The Refutation of Singularism?
3.7 Conclusion
Para seguir o roteiro já apresentado por nós na Introdução desta tese, gostaríamos de resgatar uma pergunta que foi responsável pela idealização desse segundo capítulo que ora escrevemos. Por sabermos que as canções de ninar acompanham nossa cultura de acalantar há tantos milênios, estaria essa atividade ligada de alguma forma a uma base fisiológica de desenvolvimento humano?
Certas características da criança podem favorecer contextos em que o acalanto seja uma prática significativa de cuidado entre o bebê e o adulto. Nos estudos já apresentados por nós neste segundo capítulo, selecionaremos os que indicam a precocidade e a diversidade das competências do bebê em promover tais situações.
Primeiramente, gostaríamos de retomar os estudos de Montagner (1993), referentes ao comportamento dos adultos em relação ao choro, agitação ou às vocalizações da criança pequena. Vimos que existe uma tendência por parte desse adulto para abraçar essa criança por certo tempo em seus ombros, de forma repetida, encostando o nariz dela ao seu corpo, possibilitando-lhe sentir o seu cheiro, de maneira que possa memorizá-lo e identificá-lo.
Nessa situação, vimos nas pesquisas de Macfarlane (apud MONTAGNER,1993) que bebês com menos de dez dias já podem identificar o cheiro do tampão de seio com o leite de sua mãe. Dentre essas experiências, Montagner (1993) ressalta que, ao perceber e identificar o cheiro da mãe, a criança modifica a sua agitação e as suas vocalizações, acalmando-se. É provável que aqui tenhamos um primeiro exemplo de contexto que pode favorecer a prática do acalanto.
Como vimos no primeiro capítulo deste trabalho, são muitas as formas de acalantar uma criança e, entre elas, ressaltamos o caso de parte das mães africanas que adormecem o seu bebê contra o seu corpo nu, assim como o de alguns dos bebês indianos que também dormem quase que amarrados ao corpo da mãe, além do exemplo de certos bebês brasileiros que adormecem apoiados no pescoço da mãe, antes de serem postos na sua cama, berço ou rede. Nessas formas de acalantar, as crianças acabam ficando tão próximas à mãe, ao ponto de sentir o cheiro dela, e isso é favorecido pelo
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seu aparato biológico desde os primeiros dias de vida. Esse momento parece sinalizar uma situação favorável a essa forma de acalanto. Por um lado, nesse acalanto, a criança identifica o cheiro do adulto-referência e pode com isso se sentir amparada, acalmando- se; por outro, o adulto, percebendo tal mudança no comportamento da criança, pode acalantá-la, repetindo essa prática em outros momentos semelhantes.
Na Teoria da vinculação de Bowlby (apud MONTAGNER, 1993), pudemos conhecer algumas das formas de comportamento do recém-nascido, quando ele deseja a presença da mãe ou pessoa substituta, tentando chamar a sua atenção através de manifestações como o choro, os resmungos, os balbucios, os gritos, as caretas por irritação, medo, fome, dor ou outra espécie de situações ou de incômodos. Bowlby
(1989) acrescenta que essas manifestações podem fazer com que o adulto acabe regulando o seu comportamento em resposta a elas, harmonizando-se com seu bebê, adaptando-se a ele: sua voz torna-se gentil, num tom mais agudo do que o normal, seus movimentos mais vagarosos, de modo que cada ação subsequente seja ajustada ao tempo do bebê. Curiosamente, parece-nos bastante comum a possibilidade de identificar semelhantes características no comportamento de muitos adultos no momento de acalantar, seja na mudança rítmica da voz que canta, que fala ou emite sons diversificados, seja nos movimentos mais lentos para ajustar o corpo e o tempo do bebê ao seu, na busca de uma sintonia, de um diálogo harmônico entre ambos.
Vimos também com Spitz (1996) que essa relação de vínculo inicialmente biológica é transformada, passo a passo, na primeira relação social do indivíduo, porque o adulto passa a decifrar tais demandas do bebê, satisfazendo as necessidades dele. O bebê, por sua vez, percebendo respostas aos próprios comportamentos, utiliza-os para se relacionar com o adulto e, mais à frente, com as outras pessoas do seu meio. É nesse contexto profícuo que o acalanto pode se situar, pois costuma operar em resposta a essas manifestações (choro, resmungos, gritos, caretas, etc.) expressas pela criança. Diante da possibilidade de ser um instrumento de acalmação, nesses contextos, o acalanto pode, ao mesmo tempo, ajudar a dar sentido a essas manifestações em situações de comunicação.
