O ano era 1994...
O alvorecer de um novo tempo na nossa existência só acontece quando nos conscientizamos que a verdadeira felicidade se encontra dentro de nós, jamais nos espaços, tempos e sombras sobre os quais depositávamos nossos sonhos e desejos quando ainda grassávamos na infância do espírito, cujos anseios são tantas vezes rasteiros e hedonistas.
Somente quando nos inquietamos com uma falta que não é suprida, procuramos resposta a uma dor que jamais sabíamos fazer parte de nosso ser. Inicialmente, as respostas nos chegam mais urgentes, mais superficiais, mais hodiernas; porém, com o avançar dos anos, aquilo que nos supria inicialmente passa a caminhar conosco como tralhas obsoletas reclamando mudança. Que fazer com elas? Que destino dar à dor? O que procuramos em realidade?
Freud cartografou os sofrimentos, observando sua lógica própria, fruto de nossas inclinações psíquicas que nada mais são que o resultado das relações paternas que experimentamos no início da vida, e prolongadas em nosso círculo social, atualizadas e repetidas ao longo do crescimento do corpo físico e das condições psicológicas que nos creditam identidade no mundo.
Tais sofreres tanto são mais agudos quanto mais depositamos validade na sua importância em nossas vidas, tornando-se uma demanda difícil de ser redimensionada quando temos que definir novos rumos para as nossas angústias após as perdas que, invariavelmente, podem vir a nos assolar ao longo das nossas existências.
Comparando os traços distintivos do luto e os da melancolia, Freud (1996c, p. 250) delineia semelhanças desconcertantes:
O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo [...], a mesma capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele.
Assim, o mesmo processo pode se dar nas reações mais brandas como nas mais patológicas no que se refere às perdas dos mais variados matizes, e que nos provocam reação imediata à desconstrução das nossas antigas verdades e referências.
Aquele que tanto esquadrinhou o psiquismo se viu chocado ante os horrores da primeira guerra que já se agitava fortemente, as perdas humanas, culturais, o fim da civilidade
entre as nações envolvidas, a ganância na busca pelo ouro do avanço econômico a corroer o orgulho dos registros históricos (FREUD, 1996f).
Assim, as suas laborações teóricas neste período consistem em importante patrimônio sobre a angústia resultante das perdas múltiplas produzidas pela guerra, bem mais importantes de serem conhecidas que os registros documentais e levantamentos objetivos da destruição dos artefatos culturais.
Residirão na matéria as respostas capazes de alimentar a inconsistência de nossa alma em busca, pois que elas são tão fugidias? E quando perdemos as referências concretas que nos sustentam emocionalmente, o ser amado, a imponência do corpo físico, a soberania intelectual nos círculos profissionais? Quando o luto visita nossa alma, que encaminhamento dar à nova condição que bate à nossa porta? Será justo conosco que nos entreguemos à
cegueira material e espiritual, pois, como saída para o desconforto, “[...] acolhemos as ilusões
porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfações?” (FREUD, 1996f, p. 290).
Podemos dizer que vários desses lutos e interrogações visitaram Armando Souto Maior37 – porque natural da nossa frágil constituição humana – principalmente quando descobriu, em determinado momento de sua vida, um câncer na garganta, e que agora serve de mote para tratarmos consideradamente de sua transformação espiritual e do encontro com Carlos Roberto Campetti.
E o motivo que nos faz visitar de maneira amiudada alguns aspectos da vida e realizações do ilustre historiador, foi justamente o fato de, após assistir uma palestra de nosso biografado nos Estados Unidos, o mesmo se interessar – ou seria melhor dizermos: converter-se
– ao Espiritismo de forma contundente e apaixonada através do aprofundamento de questões
que respondiam às suas interrogações existenciais.
O Dr. Armando nos exames médicos foi detectado um câncer na garganta o que em algum tempo o deixou com dificuldade de expor as aulas porque doía muito. Ele ficou apavorado e angustiado e viajamos para Houston, nos EUA, no Centre MD Anderson. Neste centro hospitalar tinha muitos brasileiros e muitos espíritas, assim começou a se envolver muito [...].38
37
Historiador pernambucano de destaque nacional com seus compêndios de História Geral e História do Brasil, além de outras obras, desponta também, com angulação, com sua tese de doutorado: Quebra Quilos: Lutas Sociais no Outono do Império (1978). Ganha prêmios literários significativos com duas obras deste estilo: O Gato Paralelo (1989) e O Diabo no Divã (1991), confirmando sua inteligência para as letras e não apenas para a historiografia. Nasceu no Recife no dia 12 de fevereiro de 1926 e faleceu em 27 de agosto de 2006, com 80 anos de idade, de infarto fulminante.
E foi neste centro médico que Armando conheceu Fernanda Meira-Wienskoski, que a época era voluntária do hospital onde ele realizava o tratamento do câncer que o acometia e, a história que se desenrola a seguir é indício de que a força que rege nossas vidas não trabalha com simples causalidades, pois que estas respondem muito pouco a uma perfeita arquitetura de fatos através da disposição dos acontecimentos.
