A tarefa mais importante vai ser então o levantamento da força militar e essa só podia ser feita pelas juntas regionais e locais, ou seja, recorrendo a mecanismos abrangentes da governação portuguesa. As juntas, através de editais, convocaram homens por todo o país para os urgentes alistamentos militares. Foi um levantamento nacional que abrangeu todos os setores da sociedade portuguesa: “os eclesiásticos davam o exemplo, os outros grupos sociais não ficavam atrás”277. Simultaneamente,
preenchiam-se as unidades regulares, de milícias e ordenanças, enquanto na Grã- Bretanha se procedia ao levantamento de um importante corpo militar, a Leal Legião Lusitana. Inúmeros corpos de voluntários foram (re)criados como a brigada de voluntários de Marinha da Junta do Porto ou o Corpo de Voluntários Académicos de Coimbra278, Voluntários do Comércio de Lisboa e Porto ou os Voluntários da Ordem de Malta.
Mas a visão holística de Wellington sobre a coordenação política e militar não se limitava a uma adaptação às existentes e possíveis chefias portuguesas, preocupando-se o General, desde o início, em marcar uma posição forte perante a restante população. Fez parte da estratégia de Wellington demonstrar que os aliados britânicos se distinguia dos ocupantes franceses e, assim, os cuidados de Wellington com a população apareceram desde os primeiros momentos em que esteve em Portugal.
Para se diferenciar dos franceses, deu ordens muito claras aos seus oficiais e soldados para que “respeitem o culto, não entrem nas Igrejas como turistas durante o sagrado ofício e saúdem quando passa o Santíssimo Sacramento”. Este foi um bom exemplo do que tinha aprendido nas suas anteriores missões: “em Portugal, tal como na Índia, o general protestante quer demonstrar o maior respeito pelos costumes vernaculares”279. Esta relação com as populações vai funcionar nos dois sentidos:
Wellington dirigiu-se muitas vezes à população e a população também se lhe dirigiu diretamente, desde os primeiros momentos de Wellington em Portugal. A título de exemplo refira-se a carta que enviou aos negociantes de Coimbra em agosto de 1808 e na qual referia as inúmeras missivas recebidas: “Meus Senhores. Tive a honra de
277
Tavares, 2009: 222.
278 “A partir de finais de julho de 1808, passa a contar com sete companhias, assim distribuída: cinco de infantaria, uma de cavalaria e uma de artilharia”, Araújo, 2009: 287.
279
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receber a vossa carta, participando-me a oferta de um presente de vários refrescos para uso da tropa que está debaixo do meu comando”280.
Poderíamos ir mais longe e afirmar que este pensamento de Wellington é transversal a vários comandantes britânicos, como, por exemplo, Sir John Moore, que comanda as principais operações militares na Península Ibérica no final de 1808. Este traduz numa das suas diretivas de comando as preocupações que o Exército Britânico devia ter também em Espanha, ou seja, de procedimentos para com a população que não terminam na fronteira de Portugal281 e, como veremos, serão um dos motivos de sucesso da estratégia aliada.
Importa clarificar que, embora Wellington tenha assumido o comando das forças expedicionárias britânicas durante a primeira invasão francesa282, esta função estava destinada a outros e imediatamente após a Batalha do Vimeiro, em agosto de 1808, foi assumida por seus superiores hierárquicos283. Assim, para efeitos do nosso estudo, interessa mais a ação de Wellington em Portugal a partir da segunda invasão quando, de forma clara, assume o comando sobre as forças aliadas britânicas e portuguesas.
Mas desde a primeira invasão que tinha ficado claro o pensamento do general britânico sobre a necessidade de assumir o comando completo sobre as forças britânicas e portuguesas, sobre a importância que dava ao controlo e execução financeira e logística284 (assumiu funções como comandante aliado no dia 7 de abril de 1809)285 ou, por exemplo, sobre questões que, teoricamente, pertenceriam a outros “acima” na cadeia de comando ou no lado político da decisão. Podemos ler, num
280
Carta de Wellington aos negociantes de Coimbra escrita a partir de Lavos no dia 6 de agosto de 1808, Neves, 1810/11: 474.
281 “O comandante das forças inglesas acredita que, após a entrada em Espanha [vindos de Portugal] tudo faça para manter o bom nome da Grã-Bretanha para poderem ser bem aceites e recebidos pela população espanhola”, Moore, 1809: 8.