Ao destacar os sinais que são percebidos pelo bebê nos primeiros meses de vida, Spitz (1996) sugere que eles se situam dentro das categorias de “equilíbrio, tensão (muscular ou outra), postura, temperatura, vibração, contato da pele e corporal, ritmo,
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tempo, duração, tom, timbre, ressonância, rumor, dentre outras” (p. 100). Podemos pensar que nas diversas possibilidades e formas de acalantar, muitos desses elementos parecem ser ativados; é o que acontece, por exemplo, nos momentos de equilíbrio, tensão, postura, ritmo27 e tempo28, quando o acalanto envolve o balanço de vai e vem do bebê, aconchegando e equilibrando-o ao colo do adulto. Este, por sua vez, reage aos movimentos do bebê, adotando ritmo e tempo mais pausados. No caso dos acalantos cantados ou dos sons sussurrados ao pé do ouvido da criança, a voz materna oferece a ela muitos “estímulos acústicos vitais” (SPITZ, 1996, p. 73). Nessas toadas, o adulto costuma não modificar apenas os próprios elementos de ritmo e de tempo, mas também o timbre29 da própria voz, adotando um tom30 mais baixo do que o corriqueiro.
Outro ponto a ser observado é o fato de que, para muitos bebês, o primeiro brinquedo é o corpo do adulto que cuida dele. Como vimos com Goldschmied & Jackson (2006) “o foco do bebê está na cuidadora mais próxima” (p. 113), o que pode favorecer o interesse em ser acalantado por ela, estreitando ainda mais os laços de interação entre ambos.
Na experiência com o som realizada por Eisenberg (apud MONTAGNER, 1993), provou-se que, nos recém-nascidos, as alterações dos ritmos cardíacos são diferentes diante do som de vogais e de outros barulhos. Os pesquisadores identificaram que, após a emissão de vogais aos bebês (quando comparados a outros sons), houve uma diminuição do ritmo cardíaco das crianças, inclusive durante o sono. Utilizando um aparelho para escutar o coração dos bebês, os pesquisadores perceberam que as diminuições cardíacas se repetiram diante da escuta de palavras, sílabas ou vogais sintéticas ditas isoladamente (do tipo: um, lá, nós, ou). Nesse sentido, pensamos que essa experiência traz algumas situações semelhantes às vivências que certos sons de
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No glossário apresentado por Brito, ritmo se refere aos valores de duração diversas, subjugados ou não a uma ordem métrica (2003, p. 204). No uso específico da palavra ritmo aqui, entendemos que o acalanto busca uma afinidade rítmica entre o adulto e a criança.
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No glossário de Gordon a palavra tempo aparece primeiramente como velocidade a que são executados os padrões rítmicos e, em seguida, ela aparece como durações relativas dos macrotempos dentro dos padrões rítmicos (2000, p. 491). Para nós a ideia de tempo está mais relacionada à velocidade rítmica com a qual o adulto age no momento em que acalanta uma criança, sendo esta mais lenta do que as ações praticadas costumeiramente em seu dia a dia.
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O Timbre é aquilo que distingue a qualidade do tom ou voz de um instrumento ou cantor, por exemplo, a flauta do clarinete, o soprano do tenor. Cada objeto ou material possui um timbre que é único, assim como cada pessoa possui um timbre próprio de voz.
Fonte: http://agnazare.ccems.pt/EB23EMUS/2_ciclo/timbre.htm acessada em 02/08/2012.
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No glossário de Mateiro e Ilari, a palavra tom representa um alo formado por dois semitons, utilizado na música ocidental.
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acalantos propiciam aos bebês, em algumas de suas formas. Sabemos que alguns acalantos apresentam uma repetição de vogais ou mesmo de interjeições do tipo o ô, ô,
ôôô ou ummm um. O que queremos dizer com isso é que o acalanto com essas
especificidades talvez seja capaz de repercutir em algumas crianças a diminuição do ritmo cardíaco, até durante o sono, de forma semelhante à identificada na pesquisa acima. Essas experiências mostram que, desde o feto, o bebê já percebe e responde às variações sonoras do mundo em que a mãe se locomove e, dessa forma, reforçam a ideia de que os estímulos acústicos interferem no seu ritmo cardíaco, desde as 26 semanas de gestação (MONTAGNER, 1993). Logo, essas percepções podem interferir na diminuição dos batimentos do seu coração, diante das experiências com o acalanto sonoro.
