido:

Pensemos por um momento no espaço da religião católica; esse espaço cobre toda a terra, porque a Igreja é indivisível; nesse universo, a área singular, seu conceito passa para segundo plano, assim como o limite ou a fronteira. O espaço é determinado com respeito a um centro único, a sede do papa; mas nesse espaço terrestre nada mais é que o momento, uma pequena parte do espaço universal que é o lugar da comunhão com os santos. [...]. No entanto, nesse quadro total e indiferenciado, onde o próprio espaço se anula e se sublima, existem “pontos singulares”; são eles os espaços de peregrinação, os santuários, onde o fiel entra em comunicação mais direta com Deus.57

Paralelamente com essa função espacial supracitada, a importância da disposição da imagem ao alto da entrada principal também afirma a proteção divina aos monges que estão sob seus auspícios e o configura como elemento de veneração aos devotos católicos frequentadores desse espaço.

A comunicação com o elemento sacramental dispõe de muitas formas e são manifestadas pelas sujeições das sonoridades características dos templos religiosos e suas concordâncias com as estruturações arquitetônicas. As disposições com os fenômenos ritualísticos dependem do

55 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos,

formas, figuras, cores, números. Tradução de Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro: José Olimpo, 2012, p.591.

56 Neste caso, as significações das temporalidades heterogêneas estão situadas nos ornamentos em toda a igreja

em relação à paulistaneidade. Segal elucida e atenta às escolhas e aos diferentes caminhos que o historiador pode percorrer em um tema. Assim, “[...] os ritmos não são independentes. Uma dada conjuntura pode estar ligada ao acontecimento de uma estrutura nova ou ao seu esboroamento. A conjuntura pode aparecer como causa; ela é geralmente um sinal ou um elemento”. SEGAL, André. Pour une didactique de la durée. In: MONIOT, Henri (Org.). Enseigneur L’histoire – des manuels à la mémoire. Berna: Peter Long Editions, 1984, p.7.

57 ROSSI, Aldo. A arquitetura da cidade. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001,

[...] padrão de significados transmitidos historicamente, incorporados em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio dos quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seus conhecimentos e suas atividades em relação à vida.58

Discorrer sobre tais características e inseri-las no estudo da apropriação religiosa que esse espaço monástico denota na urbe paulistana, requer abarcar tanto seus aspectos físicos coletados nas fotografias expostas, quanto seus aspectos sonoros. Assim, a carga simbólica em ambos os elementos vinculados ao passado medieval é expressa de forma evidente na conjuntura atual. A presença do elemento cósmico contido nos adornos59 situa-se fortemente na religiosidade da ordem monástica.60

Essa disposição entre a cosmologia anunciada na arquitetura externa-interna da igreja, com a atual sonorização ruidosa oriunda do exterior força, ou melhor, recria um imaginário de preservação do silêncio, propiciado pelo isolamento das paredes extremamente espessas e institui uma fronteira quase imperceptível entre o visual e o audível nas fotografias expostas. Em ambas, a estrutura religiosa do catolicismo romano ocidental incorpora tais dados na simbologia para afastar a rapidez da urbe.

O movimento dos corpos humanos e do corpo sonoro dos ruídos que nela estão dinamizam, muitas vezes, uma ruptura com o elemento sacramental. Assim, para os cristãos frequentadores, adentrar no santuário, faz ceder traços intersubjetivos da urbe para evocar outros, como a temporalidade religiosa do sossego, da oração, do encontro e reencontro com o sagrado, propiciado pelo tempo sacromedieval, dados

[...] que a cidade é percebida em movimento, essas qualidades são fundamentais e usadas para estruturar e até mesmo identificar, sempre que tenham coerência suficiente para tornar isto possível [aos pesquisadores], (como por exemplo, “vire à esquerda, depois à direita”) [...]. Essas qualidades reforçam e desenvolvem aquilo que um observador pode fazer para interpretar a direção ou à distância, ou para perceber o movimento da forma em si. Com a velocidade cada

58 GEERTZ, Cliford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p.66.

59 “[...] a noção de que a religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens da

ordem cósmica no plano da experiência humana não é uma novidade. Todavia, ela não é investigada e, em termos empíricos, sabemos muito pouco sobre como é realizado esse milagre particular.” Ibidem, p.67.

