Chapter 4 – Game Psychology
4.4 Enjoying serious games
A vontade de conhecer as pessoas que comumente telefonavam às emissoras foi o ponto de convergência para unir a audiência dos programas jornalísticos em uma rede mais consistente e organizada. Assim, os ouvintes até então dispersos, mas conectados pelas ondas do rádio, despertaram para a criação de uma associação. A proposta de criar uma entidade representativa da audiência de rádio AM está registrada na ata de fundação da SOA (Sociedade dos Ouvintes da AM), em 9 de dezembro de 2000, fruto da iniciativa de um grupo de pessoas de variadas classes sociais e diferentes profissões, cujo hábito comum era ouvir rádio, especialmente os programas jornalísticos de AM.
Os primeiros contatos que levaram à criação da entidade surgiram ao vivo36, após uma sequência de participações que acabaram convergindo para o interesse comum de estabelecer contato pessoal entre os ouvintes. Um deles divulgou o seu telefone para que outros integrantes da audiência entrassem em contato. A sugestão instigou o ouvinte João Carlos Silva Gomes, já bastante motivado para conhecer pessoalmente as pessoas que participavam constantemente dos programas.
Eu anotei o telefone [...] e bati o papo com ele sobre esta ideia, esta proposta da gente criar uma organização pra gente se conhecer. Ele achou interessante, inclusive deu o nome que foi SOA (Sociedade dos Ouvintes AM) e daí no mês de dezembro de 2000 nós fizemos a primeira reunião ali no colégio Seleção. Tivemos inclusive a participação ilustre do radialista Carlos Alberto Lima Coelho. A gente considera ele como patrono que também foi um dos fundadores que começou esta arrancada dos ouvintes. Então, basicamente é isto, a necessidade da gente se conhecer e daí pensar o que poderia fazer para que o rádio pudesse ser aquilo que a gente espera que ele seja. (GOMES, 2013)
A proposta de estatuto, por sua vez, designa Sociedade dos Ouvintes de Rádio AM (SOAM). Posteriormente, segundo João Carlos Silva Gomes, houve consenso para denominá- la com o nome de fantasia SOMAR (Sociedade dos Ouvintes Maranhenses de Rádio). Conforme o Artigo 2º da proposta de estatuto, a entidade tem por finalidades: a) estabelecer o entrelaçamento entre os ouvintes da Rádio AM; b) estimular os mesmos a apontar problemas de ordem sócio-cultural, políticos e econômicos da sociedade em geral; c) incentivar a comunidade a participar dos programas por telefone ou pessoalmente, debatendo e propondo soluções junto às autoridades competentes, visando assim, o exercício pleno da cidadania. Outro registro diz respeito ao posicionamento da entidade no contexto político e religioso. De
36 No programa “Abrindo o Verbo”, apresentado por Geraldo Castro, na rádio Mirante AM, das 14h00 às 18h00, dia 11 de setembro de 2000.
acordo com a proposição estatutária, no Artigo 3º, a sociedade dos ouvintes da AM é desvinculada das seguintes questões: 1. político-partidária; 2. questões pessoais; 3. políticas assistencialistas; 3.1. auxílios e subvenções; 3.2. patrocínio de qualquer tipo de programa e/ou eventos; 4. questões religiosas.
