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O processo de internacionalização da produção mundial que toma vulto a partir de 2003 promoveu impactos significativos no comércio internacional. Entre 2002 e 2012 as exportações mundiais apresentaram um crescimento médio anual de 15,4%, elevando o valor das exportações de US$ 6,31 trilhões em 2002 para aproximadamente US$ 17,85 trilhões em 2012. O PIB mundial cresceu 116%, impulsionado pelas economias dos Estados Unidos e da China, deixando a marca de US$ 33,35 trilhões em 2003 para US$ 72,21 trilhões em 2012. Uma expansão nada desprezível para uma década. No mesmo período as exportações brasileiras cresceram em média 21,1% a.a., aumentando a participação do país nas exportações globais de 0,96% em 2002 para 1,36 em 2012, crescimento anual médio de 1,22%. (Secex/MDIC, 2014)

O elevado crescimento das exportações brasileiras é uma das principais características da economia brasileira nesse início de século. Conforme evidencia o gráfico 2, o cenário externo favorável proporcionou a geração de grandes superávits comerciais na fase ascendente do ciclo econômico, o que contribuiu para reduzir a restrição externa ao crescimento e o grau de vulnerabilidade externa da economia.

Gráfico 3: Brasil: Exportações, Importações e Saldo Comercial: 2003-2013 (US$ bilhões).

Fonte: Banco Central do Brasil (2014). Elaboração Própria.

Porém, logo nos primeiros meses após a crise financeira de 2008 houve uma forte redução no fluxo de comércio, o que provocou alterações na condução da política econômica do país. A recuperação veio logo em seguida no final de 2009 com a retomada do crescimento das exportações e do com crescimento de 7,5% do PIB em 2010. Daí em diante as taxas de crescimento da economia brasileira ficaram aquém das verificas logo no início do ciclo (FERRAZ, 2013).

A Tabela 6 revela que entre 2003-2006 a taxa média de crescimento do valor das exportações foi de 23%, número bastante superior ao volume de importações que cresceu 18,4%, razão pela qual o superávit ter sido tão elevado nesse período, média de US$ 37,4 a.a. Porém, a partir de 2006 o ímpeto exportador já começava a dar sinais de arrefecimento,

posteriormente, a crise de 2008 impacta diretamente o resultado da balança comercial. Em 2009 o país vendeu para o exterior cerca de US$ 153 bilhões de dólares e o último trimestre desse ano o aumento do valor das exportações já demonstravam sinais de recuperação.

Mesmo as exportações crescendo surpreendentemente após a crise, a taxa de crescimento maior do valor das importações contribuiu para uma queda de mais de 50% do saldo comercial quando comparado aos anos anteriores. O ponto mais baixo ocorre em 2013, cerca de US$ 2,8 bilhões, o menor valor desde 2001.

No período 2007-2010, as exportações e importações cresceram 12,3% e 33,6%, respectivamente, mantendo essa tendência até 2013. Deve-se atentar para o fato que, enquanto o mundo passava por uma das piores crises financeiras desde 1929, o valor das exportações brasileiras aumentou em US$ 58 bilhões, entre 2008 e 2011.

Tabela 6: Taxa Média de Crescimento do valor das Exportações e Importações: 1999-2013. (US$ bilhões)

Fonte: Banco Central do Brasil (2014). Elaboração Própria.

O crescimento do valor das exportações brasileiras no decênio 2003-2013 explica-se principalmente por ganhos de preços. O gráfico 3 evidencia que nesse período os preços das exportações cresceram substancialmente; diferente do quantum que exibiu relativa estabilidade em sua trajetória. Em relação às importações verifica-se o inverso, o aumento do valor importado esteve relacionado com o crescimento do quantum, enquanto os preços mantiveram pouca variação.

Gráfico 4: Brasil: Exportações e Importações

Evolução Anual do quantum e dos preços: 2002-20013

Taxa Média de Crescimento

Período Exportações Importações

1999-2002 4,5% -4,2%

2003-2006 23,0% 18,4%

2007-2010 12,3% 33,6%

Fonte: Ipeadata (2014) *Média 2006 = 100 Elaboração Própria

Pochmann (2012) relata que a necessidade chinesa por matérias-primas, alimentos e energia provoca uma posição altista na cotação internacional das commodities, inversamente, sua produção manufatureira intensiva em trabalho e em tecnologia, voltada para o mercado interno e externo, impulsiona para baixo os preços dos produtos manufaturados devido aos enormes ganhos de escala. Barbosa (2011) pontua que o país asiático também adota um sistema de taxa de câmbio administrada com restrição aos fluxos de capitais com o objetivo de manter as exportações mais competitivas em relação ao resto do mundo.

