2.2 Ambientes de aprendizaje
4.2.1 E STUDIO DE CASO 1: NIVEL PREESCOLAR
4.2.1.4 Diseño de la propuesta
Medéa é um mito grego e em uma das versões é feito alusão à história da uma princesa da Cólquida, famosa pela prudência, pela arte de curar e pelos poderes mágicos. Enamorara-se de Jasão, líder dos argonautas, que tinha ido a Cólquida para conquistar o velocino de ouro. Medéa opôs-se ao pai para ajudar Jasão, salvando a vida do herói grego, utilizando-se de seus poderes de feiticeira.
Fugiu com ele da Cólquida e o acompanhou à Grécia em seu navio cometendo uma série de atrocidades pelo caminho. Quando, depois de muitos anos
de matrimônio, Jasão a abandou para casar-se com a filha de Creonte, rei de Corinto, e permitiu que este exilasse Medéa e os filhos, Medéa cheia de ira e sede de vingança, fez uma terrível carnificina. Matou a amante de Jasão, o rei Creonte, e, para castigar Jasão, assassinou os dois filhos que tivera de seu casamento com ele.
Ah, que os céus jamais tivessem permitido à nave Argo voar sobre as neblinas cinzentas que cobrem o mar azul das rochas Cienaias, essas montanhas de pedras movediças que esmagam os barcos temerários. Que nunca os bosques de pinheiros do Pélion tivessem sido derrubados e transformados em poderosos remos nas mãos dos nobres heróis que foram se apossar do Velocino de Ouro para Pélias.
Pois aí, Medéia, minha senhora, também não teria navegado para as torres de Iolco, com sua alma incendiada por amor a Jasão, nem, dominada por essa paixão, teria convencido as filhas de Pélias a matarem o pai, enquanto ela fugia com os próprios filhos, vindo viver aqui em Corinto, com eles e o marido, Jasão.
Aqui, embora estrangeira e fugitiva, encontrou simpatia e proteção de todos os coríntios, pois vivia em perfeita harmonia com Jasão, os dois formando uma pessoa só, ela e o marido. Pois o escudo para a felicidade conjugal é a mulher não discordar jamais de seu esposo. Mas agora o mais profundo amor se transformou no mais rasgado ódio. Jasão traiu seus próprios filhos, traiu minha senhora, casou com a filha de Creonte, rei desta terra, tem o poder, dorme em leito real.
Medéia, ultrajada, desgraçada, invoca os juramentos que Jasão sacramentou com a mão direita, e as supremas promessas de fidelidade feita por ele, quando, usando seus poderes de feitiçaria, ela o apoiou em tudo e contra todos para alcançar o Velocino, ajudando-o até na luta contra os gigantescos touros de patas de bronze e bocas de fogo. E agora ela brada aos céus para que sejam testemunhas do que Jasão lhe deu em paga. (EURÍPEDES, 2004, p. 9-10).
É desta forma que o dramaturgo Eurípedes conta a história. Poeta nascido por volta do ano de 485 a.C., não “inventou” a figura de Medéa; ao contrário, ela se originou num ciclo muito mais antigo de mitos, dos quais se conservaram apenas fragmentos. Em versão de uma lenda mais antiga, Medéa teria sido a rainha de Corinto, e os coríntios descontentes com a dominação da poderosa rainha, teriam morto seus filhos.
Tudo indica que a Medéa das tradições Helênicas era uma personagem muito mais importante e poderosa (RINNE, 1999, p. 10). Porém, para Eurípedes, ela já não era mais uma deusa, mas uma mortal que, embora, sábia e poderosa fugira com o marido Jasão para Corinto, onde vivera exilada.
Segundo a autora (RINNE, 1999, p. 13), a figura ambivalente de Medéa é o símbolo de um período de transição do matriarcado para o patriarcado. Da sua passagem, ou, mais exatamente, de seu rebaixamento de deusa da cura e da
sabedoria para feiticeira poderosa, inteligente e ameaçadora, e, por fim, esposa ciumenta e infanticida.
A obra de Eurípedes conflui com o período mais glorioso, porém o mais conturbado da história de Atenas. A cidade expande-se, prospera e atinge a plenitude de sua força política e econômica. Naturalmente, esse apogeu, a abertura para o mundo e o sucesso econômico também exercem influência na própria cidade. A arte, a poesia, o pensamento filosófico refletem a agitação do período, que põe em xeque os antigos costumes, a maneira tradicional de vida e o modo de pensamento correspondente.
De acordo com Amaral (2012, p.100), a Matinta Perera é um mito da cultura amazônica, pois se configura como uma expressão dos sentimentos contidos deste povo que vive à beira das águas dos rios e das brenhas da floresta da região amazônica, ou ainda, é uma manifestação dos arquétipos que nascem do inconsciente coletivo amazônico.