282 “Nomeou-se o Tenente-general Arthur Wellesley para comandante da expedição da Irlanda”, Neves, 1810/11: 460.
283 Sobre a subordinação de Wellington a Darlymple em Portugal: “Junto cópias das instruções que foram transmitidas a Sir Arthur Wellesley, n.ºs 1, 2 e 3, assim como os documentos apensos, em que se lhe transmitiu que deve subordinar-se às ordens de qualquer oficial mais antigo - Carta enviada de Londres de Castlereagh a Darymple em 15 de julho de 1808, Rodríguez, 2009: 95.
284
Desde os primeiros momentos requereu comando completo das forças portuguesas como se pode ler nas suas declarações enviadas ao Parlamento no verão de 1808 onde também afirma que o departamento de finanças britânico é profundamente incompetente, Gurwood, 1861: 237-238.
285
Wellington desembarcou em Lisboa em abril de 1809 e só voltará ao seu país cinco anos mais tarde, Chastenet, 1944: 126.
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memorando entregue ao seu “novo” superior hierárquico, Sir Hew Darymple, profundas reflexões sobre possíveis ações políticas, como por exemplo, sobre o que fazer em 1808 com a esquadra naval russa, propondo que tomando os fortes nas margens do Tejo e, sem atacar ou ameaçar a esquadra russa, impedir que a mesma requeresse um estatuto especial286.
Vamos incidir na relação de Wellington com a governação portuguesa porque, “dada a sua visão da guerra como continuação da política por outros meios”287,
conseguiu “dominar a Regência portuguesa, com o apoio de D. Miguel Pereira Forjaz”. Sempre que possível vamos comparar com a relação que estabeleceu com o Governo espanhol, que era sem dúvida uma relação diferente pois, como afirma o historiador Mendo Castro Henriques, Wellington tinha uma simpatia indesmentível, embora reservada, por Portugal, em contraste com a sua má opinião sobre os dirigentes espanhóis de Cádis288. Mas independentemente das opiniões que tinha, em privado, dos seus aliados, sempre encontrou formas de cooperar com todos289.
O problema da má direção política em Espanha já se encontrava profusamente relatado nas anteriores ações militares de Moore290. O Tenente-general Moore escreveu que a Junta Central de Cádis, “invejosa dos seus generais”, não delegava qualquer tipo de autoridade nem dava autonomia, deixando cada um dos comandantes dos vários exércitos, sem qualquer tipo de unidade de comando, não sendo possível qualquer ação coordenada entre eles. Mais grave para o general britânico foi que o movimento do seu exército não tinha as comunicações estabelecidas e coordenadas com as várias forças espanholas. Conforme o próprio reconheceu, desde que entrou em território espanhol, não conseguiu manter “qualquer tipo de comunicação” com os exércitos daquele país, declarando-se “perfeitamente às escuras acerca dos seus movimentos, planos dos seus generais ou sequer das intenções do seu governo”291.
Para além das relações estabelecidas entre a Grã-Bretanha e os dois países peninsulares, as relações entre Portugal e Espanha também eram feitas diretamente, com muitas iniciativas locais, com a envolvência de variadíssimos atores, desde militares a políticos, órgãos municipais e instituições, locais ou nacionais e entre as
286
Memorando de Wellington a Darlymple de 23 de agosto de 1808, Gurwood, 1861: 240. 287 Alusão á definição de “guerra” de Clausewitz em Henriques, 2002: 33-34.
288
Henriques, 2002: 33-34. 289
Corrigan, 2001: xv. 290
O único general britânico contemporâneo com quem Wellington gostaria de ter servido, Corrigan, 2001: xiv.
291
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várias nações. Desde os primeiros momentos de revolta em Portugal e em Espanha que se estabeleceram relações e cooperação conjunta. Por exemplo, a 5 de julho de 1808, “uma delegação portuguesa assinou um acordo de ajuda mútua com a Junta da Galiza”292. Para entender a ação holística de Wellington devemos assinalar também a
forma como as próprias nações se entendiam. No terreno tudo se relacionava com as estratégias e políticas mais amplas e centralizadas e, como afirmou o historiador António Pedro Vicente, pode-se entender esta visão holística se se juntarem todas as estratégias em presença: “exército e diplomacia, estratégia militar e estratégia diplomática, alianças internacionais e conceções do exército, relações exteriores e atuações domésticas”293.
