5.2 K ANONISKE TEKSTER I KLASSEROMMET
5.2.1 Eleven i møte med tradisjon og fortolkningsautoritet
Decidido qual seria o papel dos primos, restava escolher as instituições e mestres que teriam a honra de educá-los. Tal tarefa foi dada à Ordem de São Jerônimo212. Entre tantas ordens religiosas que surgiram na baixa Idade Média, a ordem hierominita distinguiu-se por sua tolerância, por sua disciplina nunca ter se degenerado na prática da autoflagelação e, principalmente, por seu espírito aberto, o que permitiu que fossem “os primeiros a acolher os rasgos pedagógicos e os vôos artisticos da Renascença.”213. Em Portugal, a ordem nutriu boas relações com a Coroa, especialmente no reinado de D. Manuel I.
Esta ligação rendeu algumas bolsas de estudos para que seus membros estudassem nas mais prestigiosas universidades daquela época, como a Universidade de Paris e de Lovaina. Dois bolsistas desta ordem foram escolhidos para a tarefa de reforma do sistema de ensino português: frei Brás de Braga, ou Barros (1484-1559) e frei Diogo de Murça (fins do XV – 1561). O papel destes dois jerônimos na formação de D. Antônio foi fundamental, pois foi nos colégios fundados por Murça que ocorreu a educação dos dois primos ilegítimos e na instituição dirigida por Braga que se deu o ensino superior de D. Antônio214.
Frei Diogo de Murça começou seus estudos no mosteiro hieronimita de Penha Longa (Sintra) em 1513. Quatro anos depois Murça foi para Paris para estudar Artes no colégio de Montaigu; depois seguiu para Lovaina, onde se doutorou em Teologia, em 1533. No mesmo ano, regressou ao reino e procurou obter a autorização régia para fundar um colégio no seu mosteiro de origem, o que conseguiu em 1535, dois anos depois, transferiu o colégio para o mosteiro de Santa Marinha da Costa (Guimarães),
212 Originária da Itália no século XIV, a ordem foi introduzida em Portugal em 1390 com a compra da
quinta de Penhalonga por Vasco Martins, rapidamente aumentando suas posses e um período de expansão no reinado de D. Manuel I, sendo que, em 1528, toma posse do mosteiro de Santa Marinha da Costa (Guimarães) e depois do colégio universitário de Coimbra. Ver. SANTOS, Cândido Dias dos. Os monges
de S.Jerónimo em Portugal na época do Renascimento. Porto: INIC, Centro de História da Universidade
do Porto, 1980, p. 9-19. Também possuía a fama de ser uma das mais abertas ordens religiosas de acordo com CHAUNU, Pierre. La Espana de Carlos V. Vol.2. Barcelona: Edicions 62, 1976, p. 138.
213 CARVALHO, Joaquim de. Estudos sobre a cultura portuguesa do XVI. Vol. 2. Coimbra, 1948, p. 166. 214 Não sabemos ao certo quando o filho de D. Luís entrou no colégio da Costa, mas foi possivelmente
bem cedo que esteve sob a tutela de frei Murça. Em 1542, seu primo D. Duarte escreveu a D. João III uma carta em que relatou que “frei Antoninho” brincava com os sobrinhos de frei Diogo de Murça que lá viviam e tinham a mesma idade. BRANDÃO, Mario, op. cit.1939, p. 16, Sobre o ambiente do colégio, ver: SÁ, A. Moreira de. A Universidade de Guimarães no Século XVI (1537-1550). Paris: Centro Cultural Português, 1982.
105 oferecendo os títulos de mestre, licenciatura e doutor, com seu estatuto igualado aos das universidades.
Sabemos pouco sobre suas ideias, pois os escritos que restaram são apenas de caráter administrativo. No entanto, graças aos trabalhos de Joaquim de Carvalho, podemos saber um pouco mais sobre o conteúdo de sua biblioteca, que revela que Murça era um profundo estudioso de Erasmo e sempre atento às novidades humanistas, mas diferente de André Resende, seu colega de curso em Lovaina, adotou a postura de seus mestres, valorizando mais a leitura doutrinal do que a filologia e a interpretação histórica, embora as tenha assimilado de forma crítica.