Em uma das versões, que trata o autor, o mito amazônico da Matinta Perera refere-se a uma velha senhora feia, vestida de preto com saia longa, cachimbo e tabaco nas mãos, que quando jovem e bela foi abandonada pelo seu amor antes de casar.
Contam os caboclos da região amazônica que na hora do encanto essa velha senhora começa a virar cambalhotas com uma lamparina na cabeça. A chama dessa lamparina se mantém acesa até que ela se transforme em duende. A Matinta Perera, como é chamada, assombra as pessoas com seu assobio perturbador, esse som tipificado como “fit, fit fiiiiiiiii”, o qual imita o som de um pássaro agourento chamado também de Matinta.
A velha senhora ronda a casa de pessoas pedindo tabaco e café. Dizem os mais velhos da região que quem não oferecer esse fumo e o café para ela, sentirá violentas dores na cabeça e no corpo todo. Por isso, todas as pessoas falam para a Matinta: - se quiseres tabaco e café passa amanhã! Assim, a velha Matinta vai embora, mas no dia seguinte, pela manhã, ela aparece desvairada para cobrar o fumo e o café prometidos.
Os mais antigos dizem que a Matinta Perera pode se transformar no que quiser, conforme sua vontade, que por sinal é muito instável. Ela poderá se transformar em porco, galinha ou qualquer outro animal, ou numa jovem mulher
bonita, elegante e cheia de charme. Sua vontade é determinada apenas pela direção de seu desejo naquele momento.
Só há um ritual que pode prender a ave agourenta (a velha Matinta), que é o uso de uma tesoura virgem, que serve para cortar o encanto dessa bruxa; uma chave, que abre as portas dos mistérios guardados no clavenário por essa velha e um terço, que serve para realizar as orações de afastamento daquele ser sobrenatural e recompor a ordem nas comunidades. A descrição usada para explicar o referido mito foi retirada da tese de doutorado intitulada Matintas: o mito amazônico na cena da dança contemporânea em Belém (2010).
Fotografia 3 – Cena do espetáculo Matintas por Airleise Sarges. A Matinta terrestre.
Em outra versão do mito acerca do ritual empregado para apanhar uma Matinta, a autora Josebel Akel Fares agrupa diversas histórias contadas por habitantes do município de Bragança, situado a 228 km de Belém, capital do estado do Pará que, ao descascarem os favos de feijão em épocas de colheitas, aproveitavam para narrar experiências tidas cotidianamente.
Por acreditar que os gestos repetem as marcas do social e que estes são acrescidos de uma vivência individual, fazem com que a trama ouvida seja memorizada com mais facilidade pela plateia. O ritmo do trabalho associado ao ritmo do contar faz o ouvinte esquecer-se de si, devanear nas veredas da cena, criar imagens (FARES, 1997, p. 30):
Dois pescadores foram pescar, chegando lá, marraram a corda da canoa deles num curral, e lá foram fazer uma merenda pra comerem.
Quando foi alta noite, eles começaram a ouvir um assovio por cima, voando, aí, eles disseram: — Ah! Aquilo é uma matinta perera, umbora prender
ela pra ver quem é?. — Queriam conhecer. Aí, agarraram um punhal numa tataua de fogo. Quando ela vinha assobiando que ia pra dobrar o assobio, e eles fincaram o punhal na tataua de fogo, fogo que fazem (— os antigos chamam tataua).
Aí bem, caiu a matinta perera, então ela levava um filho dela que ia chorando, por isso que eles prenderam ela, caiu com o filho lá na canoa. Aí, eles agarraram. A mulher pedia pelo amor de Deus que soltassem ela, que ela queria ir embora com o filho. Aí, eles massacraram ela um bocado, lá deixaram ela, lá bem quando entenderam, eles tiraram o punhal. Aí, as asas dela eram dois ralo: um de um lado, outro do outro e levava o filhinho também ensinando a assoviar pelo ar. Então, eles soltaram ela, ela foi embora, se transformou-se na matinta perera, foi embora. Era mulher. (MESQUITA apud FARES, 1997, p. 8).
Sendo assim, esta narrativa exemplifica que pela sua leitura imaginativa, ou seja, no momento em que ouço a historia sendo contada, cenarizo-a simultaneamente em minha imaginação, estabelecendo um processo de encarnação desta, o modo como esta se operacionaliza enquanto escuto. Entendendo que o mito se configura na imaginação de cada um de maneira particular, consiste na condição pessoal que cada indivíduo dispõe para usufruir da compreensão do mito.