Eu conheci o Prof. Armando em Houston, como voluntária e imediatamente ficamos amigos. Conversávamos muito e sobre tudo, mas principalmente livros, estudos, história, ciência, filosofia... Nessa época, fui a um congresso mundial de Espiritismo em Miami, onde conheci o Carlos e quando voltei, já vim com um convite feito ao Carlos para vir a Houston fazer uma palestra, aceito. Convidei o Armando para ir na palestra. No final, apresentei os dois e eles conversaram. No dia seguinte, a conversa continuou na minha casa. Houve outros encontros, acho que todos na minha casa em Houston39.
Imagem 1 – Armando Souto Maior, Fernanda Meira-Wienskoski e Carlos Campetti, em 1994, na cidade de Houston, no Texas (EUA)
Fonte: Arquivo pessoal de Fernanda Meira-Wienskoski (1994).
O próprio Armando Souto Maior nos dá a impressão sobre as novas respostas que buscamos em nossas vidas em determinados momentos chave para o nosso
amadurecimento: “Creio que se chega ao Espiritismo através de três caminhos: pelo amor,
pela dor ou pela necessidade intelectual de se obter explicação racional para quatro transcendentes perguntas: quem somos, porque somos, de onde viemos e para onde vamos” (SOUTO MAIOR, 2001, p. 9).
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Entrevista concedida por Fernanda Meira-Wienskoski à pesquisadora, no dia 8/3/2015, por e-mail. Atualmente, Fernanda, que é Analista de Sistemas e Engenheira de Software, casada, mora na cidade de Austin, no Texas, onde é voluntária do Kardec Spiritist Group of Austin e oradora espírita.
Sobre seu encontro com Carlos Roberto Campetti, e tecendo lúcidas considerações sobre os aspectos renovados que o convidavam a novas reflexões acerca dos sentidos e destinos do homem na Terra, vejamos suas impressões:
[...] certa vez, nos Estados Unidos, fui assistir a uma conferência de Carlos Campetti sobre ‘O Livro dos Espíritos’, para atender ao convite de uma amiga, Fernanda Wienskoski. Após a conferência, Campetti colocou-se à disposição do público para responder a perguntas sobre o assunto tratado. Tentei encostá-lo no canto da parede. Ele respondeu com elegância e lógica. É claro que não me convenceu naquela noite, mas induziu-me a uma posterior leitura de Kardec, onde aos poucos obtive respostas convincentes sobre o problema do ser, do destino e da origem do homem. O aspecto científico do Espiritismo deu-me o apoio de que eu necessitava para aceitá-lo como um fato transcendente na minha vida. (SOUTO MAIOR, 2001, p. 8).
Tais considerações do historiador, certamente, tiveram raiz na filosofia do célebre autor contemporâneo de Allan Kardec: Léon Denis, cujas referências neste trabalho já nos iluminaram o raciocínio.
Citado por muitos adeptos da Doutrina Espírita já no final do século XIX, na Europa, e ainda hoje no meio espírita, como um importante pensador no que se tange ao aprofundamento dos conceitos filosóficos espíritas, Armando Souto Maior homenageou o
autor de “O problema do ser, do destino e da dor”, de quem se tornou franco admirador,
dando seu nome ao centro espírita que chega a fundar, na cidade do Recife: Centro Espírita Léon Denis.
Quando travamos contato ou escutamos falar de alguém que se converteu a uma dada fé religiosa, abandonando uma postura materialista, podemos pensar num primeiro momento tratar-se de um acontecimento raso, sem raízes profundas que a justifiquem, mas, comungamos com as considerações de Denis (2013, p. 303), pois, se de acordo com sua filosofia, “[...] o mais belo livro está em nós mesmos” e somos seres fadados a experiências múltiplas no corpo físico, podemos deduzir que as infinitas experiências representam para nós uma somatória de ensinamentos capazes de, no momento oportuno, eclodir em forma de respostas inconscientemente procuradas.
Antes de minha aceitação da teoria espírita, eu era pouco complacente, algo vaidoso, autossuficiente e tinha muita dificuldade em perdoar. Fazia da ironia uma regra de conduta e do orgulho intelectual um escudo. Depois, é claro, minha personalidade sofreu grandes transformações. Naturalmente ainda tenho sequelas do passado, mas quem não as tem? Percebi, contudo, que havia dado um grande passo no meu processo evolutivo. (SOUTO MAIOR, 2001, p. 8).
Depois daquele ano que marca o encontro entre Armando Souto Maior e Carlos Roberto Campetti, Armando procurou viver os doze anos seguintes que lhe restariam de vida
física e os primeiros de nova roupagem espiritual, de maneira integral: além de fundar o centro espírita mencionado e o Jornal Espírita de Pernambuco – de Outubro de 1996 a setembro de 2005, totalizando 97 números e 9 anos –, fundou também uma casa de acolhimento de crianças com deficiência, em situação de risco social e vítimas de violência doméstica, a Casa dos Amigos40.
