Plurals and Set Theory
4.4 Against the elimination of pluralities in favor of sets One reason against the elimination of pluralities in favor of sets is the
Vamos agora apresentar, ainda que de forma concisa, uma discussão com algumas referências teóricas acerca dos contextos sócio-históricos das famílias com as quais conversamos, mais no sentido de compreendermos um pouco sobre certas características que hoje as compõem.
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Se o contexto econômico, político e histórico em que vive cada família pode interferir na forma como elas se organizam para cuidar de suas crianças, vejamos uma citação de Medeiros (2002), em suas discussões sobre a importância de se conhecer as famílias da América Latina, para a elaboração de suas políticas públicas.
A atuação das famílias e do Estado como instituições de solidariedade social pode ser observada em diversos momentos da história, inclusive nas sociedades capitalistas modernas, que dependem da organização de instituições capazes de distribuir tanto trabalho quanto recursos entre seus membros em função de normas de solidariedade [...] Nas situações em que os mecanismos de troca mercantil não são suficientes para coordenar as atividades de produção e consumo dos indivíduos, essa coordenação é realizada, principalmente, por duas organizações: a família e o Estado. Ambos possuem um papel extremamente relevante no sistema, pois normatizam a vida dos indivíduos, definindo e impondo direitos de propriedade, poder e deveres de proteção e assistência (p. 04-05).
Segundo o autor, o próprio sistema capitalista interfere em como as famílias se organizam em termos estruturais. Vimos que entre as famílias de MG e uma parte de SP, o papel exercido pelos avós nos cuidados com as crianças era uma forma de organização solidária para dar conta dessa demanda, que não pôde ser resolvida com a ajuda de outros meios.
Se pensarmos em termos econômicos, as famílias menos favorecidas economicamente se arranjaram para que os avós, em sua maioria aposentados, pudessem ajudar. Talvez isso se dê também pelo fato de que, para a maioria delas, seria inviável manter financeiramente uma babá ou uma instituição em período integral que pudesse cuidar dos seus filhos. A respeito dessa parceria entre avós e pais, Fonseca (2005) observa que as famílias populares
envolvem uma rede que se estende no espaço para outras casas e até mesmo para outros bairros. Traçando as linhas de ajuda mútua, podemos melhor refletir sobre o que é, nessa instância, a “família” pertinente (p. 53).
Nas famílias menos favorecidas, como é o caso dos grupos que deixavam as crianças com os avós, o sentimento solidário de uma contribuição mútua se mostrou bastante presente, inclusive porque, como já indicado por nós, os níveis salariais não permitiam a terceirização remunerada desses cuidados.
Também a questão da longevidade crescente de nossos idosos é mais um dos aspectos que coloca os avós no papel de aliados dos pais. Para Goldani,
111 O aumento na expectativa de vida significa que nós brasileiros, hoje, temos maiores chances de passarmos mais tempo como membros de uma ou mais famílias, quer no papel de pai, mãe, filhos, esposos, avós etc. Esta maior longevidade estaria propiciando, também, uma superposição destes papéis, bem como a convivência de diferentes gerações (1989, p. 05).
Vemos assim que, na atualidade, o fato de as pessoas viverem por mais tempo do que antigamente pode contribuir para que os mais velhos permaneçam longos períodos como parte da família, o que pode favorecer que estejam mais próximos dos cuidados com os netos.
Nessas famílias, a convivência e a troca entre diferentes gerações também passa a ser maior, o que pode agregar valores e saberes de um grupo para o outro. Assim, notamos que os avós
articulam cinco gerações: referem-se aos seus próprios pais e avós, e têm os seus filhos e netos como referência. Isso, em termos de construção de identidade, de avaliação da memória social e de reelaboração de papéis, é fundamental (VELHO, p. 84-85, 1987).
Os avós, como potenciais mediadores de práticas culturais podem carregar consigo os modos de fazer de suas tradições. O convívio entre as diferentes gerações talvez favoreça a apropriação e a troca de elementos da memória e da identidade das pessoas que compõem esse grupo.