A ligação e relacionamento entre o governo britânico e português vai naturalmente exercer-se tanto em Portugal como no Brasil, porque para os portugueses o seu soberano reinava, ainda que fosse a partir do Rio de Janeiro. Conforme refere o historiador António Ventura, quando se iniciaram em Portugal os levantamentos contra a presença francesa, no ano de 1808, estes foram feitos “em nome do Príncipe Regente” que, na altura, se encontrava no Rio de Janeiro. O futuro D. João VI foi “aclamado como se não estivesse a milhares de quilómetros de distância” numa prova evidente de que “a legitimidade estava preservada e o Príncipe era a autoridade reconhecida, embora fisicamente longe” 294 . Aliás, o desejo de manter,
permanentemente, a Regência portuguesa e a Coroa no Brasil informadas da boa prestação das forças portuguesas foi evidente, tanto por Wellington, como por outros membros do Governo britânico, como podemos ler em diversas cartas enviadas tanto por Wellington, em Portugal, como por Castlereagh, em nome do Governo britânico295.
Entre a primeira e segunda invasão podemos observar que, embora a Grã- Bretanha e Portugal se consolidem como aliados, persistem sempre as estratégias nacionais. Por exemplo, face à malograda expedição de Sir John Moore, o General Cradock296, que comandava o remanescente contingente britânico em Lisboa, pensou,
292 Fuente, 2011: 55. 293 Vicente, 2008: 31. 294 Ventura, 2008: 106. 295
Por exemplo, as cartas de Castlereagh para Stewart, em Lisboa, a 19 de outubro de 1813, para Strangford, no Rio de Janeiro, a 11 de outubro, Wellington, 1861: 347.
296
O grosso das forças inglesas tinha marchado com o General Moore na conhecida e fatídica campanha da Coruña (cerca de 30.000). Dos aliados tinham apenas ficado em Portugal alguns milhares de ingleses comandados por Sir John Cradock que resistiu sempre à ideia de ajudar as forças portuguesas a combater no norte de Portugal; “Cradock era uma figura medíocre a
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tal como fez o seu governo em Londres, retirar as forças de Portugal. Mas uma coisa eram as decisões do Governo britânico e outra foi a forma como as mesmas se traduziram no terreno e, naturalmente, importava esconder a Portugal a intenção de retirar. A título de exemplo, refira-se que, tendo em linha de conta a necessidade de abandonar a povoação de Almeida, alertava-se para que as populações não se apercebessem da real intenção britânica, ou seja, “recordar-lhe a conveniência de ocultar à guarnição portuguesa que vão partir com a intenção de embarcar”, para que se possa manter “uma aparência” que tinha como finalidade tentar manter a confiança dos portugueses e assim “evitar que o seu moral não seja afetado pela sua saída”297.
O General Cradock não quis correr riscos e, confirmando-se a chegada de forças francesas a Portugal no início de 1809, propôs que as forças britânicas “abandonem Lisboa dentro de uns dias, mantendo apenas em seu poder os fortes sobre o Tejo e que ocupem uma posição geral cerca de Paço de Arcos”. Salvaguardando a possível retirada britânica, era intenção do general britânico manter alguma flexibilidade para poder de novo desembarcar em Portugal, afirmando ainda que a partir destas posições seria possível “tanto para avançar contra o inimigo quando as circunstâncias o permitirem como para embarcar”, evitando assim os problemas (na memória de Cradock estava a manobra de retirada, sob pressão francesa, que Moore tinha executado) que existiriam se “tivéssemos de realizar uma marcha desde Lisboa no último momento, no caso de termos de abandonar Portugal”298
.
Existia a convicção por parte de alguns dos decisores britânicos de que, embora toda esta manobra devesse ser intencionalmente ocultada da população portuguesa, seria no entanto compreendida pela mesma. Cradock afirma mesmo estar convencido de que o regresso a Lisboa seria recebido “com alegria e gratidão” e que “retirada momentânea” seria esquecida pelos portugueses. De acordo com o general, depois de tudo o que tinham feito pela nação portuguesa os britânicos tinham o direito de “atuar segundo os seus próprios princípios”299. Como veremos, a atitude de Wellington será
bastante diferente, contrastando com a excessiva prudência de Cradock fortemente influenciado pelo resultado dramático da retirada de Sir John Moore.
quem faltava fé, tanto em si próprio como nos seus homens (…) os portugueses, consequentemente, estavam entregues a si próprios” Esdaile, 2009a: 115.