Embora esteja sistematizada em ata e no esboço do estatuto, a entidade não foi oficializada em cartório; ou seja, não está formalmente legalizada. Também não há sede própria. Esses procedimentos burocráticos não efetivados punham a SOMAR na informalidade, do ponto de vista do registro cartorial. O seu funcionamento diário e prático ocorria na dinâmica do cotidiano da audiência dos programas, através da expressiva participação em todas as emissoras e na comunicação em off entre os ouvintes mais vinculados à entidade, para dialogar sobre os programas, o desempenho dos apresentadores, os temas relevantes e as intervenções da audiência em geral. Frágil do ponto de vista burocrático-administrativo, a organização se constituía na perspectiva de uma rede ativa de mobilização nas ondas do rádio. Os objetivos da criação foram percebidos de forma distinta pelos seus idealizadores:
A gente só se conhecia de voz. E na minha opinião essa seria a maior motivação: conhecer os ouvintes pessoalmente e principalmente terem uma integração, se encontrarem, saírem para comer um churrasquinho, participar de um aniversário, ter aquele encontro. Só que o João Carlos tinha um pensamento mais profundo em relação a isso, tanto que ele faz de vez em quando esses encontros, trazendo pessoas de fora para palestrarem. O meu sentido foi mais no sentido social. E no caso dele foi mais no sentido político, mas um político na melhor acepção do termo, não em termos de politicagem [...] mostrando até para os próprios locutores da importância do ouvinte, porque eu repito, realmente os ouvintes fazem, muitas vezes fazem a pauta. Os ouvintes têm uma participação imensa. Por isso a importância dessa coisa inédita chamada SOMAR. (OLIVEIRA, 2013)
Mesmo sem a institucionalidade oficializada, a entidade articulou junto à Assembleia Legislativa a criação do Dia Estadual do Ouvinte de Rádio, instituído em 21 de setembro, mediante o Projeto de Lei nº 193/08, de autoria do deputado Pavão Filho (PDT), conforme registro no Diário da Assembleia37. Segundo o projeto, o Dia Estadual do Ouvinte de Rádio deve ser celebrado pelo poder público, através da Secretaria de Estado de Comunicação Social, em parceria com entidades representativas da categoria, promovendo debates, fóruns, seminários, entre outras atividades, visando evidenciar o trabalho dos atores que fazem o rádio no Maranhão.
Além de uma data celebrativa, os integrantes da entidade vivenciaram a experiência de apresentar o programa “De ouvinte para ouvinte”, na rádio Timbira AM, no período de 23 de dezembro de 2007 a 22 de fevereiro de 2008, aos domingos, das 20h00 às 21h00. O nome foi sugestão do ouvinte Augusto da Camboa. Segundo o presidente da SOMAR, João Carlos Silva Gomes, que era um dos apresentadores, juntamente com o radialista Adilson Sousa, durante a transmissão o programa chegava a ter entre dez e quinze pessoas no estúdio, ao vivo, além dos entrevistados.
Nós pensamos o projeto da seguinte forma [...] No primeiro momento a gente quis dar espaço aos ouvintes fundadores, chamar para entrevistar e ele contar um pouco da sua história. Na época inclusive fizemos uma homenagem com Araújo do Coroadinho, porque tava a questão da Cemar nos medidores digitais e parabenizamos na época o Araujo por ter puxado essa luta. E em segundo momento a gente ia criar as pautas que seriam de interesse social. Porque dentro da SOMAR o que a gente imaginar de palestrante, seja de qual segmento for (saúde, educação, acessibilidade), nós temos o próprio palestrante dentro do próprio movimento. Então e gente queria criar esses espaços para se desenvolver temas objetivando projetos de solução. (GOMES, 201)
Ele atribuiu a curta duração do programa às dificuldades estruturais na emissora e defasagem nas condições de produção. “De ouvinte para ouvinte” foi veiculado durante o governo Jackson Lago (PDT), que havia derrotado Roseana Sarney na eleição de 2006, gerando uma grande expectativa de mudança no Maranhão. Para Gomes (2015), além do espaço para a produção e veiculação do programa “De ouvinte para ouvinte”, a SOMAR pretendia dialogar com o governador para reivindicar a participação da entidade na gestão da rádio Timbira AM, a mudança de endereço da emissora (até então funcionando no bairro de Fátima) e a criação do Conselho Estadual de Comunicação. Das três reivindicações, apenas a mudança de endereço efetivou-se. Depois de obter a cassação do mandato de Jackson Lago, em 2009, e retomar o governo do Maranhão, Roseana Sarney transferiu a emissora para o Palácio dos Leões e, consequentemente, cancelou a participação dos ouvintes naquilo que restou da programação jornalística.