Outro dado que notamos tanto em famílias de Brasília, quanto em São Paulo e Minas Gerais é que boa parte delas não mais se relaciona dentro do arquétipo tradicional de pai, mãe e filho. Pensamos que, como observa Parreiras (2012)
O modelo pai/mãe/filhos biológicos não é padrão e exclusivo das concepções familiares com as quais nos deparamos. Além das separações e dos novos laços de casamento, há as crianças adotadas por familiares, por casais heterossexuais e homossexuais. Há as mães solteiras. Há as avós que assumem os netos como filhos. Há as mães que assumem os filhos biológicos, mais os filhos do atual marido. Há as crianças criadas por parentes, por instituições. Há as famílias que agregam filhos de vizinhos, de parentes distantes, como se houvesse espaço para mais um (p. 41-42).
Nas famílias de Minas, vimos casos em que as mães não mais viviam com os pais de seus filhos. Dessa forma, diante de longas jornadas de trabalho (uma delas, por exemplo, trabalhava como caminhoneira ao longo da semana), os avós assumiam os seus netos como se fossem os próprios filhos e muitas vezes recebiam o apoio de
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vizinhos nessa empreitada. No caso de Brasília, percebemos situações específicas, em que as babás assumiam boa parte do papel dos pais, inclusive nos finais de semana (algumas até dormiam na casa, pois os pais chegavam muito tarde).
Também vimos em Brasília que certas instituições se tornavam parceiras, assumindo a educação e o cuidado das crianças ao longo de 12 horas por dia.
Essas especificidades singulares e ao mesmo tempo tão diversificadas das famílias com as quais conversamos nos mostraram que “não há uma família”, mas sim a “existência de vários tipos de família e de diversos tipos de parentesco” (VELHO, p. 80, 1987).
Existem muitas variáveis acerca da forma como cada família se estrutura para dar conta da educação de seus pequenos. Assim como a “própria noção de família varia conforme a categoria social” (GOLDANI, p. 52, 1989), variam também as formas como cada uma delas se organiza para cuidar de suas crianças.
Em meio a esse quadro complexo de definições acerca da família, de suas diferenças e semelhanças na forma como ela veio se estruturando enquanto categoria, no papel de seus agentes, e de modo particular no de pais, filhos e avós, podemos fazer a síntese que se segue.
Primeiramente, é preciso destacar que em diferentes momentos históricos sempre existiram formas distintas de organização familiar. Também distintas sempre foram as visões sobre a criança e o modo como ela deveria ser cuidada. Mas sabemos, pelas análises de fontes do século XVI, oriundas de tratados religiosos e de referências iconográficas, que, em meados desse período, eclodiu uma “intensa valorização da infância” (VENÂNCIO, p. X, 2004). Se o modo de se enxergar a criança influiu na necessidade de valorizá-la como tal, como consequência disso houve uma maior proximidade entre ela e o adulto, aumentando os vínculos entre eles e a dedicação de cuidados mais específicos.
Nessas formas de cuidados, chegaram até às famílias muitas tradições diferentes e, dentre elas, as portuguesas de origem católica. Daí a presença de orações e cantos, como a da mãezinha do céu, por exemplo, que se estenderam entre nossos grupos do Distrito Federal, São Paulo e Minas Gerais.
Nesses cuidados, podem entrar também justificativas de fundo afetivo, como as que envolvem os valores de solidariedade, pelos quais os pais se disponibilizam em ajudar os seus filhos nessa fase da vida.
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Outro aspecto que parece favorecer essa presença dos avós pode estar ligado à maior longevidade que atingem. Assim, se eles passam mais tempo como parte das famílias, também participam por mais tempo das decisões sobre o modo como elas se organizam e se mantêm.
Outro ganho dessa presença idosa é a possibilidade de poder compartilhar tradições culturais. Por essa via, tal convivência pode fazer com que a manutenção da memória e da identidade do grupo referente seja garantida.
No que se refere aos conceitos que explicam o termo família, vimos que eles variam conforme a sua categoria social. Nessas diferenças, os cuidados com os pequenos não ficam restritos apenas aos pais, mas também aos avós, às babás, amigos e instituições educativas/recreativas e esportivas.
Por fim, vimos também que o modelo pai/mãe/filhos biológicos é apenas um, uma vez que existem tantos outros padrões: as famílias que se formam com as mães solteiras; as de pais-avós; as famílias constituídas pelos laços que se estabelecem dentro de instituições e tantas outras.
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