No imediato pós-crise, tanto os preços e o quantum exportado apresentaram acentuada redução, porém, o impacto da crise fez-se mais intenso sobre os preços que o

quantum, ambos apresentando redução de -13% e -11%, respectivamente. No entanto, Ferraz

(2013) explica que no segundo semestre de 2009 as quantidades exportadas e, sobretudo os preços, iniciam uma rápida trajetória de recuperação, atingindo as vendas ao exterior o valor de US$ 201,9 bilhões em 2010, ultrapassando os US$ 197,9 bilhões de 2008. O autor pontua que novamente o comportamento altista dos preços das commodities foi um elemento chave nesse processo de recuperação. Quanto o valor das importações no primeiro semestre de 2009, Ferraz (2013) esclarece que o impacto da crise refletiu de modo mais intenso sobre o quantum exportado, visto que os preços mantiveram a tendência de alta.

De acordo com a Tabela 7, a partir de 2012 a tendência de crescimento dos preços e do quantum exportado perde fôlego e apresenta redução de 4,9% e -0,9%, respectivamente.

Em 2013 há novamente outra redução dos preços, porém, a queda de -3,5% foi contrabalanceada pelo aumento de 3,4% no quantum exportado.

Tabela 7: Taxa de crescimento do Valor e do Quantum das exportações e importações (%).

Fonte: Ipeadata (2014). Elaboração Própria.

A análise do comportamento dos preços e do quantum das exportações e importações nos leva a concluir que o crescimento do valor das exportações no decênio 2003-2013 ocorreu mais em função da elevação dos preços do que da quantidade vendida, enquanto o comportamento das importações refletiram mais variações no quantum que nos preços.

Se fizermos uma rápida regressão pela história econômica do Brasil, veremos que o atual ciclo de crescimento segue o mesmo padrão descrito por Furtado (2007) em sua obra clássica, Formação Econômica do Brasil, quando este explicava a dinâmica dos grandes ciclos da economia brasileira. A fase ascendente do ciclo inicia com um aumento dos preços dos produtos agrícolas no mercado internacional seguido pela elevação do quantum exportado. A elevação da renda gerada pela comercialização dos bens primários faz crescer o pagamento de fatores dentro da própria economia ativando os recursos subocupados. A renda tende a crescer, primeiramente, em termos monetários e em seguida em termos reais. Embora o crescimento ocorra devido a fatores exógenos, os setores que orbitam o núcleo exportador se beneficiam do impulso externo elevando a produtividade. A junção de condições favoráveis permite que o mercado interno se desenvolva a um ritmo maior que o setor exportador. Nesse cenário a indústria exerce uma função crucial, pois possui a capacidade de potencializar os efeitos provenientes do das exportações.

Preços Variação % Quantum Variação % Preços Variação % Quantum Var %

2003 71,50 4,7 74,30 15,7 76,55 6,1 69,11 -3,6 2004 79,29 10,9 88,48 19,1 84,16 9,9 81,73 18,3 2005 88,88 12,1 96,77 9,4 93,57 11,2 86,11 5,4 2006 100,00 12,5 100,00 3,3 100,00 6,9 100,00 16,1 2007 110,51 10,5 105,49 5,5 108,24 8,2 122,00 22,0 2008 139,61 26,3 102,89 -2,5 131,85 21,8 143,63 17,7 2009 120,90 -13,4 91,83 -10,7 117,17 -11,1 119,34 -16,9 2010 145,72 20,5 100,55 9,5 121,74 3,9 163,46 37,0 2011 179,52 23,2 103,49 2,9 139,12 14,3 178,04 8,9 2012 170,65 -4,9 103,15 -0,3 140,44 0,9 173,98 -2,3 2013 164,74 -3,5 106,68 3,4 138,79 -1,2 189,01 8,6 2008-2013 - 18,0 - 3,7 - 5,3 - 31,6 2002-2013 - 130,4 - 43,6 - 92,4 - 173,5 Exportações Importações

Mesmo tendo perdido participação no PIB nesses últimos anos a indústria nacional ainda possui amplo poder de geração de renda. Entre 2002 e 2012 foram criados 13,2 milhões de vagas líquidas na indústria de transformação, porém, nos últimos anos a participação dos empregos nesse setor vem se reduzindo. As razões apontadas pela redução da participação dos empregos industriais decorreram do aumento da produtividade desse setor e também pelo aumento da participação dos produtos importados4.

Para Kaldor (apud FEIJÓ E LAMONICA, 2007) a indústria é essencial para o desenvolvimento econômico, pois uma estrutura industrial complexa apresenta encadeamentos intra e inter setores mais sólidos, tornando possível um maior potencial de crescimento. Kaldor esclarece que existe uma relação positiva entre o crescimento da indústria e o crescimento do PIB. Quanto maior a taxa de crescimento da indústria maior será a taxa de crescimento do produto nacional. Nesse esquema, a indústria passa a ser o “motor do crescimento” por ser mais dinâmico e difusor de inovações. A interação entre os setores industriais estimularia ganhos de produtividade dentro e fora dela e a acumulação de capital, por meio do processo industrial, é a chave para o processo de desenvolvimento econômico (Feijó e Lamonica, 2007).

