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E STUDIO DE CASO 3: NIVEL BASICA PRIMARIA - C ICLO 2

2.2 Ambientes de aprendizaje

4.2.3 E STUDIO DE CASO 3: NIVEL BASICA PRIMARIA - C ICLO 2

Discuto, neste ponto, como acontece a condução do movimento, diante desse encharcamento do corpo pelas memórias que o impregnam como cascas de alho sob uma superfície azeitada. Outra imagem que o corpo me remete é a da fechadura: cada corpo constitui-se como uma fechadura, com um segredo diferente, tal qual um portal. Portanto, necessita de uma chave específica que dê chance de acessar as informações nele contidas.

Relato todas as expectativas de se adentrar em um universo estranho, mágico e pulsante de energias míticas e como meu corpo se comportava a cada estado de fatos novos que se apresentavam. Como este lidava com sensações que o limitavam, o impediam de assumir-se.

Pondero, então, possibilidades de introduzir a este raciocínio trechos de um diário de bordo escrito durante minha experiência na tukaia a fim de conceder existência à minha Matinta, quando experimentei o processo de figuração etnodramatúrgica do mito em minha imaginação encadeado com o da conversão semiótica, ao lado de outras componentes da CJA. Sendo também utilizado para exemplificar determinadas circunstâncias em que o corpo assume maior realização.

Os rituais xamanísticos denominados de Maraká são realizados para curar doentes, fortalecer crianças e outros membros da comunidade, ou relacionam-se com a caça e a agricultura. Nestes rituais, o pajé pega ynga e moynga, substâncias que trazem do mundo dos espíritos para o mundo dos humanos, e que possuem a propriedade de cura. Os rituais Maraká podem ser para os espíritos Apykwara, Karowara, Tivá, Tajaô (porco) e Arapoá (veado). Os rituais Maraká são realizados na tukaia, espaço por onde os espíritos são trazidos. A tukaia é um espaço limitado especialmente para a

realização do Maraká, onde se colocam os objetos rituais e realizam-se as ações rituais (NESPOLI, 2014, p. 1).

A teórica Susanne Langer reflete sobre a resposta corporal aos estímulos provocados pela narrativa do mito. Quando ocorre a concepção de um sentimento, o corpo se predispõe a simbolizá-lo (LANGER, 1980). Havendo então uma comunicação simbólica, uma compreensão do vínculo corpo, movimento, criação e suas relações com o imaginário e, neste caso, com a cultura mítica amazônica.

Esse processo criativo simbólico garante o profundo envolvimento por parte do artista no imaginário, agregando às suas especificidades corporais, subjetividades de uma realidade simbolizada.

Todas as situações vividas, todas as experimentações e sensações são registradas por nós, às vezes, sem nos darmos conta e que vem à tona em um determinado momento. Esse processo é chamado de memória.

Esta não acontece somente ao nível psicológico, mas, acredito ser possível, que a memória esteja entremeada em uma camada mais física, entre nossos músculos, ossos e pele. Todas as vezes que passamos por uma situação em que necessite ativar certa energia agregadora, a memória também é despertada e acionada permitindo que façamos o caminho de retorno, porém de outra maneira, assim nos damos a oportunidade de somar várias trajetórias compondo um repertório variável e dinâmico, mutável conforme os estímulos provocados.

Em nosso consciente destaca-se o papel desempenhado pela memória. Ao homem torna-se possível interligar o ontem ao amanhã [...] Dessa sequencia viva ele pode reter certas passagens e pode guardá-las, numa ampla disponibilidade, para algum futuro ignorado e imprevisível. Podendo conceber um desenvolvimento e, ainda, um rumo no fluir do tempo, o homem se torna apto a reformular as intenções do seu fazer e a adotar certos critérios para futuros comportamentos. Recolhe de experiências anteriores a lembrança de resultados obtidos [...] (OSTROWER, 2008, p. 18).

A memória, no caso da criação artística, tem uma dupla articulação: acumulação e estímulo. Pela acumulação somos fortalecidos ao processo criador, que as próprias acumulações experienciadas impulsionam.

Orientador: Como se deu, resumidamente, o processo de vivência e construção do

espetáculo coreográfico Matintas?

Orientanda: Primeiramente, passamos alguns dias na comunidade de Arapiranga para que

pudéssemos entrar em contato efetivo com o universo do mito a que nos propúnhamos estudar. Depois, ao longo das aulas que fazíamos como preparação corporal para a cena, também nos era solicitado como exercício, dinâmicas que enfatizavam a vivência que

havíamos tido em Arapiranga, com o propósito de ativar nossas sensações para que elas pudessem servir como propulsoras de um processo criativo que desvelasse a Matinta de cada componente da companhia. Percebemos, então, que nossa criação começou a manifestar-se baseada em elementos, que nós artistas, íamos atribuindo significações. A partir das dinâmicas propostas, iniciei uma estreita relação com os elementos fogo e água, me percebia dentro de um círculo fechado, desenhado com estes elementos, então, a Matinta que acredito que tinha sido descortinada para a minha prática, dentro desta construção, foi uma Matinta que comunicava através de todos os quatro elementos da natureza, de forma interligada, me permitindo chamá-la de Matinta infinita, pois passeia e preserva-se, de forma interligada, com a base da natureza que são os quatro elementos. Dessa forma, ela está presente no ar, terra, água e fogo permitindo que eu a representasse, no momento da apresentação do espetáculo, com um pó que a deixava magicamente envolvida em uma neblina que lhe conferia o desaparecimento parcial diante do público concedendo um tom de mistério, próprio de seu hábitat.

Orientador: Qual a importância de tomar o coreógrafo-bailarino Jaime Amaral, para

testemunhar o processo de criação e incorporação coreográfica das personagens míticas Medéia e Matinta?

Orientanda: Ele viveu corporal e psicologicamente dois processos de criação, acerca dos

mitos, tão diferentes e distantes culturalmente falando. Além disso, coincidentemente, escolhi os dois mitos para exemplificar concretamente as duas teorias que elenquei para este estudo e, nada melhor que, fundamentar os exemplos míticos, evidenciando a experiência de um artista que congregou essas vivências em seu trajeto antropológico.

Orientador: Como seu trabalho tem um cunho eminentemente de reflexão teórica,

guiando-se por inter-relações conceituais, de que modo a experiência de Jaime Amaral fortaleceu suas propostas e objetivos nessa pesquisa?

Orientanda: Minhas propostas e objetivos foram fortalecidos no momento em que

predisponho a refletir e analisar sobre duas teorias que escolho para pesquisar e consigo sustentá-las com exemplos práticos dentro do campo de ação em que estão inseridas.

Orientador: Pretende incluir como anexo entrevista que fez com Jaime Amaral?

Orientanda: Sim. Pra autenticá-la como um documento utilizado para análise de ideias

desencadeadas no percurso da escrita.

Orientador: Como, no caso do espetáculo Matintas, você dançou uma delas, enquanto foi

desenvolvendo a pesquisa, como sentiu o fortalecimento intelectual e emocional que essa intercorrência entre prática artística e teoria qualificam sua dissertação?

Orientanda: Em mim habita o sentimento de completude, podendo dizer Bailarina-

Pesquisadora-Intérprete, vivendo a essência dessa teoria proposta pela Graziella Rodrigues e que se adéqua bem à essa situação que estou experimentando com o mestrado, podendo expressar, através de uma escrita acadêmica, minha natureza artística corroborada por reflexões minhas. Assim, a práxis se desenvolve porque o corpo e a mente trabalham juntos, um complementa o outro, um constrói o outro.