Acerca do uso do sentido da visão no processo interativo bebê-adulto, Grenier (apud MONTAGNER, 1993) observa que, desde muito cedo, o bebê manifesta um interesse e uma competência para o contato olhos-nos-olhos. Com interesse nesse aspecto, relembramos as pesquisas feitas pelos irmãos Cláudio e Orlando Villas Boas (apud JORGE, 1988), citadas no primeiro capítulo deste trabalho, referentes à observação realizada por eles em dezessete dos grupos que habitam o Alto Xingu. Nessas comunidades, vimos que existem formas específicas de acalanto, como por exemplo, nos momentos que antecedem o sono das crianças, em que a mãe, tendo o filho no colo, olha-o nos olhos até que ele adormeça. Vemos que essa forma de acalantar certamente poderá promover momentos de interação entre a criança e o adulto que a observa, valorizando essa característica de olhar nos olhos, que já é algo atraente aos interesses e competências do bebê. A esse respeito, Bowlby (1989) observa que “quando uma mãe e seu filho de duas ou três semanas estão se olhando, promovem fases de intensa interação social” (p. 22). Logo, esse longo olhar de um para o outro é uma forma de acalanto que favorece maior interação entre ambos.
A posição receptiva em perceber que as próprias ações podem influenciar as ações do outro, de alguma forma, também incentiva momentos interativos de acalanto entre mãe (ou adulto referência) e seu bebê, pois ao mesmo tempo em que o bebê modifica seu comportamento, acalmando-se ao ser acalantado, também o adulto, ao perceber que a criança se tranquiliza nesses contextos, promove novas situações de acalanto, repetindo-as em ocasiões futuras.
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Retomemos, agora, os apontamentos de Spitz (1996) a respeito da presença do elemento afetivo nos processos de vinculação entre o adulto e a criança, especialmente quando ele diz que, “consciente ou inconsciente, cada parceiro na dupla mãe-filho percebe o afeto do outro e, por sua vez, responde com afeto, numa troca afetiva recíproca contínua” (p. 103). Vemos aqui mais um provável exemplo de como o acalanto pode promover trocas afetivas, na medida em que o bebê passa a fazer uma leitura das atitudes do adulto. Para exemplificar alguns desses momentos pode-se citar o modo como o bebê é tocado, o tom da voz que é dirigido a ele nas canções e sons emitidos para acalmá-lo, as longas trocas de olhar, a forma como é acolhido nos braços que o carregam e tantas outras maneiras combinadas entre ambos, pela cumplicidade construída ao longo de muitas experiências vividas e compartilhadas.
Outro aspecto é o papel dos elementos organizadores que, segundo Montagner (1993), são o “conjunto de comportamentos nos quais a criança aprende a construir respostas cada vez mais bem ajustadas ao meio e às pessoas a sua volta, favorecendo atividades como as de apaziguamento da mãe para com o filho, com a ajuda de objetos, sons etc.” (p. 186). Nesses princípios, o som do acalanto poderia sugerir uma mudança na ação da criança (como acontece nas cantigas de ninar ou mesmo na emissão de sons ritmados pelo adulto), ajudando nos processos de apaziguamento entre eles e no ajuste das respostas das crianças em relação às pessoas e ao meio que a cercam.
Portanto, para nós, existem muitas características que, de alguma forma, podem favorecer momentos vantajosos para que a prática do acalanto aconteça, e dentre elas destacamos:
- sua capacidade olfativa para identificar o cheiro da mãe.
- manifestações como o choro, os resmungos, os balbucios, os gritos, as caretas por irritação, medo, fome, dor ou outra espécie de incômodo.
- sinais que alcançam e são recebidos pelo bebê nos primeiros meses de vida, como os de equilíbrio, tensão (muscular ou outra), postura, temperatura, vibração, contato da pele e do corpo, ritmo, tempo, duração, tom, timbre, ressonância, rumor e outras.
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- que os estímulos acústicos interferem no seu ritmo cardíaco desde as 26 semanas de gestação.
- que, desde muito cedo, a criança manifesta um interesse e uma competência para o contato olhos-nos-olhos.
- compreensão de que as próprias ações podem influenciar as ações do outro.
- que ela percebe o afeto do adulto e, por sua vez, responde com afeto, numa troca recíproca e contínua.
- que elementos organizadores podem ajudar a criança a aprender a construir respostas cada vez mais ajustadas ao meio e às pessoas à sua volta.
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