Frei Murça nutriu grande interesse pelos debates teológicos de sua época, sendo resolutamente contra Martinho Lutero215. O gosto pelas obras de Erasmo era fruto de seus anos em Lovaina, que coincidiram com o auge dos debates sobre este pensador. Esta universidade serviu de inspiração para o modelo pedagógico de seus colégios, sendo conhecido também por ser o introdutor do “método de Lovaina” em Portugal. Frei Murça colocou as recentes inovações dos humanistas junto com o curso tradicional, baseado nas sumas de São Tomás de Aquino, mas igualou o estatuto de ensino da dialética com a da retórica216.
Sob a supervisão deste mestre, foi designado como professor de retórica do colégio da Costa o poeta latino Inácio de Morais217 (1507? – 1580), ensinando primeiramente a D. Duarte e depois, ao jovem frei Antônio.
215 Sobre a biblioteca: “Duas coisas ressaltam imediatamente: a escassez de livros de Teologia escolástica
e mística, de Filosofia e de Lógica no sentido tradicional, tanto na via dos nominalistas como na dos realistas e dos ecléticos e, em contraste, a abundância de obras de Padres da Igreja, de estudos escriturários, de escritos de controvérsia bíblica e dogmática, e de edições de Erasmo. Não desconheceu Duns Escoto (...) e estudou certamente S.Tomás de Aquino (...), cujo pensamento de teólogo e de comentador de S.Paulo veneraria com respeito; não obstante, impõe-se irresistivelmente a idéia de que substituiu a meditação filosófica e teológica, no rumo tradicional, pela investigação heurística, pela exegese escriturária e pela história eclesiástica. Para quem assim orientava o espírito, ao ritmo dos tempos que vivia, e tendo diante dos olhos e do coração a lição literária de S.Jerónimo, a argumentação puramente dialética tinha de ceder o lugar ao estudo das línguas sábias, do latim, do grego e do próprio hebreu. Por isso se nos deparam alguns dos manuais característicos da nova didática das humanidades, a obra dos escritores gregos e latinos nas respectivas línguas originais, a variedade impressionante dos escritos de Erasmo”. CARVALHO, Joaquim de. Estudos sobre a cultura portuguesa do XVI. Vol. 2. Coimbra, 1948, p. 124-125. O autor fez uma exaustiva análise da biblioteca de Murça.
216 PEREIRA, Belmiro Fernandes. A edição conimbricense da Rhetorica de Joachim Ringelberg. In:
Península, Revista de Estudos Ibéricos, n°1, 2004, p. 204.
217 O mestre dos régios alunos era mais um bolsista de D. João III, tendo estudando na Universidade de
Paris (Curso de Artes) e depois na Universidade de Lovaina. A que tudo indica, foi uma figura bastante presente na vida de D. Antônio, sendo que em 1553 dedicou-lhe o poema Conimbricae encomium, ode de louvor a Coimbra (MORAIS, Inácio. Conimbricae Encomium. Revisão e prefácio de Mario Brandão. Coimbra: Coimbra Editora, 1938). Também foi professor rigoroso que exigia muito de seus alunos, sendo que em 1541 foi repreendido pelo regente de Santa Cruz Luís Álvares Cabral por ter ensinado livros mais difíceis do que lhe haviam sido designados. Os alunos desertaram de suas aulas, procurando as de
106 Era a primeira vez que em Portugal uma elite letrada se formou dentro dos preceitos studia humanitatis: homens que falavam grego, latim e hebreu, eruditos nos clássicos lidos através do prisma filológico e histórico, valorizando a expressividade literária dos textos, a retórica e a arte da persuasão218.
Em 1542, após concluir os estudos, D. Duarte saiu do mosteiro da Costa por ter sido nomeado arcebispo de Braga. Após anos dedicados aos estudos, mas sendo observando pelos olhos atentos de D. João III, era considerado um homem culto pelos seus contemporâneos, capaz de traduzir para o latim a maior parte da Crónica de Dom Afonso Henriques de Duarte Galvão e assim, pronto a servir aos interesses da Coroa dentro da Igreja. A sua nomeação era simbolicamente a passagem da condição de ilegítimo para o de legítimo. Quando foi nomeado bispo, aconteceu uma bela cerimônia de apresentação a corte portuguesa da qual o infante D. Luís teve como função ser o primeiro a recebê-lo e apresentá-lo à nobreza portuguesa219.