297
Carta enviada de Lisboa de Reynell a Guard 14 de Janeiro de 1809, Rodríguez, 2009: 524. 298
Carta enviada de Lisboa de Cradock ao Almirante Berkeley a 9 de fevereiro de 1809, Rodríguez, 2009: 549.
299
Carta enviada de Lisboa de Cradock ao Almirante Berkeley a 9 de fevereiro de 1809, Rodríguez, 2009: 549.
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Por seu lado, a organização política e militar portuguesa registava determinação e vontade mas subsistiam problemas de grande dimensão que eram amplamente conhecidos pelas autoridades britânicas. Para organizar a defesa do Norte em 1809, onde se supunha que ia ter lugar a próxima invasão, existia uma hierarquia pouco definida e mal articulada que tinha à cabeça o Bispo do Porto, António de Castro, e o General Bernardim Freire de Andrade e que, na verdade, não conseguiam ter o controlo efetivo nem da população civil nem das forças militares. Em Lisboa existia a coordenação de Miguel Pereira Forjaz e na capital do Império o governo do Reino com o Príncipe Regente à cabeça e que efetivamente comandava o território continental mas a quem a distância não permitia a decisão corrente.
Em vésperas da denominada segunda invasão francesa (1809) ficaram claras as convicções de Wellington, como se pode ler num dos seus memorandos ao governo britânico, depois da evacuação do corpo expedicionário do General John Moore da Galiza: “Portugal deve ser defendido, seja qual for o desfecho da luta em Espanha”300.
Vai ainda mais longe quando, a 7 de março,301 escreve que Portugal podia ser defendido independentemente dos acontecimentos em Espanha e que, assim, todas as medidas tomadas para a defesa de Portugal seriam, no futuro, de grande benefício para Espanha. Nas recomendações de Wellington ao seu governo, os casos de Portugal e de Espanha são vistos como diferentes. Em vários documentos são muitas as vozes concordantes com Wellington, como é o caso do General Wilson302, que insiste na determinação das forças portuguesas que, embora tenham enormes faltas em material e disciplina, “estão perfeitamente uniformizadas e desejam avançar, só aguardam as respetivas ordens de marcha”.
A decisão de enviar, de novo, Wellington para Portugal é tomada ao mais alto nível, tendo em atenção que o mesmo se dirige para o país para comandar não apenas as suas forças mas as de um exército aliado britânico e português. O soberano britânico, George III, aceita as recomendações que lhe são propostas, “conjunta dos ministros e filho favorito”, e assina o despacho a 2 de abril deferindo “a patente de serviço”: o comando de um exército aliado com vinte mil soldados britânicos, ajudados por trinta mil regulares e quarenta mil milicianos portugueses303.
300 Chastenet, 1944: 125. 301 Wellington, 1860: 248. 302
Carta enviada do Porto de Wilson a Castlereagh a 26 de novembro de 1808, Rodríguez, 2009: 95.
303
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Wellington fez logo saber de algumas condições essenciais para o sucesso da sua missão. Em carta enviada ao embaixador britânico em Lisboa, Charles Stuart304, alertou, de uma forma explícita, para a necessidade de ter completo controlo sobre as medidas do Governo português e, assim, assegurar a existência de um Exército Português eficaz no terreno. As condições por si expressas foram claras e precisas: o Exército Português e Britânico tinham de ficar sob oficiais ingleses e o comissariado (finanças) tinha de ser britânico (veremos que iria posteriormente alterar esta posição sobre um comissariado único).
Se durante a primeira invasão francesa a atuação britânica e portuguesa resultou de coordenações “ad hoc”, para a segunda invasão tentou-se garantir, o quanto antes, um comando unificado sobre as várias forças presentes em Portugal. A coordenação com a Espanha foi também fundamental para uma correta aplicação da estratégia aliada e, assim, tornou-se importante saber, desde o início, quem representava a governação no outro país da Península Ibérica, uma vez que a coroa espanhola havia abdicado a favor de Bonaparte. Por esta razão, os britânicos reconheceram oficialmente como “governo legítimo” da Espanha a Junta Central instalada inicialmente em Aranjuez e, posteriormente, em Sevilha.
