Vários projetos foram realizados no Brasil desde a década de 1970. Ribeiro (2006, p.117-118) associa a origem da biblioterapia no Brasil com os projetos de incentivo à leitura e acessibilidade informacional, tendo como exemplo, o projeto de extensão “Carro-Biblioteca” da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A atividade se caracteriza por transportar livros infantis às vilas de Porto Alegre, para auxiliar as crianças em atividades escolares. Outro exemplo citado foi o projeto de leitura denominado “Núcleo da Hora do Conto”, realizado em hospitais, asilos, creches e escolas. Esse projeto iniciou-se com os alunos do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e tinha como finalidade a realização de contação de história para o público infantil, juvenil e idoso.
Tais projetos podem ser considerados precursores da atividade biblioterapêutica pelo fato de reconhecer o papel da leitura para a sociedade, democratizando o acesso e buscando a melhoria na qualidade de vida por meio destes, apesar de não terem a sistemática da atividade.
Destacam-se os primeiros trabalhos biblioterapêuticos realizados no Brasil na década de 1980, Alves (1982), pioneiro destes trabalhos, aplicou a técnica em prisões para a reeducação social do presidiário, sendo que a atividade teve a aplicação interdisciplinar de bibliotecário, psicólogo e assistente social. Segundo Hasse (2004), a atividade também foi realizada com os idosos do Lar da Previdência Carneiro da Cunha, em João Pessoa, por Vasquez, que tinha como objetivo o incentivo da leitura para melhoria de vida e eram realizados programas de leituras
dirigidas em sessões de grupo e individual, tendo um resultado positivo em relação à diminuição da ansiedade e depressão dos internos.
Almada (2003, p.3) ressalta que, na década de 1990, a “Casa da Leitura” foi criada com a parceria Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto foi gerenciado pelo Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) e “[...] dele nasceu a proposta de uma biblioteca infantil, na qual seriam realizadas sessões de contos infantis nas enfermarias pediátricas do Hospital Universitário Graffree Guinle (HUGG)” (ALMADA, 2003, p. 3).
Outro projeto realizado na década de 1990 foi “Biblioterapia no Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS)” que surgiu como um projeto de iniciação cientifica do curso de Biblioteconomia da UFC em 1994. No ano seguinte, o curso de Psicologia começou a participar do projeto por meio do Núcleo Cearense de Pesquisa e Estudos da Criança e do Adolescente (NUCEPEC). Também começou a participar, nesse ano, o curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) (FONTENELE, 2000).
O trabalho pioneiro da biblioterapia com deficientes visuais, no Brasil, foi realizado por Pereira (1996), em João Pessoa. Tal programa era para portadores de deficiência visual em bibliotecas públicas e tinha como objetivo a integração destes na sociedade. Em 1998/1999, Pereira (2000) participou do Projeto de Extensão no Instituto dos Cegos da Paraíba “Adalgisa Cunha” aplicando a biblioterapia nesta instituição, que tinha como objetivo proporcionar aos alunos do instituto o conhecimento sobre biblioterapia e oferecer subsídios para solução de problemas e necessidades pessoais. Outra aplicação, no final da década de 1990, foi realizada na Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, realizada por Seitz (2006a). Tal atividade busca o fomento para o lazer e interação entre bibliotecário, paciente e enfermeiros, e para socialização dos pacientes.
Pinheiro (1998) apresenta uma experiência com outro projeto para idosos, o “Projeto Renascer”, que foi conduzido pela Universidade Federal do Ceará (UFC), através da Pró-Reitoria de Extensão e do curso de Biblioteconomia. O intuito era de reforçar valores e dissipar o isolamento do idoso.
