2.2 Ambientes de aprendizaje
4.2.2 E STUDIO DE CASO 2: NIVEL BASICA PRIMARIA - C ICLO 1
Este tópico revela o propósito de perceber que a significação da narrativa de um mito representa dispor da capacidade de habilitar a sensibilidade, que Kant
define como uma faculdade de intuição (KANT, 1983, p. 10), para desvelar aquilo que o mito quer dizer e o que se nele se pode intuir pela criação artística.
O mito possui caráter universal, pois sintetiza uma situação, exprime o comportamento exposto diante de tal situação carregado de manifestações emocionais e sensíveis. Por isso, acredito que o ato de deter-se à narrativa do mito torna-se, em graus de valor, menor do que compreender a sua significação, ou o conteúdo implícito intenso, denso com cargas de universalidade.
A história que conta a narrativa esta sim encerra relações com a cultura, o modo como é explicada, materializada, vai depender da especificidade de cada cultura. É sob o filtro desta que o mito é compreendido como produtor de significações. Na verdade, compreender-se o mito criado em outra cultura acaba por se tornar um processo alargado de conversão semiótica da sua natureza simbólica original para as significações possíveis em outra cultura.
Minha intenção, neste ponto da pesquisa, está em revelar as relações de criatividade estética nas artes entre os mitos Medéa e Matinta, elencando significações que motivem a proximidade dos dois mitos, sendo originários de fontes simbólicas tão distantes. Medéia, um mito nascido na Grécia e Matinta pertencente à cultura amazônica. Estética percebida por Paes Loureiro como uma forma especial de experiência.
[...] Uma experiência íntima, ampla e profunda, rica de sensibilidade e emoção, testemunhando vivência singular e revelando capacidade inigualável de criação de formas. É uma experiência situada acima do cotidiano, em que o artista, partindo de um aspecto da experiência desse cotidiano, o universaliza e transforma [...] (LOUREIRO, 2002, p. 80-1).
Após a leitura de determinada versão das duas histórias, consigo perceber a existência de elementos significativos que corroboram essa proximidade entre os dois mitos. Trata-se de duas mulheres ambas dotadas de força e beleza. As duas, em momentos diferentes são apresentadas como conhecedoras da arte da feitiçaria, representadas pelas ervas e o curandeirismo e a partir de um sentimento comum, a vingança, realizam maldades.
A feitiçaria como ponto conversor de significações entre os dois mitos está personificada através da magia onde a imagem é objeto, o nome é a pessoa, a voz é criadora tornando visível o invisível e agindo de maneira que a parte representa o
todo. O todo está nas partes. A ação mágica aciona todo um processo de transferências simbólicas.
Ela ultrapassa as diferenças dos objetos e estabelece uma unidade fundada não por semelhança, contudo por relações de identidade estruturais entre o todo e as partes. Desenvolvendo uma variedade de correspondências simbólicas. A feiticeira sabe que operando sobre a parte ela pode criar correspondências simbólicas com o todo. Seu poder é fonte de saber e vice-versa.
Medéia, por exemplo, se utiliza de seus conhecimentos de feitiçaria para subjugar o destino à sua vontade, operando mudanças quando os fatos se apresentavam em desconformidade com suas aspirações. A volta de Jasão à Iolco para reclamar o trono que o rei Pélias o havia prometido evidencia sua marca de dominação por meio da magia quando transforma-se em uma velha senhora vendedora de ervas e consegue adentrar os portões fechados do reino a despeito de uma ordem decretada pelo próprio rei da proibição de saída e entrada de qualquer pessoa.
Ela não só consegue passar pelos guardas como induz ardilosamente as filhas do rei a crerem que suas ervas são mágicas e possuem o poder do rejuvenescimento. Assim, arquiteta uma poção contendo algumas ervas e introduz seu bastão de oliveira já seco e ele floresce.
Entusiasmadas, as irmãs estão para fazer qualquer coisa que rejuvenesça seu pai velho e decrépito então, levadas pela velha senhora disfarçada enterram um punhal em seu peito matando-o e esquartejando-o para cozinhá-lo no caldeirão onde se encontrava a “poção mágica” e a velha mulher desaparece.
Já em Matinta, a feitiçaria lhe serve para o subjulgo, mas de forma velada e por um ser que ludibria, desassossega e persegue, não pode-se afirmar que se tenha visto de fato uma Matinta ter matado alguém e por isso a culpa lhe seja imputada diretamente, como no caso do exemplo supracitado.
