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1. Introduction

1.1. Escherichia coli

Neste procedimento, escolhi propor ao grupo uma série de atividades, sem dar qualquer instrução, pois o objetivo era ressaltar o caráter de experiência do encontro. As instruções foram dadas ao final. Iniciei as atividades pedindo que os alunos atores formassem

Figura 22 - Livro do ator

Fonte: Acervo pessoal de Marcelo Braga.

uma roda. Começamos, então, a cantar a música Carinhoso, de Pixinguinha. Depois que todos já tinham se apropriado da letra e melodia, estimulei a movimentação da roda, tendo a música como guia. A partir desse momento, comecei a conduzir o canto como se os alunos fossem um grupo coral, indicando quem deveria cantar as diversas partes da música: em um primeiro momento, só os homens, em um segundo momento, só as mulheres e depois propondo variações fazendo com que grupos de três ou quatro integrantes cantassem, chegando também a sugerir que pequenos solos fossem feitos.

Em uma segunda etapa, foram formadas duas rodas, uma maior e outra menor, ficando a segunda dentro da primeira, sendo que a música foi sendo entoada ora por uma roda, ora por outra. Por fim, voltamos ao formato da roda grande e os aprendizes continuaram cantando. Enquanto isso, eu estendi uma toalha no chão do palco e coloquei sobre ela, salgadinhos e doces. Quando a pequena refeição estava pronta, os aprendizes pararam de cantar e todos se sentaram em volta da toalha e começaram a se alimentar. Enquanto todos comiam, fui explicitando que aquilo foi inspirado na seguinte frase de Myrian Muniz: “Quem como junto, fica junto!”, e prossegui dando um depoimento sobre a importância da minha formação junto a ela e falei também da forma como eu escolhi viver o teatro. Ressaltei ainda o fato de que tinha escolhido uma maneira afetuosa de atuação pedagógica por acreditar que esse seria o caminho mais curto e efetivo para tocar sensivelmente o aprendiz durante um processo de formação.

Depois disso, dei de presente, a cada um dos alunos atores, um exemplar da REVISTA DO TEATRO da SBAT, por considerar aquele momento como sendo o fim de um ciclo formativo, pois na semana

anterior o grupo tinha apresentado o show de calouros, que é a primeira experiência de apresentação pública para o grupo de ingressantes. Explicitei também que aquele momento representava o início de uma nova fase no processo de formação e por isso a necessidade de criar um ritual de passagem, simbolizado pela comida e pelo pequeno presente. Falei também da minha crença de que o fazer teatral é uma atividade eminentemente coletiva e que estar juntos, de verdade, é o primeiro passo para se fazer teatro. Explicitei ainda que o aprendizado das técnicas no processo de formação do ator só tem sentido se vier acompanhado dessa consciência de que a arte teatral é coletiva e grupal. Depois disso, iniciamos uma conversa aonde foram compartilhadas as impressões sobre a experiência recém vivida e os aprendizes manifestaram suas impressões sobre o tema. Ao final, explicitei que aquilo tinha sido a apresentação do meu clipe pessoal46 ou porão47 e solicitei que, na próxima semana, todos os alunos atores apresentassem o seu. Expliquei que, neste procedimento, o aprendiz apresenta alguma passagem de sua vida que considera relevante e que deseja compartilhar com o grupo, sempre acompanhada de uma trilha sonora cantada, que se relaciona com o fato narrado. Para finalizar o procedimento, utilizei o recurso da partilha48. Foi muito curioso notar que, durante a partilha, a emoção de ter participado daquela experiência prevaleceu nos depoimentos

46 Clipe pessoal é o nome que eu utilizo para identificar esse procedimento.

47 Porão é o nome que era utilizado por Myrian Muniz para identificar esse procedimento. 48 Partilha é um recurso de apreciação do encontro, inspirado em um ritual indígena. Todos se sentam em roda e uma pessoa inicia a partilha, segurando um objeto comum ao grupo. Esta pessoa aprecia, como quiser a experiência vivida naquele dia. Ao final do seu depoimento, essa pessoa passa o objeto de partilha para que o próximo elemento da roda faça a sua apreciação individual. As pessoas só podem falar se estiverem com o objeto de partilha nas mãos. Se alguém da roda estiver dando um depoimento e outra pessoa concordar com o que estiver sendo dito, esta pessoa simplesmente diz: HOW! Depois que todos da roda falaram, o último integrante encerra a partilha, após dar o seu depoimento.

partilhados. Muitos aprendizes se emocionaram ao falar sobre o que tinham vivido, revelando a importância de estar ali. Em vários momentos, eu também fiquei, como condutor desse processo, muito emocionado por ver muitos deles relatando que as experiências ali vividas têm sido importantes para o seu autoconhecimento. Vale ressaltar aqui que, para mim, aquele foi um dia muito especial, pois acredito ter conseguido propiciar a todos uma experiência sensível e fundamental para quem deseja ter o teatro como profissão. Pude também, de certa forma, reformulando um pressuposto pedagógico de Myrian Muniz - Teatro e vida se misturam - proporcionar essa vivência tão fundamental para um grupo que começava a se formar e que iria seguir junto por mais três anos.

