5. Itineraris didàctics
5.1. Els tresors arquitectònics de Madina Mayurqa
Em Portugal, nos anos quarenta, o regime do Estado Novo procurou controlar um campo de práticas e de consumos desportivos. Uma das dimensões desta intervenção acção estatal envolvia a tentativa do regime regular o desporto realizado fora da alçada do Estado, isto é, fora do âmbito da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (1935), instituição ocupada com a organização dos lazeres dos trabalhadores, e da Mocidade Portuguesa (1936), organismo semi-militar dirigido à juventude nacional. Para esse efeito foi criada em 1942 a Direcção Geral de Educação Física, Saúde e Desporto Escolar. Tendo funções amplas de fiscalização, esta organização estatal reforçava uma política geral de controlo associativo, procurando ainda impor ao chamado desporto de origem não estatal uma certa conceção de prática física1.
As coletividades desportivas deviam integrar os princípios de um modelo de educação física nacional, que adaptava, sob a tutela institucional do Instituto Nacional de Educação Física, criado em 1940, sistemas internacionais, como o método de Ling, também conhecido por ginástica sueca. As possibilidades da ginástica, ao oferecer uma base científica e moral a este modelo, tornaram- se preponderantes nos currículos escolares e na atividade da Mocidade Portuguesa. Procurava desta forma o Estado, numa retórica muito comum
- Como foi notado por um dos mais relevantes teóricos do modelo de educação física nacional, Celestino Marques Pereira (1947).
Antropologia e performance
durante o regime de Salazar, elevar o “nível da coletividade” no âmbito de uma reforma mais ampla da educação nacional. A imaginação de um habitus motor oficial, produzido pelo regime estabelecia-se também como uma forma de projetar os princípios fundamentais de uma comunidade de práticas e valores, que seria performatizada durante os desempenhos desportivos (Domingos 2010). A regulação da prática, nos casos em que a performance física se realizava perante um público, permitiria criar uma performance educativa. O comportamento violento e conflitual observado em muitos recintos desportivos, incluindo os ringues de boxe, preocupava as autoridades estatais. Consagrava uma imagem errada de uma comunidade de desportistas e espectadores.
Pouco depois da sua criação, a Direcção Geral dos Desportos assumiu o controlo institucional sobre o boxe nacional, nomeando um delegado, o Tenente Rafael Barradas, que exercia também as funções de jornalista e divulgador da modalidade, para executar as suas políticas. A intervenção do Estado pretendia defender o aspecto educativo do boxe amador da influência perversa de diversos negociantes que o tomavam como viveiro para alimentar um sistema profissional desregulado. Passando a desempenhar algumas das funções elementares dos órgãos associativos e federativos que governavam o boxe, o Estado pretendia clarificar as regras que delimitavam o mundo do pugilismo amador do universo do pugilismo profissional, o processo de inscrição e avaliação dos pugilistas, fiscalizar os contratos de trabalho, o controlo médico, a relação dos pugilistas com os managers, a ação das casas de espetáculo, entre outras questões. A alteração das condições de enquadramento permitiria orientar de modo mais adequado a performance dos atletas, nomeadamente nas sessões que eram apresentadas perante um público. A ordem da interação no ringue, interpretada pelos corpos dos pugilistas, devia, desta forma, representar uma outra ideia de comunidade, simbolicamente coesa, imbuída dos artefactos culturais que ajudam a imaginar uma comunidade nacional, no sentido de Anderson (2005 [1983]) Bem preparados, os atletas geririam o seu repertório motor como um músico experiente ao improvisar sobre uma pauta. É certo que persistiriam imprevistos, decorrentes da permanente interacção num combate de boxe. Mas havendo um acordo quanto aos princípios da performance, que incluía o público e os seus critérios de classificação, as surpresas não ameaçariam a moral desportiva.
Quando assumiu a tentativa de regular o pugilismo, a Direção Geral apoiou-se em algumas das tradições históricas da modalidade para celebrar os valores que inspiravam uma prática correcta. Enaltecia-se a virilidade, a coragem e o dever moral, patriótico, no sentido próximo da ética militar.
