Plurals and Set Theory
4.9 Are two applications of plural logic compatible?
As nossas conversas começaram em casa de uma vizinha. Paula, 47 anos nascera em São Paulo e morava em Brasília havia três anos. Optou por parar de trabalhar para cuidar da casa e dos dois filhos que eram a Lana de 3 anos e o Andrei de 10 meses. Ela tinha uma ajudante e morava com o marido Guilherme de 47 anos. Nessa casa, tivemos três encontros bem longos, incluindo a conversa com ela e com o companheiro.
Gostar de acalantar era importante para ela, pois assim acalmava os filhos, quando estavam chorando. Em seu repertório de canções citou se essa rua se essa rua
fosse minha; era uma casa, muito engraçada; nana neném; o grupo Palavra Cantada,
com o CD Cantigas de roda, destacando neste a barata na careca do vovô. Lembrou-se também da música da propaganda dos cobertores Paraíba, que embora já fizesse parte da cultura de acalantar de diferentes regiões do Brasil, acabara se expandindo em São
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Paulo, pela música tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sono
pra você e um alegre despertar e também tá na hora de acordar, não espere a mamãe mandar, um bom dia pra você e um alegre despertar.
A filha costumava ser acalantada quando nervosa. Já com o filho, era antes de dormir. E nos momentos em que o pequeno começava a acordar, ela dava tapinhas em suas costas, sem cantar, para que ele voltasse a dormir.
Muitos dos modos de lidar com os filhos foram aprendidos com a sogra do Equador, de sessenta e poucos anos, que ensinou diferentes maneiras de pegar os bebês ao colo para acalantar. Além de aprender com os familiares o hábito de cantar e de colocar CDs de canções para acalantar, a mãe vira diversas entrevistas de médicos em programas de televisão falando de musicoterapia.
Entre as músicas que a avó materna cantava aos netos, estavam a canção religiosa dóminus robispo, amém e também nânãnãnã lálálálá ou eeeee, lálálálá, eee. Enquanto balançava, ela passeava por horas, até que a criança parasse de chorar e dormisse.
Segundo a mãe, quem mais acalantava os seus filhos eram o marido, os avós e os tios paternos/maternos.
Sobre o fato de as crianças aprenderem algo ou não quando acalantadas, a resposta foi sim; pois para a mãe, cantavam as músicas que ouviam, acalmando-se e desacelerando os seus ritmos. Sobre os próprios aprendizados, como mãe, estavam lidar melhor com os filhos, se acalmar e desligar do choro deles.
Quando perguntamos à pequena se sua mãe cantava para ela, logo respondeu que sim. Mas quando perguntamos quais eram as músicas, ela se calou. Depois de terminarmos a gravação, a menina cantou a música a barata diz que tem, do CD
Cantigas de Roda do grupo Palavra Cantada.
Na segunda prosa, a mãe relembrou alguns acalantos. Começou com a canção alecrim, alecrim dourado que nasceu do campo sem ser semeado e depois cantou Dona
aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou. Então, cantou a música da
sogra em espanhol, que se assemelhava com a versão brasileira de serra, serra, serra
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Ruan. Por fim, cantou los pollitos que aprendeu com a sobrinha do Equador, que depois
foi resgatada pelo marido na internet.
Algo de novo em nosso segundo encontro foi que a filha acalantava o irmão bebê, desde os seus dois anos de idade, cantando quando ele chorava, a música Los
pogitos e Dona Aranha. A mãe achava que a pequena tinha aprendido imitando os pais.
Em seu repertório, a menina também cantava a Cuca vai pegar, só que dizendo a Cuca
pá pegá.
Outras canções lembradas foram dorme filhinho, do meu coração, pega a
mamadeira e põe nesse bocão e depois a do serra, serra, serra do, serra o papo do vovô. Ao mesmo tempo em que cantava, fazia o movimento que acompanhava a
brincadeira da música, sentando o filho ao colo, de frente para ela, conduzindo o corpo dele para trás e para a frente.
