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A abordagem da Teoria do Ator-Rede (ANT) não é simples e introduz alguns conceitos próprios. O objetivo desta breve seção é o de sintetizar a perspectiva e seus principais conceitos, já mencionados nas seções anteriores deste Capítulo.

Na abordagem da ANT, não há uma ordem social pré-definida, estabelecida, estruturada. Há uma ordem social que é aparente, provisória, gerada por uma permanente dinâmica que ocorre a partir das relações entre atores. O cientista social deve estudar essas relações, esses atores, essa dinâmica, sem categorias prévias ou estruturas pré-concebidas, para não correr o risco de substituir e se distanciar do fenômeno a ser investigado. Não há uma sociedade, uma ordem social definitiva e acabada. Há atores se associando e desassociando, há uma dinâmica de relações transcorrendo o tempo todo.

Os atores a serem investigados não são iguais, são heterogêneos. Têm naturezas, desejos e inclinações diferentes, porém, por razões que devem ser pesquisadas e entendidas, alguns atores conseguem fazer com que seus pontos de vista prevaleçam e sejam adotados por outros atores. Este processo é denominado de tradução (do inglês translation), que é um processo de negociação, no qual há as etapas da problematização, do interessamento, da

inclusão e, finalmente, da mobilização. O conjunto de atores mobilizado forma uma rede, ou um ator-rede. A convergência de vários atores heterogêneos se combinando e formando uma rede, convergindo para um só ator-rede, agindo de forma coordenada e sob uma mesma ordem, também é denominado de pontualização (do inglês punctualization). A pontualização nunca é definitiva, é sempre provisória, precária. O grau de precariedade pode ser maior ou menor, dependendo de uma dinâmica de poder que pode se alterar e que sofre influências não apenas locais, mas também muito distantes, sendo dever do pesquisador entender e descrever tal processo de interação de um local com outros.

Em um estudo sobre a prática científica, Law e Singleton (LAW e SINGLETON, 2003) observaram que construções científicas complexas, como um livro-texto de medicina, representam uma pontualização, não apenas sendo uma construção precária, mas também conectada a uma série de outras redes, a várias outras pontualizações. O livro, que representa e inscreve uma tradução do fenômeno estudado criado por seu autor, está conectado a diversas outras traduções e inscrições paralelas, a um sem número de laboratórios, experimentos, cientistas, pacientes e cobaias, deslocados no tempo e no espaço. Uma desarticulação em alguma dessas redes paralelas poderia desestabilizar a construção de conhecimento encerrada no livro, eventualmente o eliminando ou o alterando profundamente.

Essa percepção da existência de redes paralelas ou justapostas reflete a segunda incerteza de Latour (2005), que traz a visão de que as ações são determinadas externamente, conforme discutido anteriormente. Tal noção também está presente na análise de Law e Callon (1992) sobre o fracasso de um projeto de construção de um avião e em trabalho mais recente de Stanforth (2006) acerca da adoção de sistemas de e-government. No trabalho de Law e Callon, os autores mostram como o projeto de criação de um novo avião dependia não apenas da mobilização de uma rede de conteúdo local e tecnológico, mas também de uma rede de política e global que teria que lhe fornecer os recursos e a demanda necessários. Os

autores mostram que o sucesso ou o fracasso do projeto do avião podia ser explicado pelo grau e pela forma de mobilização conseguida nas duas redes e também pelo grau de conexão entre elas. A Figura 6, a seguir, extraída de tal trabalho, mostra que o engajamento e a mobilização dos atores das duas redes é importante para o sucesso de um projeto.

Figura 6: Mobilização de redes local e global e o sucesso de um projeto

Fonte: Law e Callon (1992) Noutras palavras, é o grau de mobilização dos atores locais, somado ao grau de interligação com atores em outras redes que explicaria o sucesso do projeto do avião, que explicaria a capacidade dos atores proponentes do projeto de traduzirem seus interesses para o restante da sociedade, levando o projeto do avião adiante. Esse tipo de análise é

potencialmente esclarecedor para lidar com situações em que diferentes redes de atores possam estar interligadas e em co-dependência.15

