2.2 F ORSKNINGSKONTEKSTEN
2.2.2 Det norske KRLE-klasserommet
No século XVI, escrever a história de um determinado indivíduo não tinha como objetivo realizar uma biografia sobre as qualidades individuais ou uma representação fiel de sua personalidade, mas sim buscar nas ações conhecidas, ou atribuídas, exemplos para os leitores, geralmente membros da nobreza. Desta forma, para compreendermos que qualidades os indivíduos daquela sociedade reconheciam no nome do infante D. Luís, devemos entender de que forma os diferentes autores que escreveram sobre este indivíduo organizaram os acontecimento de sua vida122.
Os dois primeiros a escrever sobre a vida do infante D. Luís foram Damião de Góis (1502-1574) e Pêro de Alcáçova Carneiro (1515-1593). Seus escritos foram fundamentais, pois são os responsáveis por organizarem a narrativa histórica de D. Luís em torno de alguns topoi que serviram de matriz para todos os escritos posteriores.
Damião de Góis dedicou a este príncipe o opúsculo Três comentários acerca da segunda guerra da Cambala, além de ter escrito um capítulo dedicado ao infante na sua Chronica d´El-Rei D. Manuel (1566), que se tornou uma das principais fontes de informação a respeito deste príncipe123. Além das virtudes tradicionalmente atribuídas ao infante, como um valoroso guerreiro, cortês, culto, religioso e obediente, Góis organizou o seu texto em torno do fato que D. Luís, se tivesse tido a oportunidade, poderia ser tão poderoso como um Alexandre, o grande: “não faltou mais que não nascer Rei, ou o ser de algum grande reino”. É importante ressaltar que Damião de Góis era muito próximo do infante e o principal articulador de um dos projetos de casamento mais ousados da monarquia portuguesa: entre o infante D. Luís com Jadwiga Jagiellon124 (1513-1573), filha de Sigismundo I, rei da Polônia (1467-1548). Embora todos os casamentos tenham fracassado, o que Góis habilmente conseguiu foi igualar o infante D. Luís à condição de rei se não em ato ao menos em potência. Denominaremos este topos como de rei em potência.
O segundo topos é o da obediência à coroa. Em 1573, o cardeal D. Henrique requisitou a Pêro de Alcáçova Carneiro algumas sugestões do que poderia ser escrito a
122 KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad. Rio
de Janeiro: Contraponto: EPUC-Rio, 2006.
123 GÓIS, Damião de. Opúsculos Históricos. Porto: Livraria Civilização-Editora, 1945, p. 216-217 e
Chronica D´El-Rei D.Manuel. Vol.III Lisboa: Escriptorio, 147 rua dos Retrozeiros, 1909, p. 84-91
124 Damião de Góis chama-a de Hedvige, que vem da pronuncia alemã (Hedwig) pelo qual ele deveria a
conhecer. Ela acabou casando-se em 1535 com Joaquim II, eleitor de Brandeburgo. O rei Sigismundo mantinha uma corte humanista bem ao espírito daquela que o próprio D. Luís conhecia.
65 respeito de seu irmão, pois desejava realizar uma crônica em sua homenagem, mas era necessário um texto para servir de subsídio para os futuros cronistas125. Pero assim escreveu um texto articulado, a fim de demonstrar que todos os atos do infante D. Luís tinham como único objetivo servir à coroa e afirmou que este sempre agiu “sem interesse próprio”. O infante D. Luís era alguém obediente aos reis D. Manuel I e D. João III, assim como à rainha D. Catarina, mesmo sendo ela a principal opositora do projeto de casamento entre D. Luís e a sua filha, a infanta D. Maria Manuela (1527- 1545). As comendas das ordens militares que por direito deveriam lhe parecer, como a Ordem de Cristo, foram rejeitadas pelo infante, pois de acordo com Carneiro ele preferiu vê-las unidas à Coroa. Mesmo a ajuda que a casa real oferecia aos nobres para cobrir suas despesas em festas e serviços eram rejeitados pelo infante, coisa a ser imitada pela nobreza. “Não deve esquecer quantas cousas pretendeo fazer mais por se abilitar pêra o serviço Del Rey e para o bem do Reyno que por appetite e guosto que tivesse”.
