• No results found

Effekt av uteklima med ulike dampsperresjikt

A análise dos resultados desse conjunto de pesquisas nos sugere também que o imaginário empresarial está permeado por novas idéias e velhos

fantasmas. Isso quer dizer que, ao lado de idéias e noções mais permeáveis a

uma presença mais valorizada e mais eqüitativa das mulheres no mundo da empresa e do trabalho, continuam existindo núcleos duros de resistência, que, quando acionados, fazem (re)aparecer velhos fantasmas, os quais

aceito.

Como discutimos ao longo deste capítulo, o imaginário e os processos de tomada de decisão dos atores sociais estão marcados por distintas racionalidades (sempre “limitadas”), ou distintas lógicas que, em cada caso concreto, podem combinar-se de maneiras diferentes entre si. No imaginário empresarial, por exemplo, freqüentemente se superpõem (complementando-se às vezes e outras vezes apresentando algum grau de incoerência e até contradição) as lógicas da busca do lucro, da eficiência, da autoridade, do controle.

Por sua vez, esse imaginário, assim como os discursos por meio dos quais os distintos atores se apresentam a si mesmos e configuram seus campos de interação social, não são estáticos. Pelo contrário, se constituem e se transformam a partir de um complexo processo de avanços, retrocessos, compromissos, resistências, negociações, oposições e aprendizagens, que, por sua vez, dependem do contexto político, econômico, cultural, legal e institucional no qual se movem. No caso em questão, a presença de outros atores (sindicatos, governo, parlamento, movimento de mulheres) e a existência de políticas e programas de igualdade de oportunidades e experiências de negociação coletiva podem produzir mudanças importantes no imaginário empresarial e influenciar o seu processo de tomada de decisões, induzindo a aceitação de novas idéias, aplacando ou acirrando a existência de velhos “fantasmas” etc.

Fazendo aqui um paralelo para tentar explicitar um pouco mais esse raciocínio, retomo uma discussão sobre o comportamento empresarial no processo de transição democrática brasileira de meados dos anos 1980 (Abramo, 1986). Foi possível observar, naquele contexto, que estava marcado por um processo muito vigoroso de mudança na situação política do país e de ressurgimento do movimento sindical, o aparecimento, no imaginário empresarial, de várias novas idéias a respeito dos trabalhadores. Entre elas, a aceitação da liberalização dos mecanismos de controle estatal sobre a ação sindical, do direito de organização dos trabalhadores no interior das empresas -

relação aos quais uma grande parcela do empresariado brasileiro havia se oposto fortemente durante todo o período ditatorial. Contudo, alguns temas continuavam sendo considerados inaceitáveis. Entre eles o direito de greve, a possibilidade de organização de centrais sindicais e o direito à participação política dos trabalhadores, ou seja, aspectos relacionados às possibilidades de constituição e fortalecimento dos trabalhadores como sujeitos coletivos que realmente pudessem ser tomados em consideração no cenário político. Ao referirem-se a esses temas, os entrevistados revelavam concepções, pensamentos e temores que, em muitos casos, haviam permanecido até então encobertos, relativizando ou abandonando muitas das idéias que até aquele momento haviam aparecido como novas em seu discurso.56

Os temores dos empresários, no caso daquela pesquisa estavam associados basicamente à concepção, que continuava subjacente ao discurso, dos trabalhadores enquanto agentes potencialmente desagregadores da ordem, que, sem o devido controle, abusariam irresponsavelmente dos direitos “concedidos”, ameaçando a ordem estabelecida. Por isso, não podiam aceitar a plena constituição de sua condição de sujeitos coletivos. Ao tocar esse “núcleo duro”, parecia detonar-se algo no imaginário empresarial que fazia reaparecer no discurso os argumentos que defendiam e justificavam a manutenção de uma série de mecanismos de controle sobre a ação e as possibilidades de organização dos trabalhadores. 57

Com base nessa discussão, podemos pensar se esse mesmo tipo de mecanismo poderia estar operando no imaginário empresarial relativo às mulheres no trabalho. Quais poderiam ser as novas idéias e os velhos fantasmas presentes hoje em dia no discurso empresarial referente às mulheres trabalhadoras?

56 Esse fenômeno parece similar ao analisado por Callejo e Martín (1994-95) quando se referem ao “sexismo

inibido” e ao “sexismo argumentado”, comentado no início deste capítulo.

57 O mesmo fenômeno foi observado por Campero (1989) ao analisar o comportamento empresarial no início da

em vários momentos e aspectos, os impactos de processos sociais tão relevantes como o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o aumento de sua escolaridade - incluindo a superior - e as mudanças culturais mais gerais ocorridas nas últimas décadas em relação ao seu papel na família e na sociedade.