Outro projeto, que segundo Ribeiro (2006), se aproxima do trabalho biblioterapêutico, denomina-se “Biblioteca Viva em Hospitais”, iniciada em 2000. Ele foi desenvolvido com o apoio do Ministério da Saúde (MS) entre outras instituições, que tinha como objetivo o desenvolvimento de sessões práticas de leitura de livros infantis, realizada por voluntários, em enfermarias pediátricas do Instituto Fernandes Figueira (IFF), do Instituto de Puericultura Martagão Gesteira (IPMG) e do Hospital Municipal Jesus (HMJ). Por último, Ribeiro (2006) destaca o trabalho biblioterapêutico realizado com crianças em hospitais por Caldin (2002) no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por Moreno (2003) no HIAS e por Pinheiro (2002) no Ceará e no Núcleo de Apoio a Criança com Câncer (NAAC), na Paraíba.
A disciplina de ―Biblioterapia”44 foi ofertada pela Universidade Federal de Santa Catarina, no ano de 2002, com carga horária de 4 horas/aulas semanais e 80 horas/aulas semestrais, e a partir de 2003, foi ofertada pela mesma universidade como disciplina optativa no curso de Biblioteconomia, com 2 horas/aulas semanais e 36 horas/aulas semestrais. Nesta disciplina os alunos estudam conceito, histórico, fundamento filosófico, objetivos, metodologias e aplicações da biblioterapia, para então organizar um projeto desta atividade, executada em instituições previamente selecionadas, sendo considerado para a avaliação da disciplina, um relatório final apresentado em sala de aula (CALDIN, 2010, p. 43).
Várias atividades biblioterapêuticas foram realizadas a partir do grupo de pesquisa “Núcleo de Biblioteconomia, Bibliotecas Escolares e Leitura”, formada em 2004 pela UFSC45, tendo uma linha de pesquisa nomeada “Biblioterapia”46, que tem como objetivo “Desenvolver pesquisas que envolvam a utilização da leitura como atividade biblioterapêutica, tendo em vista os conceitos, os objetivos, o fundamento filosófico e o método biblioterapêutico” (CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO, 2012, online). Em 2006, segundo Leite (2009), surge no Brasil a Sociedade Brasileira de Biblioterapia Clínica, que tinha como objetivos principais:
44 Ementa em anexo. 45 Anexo A. 46 Anexo B.
[...] formar profissionais para atuarem como biblioterapeutas; reunir pesquisas e trabalhos científicos sobre o tema; trocar experiências entre profissionais das áreas coligadas; disseminar a prática nas escolas, hospitais e centros de saúde da rede pública; fomentar a produção de material técnico sobre o assunto; mobilizar o mercado editorial para a importância da aplicação da biblioterapia; recolher material de cunho terapêutico; e regulamentar a profissão. (LEITE, 2009, p.26).
Cortez, Calazans e Vidal (2011) aborda o “Projeto de Manifestações de Artes Integrada a Saúde (Projeto MAIS)” do Hospital das Clinicas (HC) em Recife. Criado em 2007, esse projeto promove intervenções em espaços do hospital, com músicas, contação de histórias, teatro, entre outras manifestações. Em 2010, adiciona-se um projeto de extensão chamado “Projeto de Mediação de Leitura” que busca
[...] incentivar o gosto pela leitura e, por meio desta humanizar a assistência à saúde no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, cuidando do bem-estar biológico, psíquico e social dos seus usuários, familiares, profissionais, alunos e funcionários, atuando de forma preventiva e assistencial à saude. (CORTEZ; CALAZANS; VIDAL, 2011, online).
Segundo os autores, essa atividade biblioterapêutica permitiu a redução de estresse de pacientes e profissionais do hospital, mostrando resultados positivos de aplicação e previsão de aperfeiçoamento do projeto.
Em 2012 surge um projeto de lei47 que dispõe sobre o uso da biblioterapia em hospitais públicos, contratados, conveniados e cadastrados do Sistema Único de Saúde – SUS. O foco do projeto é a aplicação da biblioterapia no âmbito da medicina.
Tais exemplos pontuados de atividades biblioterapêuticas demonstram a diversificação na aplicação e a disposição de profissionais em desenvolvê-las.
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