4. EIERSKAP – Politikk eller profesjonalitet og presseetikk?
4.2 Eierskapets betydning for tilgang til ressurser
Várias são as histórias de mulheres que tiveram que se passar por homens para fazer o que queriam.
A diferença de género entre homens e mulheres sempre foi um problema dentro das sociedades. Historicamente, o lugar das mulheres dentro das sociedades foi ou tem sido, categoricamente, interpretado como inferior ao do homem dada a visão que se tinha da mulher não passar de uma procriadora, frágil e incapaz de sobreviver sozinha num mundo controlado por homens109. Na verdade, durante longos séculos o lugar da mulher era na
cozinha, sua missão era procriar, cuidar dos filhos, do marido e do lar. Por razões históricas e ideológicas, o século XIX, para o qual desejamos direcionar o estudo, trouxe novidades à época, tal como serviu de palco para manifestações feministas de mulheres que se viram na obrigação de lutar pelos direitos de igualdade e de género. De facto, durante longos séculos houve a privatização do mundo social, das manifestações artístico-literárias e todos os privilégios para um único ser que se acreditava ser capaz de fazer tudo. Assim, a tomada de consciência traduzida pela luta pelo espaço merecido dentro das sociedades começava a ser um facto durante o século XIX com o rompimento da principal barreira sobre o direito básico de aprender a ler e a escrever.
O século XIX foi marcante para as mulheres que através da poesia e da escrita tornaram-se exemplos de manifestação da expressão pública. Porém, incontáveis barreiras dificultaram o desenvolvimento da vida intelectual, social e profissional da mulher. Assim, as mulheres viram-se obrigadas a ocultar-se sob véu de identidades e personagens masculinas para fazer o que a sociedade ainda condenava a respeito do seu género. Desta maneira, julgamos ser importante destacar o empenho de algumas escritoras, poetisas, cantoras que brilham em desenvolver matérias ligadas à educação feminista, resistindo na luta da igualdade de género fazendo valer sua hegemonia mesmo sob véu de nomes masculinos, do chamado travestismo literário110, que, também, de alguma maneira muito veio a contribuir na
proliferação de nomes fictícios dentro e fora das manifestações artísticas. A título exemplificativo, apresentámos a Auta de Souza, poetisa mística brasileira, que viveu a sua carreira num período em que o mundo das letras era, praticamente, renegado ao seu género. A autora sentiu-se obrigada a atribuir autoria das suas obras a pseudónimos masculinos como Hilário das Neves. Ora, esta exclusão, rejeição, discriminação da mulher num mundo que se acreditava ser exclusivo para homens marcava todas as sociedades. Na Inglaterra vitoriana, por exemplo, as mulheres também respiravam ares de resistência. As irmãs Brontë, Charlotte, Emily e Anne, de uma vida breve, porém tão decisiva pelo facto de lhes ser possível compilar
109 Márcia de Medeiros, Tânia Zimmermann, As Vozes Femininas na Literatura Inglesa da Baixa Idade,
Jundiaí: Paco Editorial, 2017, p. 84.
110 Travestismo Literário é a adoção de um nome fictício ou real de um género diferente ao do autor
23
grandes clássicos da literatura inglesa escrevendo e marcando os seus nomes na história universal sob véu de pseudónimos masculinos: Currer, Ellis e Acton com o sobrenome Bell111.
O que implica que as três irmãs Brontë ficaram, temporariamente, conhecidas por irmãos Bell. Disfarçar o género e assinar os textos foi uma prática universal. A escritora portuguesa Irene do Céu Lisboa, por exemplo, também teve de adotar nomes supostos como João Falco para que os seus textos fossem lidos sem censura pelo género discriminado. Uma outra escritora foi a Alice Pestana Coelho, feminista e fundadora da Liga Portuguesa da Paz em 1899, os seus ideais foram justos e marcantes na defesa da mulher marginalizada. A autora para além de defender os direitos de igualdade das mulheres, de contribuir para uma sociedade mais justa e democrática, também se destacou com o uso de pseudónimos masculinos para assinar as suas obras. Citam-se pseudónimos como Caiel, Eduardo Caiel, Cil. A escritora Guiomar de Noronha Torresão também não passou despercebida pelos inúmeros pseudónimos masculinos colecionados para atribuir autoria das suas obras. Citam-se Gabriel Cláudio, Delfim Noronha, Sith e Tom Ponce112. Quem não deixou de fazer parte de clube do
travestismo foi a baronesa e escritora Amantine Dupin que não só ocultou a sua verdadeira identidade sob véu de um nome fictício, George Sand, para assinar as suas obras. A autora também se disfarçava com roupa masculinas, fumando cachimbo, confundindo-se com homens em clubes de varões hilariantes113. A lista de escritoras ou mulheres que marcaram os
séculos XIX e XX com nomes masculinos para fazer história e romper as barreiras é extensa. Cita-se também nomes como Malinda Blalock, Norah Vincent, Kathrine Switzer, Marina, A Monja, Joana D'arc, Elisa Bernerström114, entre outros nomes espalhados pelo mundo.
Todavia, acreditamos apresentar de forma exemplificada um número de mulheres que marcaram sua história, a história da mulher das artes sob véu de nomes e personalidades masculinas.
Outrossim, o travestismo literário como forma de expressão feminina não se fez sentir com maior expressividade no mundo artístico angolano. As mulheres que durante o século XIX e XX viram na arte a melhor maneira de se comunicar com o mundo não precisaram necessariamente de ocultar suas verdadeiras identidades sob véu de nomes masculinos. A escritora Amélia Cardoso, por exemplo, durante a clandestinidade, a censura e a luta pelo estereótipo feminino, optou por assinar os seus textos sob véu de nomes fictícios e abreviaturas. A autora adotou nomes como Ivi, Liana e Dya Kasembe, AFC. E nomes como Tchiumba, Dina Santos, Alba Clington e o trio feminino, Belita Palma, Lourdes Van-Dúnem, Conceição Legot, cantoras de todos os tempos, por exemplo, não precisaram manter exclusividade artística e ocultar suas verdadeiras identidades para frequentar o mundo artístico. No entanto, a par do preconceito, da discriminação, rejeição da mulher dentro do mundo artístico podemos afirmar categoricamente que a produção artístico-literária feminina
111 Beatriz Montesanti, “As Histórias das Mulheres que Precisaram se Passar por Homens para Fazer o
Que Queriam” Jornal Nexo, 2016.
112 Taborda de Vasconcelos, op. cit., p. 52. 113 Beatriz Montesanti, op. cit., S/p. 114 Idem, ibid.
24
no século XIX e XX não somente abriu portas para o uso constante e inconstante de nomes fictícios dentro e fora do mundo artístico, mas também revela ser um marco histórico feminino na luta pelos ideais e por um lugar merecido tanto dentro do mundo das artes como das próprias sociedades.