Em alguns aspectos, a SOMAR funcionava segundo princípios do ativismo das redes sociais nas plataformas digitais. O registro sobre a mobilização puxada pelo ouvinte Araújo do Coroadinho contra a implantação dos medidores digitais da Cemar ganhou repercussão nos programas jornalísticos e até a adesão de alguns apresentadores, desembocando em ação judicial com o objetivo de suspender a troca dos aparelhos.38 Apesar de ter uma pessoa de
38 No ano de 2007, o ouvinte Araújo do Coroadinho pautou no rádio AM uma mobilização no seu bairro, o Coroadinho, contra a implantação dos medidores digitais da CEMAR, obtendo uma ampla adesão dos moradores, na maior parte de baixa renda, afetados com o aumento da conta de luz.
referência, o presidente, a organização dos ouvintes não obedecia a uma hierarquia ou quaisquer decisões de fóruns deliberativos. As reuniões da entidade eram esporádicas e não tinham encaminhamentos práticos para uma ação conjunta no cotidiano. A horizontalidade era uma característica materializada na ação direta e autônoma dos ouvintes, sem interferência da direção. No entendimento do presidente da SOMAR:
A entidade não é a base de sustentação para argumentação de qualquer pessoa, até porque dentro do movimento da SOMAR a gente prima pela liberdade de expressão. Cada ouvinte é livre para expressar aquilo que ele acha conveniente. (GOMES, 2013)
Ele descartou a utilização de ações combinadas entre os ouvintes para direcionar a audiência a um programa e pautá-lo com um objetivo pré-definido; mas, ao mesmo tempo, evidenciou a comunicação paralela entre os ouvintes, em off (por telefone), para orientar a participação nos programas. “Então não há uma combinação, há troca de informações. A gente liga pra um ouvinte e diz: „olha tão falando isto de ti, fulano de tal falou isto, acho que é bom tu voltar lá‟, isto é uma preocupação” (GOMES, 2013).
Os temas das reuniões da SOMAR eram variados. Geralmente a entidade convidava um palestrante para expor sobre o assunto escolhido e em seguida os participantes intervinham. João Carlos Silva Gomes citou como relevante a mobilização dos ouvintes no rádio para motivar a audiência a apoiar o Projeto de Lei de Iniciativa Popular de Combate à Corrupção Eleitoral e Administrativa, o “Ficha Limpa”.
Embora os programas jornalísticos de rádio AM fossem demarcados por uma forte agenda político-partidária, visto que diariamente a audiência comentava e opinava sobre a atuação dos gestores e detentores de mandatos parlamentares, a SOMAR não se manifestava oficialmente nos períodos eleitorais sobre candidaturas, não publicava notas de apoio, nem de solidariedade ou moções de repúdio quando havia fatos polêmicos envolvendo as gestões e atos públicos dos prefeitos ou governadores. Porém, os integrantes da entidade, individualmente, manifestavam as suas opiniões diariamente nos programas de rádio, aderindo ou refutando posições dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ou dos temas gerais pautados nas emissoras.
Alguns integrantes costumavam frequentar eventos relacionados aos meios de comunicação: audiências públicas, palestras com a participação de ministros e outras autoridades do governo federal, solenidades realizadas pelo Governo do Estado do Maranhão,
debates sobre a atividade profissional dos jornalistas e radialistas, encontros e congressos de entidades dos movimentos sociais engajados em lutas pela democratização da comunicação, entre outras atividades.
Em 21 de setembro de 2015, a SOMAR realizou um encontro de confraternização para celebrar o Dia do Ouvinte. Neste evento ficou definido que a entidade teria reuniões periódicas (uma vez por mês), às 19 horas, na galeria Trapiche Santo Ângelo, no Centro Histórico de São Luís, sendo a primeira realizada dia 5 de outubro, quando foram tratados assuntos relacionados à atualização e aprovação do estatuto, bem como outras providências burocráticas para efetivar o registro da entidade. Em 3 de novembro de 2015 foi eleita a nova diretoria, tomando-se também como deliberação o registro da entidade através do cumprimento das formalizações junto ao cartório (estatuto).
O registro sobre a criação da entidade, das suas principais ações e atividades desempenhadas, principalmente no cotidiano dos programas jornalísticos, evidenciam a permanência de uma prática ativa da audiência. Até o fim da coleta de dados da presente tese, a entidade continuava exercendo seu papel de congregar os ouvintes e participar dos programas, buscando manter a fidelidade aos princípios estabelecidos no momento de sua formação.