No processo de tradução e formação de redes, objetos podem ser utilizados como mediadores, seja para facilitar a mobilização de outros atores, seja para diminuir a precariedade da pontualização. Quando os desejos e pontos de vistas de atores passam a ser incorporados em objetos, há a inscrição (inscription), tornando tais pontos de vista e inclinações mais concretos e tangíveis, menos precários e provisórios. Esses objetos podem ser de diversos tipos, tais como livros, textos, leis, normas, contratos, artigos acadêmicos, ferramentas, máquinas, obras de arte, prédios, computadores, programas de computadores, entre outros, desde que sejam capazes de mediar as relações entre os atores. Nas palavras de John Law, “pensamentos são baratos, mas não duram muito e palavras duram muito pouco a mais. Mas, quando nós começamos a participar de relações – e, em particular, quando nós as incorporamos em objetos inanimados como os textos e prédios – eles podem durar mais. Então uma boa estratégia de ordenamento é incorporar um conjunto de relações em materiais duráveis.” (LAW, 1992, p. 3)

O conceito da inscrição é fundamental, pois a ele está associada uma maior ou menor precariedade da rede estabelecida, do processo de tradução. Normalmente, aqueles atores que conseguem fazer seus pontos de vista serem traduzidos em outros atores gostariam de tornar tal tradução o menos reversível e precária possível.

Ainda, a visão da inscrição está associada à questão do tratamento dado aos objetos, questão que, muitas vezes, chama atenção na abordagem da ANT. Sem igualar objetos inanimados a humanos, mas sim como um recurso analítico, a abordagem considera que

15 Em trabalhos orientados sob a perspectiva da Teoria do Ator-Rede, algumas outras ferramentas de análise são utilizadas. Por exemplo,

com base em trabalho de Latour, Mauguin et al. (1992), Santos (2006) apresenta duas ferramentas de coleta e análise de dados que tendem a um enfoque mais quantitativo. Nesta tese, optou-se por citar apenas aquelas que se considerou de maior relevância para os seus fins.

objetos também incorporam desejos e vontades e ajudam a traduzi-los de um ator para outro. Nesse sentido, procurar por inscrições em entidades não humanas, além de ouvir os atores, é parte dos deveres de um pesquisador que siga a abordagem da Teoria do Ator-Rede.

Para concluir, é importante um comentário final. Ao rejeitar as explicações baseadas em categorias e estruturas, ao partir da premissa de que não há uma ordem permanente, mas uma dinâmica intensa, ao definir o estudo da sociedade como o estudo das ligações, das conexões entre atores, a ANT elimina algumas dicotomias importantes. A dicotomia entre níveis de análise micro e macro, por exemplo, é superada, já que não se procura relações contidas em outras, ou em categorias ou classes maiores, mas sim um contínuo de relações, de conexões, com continuidade e sem saltos. O mesmo ocorre entre mundo natural e mundo social, ou entre o que é local e o que é global. No entendimento da sociedade a partir da ANT, o que há é um contínuo de conexões, muitas das quais entre entidades humanas e não humanas, a ser desvendado pelo cientista social.

A abordagem da ANT é relativamente recente, tendo origem em trabalhos do meio da década de 1980 e tendo sido sistematizada somente ao longo da década de 1990 e atual, quando tem sido utilizada para estudar fenômenos que vão além dos estudos sobre a prática científica. A abordagem tem sido utilizada com particular popularidade na área de sistemas de informações, que lida com uma tecnologia que tem grande relação com a vida social,16 mas também é estendida a outras áreas distantes, como a da psicologia social.17

Em seu site na Internet, no qual mantém vários trabalhos de diferentes autores ligados à ANT, John Law, mostrando o alcance da abordagem da ANT, enumera diversas substantivas nas quais a ANT

16 Alguns exemplos interessantes são Bloomfield, Combs et al. (1992), analisando sistemas na área de saúde, Harvey (2001), que enfoca

uma iniciativa na área de GIS e Stanforth (2006), cujo trabalho aborda sistemas de de e-government.

17 O trabalho de Melo (2007), nessa área, é particularmente interessante, não apenas por ser brasileiro, mas por investigar a psicologia da

tem sendo aplicada, tais como artes, subjetividade e ação, economia, medicina, organização e trabalho, poder e política (LAW, 2009).18

A sistematização de Bruno Latour, publicada em 2005 (LATOUR, 2005), foi escolhida como linha principal da descrição da ANT por, no entender do autor desta pesquisa, já expressar um maior amadurecimento da teoria e uma melhor visão sistêmica da abordagem, sendo também Latour um dos seus principais expoentes. Na próxima seção, a abordagem da ANT é associada ao modelo de políticas públicas desenvolvido no Capítulo 2, estendendo-o e formando o modelo que será utilizado na seqüência desta pesquisa.