A fim de demonstrar uma situação em que a submissão se faz de maneira latente cito a obra cinematográfica classificada como curta metragem de Fernando Segtowick intitulado Matinta (2010). Em uma das cenas, a personagem da Matinta, encanta-se com um homem casado e, por isso, não corresponde as suas insinuações. Achando-se desprezada resolve vingar-se na esposa dele realizando um feitiço que a deixa doente a ponto de nenhum recurso fazer efeito, levando-a a
morte por indícios de causa natural, porém descortinando apenas pistas que só conduziriam à desconfiança de algum culpado (a).
A vingança é outro ponto de confluência estética entre essas duas mulheres Matinta e Medéia que se apoiam em uma justiça destrutiva para forçar o outro lado a passar, de alguma forma, pelo mesmo sofrimento atribuído a elas. Sentimento este intimamente ligado com a frustração de ter investido alto no amor.
[...] Medéia não chora muito tempo, nem tampouco se suicida: ela se vinga, e se vinga matando. Como um homem. Ela se vinga do não respeito a um juramento, a um contrato. Vale dizer que ela se julga igual a Jasão [...] Seria para mostrar até que ponto uma mulher poderosa é temível? (SIGWARD, 2010, p. 129).
O que me leva a considerar um vínculo opositor entre os mitos é o fato de a ousadia tomar corpo na narração de Medéa, coragem esta que a levou a fugir de sua cidade natal, contrariando seu pai e devotando toda ajuda à Jasão, vivendo de fato este grande amor.
Ao contrário de Matinta, que não chega a concretizar este nobre sentimento, a vivê-lo na prática, sendo abandonada no altar, no dia de seu casamento, permanecendo no lugar, implorando a atenção dos outros, ameaçando as pessoas por motivos fúteis, sem chegar a efetivar homicídios diretos em decorrência de suas maldades, como é o caso da Medéia.
A feiticeira grega após viver um grande amor é trocada por outra mulher. Por vingança mata seus filhos, o marido e a amante. Por essa razão é atemorizada, pelo ato criminal desencadeado por emoções perversas. Já a Matinta, assombra as pessoas pela maldade que pode vir a causar se estas não realizarem sua vontade. Então, em represália ela desempenha impiedades configuradas como castigos que variam desde uma surra até a feitiçaria para a incidência de doenças que podem levar a morte.
Fotografia 4 – Medéia momentos antes de matar os filhos.
Fonte: blog literalMENTE Disponível em: <http://literalmente-literalmente.blogspot.com>.
Orientador: Você já havia experimentado, sem a percepção conceitual, o fenômeno da
etnodramaturgia poética do imaginário, durante a leitura? E no romance?
Orientanda: Sim. Mas no caso do romance as cenas apenas perpassavam minha
imaginação sem eu querer vê-las materializadas. Essas cenarizações me estimulavam a fazer parte das historias que lia. Acho que desde quando somos crianças começamos a cenarizar as imagens que povoavam nossa imaginação através dos livros infantis.
Orientador: E no processo de criação artística na dança, a partir do tema ou personagem
propostos?
Orientanda: Há que se ter uma percepção simbólica congregada à ação de dramatizar as
imagens provindas da imaginação. Quando se lê, um mito, por exemplo, nós simbolizamos de acordo com o que a nossa cultura absorveu do real, pois é por via da imagem que o imaginário e o estético se tocam. Por isso, a etnodramaturgia poética do imaginário em um processo de criação na dança exige uma compreensão simbólica desmaterializada em que o imaginário esteja acionado.
Orientador: Já tinhas cogitado, questionado a possibilidade de uma dança sem lugar
material? Ou do teatro sem casa de teatro? Tudo no âmbito imaginal?
Orientanda: Confesso que não. Acredito que por este pensamento teríamos tantos
espetáculos diferentes equivalentes ao número de ouvintes, leitores ou expectadores do tema que seria proposto, já que a imaginação é a maneira pessoal de atribuir significado com o que se estaria entrando em contato.
Orientador: Considera que na produção da arte esse papel do imaginário pode ser de
importância fundamental?
Orientanda: Sim. Dado que o imaginário constitui significação através de imagens, uma
dimensão própria da relação entre homem e realidade, provocador da dimensão poética da realidade.