Após a morte do seu pai, D. Antônio declarou que pretendia renegar os votos recebidos e assumir o estatuto de cavaleiro da ordem de Malta, justificando tal decisão afirmando que a carreira clerical foi lhe imposta. Trata-se de uma decisão radical naquele mundo, pois a questão vocacional não era relevante e a ordem dos pais ou familiares mais velhos era uma imposição inquestionável, especialmente dentro da família real. O que teria levado então este jovem clérigo de 25 anos a tomar uma atitude tão drástica?
A historiografia debateu longamente o problema, ora reafirmando a tese da questão vocacional, ora tomando tal decisão como prova incontestável de sua ambição sem limites. Mas as duas posições não parecem satisfatórias. D. Antônio nunca teve qualquer problema com a vida religiosa, era um jovem feliz no mosteiro de Santa Cruz e suas principais amizades eram com outros religiosos, mesmo a sua biblioteca revela um gosto por obras religiosas, especialmente salmos, e não romances de cavalaria. Por sua vez, a sua suposta ambição tão pouco nos ajuda, pois seu pai e seu tio prepararam-lhe um caminho direto para o poder e não seria difícil que fosse ele o sucessor do cardeal D. Henrique. Portanto, devemos buscar outros motivos para essa sua rejeição.
Primeiramente, devemos levar em consideração o quanto era problemática, naquela sociedade, ser excluído da herança paterna, pois não eram apenas os bens que se herdava, mas também o prestígio e a posição dos pais naquela sociedade. Assim, naturalmente, D. Antônio se enxergou como vítima de uma grande injustiça e para voltar a usufruir do estado de seu pai, o primeiro passo era pertencer ao estado secular.
Mas para muitos não existia nenhum interesse em alguém ocupar o papel do infante D. Luís. Manter D. Antônio na carreira eclesiástica até a sua morte era a única maneira de definitivamente acabar com a casa do infante D. Luís e tirar alguém potencialmente perigoso do jogo político, pois, além de não poder se casar ele também estaria preso a estrutura da Igreja, isto é, do cardeal D. Henrique. Não era, portanto, uma questão de consciência que fez com que a rainha D. Catarina fosse intransigente na questão da sua manutenção no estado religioso.
Por outro lado, devemos sempre levar em consideração é que D. Antônio estava no epicentro das profundas mudanças culturais que o reino passou no século XVI. Sua educação deu-se entre um misto de humanismo cristão e a ortodoxia católica. Assim, ambas as formações deveriam ter entrado em conflito conforme o clima intelectual
130 tornava-se mais fechado. A vida religiosa que seu pai e seu tio planejavam em nada se assemelhava àquela que ele conheceu em Coimbra, pois D. Antônio fez parte de uma geração de estudantes que reagiu negativamente a entrada dos jesuítas e da ortodoxia católica no reino.
Inicialmente, a recepção das outras ordens religiosas aos jesuítas foi cordial, pois a vontade de mudança era um sentimento compartilhado entre muitos humanistas portugueses, entre eles, Jerônimo Osório. E dentro do projeto de reforma de ensino da coroa, os jesuítas eram apenas um pequeno grupo destinado a uma tarefa de pouco prestígio, portanto, sem maiores perigos para as outras ordens. Mas logo esta relação cordial tornou-se de aberta hostilidade, em grande parte pelas práticas de mortificação, humilhação pública e desprezo pelo mundo286. Uma das primeiras práticas que despertou a atenção eram as peregrinações, baseadas nas longas marchas feitas pelos fundadores da Companhia para a Terra Santa, que tinha como objetivo habituar os jovens a passar fome e a se acostumar com todo tipo de privação, como o usar roupas esfarrapadas – em uma sociedade que o vestuário tinha uma função de grande importância para a identidade. Muitas famílias que entregaram seus filhos aos cuidados da Companhia ficavam chocadas ao ver a situação dos filhos, maltrapilhos e esfomeados, mas alegres por servir a Cristo287. Por sua vez, muitos estudantes zombavam dos jesuítas quando passavam pelas ruas de Coimbra288.
Em 1547, os jesuítas começaram a ser um incômodo dentro da Universidade de Coimbra. Foi em um clima de hostilidade que se deu a construção do Colégio dos Jesuítas289. A coroa, desejosa de ver concluído este projeto, autorizou que os padres se apropriassem dos terrenos, casas e muros necessários para a construção do colégio. De acordo com um relato dos próprios jesuítas:
De uma parte os da cidade murmuram que lhe tomamos os muros e os caminhos; mas já agora estão apaziguados e nossos amigos. De outra parte os nobres do reino contradizem, quanto podem, a se fazer, dizendo que el-rei tudo gasta com frades, e que deixa de prover os lugares de além, que foram ganhados com o sangue de seus antepassados. De outra parte também frades, umas vezes em púlpitos e outras via que podem, nos contrariam. Os dias passados os de Santa
286 RODRIGUES, Francisco. História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal. Tomo I, Porto:
Apostolado da Imprensa, 1931, p. 358-369.