Imagem 2 – Armando Souto Maior junto às crianças da “Casa dos Amigos”, que ele mesmo fundou, no Recife (PE), no bairro do Campo Grande
Fonte: Arquivo pessoal de Fernanda Meira-Wienskoski (sem registro de data).
Assim, do autor orgânico, viril e desejoso de carne das obras literárias citadas na primeira nota deste tópico, e que lhe renderam prêmios na área, ao plácido, desamarrado e reflexivo da última obra que publicou antes de morrer, uma vaga lembrança do primeiro nos invade, resultado da transformação interna sofrida por Armando Souto Maior, já bem menos preocupado com os estilos que poderiam lhe dar destaque, mas, bem mais voltado para uma fenomenologia que lhe oferecesse graças em outro mundo... Já não mais o das vaidades!41
40 Essa instituição, não governamental e sem fins lucrativos desde sua origem, segundo pessoas que conviveram com Armando Souto Maior, era considerada “a menina dos seus olhos”. Hoje ela ainda existe, no mesmo local, no bairro do Campo Grande, no Recife. É dirigida desde 2006, ano da morte de seu fundador, por funcionários e voluntários, em parceria com o Juizado e Conselhos Tutelares do Recife. Hoje seu nome é “Lar Rejane Marques” e foi reconhecida pelo presidente da Câmara Municipal do Recife como entidade de utilidade pública, como forma de dar notoriedade ao trabalho social que lá vem sendo desenvolvido, apesar das imensas dificuldades que lhe assolam.
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Simbolicamente, o último livro que Armando Souto Maior publicou foi “Antes e Depois de Kardec” (2006), pouco antes de seu falecimento, direcionando toda a sua erudição e desenvoltura no conhecimento historiográfico para a fundamentação de uma história do Espiritismo. Desde os primeiros vestígios arqueológicos da relação do homem com os espíritos, até revelar-se em sua totalidade em meados do século XIX, o autor em questão demonstrando ser este um fenômeno natural da humanidade e m suas relações com a realidade espiritual.
Jamais teremos certeza dos labirintos íntimos através dos quais uma alma em ebulição passou antes de decidir perverter a acomodação a partir da qual se firmava no mundo e nas relações42, mas um trabalho de dedução pode ser válido, principalmente em se tratando de um homem que transitou toda uma vida em terreno arenoso e irregular, tal como o da intelectualidade, referência pessoal e profissional do historiador Armando Souto Maior.
A figura de linguagem em que assemelhamos a erudição a uma inconsistência é bem mais na intenção de demarcar as impressões que esta deixa no mundo e nas pessoas quando falamos de relações verdadeiras, do que naquelas em que o móvel se dá em desfile por vezes vazio daquilo que realmente nos alimenta por dentro.
Comenius, não por acaso, dedicou reflexão aos que ele chamou “eruditos e cientistas”, e a indagação é mais que justa a propósito do que é importante no terreno do conhecimento: “O que é necessário para o homem em si?”, ao que ele mesmo responde
exaltando a sabedoria como aquela responsável por dar ao homem a razão para bem utilizar as
coisas, pois “[...] de nada serve ao enfermo uma cama de ouro, nem a um tolo uma fortuna esplêndida” (COMENIUS, 2015, p. 87); mas, para que bem possamos nos utilizar das coisas,
faz-se necessário que estejamos voltados para a palavra divina, observando, portanto, aquilo que é essencial.
E a supremacia do conhecimento intelectual sobre a essencialidade das coisas e das pessoas acarreta um ofuscamento dos intelectuais em si mesmos, reduzindo relações verdadeiras a explanações e condutas malsãs: “Encantados com suas próprias suposições, em vez de adorar o sol, contentam-se em adorar as faíscas de sua mente, e ainda pretendem que os demais também o façam. Essa é a fonte de todas as afirmações e contestações denominadas de controvérsias ou ‘disputas científicas’” (COMENIUS, 2015, p. 90).
O trabalho do biógrafo, portanto, traduz-se num verdadeiro garimpar – para utilizar uma linguagem um tanto quanto arqueológica – de sentimentos e sensações daqueles que são peças importantes no mosaico da vida do biografado, expressão de uma história que se escolhe narrar como uma trama romanesca.
É desta maneira que vemos a História: muito menos um fato disponível objetivamente e mais uma trama entendida como a ação subjetiva dos sujeitos circunscrita
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Por isso, certas biografias, apesar de, por exemplo, tratarem com mais sentimento de um fenômeno tão peculiar quanto a conversão, parecem desconectar-se da essencialidade do acontecimento na vida do biografado, tal como em Le Goff (2012). No afã de narrar uma vida em um contexto e a transformação empreendida por esta à sociedade de sua época, conhecemos um Francisco em meio às transformações da sociedade feudal, às tensões junto à ordem franciscana e a influência desta nos modelos culturais do século XIII, mas, bem pouco do universo íntimo, dos conflitos que o levam a romper com o “jazigo” familiar e financeiro que estava fadado a herdar.
num tempo, que muitas vezes não é cronológico, e numa sociedade, constituindo-se, mesmo assim, tão humanos quanto um drama ou um romance podem ser (VEYNE, 2014).