14 Kommunikasjonsflyt og -kontroll
14.2 Ekstern informasjonsflyt
Nas famílias em que ocorre o abuso sexual incestuoso, “há uma confusão
familiar (o pai deita-se com a filha, no lugar de deitar-se com a mãe; os irmãos mantêm o segredo familiar, favorecendo a manutenção do incesto; a filha acaba assumindo, muitas vezes, o papel de amante do pai e mãe dos irmãos; a mãe deixa de ser mãe e passa a ser a outra mulher do pai”. (Paulino, 2002, p.34). Desta forma,
a filha perde a proteção, tanto materna, quanto paterna.
É importante salientar que esta confusão familiar ultrapassa muitas vezes as fronteiras geracionais, tornando-se uma triste e amarga herança, pela qual uma pessoa revive suas dores por meio da cena que se repete. Este é o caso das mulheres que sofreram abuso sexual intrafamiliar ou incestuoso na infância e que constituem uma “nova” família, porém “fadada” ao velho e conhecido incesto.
Este é o ponto que vem me chamando a atenção: o que ocorre nestas famílias nas quais o mais temido, por já ser conhecido, é reatualizado e revivido por meio de outros personagens?
Somada a esta pergunta, outras perguntas aparecem: se o abuso sexual vivido é algo que estas mulheres dizem querer esquecer e, se relatam ainda que fizeram o possível para que isto nunca acontecesse com suas filhas, por que ele ocorre? Qual é a composição que une essas mulheres a companheiros/abusadores? Que tipo de política pública pode dar conta de lidar com esta emergente demanda? Qual é o papel do Assistente Social diante desta demanda?
Minha hipótese é que a relação incestuosa vivida pela mulher na infância faz com que ela tenha como modelo e referência de família aquela já conhecida, o que a leva inconscientemente a procurar estabelecer relações afetivas nos mesmos moldes, o que implica a reprodução de padrões abusivos.
“Uma família é, portanto, um sistema que opera por meio de padrões transacionais. Ou seja: por meio de transações repetidas ao longo dos anos, instituem-se padrões de interação, os quais, em formato de lei, estabelecem como, quando e com quem se relacionar. Esses padrões regulam o comportamento dos membros da família e são mantidos pelas regras que governam a organização do sistema e pelas expectativas mútuas de membros específicos da família.”
Assim sendo, o sistema aprende a operar, caracterizado por uma organização que traduz sua natureza, fadada a se perpetuar, uma vez que se estabelece uma forma padronizada de relação entre os indivíduos que constituem a família e o meio social em que estes convivem.
Para Vasconcellos (2003, p: 137 / 138)
A organização é a configuração de relações entre os componentes do sistema que, ao ser distinguida pelo observador, define a identidade do sistema, ou seja, define-o como sistema de uma determinada classe8
(...) A organização do sistema é necessariamente invariante e não é possível haver mudança de organização e o sistema permanecer com a mesma identidade...
Se uma das tarefas da família é preparar novos indivíduos para serem independentes e constituírem suas próprias famílias, levando-se em consideração a estrutura biológica de cada um e, acima de tudo, os subsistemas que os “governam”, bem como, as projeções e pautas intergeracionais que os acompanham, as heranças familiares acompanharão estes novos indivíduos em suas vidas, como uma espécie de legado.
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A autora cita como exemplo um relógio. Diz que “o que define um conjunto de elementos como um relógio é a configuração das relações entre esses elementos, ou seja, a organização do sistema. A organização do sistema é necessariamente invariante e não é possível haver mudança de organização e o sistema permanecer com a mesma identidade: se alguém retirar alguns dos elementos do sistema relógio, por exemplo, o mostrador com os ponteiros, nem esse conjunto, nem o conjunto dos demais elementos que sobraram serão mais distinguidos como um relógio. Perdeu-se a organização ou a configuração de relações entre os elementos que os definia como um relógio”. (p. 138)
Ora, se a família se organiza no sentido de manter sua autonomia e a totalidade do sistema que a identifica como tal, nos casos das famílias em que ocorre o abuso sexual incestuoso há que se vislumbrar a tentativa de mudança na
estrutura que foi estabelecida, ou seja, a maneira como os personagens que
compõem a rede familiar aprenderam e introjetaram formas de se relacionar entre si.