60 A estrutura arquitetônica do mosteiro passou obviamente por transformações ao longo de sua história na

cidade de São Paulo. No início do século XX, iniciou-se a construção do colégio e do espaço do mosteiro como um todo. Em 1910, teve início a construção da atual igreja realizada pelo arquiteto alemão Richard Berndl. A consagração da basílica e sua inauguração deram-se em 1922. MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE SÃO PAULO. Disponível em: <http://www.mosteiro.org.br/>. Acesso em: 03 abril 2013.

vez maior, essas técnicas vão precisar de um desenvolvimento adicional na cidade moderna.61

A aceleração urbana e todo seu movimento aclarado no excerto trouxe à tona a disponibilidade que a abadia tem em expor ao corpo físico dos frequentadores sua afirmação identitária contrária ao dinamismo temporal-corpóreo da cidade. Tantos os ritos, o silêncio, os sons dos passos, os desenhos e as imagens de santos são comuns entre si e sublimam um ritmo sagrado de lentidão e da não movimentação imprevisível da memória corporal urbana.

Por estar no centro do mistério cristão, o corpo é uma referência permanente para os cristãos dos séculos modernos. Não foi enviado seu Filho à Terra, pela anunciação-encarnação, que Deus deu aos humanos um chance de salvar-se de corpo e alma? Nos textos e nas representações que falam da criatura, de suas esperanças e de suas penas, o corpo está aí, sempre e em toda parte [...].62

O corpo cristão na abadia nutre-se da presença do sagrado, pois para contemplar a divindade cristã, principalmente nos costumes monásticos, é preciso isolar-se do exterior ruidoso, nesse caso, e acalmar o corpo para os que buscam por contemplação dentro da igreja.

Ouvir o eco e até mesmo sentir a temperatura ambiente mais baixa em relação à cidade, rememora o imaginário cristão da longa duração medieval no espaço estudado:

Na Contra-Reforma, não só não é unânime o olhar que a Igreja lança sobre o corpo, como a instituição deve contar com outra consciência do corpo, que é também outra concepção de vida e outra cosmovisão: a do mundo rural, que é mágica. A cristianização da sociedade desde a Idade Média veio contrariar a expressão de um antigo fundo de cultura agropastoril, na qual o corpo não era sentido da mesma maneira que na cultura da Igreja, uma vez que esta, [...] concedia ao corpo do indivíduo apenas um valor irrisório e uma duração efêmera.63

Embora o monastério como um todo não esteja no espaço da paisagem sonora rural da cultura agropastoril medieval, cuja citação clarifica,64 é adventício propor que neste caso,

61 LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes,

2011, p.119.

62 VIGARELLO, Georges (Dir.). História do corpo: Da Renascença às Luzes. Tradução de Lucia M. E. Orth.

Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p.19.

63 Ibidem, p.21.

64 Convém apontar um dado muito importante acerca do binômio entre a condição urbana e a condição

agropastoril do medievo, a fim de aproximar as diferenças e similitudes do medievo e da temporalidade atual, onde o mosteiro se situa. “Se remontarmos à Antiguidade, é em Roma, sobretudo, que se cria, do ponto de vista cultural, do ponto de vista dos costumes, uma oposição muito forte entre a cidade e o campo. E é aí que começa a aparecer um vocabulário que vai ser reforçado precisamente na Idade Média. Os termos relacionados à cidade

tanto essa ruralidade quanto a urbanidade atual tenham estranhamente um ponto em comum: são formas exteriores avessas ao espaço contemplativo de que o corpo religioso cristão tanto precisa. Ouvir os sons do santuário – praticamente o silêncio e poucos ruídos corporais quando não há missas – diminui a sensação da secularização urbana atual.

O paradoxo surge sutilmente porque alguns sons naturais e comuns em uma paisagem sonora ruralizada como os da chuva, dos pássaros, ou de uma suave brisa sentida num espaço aberto, por exemplo, colaboram para um estado meditativo (mesmo os santuários não cristãos) e que outrora, no medievo, foram demonizados, não estejam mais de forma perceptível na cidade paulistana.

Talvez a resposta para essa preferência histórico-sonora encontra-se na intensidade do aumento dos ruídos artificializados do mundo pós-moderno, e o mosteiro nesse caso busca resistir a eles:

Durante a Revolução Industrial, o ruído Sagrado passou para o mundo profano. Então os industriais detinham o poder e tinham permissão para fazer Ruído por meio das máquinas a vapor e dos jatos de vapor das fornalhas, do mesmo modo que, anteriormente, os monges tinham sido livres para fazer Ruído com o sino da igreja, ou J. S. Bach para registrar seus prelúdios no órgão.65

É difícil, no entanto, verificar com exatidão o desejo pessoal de cada um de seus visitantes ou mesmo dos fiéis católicos pelos sons considerados sagrados dentro da abadia. Mas, podemos buscar arrimo no que o próprio espaço físico religioso oferece.