Furtado (2012) explica que a partir do momento em que as atividades industriais chegam a ocupar posição significativa e a produção de bens de capital relativa importância, o sistema econômico passa a crescer por conta própria. Mesmo que a procura externa deixe de crescer não significa, necessariamente, que a economia deva entrar numa etapa de estagnação. Isso ocorre porque a reinversão dos lucros do sistema industrial, em condições normais de operação, cria automaticamente procura para as indústrias de bens de capital, as quais tendem a expandir-se e a ampliar o mercado da outras indústrias.

O aumento dos preços das commodities nos mercados globais provocou uma melhora significativa nos termos de troca como mostra o gráfico 5. No período 2003-2013 a melhora nos termos de troca foi de 29%. Somente a partir de 2011 é que se observa uma reversão da tendência de alta que vinha se esboçando desde 2009 (IPEADATA, 2014).

Gráfico 5: Evolução dos Termos de Troca: 2003-2013.

Fonte: Ipeadata (2014). Elaboração Própria.

De acordo com Barbosa (2011) a melhora dos termos de troca tem efeitos positivos sobre uma economia aberta, dos quais o autor cita três: o efeito renda, o efeito câmbio e o efeito sobre o balanço de pagamentos.

Barbosa (2011) esclarece que o estímulo da procura externa eleva a renda disponível do país e aumenta a demanda doméstica por produtos nacionais e importados. Sob o impacto de fatores externos, e também na presença de capacidade ociosa, o deslocamento da demanda agregada para a direita promove um ritmo de crescimento mais acentuado da economia e estimula novos investimentos. Quanto ao câmbio, a melhora nos termos de troca tende a apreciá-lo, o que reduz a pressão inflacionária e favorece a adoção de uma política monetária e fiscal menos restritiva.

Contudo, Ferreira (2009) explica que o câmbio valorizado poder trazer consequências para a economia brasileira. A valorização excessiva do real colabora para a redução da arrecadação federal, uma vez que a indústria é uma das principais responsáveis pela elevada receita dos tributos, pois o câmbio valorizado facilita a importação de produtos manufaturados, o que reduz a competitividade da indústria nacional. Outro fator de relativa importância levantada pela autora refere-se ao impacto sobre o aumento das viagens internacionais, que contribui para ampliar o déficit na conta de serviços. De acordo com o Banco Central (2014) em 2003 o saldo das viagens internacionais foi de US$ 218 milhões de dólares em 2013 essa conta apresenta um déficit de US$ 18,6 bilhões.

Em ralação ao efeito do balanço de pagamentos, Barbosa (2011) relata que a elevação dos termos de troca aumenta o saldo comercial e o saldo em conta corrente da economia. A menor dependência em relação aos recursos externos colabora para a redução da vulnerabilidade externa da economia. O autor pontua que a melhora de 31% dos termos de troca no período de 2005-2011 possibilitou ao governo brasileiro acelerar o desenvolvimento econômico e social do país através de um conjunto de medidas com o objetivo de superar a pobreza e a má distribuição de renda.

Conforme foi discutido no primeiro capítulo desta monografia, a alta dos preços das

commodities na fase ascendente do ciclo internacional da economia mundial e a subsequente

compensação da queda dos preços em 2013 via elevação do quantum exportado; apresenta algumas semelhanças como os demais ciclos econômicos observados na economia brasileira. Conforme observou Furtado (1950), ao longo da história econômica do Brasil a perda do poder de compra dos produtos primários em relação aos produtos manufaturados durante muitas décadas era contrabalançada na maioria das vezes elevando o quantum exportado, ou via desvalorização da taxa de câmbio quando não havia mais a possibilidade de aumentar o volume de exportações, como fora o caso do ciclo do açúcar no nordeste e o ciclo do café no sudeste brasileiro.

O fato que mais salta aos olhos nesse último ciclo de crescimento foi que após a crise de 2008 houve uma incrível recuperação dos preços das exportações em um espaço curto de tempo. Na crise de 1929, período em os preços do café desabaram e não era mais possível aumentar o quantum exportado, nem mesmo com uma taxa câmbio desvalorizada; a economia brasileira nos anos trinta viu na indústria de transformação a oportunidade de diversificar a estrutura produtiva do país e avançar para um patamar mais elevado de desenvolvimento. A crise dos anos trinta forçou a economia brasileira a se voltar para dentro e procurar desenvolver internamente suas forças produtivas. Diferente das outras crises presenciadas pela a economia brasileira, a recessão global de 2008 acentuou um tendência a primarização da pauta exportadora brasileira que já vinha se esboçando há algum tempo. Na subseção seguinte mostraremos dados que corroboram com essa afirmativa.