A mesma autora afirma ainda que:
Já a estrutura é a configuração de relações concretas que caracteriza aquele sistema como um caso particular daquela classe com aquela identidade ou organização. A estrutura do sistema pode alterar-se sem que se perca a organização.
(...) Assim, a cada momento, a estrutura do organismo, em virtude de sua plasticidade, terá incorporadas as transformações conseqüentes de suas experiências, de suas interações, e terá modificadas suas possibilidades potenciais para novas interações com seu ambiente. (Vasconcellos, 2003, p. 138/139)
Existem nas famílias vários subsistemas, mas, no que tange às famílias em que ocorre o abuso sexual incestuoso é importante observar a interação destes subsistemas no que se refere às relações entre os pais, entre os filhos, entre os filhos e os pais, entre abusador e abusada, entre mãe e filha, etc. Todos estes buscarão, o tempo todo, sua própria manutenção, procurando assim manter a harmonia do sistema. Entretanto, quando ocorre a quebra de um dos subsistemas familiares, no caso em questão decorrente da revelação do abuso sexual, o risco do sistema maior entrar em colapso, por meio da perda de sua autonomia, faz com que imediatamente este busque se defender, operando, muitas vezes, uma mudança superficial, que tende à homeostase, já que a família enquanto sistema é maior que as partes. A busca pela organização, tal como conhecida, será imediata, permitindo ao sistema se retroalimentar de modo a agir e desempenhar, produzindo os mesmos resultados que no passado.
Isto explica porque um significativo número de denúncias de abuso sexual intrafamiliar não têm prosseguimento depois de um determinado período. O fato inovador da denúncia movimenta o sistema familiar, num primeiro momento, porém, a seguir, entram componentes de negação, medo, confusão entre amor e raiva, etc., que contribuem para a autocorreção do sistema, prevalecendo a antiga pauta, que protege a família como um todo.
Outro dado importante é que nas famílias em que ocorre o abuso sexual incestuoso, devido à confusão de papéis, configurada pela pauta e padrões que nos referimos, não há clareza de limites e diferenciação entre os membros, logo, as dificuldades emocionais decorrentes ajudam a manter o sistema operando calcado no incesto.
Ainda para ilustrar a complexidade familiar, Andolfi (1996, p. 22) afirma que:
“Partindo, portanto, da premissa de que a família é um sistema entre sistemas, a exploração das relações interpessoais e das normas que regulam a vida dos grupos, em que o indivíduo está mais radicado, será um elemento indispensável para a compreensão dos comportamentos dos seus membros e para levar a cabo uma intervenção significativa em situações de necessidade.”
Isto posto, para que a família seja analisada em seu universo e para que seja possível propor mudanças neste sistema, é preciso compreender a família no sistema social do qual faz parte. Ainda segundo Andolfi (1996, p.26-27),
“Uma vez deslocado o foco de uma ótica individual para uma ótica sistêmica, a intervenção familiar torna-se também parcial e não consistente com as suas premissas teóricas, se não permitir a inclusão, no seu campo de pesquisas, das outras realidades significativas que interagem com a família: a escola, o trabalho dos pais, o bairro, a vizinhança, o grupo de amigos [e a família alargada].”
Isto explica porque a ação apenas junto aos que sofreram abuso sexual não é efetiva, sendo necessárias intervenções familiares.
A busca por mudanças efetivas na estrutura do sistema, que possam assegurar uma forma diferente de relação entre os subsistemas filial e paterno; a compreensão da família em que ocorre o incesto – não mais o agressor e a
“vítima” – e quais os elementos que permitem a reprodução de estruturas
familiares, pautadas na proteção do sistema familiar e não na correção de condutas, nas quais as relações ocorrem em meio ao incesto, configura-se num grande desafio profissional. Estas relações precisam ser revistas, reelaboradas e ressignificadas, sem que esse sistema familiar perca a autonomia e a totalidade.