Certamente o destino de D. Antônio era o mesmo. No entanto, o seu papel mudou quando D. Duarte morreu no final do ano de 1543. Eram tempos de difíceis, pois a disputa entre D. João III e D. Luís se agravou enquanto continuava a sucessão de mortes na família real.
Apesar destes problemas, a década de 40 foi um momento de consolidação dos muitos projetos da coroa para o ensino superior português. Entre 1534 e 1535, sob a direção de frei Brás de Barros, o colégio do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra começou suas atividades. Em 1537 ocorreu a transferência da universidade de Lisboa para Coimbra. Por sua vez, em 5 de fevereiro de 1543, frei Diogo de Murça foi nomeado como seu reitor. Completa-se o quadro quando, em 1548, inaugurou-se o Colégio Real das Artes, sob a direção de André de Gouveia. O humanismo cristão controlava o aparelho cultural português.
O então frei Antônio se encontrava em um momento de transição das estruturas de ensino. O colégio que habitava começou a cair em decadência desde a morte precoce de seu primo e a transferência de frei Murça. O colégio da Costa não era mais o
Antônio Caiado. No fim da vida, teve problemas com a ordem dos jesuítas (CARVALHO, Joaquim de.
Obra Completa. Vol. VII. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian, 1983. p. 197).
218 A bibliografia sobre o assunto como sabemos é imensa. Para aspectos gerais: SKINNER, Quentin. As
fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 e POCOCK, J. G.
A. The Machiavellian moment: florentine political thought and the atlantic republican tradition. 2. Ed. Princeton: Princeton University Press, 2003.
107 ambiente adequado para o filho do infante D. Luís, que, sem os primos, acabou sendo extinto em 1550.
O começo desta nova etapa da vida de frei Antônio é um período obscuro, em que felizmente a obra de Mario Brandão ajuda a jogar luz220. De 1544 até 1547, frei Antônio estudou em Tomar, no colégio de São Jerônimo, novamente sob a direção de frei Diogo de Murça. Desta fase podemos reconstituir um pouco do contexto intelectual, graças à lista de livros disponíveis na biblioteca do convento de Cristo, em que o fluxo humanista se observa graças à presença de obras de Erasmo e Nebrija221. Foi neste espaço que D. Antônio começou a ter aulas de música, que foi uma de suas grandes paixões.
O fato mais importante da vida de D. Antônio, neste período, foi a sua aproximação de frei Brás de Braga. De acordo com Mario Brandão, frei Braga valeu-se do status do filho de D. Luís para resolver pequenas disputas dos cônegos e, aos poucos, uma amizade surgiu entre mestre e aluno, que acabou motivando frei Antônio a desejar entrar no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra no qual o prior era frei Brás de Braga222.
No entanto, por volta de 1547 a 1548, ainda se encontrava indefinida a instituição que frequentaria nos próximos anos. Assim começou a tomar aulas com aquele que se tornou seu mestre por muitos anos, Luís Álvares Cabral223, no colégio de São Jerônimo de Coimbra, em que frei Diogo de Murça, mais uma vez, coordenava. Agora frei Antônio circulava pela nova sede cultural do reino, o Paço das Artes. Embora desejasse frequentar o mosteiro de Santa Cruz, tudo dependia da vontade de seu pai.
220 BRANDÃO, Mario, op. cit., 1939, p. 19-26.
221 De acordo com SANTOS, Cândido Dias dos, op. cit.,1980, p. 64-65. 222 BRANDÃO, Mario, op. cit.,1939, p. 21.
223 Sobre Luís Álvares Cabral, o principal professor de D. Antônio e que o acompanhou na sua
transferência para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, temos poucos dados. Sabemos que por volta de 1537, era o regente ou primário do ensino das Artes e da Gramática nas Escolas de Santa Cruz, e a que tudo indica, por volta de 1541, ocupava-se de ensinar Filosofia Natural para seus alunos, curso esse considerado avançado, sendo que por ordem régia de 5 de março de 1541 somente os alunos que tivessem concluído os cursos de Artes poderiam frequentar o curso de mestre Cabral pelo menos até 1546, quando começou a ensinar para os alunos do colégio de São Jerônimo, incluindo aí D. Antônio. Acompanhou o seu aluno no mosteiro de Santa Cruz (assim como alguns alunos) e continuou suas aulas entre os crúzios. Cf. CARVALHO, Joaquim de. Obra Completa. Vol. VII. Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian, 1983, p. 170; 197; p. 200 e p. 276.
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