6. RESULTS
6.1 D ESCRIPTIVE S TATISTICS
Piaget (1932/1994) relata uma pesquisa que efetuou sobre as regras de um jogo (jogo de bolinhas), a fim de entender como a criança adquire ou constrói o respeito a essas regras, a
tomada de consciência das regras. Para isso, observou e interrogou crianças no momento em que praticavam tal jogo.
Concluiu que a criança percorre quatro estágios5 concernentes à prática do jogo:
1º - Regras Motoras – a criança pequena, até por volta de 3 anos, joga pela satisfação do ato de jogar; mesmo estando mais crianças jogando, esta joga sozinha em um brincar individual, e essa brincadeira é diferente do próprio jogo;
2º - Estágio egocêntrico6 – a criança, por volta de 3 a 6 anos, apesar de começar a imitar a maneira que os maiores jogam, faz uso das regras, mudando-as sempre que lhe convém, ainda jogando por si própria e não combinando como irão jogar;
3º - Cooperação nascente – por volta de 7 a 10 anos, as crianças empregam as regras para se organizarem entre si, como uma espécie de controle mútuo. A despeito de estarem começando a descobrir que as regras devem ser as mesmas para todos, como uma necessidade de fluir o jogo, ainda não as combinam muito bem antes de começarem a jogar;
4º - Interesse na regra por ela mesma – aproximadamente após os 11 anos, as crianças passam a combinar as regras com seus companheiros antes de jogarem, buscando construí-las de forma justa para todos.
Já para a consciência das regras do jogo, o autor encontrou três estágios, descritos a seguir:
1º - Regra não coercitiva – crianças pequenas, até por volta de seus 3 anos, não mostram ainda uma compreensão das regras, não tendo consciência de sua obrigatoriedade que regula um certo modo de jogar;
2º - Regra sagrada e obrigatoriedade – isso acontece na criança no período aproximado de 4 a 8, 9 anos; para ela, a regra é como qualquer outro fato da natureza, sendo imutável. As regras do jogo sempre existiram e qualquer mudança seria inválida, como uma transgressão;
3º - Consciência das regras – nesse período, a criança acredita que a regra é construída pelo grupo e pode ser modificada, quando este sentir necessidade. Para ela, a regra é necessária para que todos os jogadores tenham a mesma condição de jogar. Aqui, a regra é fruto da atividade racional e social.
Segundo Piaget, como já mencionamos, as crianças nascem sem regras, num período chamado de anomia. Para que elas se desenvolvam moralmente, é necessário haver uma
5 Estágios com idades prováveis e não estagnadas.
6 Entendemos por egocentrismo, como explica a teoria piagetiana, a indiferenciação entre o sujeito e o mundo, que no campo social se dá pela indiferenciação entre o outro e o eu. Assim, no jogo, as crianças, mesmo quando juntas, brincam individualmente com uma matéria social.
educação moral que seja exercida pelo adulto para com a criança ou do mais velho para com o mais novo. No caso da consciência da regra do jogo, esta, para o autor, não está isolada do conjunto da vida moral da criança.
Nesse primeiro momento, até por volta dos três anos, a criança joga bolinhas como bem entende, procura simplesmente satisfazer seus interesses motores ou sua fantasia simbólica, adquirindo hábitos que constituem espécies de regras individuais, como uma ritualização das condutas gerais. Essas condutas podem ser observadas nos bebês antes mesmo de apresentarem qualquer linguagem ou pressão moral exercida pelo adulto. E, no conteúdo de cada ritual, de acordo com Piaget, é possível saber o que é inventado pela criança, o que foi descoberto na natureza ou imposto pelo adulto.
No entanto, a respeito da consciência da regra enquanto estrutura formal, não há essas diferenciações do ponto de vista do próprio sujeito, porque, desde o início de sua vida, tudo exerce pressão para lhe impor a noção de regularidade, como a lei física (dia, noite, quente, frio) e a lei moral, esta decorrente de outras regularidades (dormir, comer, tomar banho).
Nesse sentido, no primeiro estágio, devido ao fato de a criança nunca ter visto alguém jogar, pode-se admitir que se trata de rituais puramente individuais, contudo, a experiência da criança até o momento mostra a ela que, como todos os fatores apresentam uma regra (leis físicas, leis morais), no contato com a bolinha (no caso do jogo de bolinha apresentado por Piaget), ela supõe que a relação com esse novo objeto (assim como os outros) também terá certas regras.
No segundo estágio da consciência da regra pela criança, a regra é sagrada e mantém uma obrigatoriedade. Para a criança desse período, a regra é como qualquer outro fato da natureza, sendo assim, imutável. Esse estágio se inicia quando a criança, “[...] por imitação ou por contato verbal”, se interessa em jogar conforme as regras recebidas do exterior.
Para entender a consciência da regra nesse estágio, Piaget a divide em três grupos de análise, fazendo três principais perguntas: “[...] podemos mudar as regras, as regras sempre foram o que são hoje e como começaram?” (PIAGET, 1932/1994, p. 52). Com esse interrogatório e observação da prática do jogo, o autor pôde perceber que a criança, sobretudo no início dessa fase, joga para si, buscando satisfazer seus desejos e, mesmo que tentando imitar as regras dos maiores, não se preocupa quando essas são infringidas; entretanto, ao mesmo tempo, ela mantém em seu íntimo um respeito místico para com as regras, acreditando que são eternas, em função da autoridade, sendo ela paterna, divina ou de outro adulto. Acreditam que, ainda que essas regras pudessem ser modificadas, não teriam o mesmo valor das apresentadas inicialmente.