Em primeiro lugar, parece haver uma maior aceitação da idéia de que as

mulheres podem entrar no mundo do trabalho, seja porque elas necessitam fazê-lo, por exemplo para o sustento econômico da família, seja porque elas têm direito ,a

por razões de ordem econômica, de autonomia pessoal, de projeto de vida etc.. Em suma, existiria uma maior aceitação da idéia de que o mundo da mulher não é

só a família ou a esfera doméstica.

Em segundo lugar, especialmente em setores/empresas mais modernas e dinâmicas, parece existir uma maior permeabilidade à (ou a aceitação formal da) idéia da igualdade entre os gêneros, o que dificultaria procedimentos explícitos de discriminação. Em determinados âmbitos, inclusive, começa a ser visto como “politicamente incorreto” discriminar em função do gênero e/ou da raça das pessoas. Esse fato, evidentemente, é também em grande parte reflexo do avanço na legislação antidiscriminatória e de promoção da igualdade ocorrido nas últimas décadas.

Em terceiro lugar, também vem ganhado espaço a noção de que a incorporação de mulheres à empresa em tarefas ou funções não tradicionais pode significar, para esta, a aquisição de novas capacidades diferentes das que são características dos homens, além de ampliar o universo de trabalhadores entre os quais é preciso selecionar os mais dotados.

Quais seriam, então, os velhos fantasmas que seguiriam marcando sua presença no imaginário empresarial? Por que continua sendo tão difícil aceitar a idéia de uma presença igualitária das mulheres no mundo do trabalho? Por que sistematicamente se reproduzem e reinventam mecanismos e formas de desvalorização e desqualificação das mulheres enquanto trabalhadoras? Por que continua sendo tão difícil avaliar o seu desempenho na empresa por meio de critérios que levem em conta prioritariamente as suas qualificações técnicas e

profissionais, e não as características atribuídas a uma suposta natureza feminina?

Por que a entrada e permanência das mulheres no mundo do trabalho em igualdade de condições com os homens tende a ser percebida como uma ameaça? Por razões que são principalmente de ordem econômica? Neste caso, a que tipo de fatores estará relacionada essa ameaça? Algumas hipóteses são: os supostos maiores custos associados à “condição feminina” (proteção legal à maternidade, atenção aos filhos pequenos); os custos adicionais que poderiam significar a supressão ou diminuição das desigualdades de gênero no trabalho: eliminação do diferencial salarial entre homens e mulheres, equiparação das oportunidades de capacitação e promoção etc.; as novas demandas que podem ser formuladas pelos trabalhadores homens a partir de uma redefinição das relações de gênero na esfera doméstica.

Ou estas ameaças estarão referidas principalmente a problemas de outra ordem, tais como resistências culturais e necessidades de controle associadas aos mecanismos de dominação existentes? Se é certo que, entre os empresários latino-americanos, ainda existe resistência em aceitar a existência dos trabalhadores enquanto sujeitos plenamente constituídos - e isso obedece a uma lógica de poder historicamente estruturada -, podemos pensar que os mecanismos de discriminação de sexo/gênero trazem importantes elementos de diferenciação, segmentação e exclusão, que são bastante funcionais ao fortalecimento dessa lógica de controle.

Para finalizar, deve-se destacar que não são apenas as mulheres as que se vêem afetadas por uma forma de organização do trabalho que dificulta a realização de qualquer outra atividade vital, assim como por uma forma de organização social para a reprodução que põe obstáculos à vida profissional. Também os homens, e a sociedade em geral, sofrem as conseqüências dessa dissociação. Por isso, é possível esperar que a incorporação crescente das mulheres ao trabalho remunerado, assim como a mudança nas relações de gênero na empresa e na família, incida na organização e na cultura do trabalho no sentido de superar essa dissociação, condição que cada vez mais se

evidencia como necessária para elevar a qualidade de vida, tanto de homens como de mulheres, assim como, possivelmente, para melhorar significativamente os níveis de produtividade das empresas.

3.1.

Introdução

O objetivo deste capítulo é aprofundar a discussão sobre algumas das percepções, previamente analisadas no capítulo anterior, presentes no imaginário empresarial sobre homens e mulheres no trabalho. Nossa atenção será focalizada em duas delas, que têm particular importância nos processos e mecanismos de desvalorização do trabalho das mulheres e/ou na sua caracterização como trabalhadoras menos adequadas e problemáticas.

A primeira é a noção muito recorrente, não só no imaginário empresarial, como também em parte da literatura sobre o mercado de trabalho, de que “as mulheres são mais caras do que os homens” ou, em outras palavras, que os seus custos de contratação e manutenção no emprego são superiores. A segunda é a noção de que as suas taxas de absenteísmo são mais elevadas do que as dos homens e que isso provoca problemas disciplinares e de ordenamento/continuidade dos processos produtivos, afeta a produtividade das empresas e tem implicações sobre os seus custos.

3.2.