287 Ibidem, p. 362. 288 Ibidem, p. 365. 289 Ibidem, p. 406-418.
131 Cruz nos mandaram embargar as obras com grandes penas, alegando, que lhes fazemos com elas sujeição290.
Em 1549, os vereadores reunidos na câmara de Coimbra reagiram violentamente aos jesuítas, primeiro retomando os caminhos que foram invadidos pelas obras do colégio e depois, tentando embargá-la. Inutilmente, pois era uma vontade da Coroa a sua edificação – D. João III mandou dar prosseguimento as obras. Não satisfeitos com a tal decisão, os vereadores levantaram pregões para derrubar os muros do colégio.
Os cônegos regrantes do mosteiro de Santa Cruz também entraram em conflito, pois a construção ocupava espaços pertencentes ao mosteiro, ameaçando, além de embargar a obra, punir os jesuítas com penas eclesiásticas291. O conflito era uma manifestação de um problema já existente entre os crúzios e os jesuítas. Um dos motivos era que os próprios alunos, muitos filhos da alta nobreza do reino, viam no comportamento dos jesuítas algo indigno de sua posição social e, portanto, com algo inferior. Mesmo os jovens que se mostraram entusiasmados com a devoção dos jesuítas, e até mesmo indo para o colégio, acabaram por se arrepender quando obrigados a realizar ofícios mecânicos, entre eles, ajudar na construção292. Mas alguns não retomavam e representavam perdas importantes. Sendo célebre a fuga de D. Teotônio, irmão do duque de Bragança. D. Teodósio, fugiu do mosteiro de Santa Cruz para entrar no colégio jesuíta – o que enfureceu a sua família ao ponto dos jesuítas temerem o fim de suas atividades. No entanto, graças à família real que protegeu o rapaz e acalmaram os Braganças, D. Teotônio conseguiu a permissão para ficar no colégio293.
Foi nesta época, no auge dos conflitos entre as duas instituições, que se deu o estudo de D. Antônio no mosteiro de Santa Cruz (1549-1551). A educação de D. Antônio ocorreu dentro dos preceitos do humanismo cristão em que a sua condição de nobre sempre foi preservada: caçando, usando roupas, consumindo móveis caros, praticando música, tudo condizente com sua alta hierarquia. D. Antônio compreendia a carreira eclesiástica apenas como mais uma forma de exercer a sua condição de nobre.
290 Carta de Melchior Nunes Barreto ao Padre Santa Cruz, 27 de setembro de 1547. In Litterae
Quadrimestres ex universis praeter Indiam et Brasiliam locis, in quibus aliqui de Societate Jesu versabantur, Romam missae. Madrid, Vol. I, 70, 1984-1925. Apud. RODRIGUES, Francisco, op. cit.,
1931, p. 411-412.
291 RODRIGUES, Francisco, op. cit., 1931, p. 415-116. 292 Ibidem, p. 409.
132 Mas os tempos estavam mudando e ser eclesiástico não era apenas mais um modo de via, e sim um dever sagrado294.
Em suma, a decisão de D. Antônio é o resultado de uma situação muito complexa e não apenas uma questão vocacional ou de sua ambição.
Devemos levar em consideração o quanto esta busca por ocupar o papel de seu pai era algo natural naquela sociedade – no caso de D. Antônio, o fato de ser filho único, mesmo ilegítimo, dentro de uma família real quase sem membros jovens, praticamente o obrigava assumir o papel do infante D. Luís. Além do mais, muitos agentes políticos que conseguiam interferir nos assuntos do reino graças à influência do infante D. Luís, como os cristãos-novos ou algumas famílias da nobreza, desejavam que este canal continuasse a existir.
No entanto, não era aquilo que a família queria, pois planejava para D. Antônio uma carreira religiosa dentro de um projeto maior de reforma espiritual do reino. Mas estas mudanças na orientação cultural do reino afetaram profundamente a geração de D. Antônio, cuja formação e valores estavam sendo atacados pela Coroa e pelas forças da ortodoxia católica.
D. Antônio, criado no culto heroico de Afonso Henriques e entre os pensadores do humanismo cristão português, ao trilhar o caminho da desobediência, aventuras amorosas e obter por todas as formas o prestígio da corte, apenas estava fazendo aquilo que tantos outros nobres, como seu pai, sempre fizeram. O problema que tal comportamento se antes era visto como um modelo, agora representava tudo que estava de errado naquela sociedade.
294 “A partir de 1564 (e mesmo antes), o ser eclesiástico já não deve ser apenas um modo de vida como
qualquer outro. No interior da própria organização eclesiástica as coisas começam mudar. Passa a exigir- se uma dedicação pastoral e disciplinadora que deixa de se limitar à fruição pacata dos bens terrenos. Começa a exercer-se uma forte pressão sobre as populações, vigiadas e controladas a cada passo. São os registros de batismo, casamento, e enterro (decretados, mas pouco cumpridos até então). São as [verificar] de confessados. São as visitas pastorais, com os seus exames ao comportamento social e sexual dos fregueses”. MAGALHÃES, Joaquim Romero. A sociedade. In MATTOSO, José (org.). História de
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