Malgrado a diferença entre a prática egocêntrica do jogo e a consciência da regra exprimida por seu respeito místico, o autor explica que não há nenhuma contradição entre elas. Esse respeito é, segundo ele, o indício de uma mentalidade moldada pela coação adulta. Dessa forma, a criança, ao imitar os maiores na prática das regras, tem impressão de se submeter a leis imutáveis. Nesse caso, a pressão dos maiores sobre os mais novos é “assimilada”, grande parte das vezes, com a pressão adulta.
A imitação da criança à prática das regras pelos mais velhos não provoca uma cooperação na ação, pois, embora sejam todas crianças, os mais velhos exercem coação sob os mais novos. Tem-se aqui, “[...] simplesmente, uma espécie de mística, de sentimento difuso de participação coletiva”, explicando o fato de não haver contradição entre a prática e a consciência da criança, porque, como muitas místicas, esta “[...] combina muito bem com o egocentrismo” (PIAGET, 1932/1994, p. 58).
Piaget (1932/1994) ressalta que a cooperação nasce somente entre iguais. Somente com a cooperação entre iguais, pouco a pouco, vai ser modificando a atitude prática da criança, ao ponto de fazer desaparecer essa mística da autoridade.
A cooperação nascente (a partir dos sete, oito anos) não basta, de imediato, para repetir a mística da autoridade e o fim do presente estágio (consciência da regra) se sobrepõe à metade do estágio (prática do jogo) e à cooperação. (PIAGET, 1932/1994, p. 59).
O terceiro estágio da consciência da regra ocorre por volta dos dez anos, a partir da segunda metade do estágio da cooperação e durante todo o estágio da codificação das regras. Há, nesse estágio, a união da cooperação e da autonomia, que sucede a união anterior do egocentrismo e da coação, de maneira que a consciência da regra se modifica completamente; com a sucessão da heteronomia pela autonomia, a criança interpreta a regra do jogo não mais como algo externo, imutável e imposto pelos adultos, mas como o resultado de uma convenção, isto é, ela é decidida livremente e é digna de respeito, pois é mutuamente consentida. Há então o que Piaget chama de três sintomas: primeiro, a criança aceita que se mudem as regras, desde que todos do grupo aceitem e seja uma regra justa para todos e digna, mantendo o jogo com o prazer do risco, por exemplo, e não com regras que o tornem de ganho fácil; a criança não acredita que as regras feitas no passado sejam as melhores e dignas de serem respeitadas acima de tudo, mas crê no valor da experiência, desde que seja aprovada coletivamente; em segundo lugar, a criança deixa de conceber as regras como eternas; e, em terceiro lugar, acredita que as regras que moviam as primeiras crianças que começaram o jogo
de bolinhas foram inventadas por estas e não impostas por um adulto, sendo estabelecidas por elas pouco a pouco, até chegarem às regras que conhece.
Daqui por diante, a regra é concebida como uma livre decisão das próprias consciências. Não é mais coercitiva nem exterior: pode ser modificada e adaptada às tendências do grupo. Não constitui mais uma verdade revelada, cujo caráter sagrado se prende às suas origens divinas e à sua permanência histórica: é construção progressiva e autônoma. (PIAGET, 1932/1994, p. 64).
Nesse sentido, será na medida em que acontece essa sucessão da heteronomia para a autonomia, no momento em que a regra de cooperação sucede a regra de coação, que a regra se constitui como uma lei moral efetiva, porque esta faz parte do sujeito que acredita na necessidade da regra em existir para o bom andamento do jogo, e não como algo imposto pelo mais velho, trazendo com isso a obrigatoriedade de ser seguida sem modificações. Conforme Piaget, no caso do jogo das bolinhas, essa evolução é percebida até por volta dos onze, treze anos, pelo fato de que é aproximadamente até essa idade que acontece o interesse pelo jogo, permitindo que estes joguem entre iguais sem sofrerem pressão dos parceiros; se porventura esse interesse ocorresse entre outras idades, como, por exemplo, até por volta dos dezoito anos, essa evolução na consciência se estenderia mais.
Semelhantemente à tomada de consciência das regras do jogo, as regras morais, segundo Piaget, também se constroem primeiramente no campo da prática e depois para o campo da consciência interior. E isso será constituído à proporção que a criança se relaciona com o outro.
O pensamento, de fato, está sempre atrasado em relação à ação, e a cooperação deve ser praticada muito tempo antes que suas consequências possam ser plenamente manifestadas pela reflexão. (PIAGET, 1932/1994, p. 60).
A respeito dessa evolução, Piaget (1932/1994) concorda com a tese apresentada por Bovet sobre a gênese da obrigação consciente, que discute que “[...] o sentimento da obrigação só aparece quando a criança aceita imposições de pessoas pelas quais demonstra respeito” (p. 52). Para essa teoria de Bovet, Piaget acrescenta as duas formas de respeito: “[...] ao lado do respeito unilateral do menor pelo maior, um respeito mútuo de igualdade entre eles”. Para Piaget, “[...] a regra coletiva, em consequência, surgirá como produto tanto da aprovação recíproca de dois indivíduos como da autoridade de um sobre o outro” (p. 52).
Assim, para Piaget, a moralidade autônoma é resultante de um processo de construção interior, que se dá por meio da interação que o sujeito estabelece com o meio social, dependendo precisamente da cooperação progressiva, e não de acumulação de informações exteriores. Desse modo, podemos afirmar que, para haver o desenvolvimento da autonomia moral, é essencial o papel da educação moral fundamentada na autonomia e na reciprocidade, educação esta capaz de favorecer um ambiente social em que se possibilite à criança experienciar e manter um relacionamento interpessoal baseado na solidariedade e cooperação, especialmente entre seus iguais.