O problema deste topos é justamente a jornada de Túnis de 1535. Ironicamente, o fato mais glorioso da vida de D. Luís nasceu justamente de uma desobediência contra D. João III, e que muitos nobres, incluindo aí o próprio duque de Bragança, o seguiram sem autorização régia. Damião de Góis tenta demonstrar o quanto D. João III foi compreensível com tal falta. Já esta desobediência praticamente desaparece do texto de Alcaçova.
Mas a crise dinástica acabou por impedir a concretização de uma crônica sobre o infante. Quando D. Antônio se apresentou como filho legítimo de D. Luís, o interesse por papéis que pudessem comprovar ou negar tal afirmação se tornou vital. Em junho de 1579, Filipe II pediu a Cristovão de Moura uma cópia autêntica do testamento de D. Luís, já o duque de Osuna em resposta afirmou que “andamos procurando hurtalla”126. Mesmo após a derrota dos antonistas, a Inquisição vasculhou Portugal a procura dos papéis de D. Luís.
Contribuiu também a ação suspeita do cardeal-rei D. Henrique, que em seu testamento ordenou a destruição de todos os papéis do infante D. Luís127. Sem muitos dos documentos de chancelaria, e após a consolidação do governo de Filipe II, é certo
125 SOUSA, Luiz de. Anais de D. João III. Vol. I e II Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1938, p. 319-323 e
DESWARTE-ROSA, Sylvie, op. cit., 1991, nota 155.
126 Co.Do.In.,VI, p. 485-488 e p. 540-546, ver também SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit.,1956, p.
LIV-LV.
127 As Gavetas da Torre do Tombo, 12 vols. Lisboa: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960-
66 que o interesse, ou mesmo a possibilidade de uma crônica a respeito do infante, ficou comprometida, pois evocar o nome de D. Luís – querendo ou não – também era lembrar o do seu filho.
Aos poucos, a narrativa da vida do infante D. Luís continuou a ser escrita, mas introduzida dentro de outras obras, muitas vezes sobrepondo a de seu filho. Um bom exemplo é o que Frei Vicente de Salvador escreveu a respeito do infante na sua História do Brasil. As duas principais virtudes do infante D. Luís eram o seu zelo pela religião e pela ciência na arte militar. Na exaltação das glórias deste príncipe, não hesita em compará-lo a um Nestor ou mesmo a um Aquiles, no que se refere aos seus conselhos militares ou suas habilidades guerreiras. Era “aos estrangeiros benignos, aos naturais afável, e com todos geralmente liberalíssimo, pelo que de todos era amado, e de todos louvado”128. A obra de frei Vicente de Salvador é sintomática daquilo que será produzida no século XVIII, quando a virtude religiosa será cada vez mais relevante.
Somente no século XVIII, temos uma das poucas obras especificamente sobre este personagem, a Vida do Infante D. Luiz129 do 9º conde de Vimioso José Miguel João de Portugal (1706-1775) no âmbito da Academia Real de História Portuguesa130.
Mais da metade do texto é ocupada por longos escritos dos censores e acadêmicos que se revezam nos elogios da obra. Assumidamente um panegírico a favor do infante D. Luís, seu autor repete os topoi anteriormente desenvolvido, destacando como este príncipe possuía virtudes de um rei, apesar de não o ser, e de sua obediência à Coroa. O que a obra traz de novo é justamente o desenvolvimento da vida religiosa do infante. O autor exaltou a sua devoção à ortodoxia católica e aos preceitos de vida da Companhia de Jesus, lançando luz sobre as correspondências que o infante D. Luís trocou com Francisco de Borja.
128 SALVADOR, Frei Vicente. História do Brasil, 1500-1627. 7° Edição. Belo Horizonte; São Paulo:
Editora Itatiaia: Editora da Universidade de São Paulo, 1982, p. 148-280.
129 PORTUGAL, D. José Miguel João de. Vida do Infante D.Luiz. escrita por D.Jozé Miguel Joaõ de
Portugal. Lisboa: Officina de Antonio Isidoro da Fonseca, 1735.