Nos dois encontros seguintes, os alunos atores realizaram suas apresentações de maneira muito intensa, narrando fatos importantes da sua história pessoal e, muitas vezes, essas narrações foram carregadas de forte emoção. Acredito que a experiência de dividir vivências pessoais com o grupo foi de extrema importância, pois criou empatia e identificação entre os membros e propiciou a criação de um ambiente de confiança e segurança. Os depoimentos selecionados e apresentados a seguir são referentes aos três encontros em que o procedimento foi apresentado.

PRIMEIRO ENCONTRO:

Essa foi uma das aulas mais importante para mim. O que estou sentindo não tem preço. (E. M.)

Hoje o valor do grupo e o valor de cada um ficaram maiores e tudo que já sabíamos ficou mais claro... Na nossa nave chamada “coletivo” temos novos integrantes, um deles se chama Marcelo Braga, que está cada vez mais perto de nós. (J. P.)

O legal de um grupo é que todos têm suas experiências e quando são compartilhadas se tornam experiências de todos. Juntando todos em um só, na verdade viramos a metade de um. (K.J.)

Que aula foi essa? Quanto sentimento, quanta ternura e quanta entrega. Poucas vezes na vida participei de algo semelhante. Quando parecia que teríamos uma aula de técnica vocal a coisa foi para um lado que rolou tanta emoção e a música Carinhoso foi cantada de jeito mais lindo que eu vi e ouvi. Os depoimentos foram muito profundos e sinceros. (W. N.)

Hoje partilhamos o pão, a idéia e a vida. (L. D.)

Quando o sentimento é tão forte as palavras se tornam insuficientes. Como o ser humano é lindo e como ser artista é maravilhoso. (B. A.) Acho que não dissemos tudo, mas o que dissemos foi válido. Comer junto, ouvir junto e cantar junto é foda. (B. C. 2)

M-estre de hoje que com A-mor nos uniu trazendo R-eflexões e experiências

C-ompartilhando aquilo que fez parte do seu crescimento E-m nossa caminhada será alguém

L-embrado com muito carinho respeito e admiração

DEPOIMENTOS DO SEGUNDO E TERCEIRO ENCONTROS Cada história de vida nos trouxe até aqui. (T. T.)

O teatro simplesmente me torna uma pessoa melhor! (C. L.) Dia incrível: choro... amizades reforçadas – Grupo. (D. M.) O teatro tem me feito ver a vida diferente. (M. R.)

Foi uma experiência de vida aprender com as pessoas. (D. G.) Tantas histórias, tantos relatos, tantas lágrimas. Muita verdade. Muito amor. A vida é assim... (W. N.)

Entender quem você realmente é importante para a caminhada do ator. (S. N.)

Puta que o pariu!!! Perdoe-me pela expressão, mas foi a frase mais próxima aos meus sentimentos que encontrei pela aula de hoje. Conhecer o outro e me apresentar. Jamais imaginei que fosse tão interessante! Obrigada pela aula maravilhosa, pela magnífica experiência de vida! (B. A.)

Foi muito bom conhecer a vida de cada um, saber o que se passa atrás de cada rostinho. Isso nos une. (A. F.)

Entrar e sair de mim, sem deixar marcas ruins. (F. C.)

Nossa, que aula. Eu a chamaria de “foda”! Eu sempre acreditei que o teatro tem esse poder de fazer as pessoas se abrirem para o mundo. Obrigado, pois estou me sentindo parte do teatro. (L. S.)

TEATRO: Personalidades diferentes. Dificuldades parecidas. Propósito comum. Ser feliz! (J. P.)

Falar de si para se conhecer, se entender para entender o outro. (J. V.)

Figura 23 - Livro do ator

Fonte: Acervo pessoal de Marcelo Braga.

Figura 24 - Livro do ator

Fonte: Acervo pessoal de Marcelo Braga.

(D.M)

Ouvi alguém dizendo algumas coisas e me identifiquei. Era um pedacinho de mim, um tanto daquilo que sou. Espelho. Espectro. Intelecto. Introspecto. (D. M.)

Vale ressaltar que os alunos atores relataram a mim, depois que tiveram essa experiência com o clipes pessoais/porões, que eles se sentiram muito mais próximos e conectados uns com os outros. Este procedimento funcionou como um catalisador das relações pessoais dentro do grupo.