Desde muito cedo ficou vincada a vontade do comandante-chefe do exército aliado em manter uma articulação política com o seu governo, não apenas para garantir uma política coerente e coordenada mas, também, para poder expressar a sua perspetiva sobre o decurso da guerra. Wellington irá envolver-se na decisão política em si, assumindo as suas próprias convicções que, como veremos, influenciarão de forma marcante as decisões do seu governo: “Foi, unicamente, a minha insistência que determinou o prosseguimento da guerra na Península”305.
As razões para um maior envolvimento da Grã-Bretanha na Península Ibérica e, em especial em Portugal, tiveram em Wellington um forte apoiante. No seu raciocínio, a Grã-Bretanha precisava, para uma correta execução da sua estratégia306, de portos na Península Ibérica (Corunha, Douro, Tejo ou Cádis) por onde se fazia algum comércio com o continente, apesar do bloqueio decretado por Napoleão. Estando na altura a Grã-Bretanha a viver uma crise política, “em que os governos se alternavam e os
304
Memorando sobre a defesa de Portugal, Gurwood, 1861: 249. 305
Chastenet, 1944: 126. 306
Em 1808, impedidos de atacar pelo norte da Europa, a confrontação terrestre traduziu-se na tardia definição da estratégia da Grã-Bretanha: “Ela foi tomada em 1808, numa altura em que a França dominava dois terços da Europa, estava no auge do seu poder em termos do continente e contava com um exército que era mais de dez vezes superior ao britânico”, Telo, 2005: 311.
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debates no parlamento eram vivos” e, perante a recusa de Espanha em aceitar tropas britânicas no seu território (a principal razão dos espanhóis era o receio de ver Cádis transformada numa segunda propriedade britânica como Gibraltar), só existia mesmo a opção de Portugal.
De acordo com o general e historiador Espírito Santo, na decisão britânica “tinha pesado a opinião do Tenente-general Sir Arthur Wellesley e as suas ligações ao Secretário de Estado da Guerra Lord Castlereagh”307. Wellington “era altamente considerado por Canning como Castlereagh” porque, convém recordar, tinha servido como proeminente conselheiro em assuntos militares a sucessivos governos desde o seu regresso da Índia308.
Para comandar as forças aliadas na Península Ibérica, Wellington sentia que não podia continuar a acumular funções políticas e militares na Grã-Bretanha, afastando- se definitivamente das funções políticas que ainda tinha na Inglaterra e Irlanda. Quando assumiu o comando do exército aliado em Portugal no dia 7 de abril de 1809, depôs na mesma data o mandato de deputado e demitiu-se das funções de Secretário-chefe da Irlanda309.
Wellington tentou encontrar interlocutores válidos para garantir a coordenação em Espanha e Portugal e procurou contar com o apoio permanente do seu Governo para as ações na Península Ibérica. A conjuntura portuguesa, incluindo o Governo no Rio de Janeiro, também se mostrou mais favorável a Wellington pois tinha sido escolhido para liderar o novo governo, após a chegada da corte ao Rio de Janeiro em março de 1808, o novo Ministro “pró-britânico” D, Rodrigo de Sousa Coutinho, ultrapassado o seu conhecido rival, António de Araújo “que era pró-francês”310.
Wellington pediu e conseguiu que a sua voz fosse ouvida e tida em conta nos assuntos do Governo português mas as reações a esta postura de colaboração foram muitas vezes contestadas. Chaby, um dos mais notórios historiadores portugueses do século XIX da Guerra Peninsular, descreveu que “por modo nada satisfatório, atuou no espírito público” a deliberação do Príncipe Regente assinada no Brasil, que foi depois transmitida oficialmente ao conhecimento da Regência do reino com a data de 6 de julho, e publicada em Lisboa no dia 21 de novembro. Decidia que em todas as sessões do Governo em que fossem tratados “negócios de organização militar, ou de objetos concernentes ao mesmo fim”, ou mesmo quando fossem tratados assuntos de