A escolha em compor estruturalmente os santuários com adornos medievais para unificar ainda mais o binômio da junção temporal do homem com a junção temporal da divindade cristã, arguciada nesta pesquisa, neste caso, é vislumbrado ainda pela ordem beneditina, e (re)significou os traços estéticos da Antiguidade adentro do medievo, como a utilização das colunas greco-românicas e dos arcos, que são características comuns dos monastérios beneditinos, para fortalecer o imaginário cristão66.

denotam a educação, a cultura, e os bons costumes [...]. A Idade Média herda da Antiguidade latina [...] esse desprezo pelo campo, sede do bárbaro, do rústico.” LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades. Tradução de Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. São Paulo: Editora UNESP, 1998, p.124.

65 SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 2001, p.114.

66 Mas é lícito propor uma comparação entre algumas similitudes da sacralidade Ocidental e Oriental. Os antigos

templos budistas tibetanos, por exemplo, decoram e sacralizam os seus monastérios muito similarmente às antigas ordens cristãs da ortodoxia greco-romana. Embora suas divindades estejam ligadas diretamente aos elementos da natureza, em ambas, as sacralidades confluem-se nos aspectos renunciativos do corpo ao mundo

Não à toa, o báculo67, segurado pelo patriarca ainda na figura 3, simboliza a obediência e a conduta interna regida pelo Abade. Esse objeto sacramental advém de um costume vetusto nos elementos apolíneos que o mosteiro tem em seu imaginário arquitetônico estético:

Apolo foi um grande harmonizador dos contrários, por ele assumidos e integrados num aspecto novo. [...]. Apolo revela aos seres humanos a trilha que conduz da „visão‟ divinatória ao pensamento. O elemento demoníaco, implicado em todo conhecimento do oculto, é exorcizado. A lição apolínea por excelência é expressa na famosa fórmula de Delfos: „Conhece-se a ti mesmo‟. [...] A serenidade apolínea torna-se, para o homem grego, o emblema da perfeição espiritual e, portanto, do espírito.68

O legado e o patronato de São Bento sustentam a ressignificação de hábitos e elementos arquetípicos helênicos, adentro da história do cristianismo, sejam eles pictóricos, musicais ou ritualísticos, como veremos adiante.

Sua estátua deve posicionar-se acima da entrada da igreja, porque a memória religiosa da veneração de fé e sua presença ininterrupta no local amolduram-se com a memória física adornadas na igreja. A serenidade e o isolamento acústico também se utilizam desses adornos. Ambas favorecem o desejo de “conhecer a si mesmo” e a divindade a ser buscada. Portanto, preservados no local desde então, eles indiciam uma proximidade arquetípica69 dos templos apolíneos no mundo helênico.

Ao contrário da história da filosofia patrística, muito pouco se estudou na historiografia a respeito da ressignificação do neoplatonismo dentro dos moldes estéticos da sonoridade cristã, que tanto esta pesquisa busca investigar.70 O recuo dos arquétipos helênicos adentro da memória do monastismo beneditino ainda é transmitido nos dias atuais, de maneira

exterior, desejo em vivenciar um estado meditativo constante perante a efemeridade do que consideram a vida secular não religiosa e viver em comunidade.

67 “[...] o cajado do pastor reaparece no báculo pastoral do bispo [...], apoio para o andar, mas signo de

autoridade.” CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução de Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro: José Olimpo, 2012, p.124.

68 BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. vol. 2. Rio de Janeiro: Vozes, 1987, p.32.

69 “O inconsciente coletivo é constituído pela soma dos instintos e de seus correlatos, os arquétipos. Assim cada

indivíduo possui instintos, possui também um conjunto de imagens primordiais.” JUNG, Carl. A natureza da

psique. Petrópolis, RJ: Vozes, 1984, p.73.

70 De forma acessível, irei decompor a estética escrita do canto gregoriano em Poslúdio, para vir à tona, ainda

mais os traços apolíneos e neoplatônicos. (Des)cobrir essas evidências deveu-se às leituras e às citações literais transpostas da obra de Gustav Carl Jung. Ver capítulo dois.

inconsciente, conforme identificado. Muitos desses traços nos escapam e carecem de melhores pesquisas sobre levantes temas.