Depois foi a vez de conhecermos o marido. Ele nasceu e foi criado no Equador e acalantava os filhos não por uma razão clara, mas porque sentia que devia fazê-lo. Para ele, acalantar era uma coisa gostosa.
O pai escolhia músicas infantis de suas lembranças de criança, como o hino do Equador e de Quito. Mas também o que lhe vinha a cabeça, para que os filhos ficassem tranquilos. O que o fazia acalantar era algo que nascia do carinho que sentia, e achava que se tranquilizava, tranquilizando-os nos momentos em que estavam mais agitados.
Sobre o fato de as crianças aprenderem algo ou não quando acalantadas, respondeu que sim, pois a filha costumava cantar para ele e para o irmão, tentando tranquilizá-los.
Em ter aprendido algo quando acalantava, disse que embora não soubesse a resposta, sentia que fechava um círculo de maior proximidade com os filhos.
A maior parte das canções entoadas pelo pai eram na sua língua de origem, as vezes resgatadas com a ajuda da internet. Entre elas, Los Pogitos e o hino de Quito, que estavam ligadas a razões sentimentais e lembranças de infância. Quando queria agitar os filhos, cantava músicas em português e, para baixar a revolução, cantava músicas românticas. No caso de estarem bravas, sempre usava as canções mais lentas, para que os pequenos sentissem que não estavam num ambiente agressivo.
118 4.2.2. Segunda prosa. Conversas com Karila.
Karila nasceu em Uberlândia e tinha 35 anos de idade. Tinha quatro filhos, sendo Paulo de 8 anos, Giovane de 5 anos, Juliana de 3 anos e Líria de 1 ano e 3 meses.
Embora tivesse acalantado os quatro filhos, inclusive a menor de um ano e três meses, nos contou que o primeiro fora mais acalantado do que os outros. Ela tinha medo porque ele chorava por qualquer motivo e por isso o acalantava sempre, inclusive quando caía. Depois, a partir do segundo filho, passou a ver o acalanto como uma demonstração de carinho, de amor e de afeto, que poderia acontecer de diferentes formas.
Embora a maior parte dos momentos de acalanto estre pais e filhos ficasse mais por conta dela e do marido, também a babá, os avós maternos e paternos os acalantavam nos fins de semana, o que, segundo a mãe, fazia uma diferença incrível para as crianças.
Os momentos mais propícios ao acalanto eram as situações de rotina, como antes do sono, ao acordar o dia, nas despedidas ou chegadas da escola. Ela então aproveitava para abraçá-los, fazendo carinho e até falando certas coisas de afeto.
Como achava que o acalanto também tinha um lado negativo, quando por insegurança própria, os pais exageravam na quantidade para eliminar o choro, ela foi aprendendo a conhecer os momentos que mereciam ou dispensavam a prática. Aprendeu que não precisava balançar os bebês até que dormissem, mas que o fariam no berço com a sua presença ao lado, junto a uma música leve ou canto. Nesse momento, ela lhes explicava que estaria lá até que chegasse o sono. Quando os filhos iam crescendo, esse ritual era modificado, pois se deitava ao lado deles, na cama, para rezar, sempre os tocando. E nas diversas formas de acalantar, destacou que ser firme e chamar a atenção dos filhos também estavam entre elas.
Ela acalantava pela necessidade de acalmar a criança e de demonstrar o seu carinho, algo nem sempre possível com a palavras, mas que outros contextos também pediam esse cuidado, como por exemplo, no caso em que se machucavam ou estavam afetadas emocionalmente.
Às vezes pegava a criança ao colo, abraçava, batia nas costas. No berço, fazia um chiado com a boca para a pequena, diminuindo a intensidade do seu som, de forma
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que ficasse mais lento, até que se acalmasse e dormisse. Antes de dormir, realizava várias ações para levar ao relaxamento e sono. Primeiro, individualmente, as filhas menores tomavam o banho, depois a mamadeira, escovavam os dentes e, quando iam para o quarto, a luz era desligada. Depois, elas ouviam uma música baixa, ficavam um pouco no colo abraçadas com mais força pela mãe, ouvindo o som do chiado feito por ela. No colo, viam pela janela que estava escuro, que o passarinho e o cachorrinho tinham ido dormir. Depois, ela falava tchau e ficava sentada num banquinho ao lado do berço, até que as filhas dormissem.