130 José Miguel João de Portugal (1706-1755), que, à data em que recebeu a Instrucção de seu pai (1745),
era herdeiro da Casa dos Portugais e 9º conde de Vimioso, membro da Academia Real da História desde 1731 e depois, deputado da Junta dos Três Estados. Sobre papel político dos acadêmicos ver: KANTOR, Iris. Esquecidos e Renascidos: Historiografia Acadêmica Luso-Americana (1724-1759). São Paulo; Salvador: HUCITEC: Centro de Estudos Baianos/UFBA, 2004 p. 45-57. Sobre D. José de Vimioso: SERRÃO, Joaquim Veríssimo. A Historiografia Portuguesa. Vol. III. Lisboa: Editorial Verbo, 1974, p. 108-112; outra obra do período é a de FIGUEIREDO, Frei Manoel. Dissertaçao historico-critica-
apologetica, e convincente da novissima opiniao, que seguio, que o Infante D. Luiz Duque de Beja fora desherdado do direito de successao do Reino, pela desigualdade do casamento. Lisboa: na Offic.
Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1788. Que continua o topoi da obdiências: “hum Principe das qualidades do Infante D.Luiz, tão obediente ao Monarcha feu Irmão, que dos confelhos do Infante tirava as plantas para o governo do Reino, e que efcolheo o Infante para Padrinho de feu neto, e fucceffor,” p. 5.
67 Ao estudar esta obra, Joaquim Veríssimo Serrão questionou que “intenção poderia ter, para os homens do século XVIII, relembrar a figura do segundo filho do rei D. Manuel e que pouco marcou, visto não se achar na linha direta da sucessão, os negócios do Estado na época de D. João III?”131. Serrão articulou duas respostas: (1) a obra dedicada ao infante D. Antônio (1704-1800), ironicamente filho bastardo de D. João V, tinha como objetivo educar o infante ao recomendar a imitação do virtuoso D. Luís. Na verdade a obra buscava enaltecer os filhos segundos da monarquia, mostrando o quão dignos poderiam ser mesmo vivendo à sombra do primogênito; (2) o interesse do autor em enaltecer a sua própria ascendência, lembrando o braço direito de D. Antônio, prior do Crato, foi Francisco de Portugal, o 3° conde de Vimioso.
A argumentação é correta, embora seja possível um aprofundamento. O caráter de exemplaridade de D. Luís é evidente, a questão é saber quais exemplos. Neste sentido nos parece importante ressaltar o destaque que essa obra dá ao lado religioso do infante, pois um dos censores era o Padre Luiz Alvares, da Companhia de Jesus, confessor do infante D. Antônio e qualificador do Santo Ofício. A perfeita integração entre a vida do infante e sua religiosidade é exaltada, ao contrário de historiadores mais recentes, pois D. Luís era entusiasta da Companhia de Jesus, protetor dos religiosos e seus últimos anos de vida foram de grande devoção, justamente aqueles que José Miguel de Portugal detalha em sua obra132.
Esta obra teve um grande destaque nos meios acadêmicos, sendo utilizada por D. Antônio Caetano de Sousa na sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa133. Ao contrário de seu companheiro de academia, o autor se fixa no topoi do rei em potência, ainda destacando as muitas de suas virtudes, em especial a proteção dos sábios e de verdadeiro cristãos. Mas, curiosamente, após a descrição da vida deste que foi “um
131 SERRÃO, Joaquim Veríssimo, op. cit.,1974, p. 109. Certamente Serrão hoje não concorda com a ideia
de que D. Luís pouco marcou a vida política portuguesa, prova disso é ter dedicado toda uma sessão ao infante D. Luís em sua História de Portugal.
132 Algumas pesquisas parecem demonstrar que esta obra também possui outras características. Como
Serrão já apontou, este livro foi escrito para elogiar os descendentes do autor. Devemos lembrar que seu pai, D. Francisco de Portugal, 2º marquês de Valença e 8º conde de Vimioso, pertencia aos “grandes” do reino, daquela nobreza oriunda da corte da Restauração e que se tornava cada vez mais fechada. A vida do infante, homem que só se preocupou em servir ao rei e até mesmo recusando a riqueza que sua posição permitia, diz muito a respeito desta nobreza que o vê como um herói exemplar. O pai do conde de Vimioso foi um homem da alta corte e “defensor do mais purificado decoro” e zeloso das práticas rituais da corte joanina, o que como veremos está bem de acordo com aquilo que o infante D. Luís melhor simbolizou. Ver. CARVALHO, José Adriano de Freitas. As Instrucções de D. Francisco de Portugal, Marquês de Valença, a seus filhos. Um texto para a Jacobeia? Península. Revista de Estudos Ibéricos, n.¼ 1, 2004, p. 319-347.