Vinculou-se ainda o boxe à tradição amadora do olimpismo, esfera à qual pertencia efectivamente desde 19042. Os valores do olimpismo enquadravam
uma versão desinteressada da prática, uma procura do desporto pelo desporto, afastada, portanto, da atitude interessada daqueles que praticavam no intuito de obter outro tipo de recompensa, nomeadamente económica. O enobrecimento do boxe, que sustentava um conjunto de discursos míticos sobre a sua humanização, definia-se sobretudo pelas condições que deram origem ao pugilismo moderno, no contexto mais geral da “racionalização” de desportos e passatempos iniciada nas Public School inglesas em meados do século XIX. As chamadas regras do Marquês de Queensberry de 1866, grande parte delas ainda hoje em utilização, organizavam uma luta com luvas, por categorias de peso, em tempo segmentados e finitos, por oposição aos combates de mão nuas que durante muito tempo caracterizam a história antiga do boxe. Este desporto moderno, sob os valores da disciplina vitoriana e do chamada cristianismo muscular, foi considerado na altura uma prática ideal para a formação dos jovens filhos das classes dominantes (Sugden 1996, p. 26). Juntava-se à intenção educativa as memórias de uma apropriação cavalheiresca, traduzida muitas vezes em defesas da honra, tendencialmente vertidas em termos de uma lealdade nacional ou militar, e também na chegada ao espaço público dos lazeres de célebres sportsmen. A performance corporal adquiria assim as características de um ethos de classe, facilmente apropriável por uma política de revigoramento nacional3. Este ethos transformava-se então
em estética e técnica corporal. A metáfora da esgrima será sempre invocada, aliás, para legitimar o bailado gracioso do pugilista amador. Idealmente o público legitimaria esse estilo pugilístico, apreciando a sua estética e reconhecendo as suas dimensões morais. Esta representação do boxe inspirava claramente os desígnios da Direcção Geral dos Desportos.
Esta idealização de uma prática desportiva vivia em tensão, no entanto, com a própria história da modalidade. O próprio delegado da Direção Geral havia lamentado a decadência do boxe actual, “violento”, “cruel”, “monótono” e “ignorante”, em contraste com o tempo em que era passatempo das audiências aristocratas em Londres e Paris, altura em que era “inteligente”, “elegante” e “subtil” (Barradas 1944: 90). Sedimentado enquanto espetáculo dirigido a um público, o boxe, como outros desportos, foi tomado por uma lógica competitiva na qual a vitória se constituía como o objetivo principal da performance. Este
- Desde essa data, só não fez parte dos jogos de 1912 na Suécia, por nessa altura se encontrar banido nesse país.
- Sobre o sportman em Portugal ver Trindade (2011).
fundamento guiou a racionalização da desempenho: o modo como os corpos se deveriam mover, as técnicas, as estratégias, as competências corporais adquiridas, respondiam à necessidade de um pugilista derrotar o outro. Estes requisitos da interação atentaram contra a ética amadora e os seu intérpretes socialmente privilegiados, que se afastaram, para dar lugar a profissionais. A substituição dos corpos graciosos dos amadores esgrimistas do boxe, que haviam revelado a capacidade de educar os seus instintos mais primários e transformado uma luta numa espécie de bailado, por homens fortes e brutos, representava o efeito do modelo do espetáculo competitivo, no qual o boxe não era apenas uma demonstração de perícia e graça mas um espetáculo onde um indivíduo devia derrubar o outro perante um público que pagou ou apostou. Esta tendência dominante veio a tornar mais complexo o debate sobre a estética do espectáculo, onde coexistiam diferentes regimes de avaliação da performance. Os debates estéticos, que discutiam os estilos e os movimentos dos corpos, envolviam também modos de pensar o mundo e de agir sobre ele.
As condições de performance criadas pela lógica do espetáculo, e contra as quais se erguia então a Direcção Geral, prevaleciam no universo do boxe português, nomeadamente na sua vertente profissional. O espetáculo criara uma ordem de interação específica, que exigia corpos ajustáveis às suas regras. O nível da preparação dos atletas para enfrentar esta ordem da interação dependia do grau de desenvolvimento de um campo de atividade específico. Em Portugal, no entanto, se a entrada neste jogo dependia de fatores físicos, técnicos e táticos, o elemento crucial para a sua existência enquanto diversão regular era indiscutivelmente a necessidade de encontrar corpos disponíveis para enfrentar o risco inerente à interação no ringue. Como em muitos outros contextos em que o boxe se encontrava profissionalizado (Sudgen 1996: 24), a disponibilidade de corpos para alimentar o espetáculo em cidades como Lisboa tinha uma origem social precisa. Estes corpos eram quase sempre de indivíduos de classes populares urbanas, muitos deles recentemente chegados à cidade e a passar por um processo de transição existencial repleto de novidades, carências e enigmas.