Até mesmo nos momentos de corrigenda, o contato físico era necessário para a mãe. Por isso, corrigia tocando a criança, olhando-a nos olhos, enquanto falava o que precisava ser dito. O olho no olho era para ela algo importante na relação e na comunicação, assim como a serenidade na forma de falar.
Ainda que não fosse diariamente, gostava de cantar para os filhos. Outra prática corrente era a de ouvir CDs, inclusive quando eles estavam agitados. Para isso, ela e o marido faziam repertórios personalizados gravados para cada filho. Entre os CDs escolhidos estavam o Bebê MP, Classics for Babys, Mozart e músicas só com os sons da natureza (instrumentais) para antes de dormir. Nessa hora, cantava a música mãezinha
do céu ou a do anjinho, que eram especialmente pedidas pelos filhos. Ao longo do dia,
preferia tocar músicas mais agitadas, para cantá-las junto deles.
Na medida em que os filhos cresciam, parte do repertório musical permanecia, como no caso da mãezinha do céu e a do anjinho. Mas outra parte se modificava, pois as crianças pediam as músicas da moda, deixando de lado as versões mais infantis, que utilizavam gestos.
Era comum ver um filho acalantando o outro com canções. Esse era um dos ganhos em ter quatro filhos, pois eles se preocupavam uns com os outros, se organizavam e se ajudavam mutuamente até na hora de acalantar, inclusive quando os irmãos menores estavam chorando. Mesmo que o repertório musical dos mais velhos fosse diferente, cantavam as músicas mais infantis para os menores, como as do CD da
Galinha Pintadinha, por exemplo, ou mais raramente a do anjinho, para fazer dormir a
irmã pequena, nos fins de semana. Uma relação afetiva de contato físico com os filhos os incentivava a trocar carinho com os irmãos e outras pessoas.
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A respeito do que a fazia acalantar, respondeu que era a necessidade de ser mais amiga das crianças, de aproximá-las mais dela, numa relação de mãe e filhos.
Quando acalantados, a mãe acreditava que os filhos aprendiam a ser mais seguros, calmos e tranquilos. Quanto a ela, aprendia que as crianças não precisavam de tantas coisas, mas sim do carinho, do amor e do tempo dos pais. Mais importante do que todos os estímulos, aulas e atividades, era poder estar próxima deles. Por isso, trabalhava menos para poder ficar mais com eles. Não era o caso de estar ao lado o tempo todo, mas sim de ser presente. Aprendeu que não eram só os pais que acalantavam os filhos, mas também os irmãos, a família, como num trabalho afetivo de equipe.
Ao falar de como a avó materna acalantava, disse que ela gostava de balançar a criança deitada ao colo, cantando a música mãezinha do céu. Nesse aspecto, parte do repertório dos acalantos que Karila cantava para os filhos, aprendera ainda pequena com sua mãe.
Certa vez, quando os pais tiveram de fazer uma viagem, os filhos ficaram com a vó materna. Antes de partirem, mostraram a rotina do sono da bebê, que era a de cantar a música mãezinha do céu, colocá-la ao berço e, caso acordasse, fazer o som do chiado. No entanto, ao estar a sós com a neta, a vó achou que a rotina que a mãe lhe ensinara não era suficiente para que a bebê dormisse e decidiu chacoalhá-la ao colo, enquanto caminhava e cantava pelo quarto. Como a neném não conseguira dormir, durante dias, a avó resolveu seguir a rotina ensinada pela mãe.
Já o pai gostava mais do contato físico com os filhos e não tinha o costume de cantar para eles.