133 SOUSA, D. Antônio Caetano, História Genealógica da Casa Real Portuqueza. Tomo III. Coimbra:
68 dos mais famosos príncipes” podemos ler uma narrativa da vida de D. Antônio. O que é um fato novo, pois a narrativa de D. Antônio e seus filhos ocupam pela primeira vez um espaço maior do que o próprio infante, cujo capítulo lhe é dedicado.
O que encontramos no texto de D. Antônio Caetano de Sousa é o pleno desenvolvimento da narrativa de D. Antônio, prior do Crato, que no século XVII era encaixada junto à do infante, mas de forma pouco desenvolvida, como em frei Vicente de Salvador. A narrativa antonina vai aos poucos engolindo a do próprio D. Luís, tendência que se confirma nos séculos XIX e XX. Também é interessante ressaltar uma possível recepção que a leitura por completo de capítulo da História Genealógica... poderia causar. A nosso ver, existe uma oposição entre estes dois personagens: D. Luís é obediente, um homem militarmente experiente, humilde, religioso e casto enquanto o seu filho é descrito com as virtudes opostas: desobediente, um péssimo líder militar, ambicioso, avesso à religião, tendo perdido suas virtudes ao se entregar a paixões desenfreadas que resultaram em dez filhos bastardos.
Este jogo de oposição também esteve a serviço do severo juízo da historiografia do século XIX e lançou sobre o reinado de D. João III o começo da decadência de Portugal, em grande parte por causa da pessoa do monarca, descrito como um homem de inteligência medíocre e sem virtudes. Foi neste momento que as capacidades intelectuais sempre ressaltadas, mas nunca em primeiro plano, vieram à tona, transformando o infante D. Luís no oposto de D. João III. Rebello da Silva considerava- o o mais inteligente dos filhos de D. Manuel, sendo que, na longa lista de incapazes e péssimos homens da corte de D. João III, o único que merecia algum destaque e consideração era o infante. A sua religiosidade foi até diferenciada e atenuada por Alexandre Herculano: “No caracter de D.Luiz as sombras do fanatismo não se podiam confundir com a hypocrisia, como no do rei, seu irmão, o qual as deriva do seu apego às praticas superticiosas”134. A exaltação religiosa, tão bem destacada pelos historiadores do XVIII, aqui aparece dissimulada e até reprimida.
Em meados do século XX, Elaine Sanceau escreveu uma frase emblemática que sintetiza a posição que as narrativas históricas do infante D. Luís assumiram dentro deste novo contexto de significados:
D.João III era lento, fleumático e correto – inteligente, mas de espírito pouco flexível. D.Luís era ardente, vivo e versátil – tudo quanto
134 REBELLO DA SILVA, Luiz Augusto. Quadro elementar das relações políticas e diplomaticas de
69 executava fazia-o sob o impulso do coração. Amava as letras, e a ciência fascinava-o; adorava as armas e os feitos cavalheirescos. Era perfeito cortesão, escrupulosamente obediente ao seu senhor e irmão mais velho, guerreiro sempre pronto a fazer frente a todas as dificuldades da vida de campanha, ao mesmo tempo que estudioso persistente e generoso protetor da cultura em todas as suas formas135.
Desta breve passagem pela historiografia sobre o infante D. Luís, podemos identificar alguns padrões no que se refere aos significados atribuídos a este indivíduo. No século XVI, o infante D. Luís é essencialmente considerado um perfeito cortesão, isto é, um homem que possuía ao mesmo tempo as virtudes militares combinadas com os bons modos de um homem criado em uma corte real, mas esta representação começou a ser substituída pela cresente admiração por sua vida religiosa, como se verificou no século XVIII. A historiografia do XIX abandonou este apreço pela religiosidade, assim como por sua cortesia, entendida apenas como uma humilhante forma de submissão a D. João III. D. Luís tornou-se o símbolo de um homem inteligente e aberto a novas tendências culturais, mas cercado por fanáticos religiosos que estavam levando o país à decadência.
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