Destarte, os mecanismos da memória do cristianismo ocidental na nossa cultura são inúmeros. Neste caso, as construções de novas catedrais com estética medievalizante nas cidades ao redor do mundo nos revela uma amplitude historiofônica71 ecoada desse período. Amplitude porque as grandes transformações acústicas oriundas do Modernismo e do Pós- Modernismo não suplantariam mais o âmbito sonoro e o âmbito visual da memória sacromedieval em seu cotidiano dados pela intensidade sonora iniciada do processo industrial.

Assim, convém lembrar mais um fator fulcral: o espaço atual do mosteiro, de fato, no que tange a sua arquitetura e toda sua sonoridade, diferenciam-se em relação ao seu passado colonial. Esse penúltimo foi evidentemente apagado em meio as grandes transformações da Modernidade nos primeiros decênios do século XX na urbe paulistana conforme vimos nas imagens anteriores:72

Enquanto na virada do século para o XX a palavra de ordem é “civilizar”, isto é, ficar em pé de igualdade com a Europa no que se refere a cotidiano, instituições, economia, ideias liberais etc., nos anos 30 a questão fundamental é realizar uma espécie de ajuste de contas entre o conjunto das ideias modernas e a realidade institucional do país; ou seja, adequar esta modernidade a um quadro institucional possível.73

A escolha em conter as características circulantes comuns à ornamentação iconográfica medieval beneditina, na última grande construção, e o desejo de afastar os traços arquitetônicos oriundos da cidade paulistana jesuítica ainda evocam na memória coletiva atual uma ilusão de que o mosteiro se parece com uma construção medieval e que se mantém congelado temporalmente sua forma, na própria história da urbe. As catedrais com traços medievais no Brasil denotam, então, um desejo em potencializar uma fé mais “pura”, “estática” ou hermética nos moldes da ordem beneditina.74

71 Termo cunhado nesta pesquisa com o intuito de que os sons, além de estarem num plano da física acústica,

não podem somente permanecer neste campo do saber. Eles podem também serem estudados como pertencentes ao processo histórico humano.

72 Acerca das transformações urbanas influenciadas pelo capitalismo e suas estruturações territoriais nas grandes

cidades, ver: ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: Brasiliense, 1995.

73 HERCHMANN, Micael; PEREIRA, Carlos Alberto Menneder (Orgs.). A invenção do Brasil Moderno:

medicina, educação e engenharia nos anos 20-30. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p.12.

74 A importância em trazer substancialmente essa evidência venializa ainda mais os diferentes ritmos temporais

Ora, realizados todos esses aclaramentos, resta na fotografia, mais um artefato importante: a disposição do relógio, situado ao meio e ao alto, não parece indiciar uma causalidade simples em apenas favorecer a disposição da notação das horas para todos os passantes que desejam visualizar as horas, mas sim demonstra que o mosteiro conduz sua própria temporalidade diante do mundo exterior, sendo o relógio um símbolo da Modernidade.

A colocação do relógio nas grandes igrejas cristãs e, nesse caso, acima da estátua, aviva em meios simbólicos, a consagração do tempo humano e as ações terrenas perante Deus. O tempo divino para os religiosos da ordem beneditina está acima de todas as coisas, marcando seu cotidiano e o calendário do monastério.

Essa associação dentre conjunções simbólicas demonstra-se quando projetamos nosso olhar para esse espaço e o comparamos com os prédios atuais à sua volta. Talvez, do ponto de vista da atual conjuntura urbana, o relógio ao alto da igreja pouco faz diferença75, embora, as suas permanências temporal religiosas foram tema de interesse para alguns historiadores do início do século XX e atuais.

Dentre os povos do Ocidente, foram os alemães que descobriram o relógio mecânico, o terrível símbolo da passagem do tempo, e os carrilhões de incontáveis torres de relógio que ressoam dia e noite pela Europa ocidental são, talvez, a mais maravilhosa expressão do que é capaz um sentimento histórico de mundo.76

Destarte, o patriarca encontra-se abaixo do relógio e logo acima das pessoas que adentram na igreja. Ele intermedia, então, a junção do tempo divino, marcado pela linearidade, pois “[...] o cristianismo desenvolveu a ideia retilínea de tempo como progresso,

por tais caminhos, ora sutis ora não, que se deu pela construção de distintos sentidos, representações, conjunturas díspares e confluências comuns na acústica religiosa. CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

75 No contemporâneo, a necessidade de visualizar as horas é dada principalmente pela utilização de aparelhos

tecnológicos como celulares, smartphones, iphones, etc., e este costume atual parece tornar efêmero um tempo