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Será justo devotar à vida, tão pulsante, tão soberana, a inocente posição de mero ornamento da arte? Ao contrário, não teria a vida capacidade de apropriar-se da arte para melhor ornamentá-la?

O set de gravação: a sala de projeções de um dos maiores festivais do mundo dedicados à sétima arte, o Festival de Cannes, que ocorre anualmente na França.

Os atores: jornalistas e críticos de cinema de várias nacionalidades, todos ansiosos para conferir a projeção de um filme que, no ano anterior recebeu severas críticas por ser longo demais, rechaçado, assim, pelo público e crítica italianos.

A cena: os atores todos de pé, aplaudindo emocionados, enquanto na tela de projeção surge a palavra italiana “Fine”, logo após aquela que é considerada a cena mais emocionante da história do cinema.

O tempo de duração: sete longos minutos. O país: Itália.

O filme: Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso). E o ano era 1989...

Desacreditado por muitos, Cinema Paradiso é a história não somente dos abnegados e anônimos projecionistas num tempo em que as fitas eram inflamáveis e estes arriscavam a própria vida para realizar o desejo de tantos que buscavam as salas de cinema como a solução para uma vida social pacata e sem muitas surpresas, mas, o produto final de uma superação dentro e fora da grande tela.

Do desafio imposto ao seu diretor pela rejeição por parte do público ao formato original do filme à história das vidas de uma pequena cidade do interior da Itália em torno de sua sala de cinema (que dá nome à película), único espaço das sociabilidades naquele momento, elementos preciosos da trama nos sugerem identificação e reflexão.

E assim foi com a pesquisadora – que, doravante, neste tópico, por vezes lhes falará em primeira pessoa, pincelando com um tom mais intimista a formalidade da escrita acadêmica –, identificada com o personagem principal do enredo, Salvatore (apelidado

“Totó”),quando seu grande amigo e quase pai, o velho projecionista do cinema, “Alfredo”, – já naquele momento cego em decorrência do fogo provocado pela combustão das fitas – lhe diz: “Vai embora, Totó! Nunca mais volte a Giancaldo! Se voltar, não me procure, pois,

Momentos de crise são momentos de transformação.

Não fosse a atitude de Alfredo, Salvatore jamais teria se tornado o grande empresário da indústria cinematográfica, fazendo do amor ao cinema o ponto vital de mudança da sua condição de menino e adolescente enredado nas teias da memória que muitas vezes cristaliza o sujeito, inviabilizando seu bater de asas rumo a espaços e tempos outros, diversos da condição originária e comodista.

Da mesma forma, não sem crise me permito a apreensão deste objeto que me trouxe, em muitos momentos, a sensação de estar deixando para trás a mim mesma, experimentando talvez os mesmos sentimentos de Totó quando acena para Alfredo na estação do trem e este se recusa a devolver o adeus, receando que se tornasse apenas um até breve.

Os momentos mais marcantes das nossas vidas, mesmo que às vezes se prolongando longamente – até porque toda transformação existencial necessita de um tempo de gestação emocional –, são aqueles quando deixamos para trás a nós mesmos, na figura das imagens que temos de nós e das experiências antigas que pedem para que permaneçamos iguais – tomando como minha a poesia do artista – “na parede da memória”4.

E, de fato, em muitos momentos eu quis olhar para trás, oferecer apenas um até breve, mas, me seria permitido tomar um caminho diferente do que tomou Tornatore, quando teve que rever o original do Cinema Paradiso? Não! Não após a maternidade, não após o desabrochar da mediunidade, impulsionando meu ser a alçar voos mais altos e profundos, fundamentando a convicção na imortalidade das minhas aquisições espirituais, dos meus

conhecimentos, dos meus sentimentos, pois, “[...] chegado ao termo da viagem, [a] derradeira

noite será luminosa e calma como o ocaso das constelações à hora em que os primeiros albores matinais se espraiam no horizonte” (DENIS, 2014, p. 388). Esta é a minha convicção! O original agora existe à maneira de um quadro: para ser apreciado, para enternecer, para fazer suspirar, mas, uma vez saindo do estado contemplativo, jamais pensar em retornar à rigidez daqueles momentos, acolhendo com emoção o turbilhão de novas sensações transformadoras experimentadas quando, numa noite, cantando e embalando meu filho, senti a presença efetiva do Plano Espiritual.

Neste instante revelador, como tantos os desconcertantes acontecimentos que travei contato objetiva e subjetivamente nesta caminhada, ajusta-se a lembrança de uma música5:

4 Como nossos pais, de Belchior (1976).

Você entrou no trem

E eu na estação vendo um céu fugir Também não dava mais para tentar Te convencer a não partir... [...]

E agora, tudo bem Você partiu

Para ver outras paisagens [...].

Daquele dia em diante jamais fui a mesma, e hoje, da concepção singela do objeto, passando por sua construção racional e, quando desarvorada na necessidade de sintetização de seus parâmetros, sei que não estou sozinha. Jamais vi Deus tão de perto, transitando junto ao meu ser, do silêncio das leituras aos pretensos devaneios da escrita.

Todas as vezes que alguém se dispõe a contar a história de uma vida, em primeiro lugar é a sua que estará contando, pois, aquilo que me interessa num objeto é, no mínimo, aquilo que existe em alguma dimensão dentro do meu ser, necessitando de correção ou por muito carecer que seja potencializado.

Assim é que, a desenvoltura mediúnica do protagonista da trama que haveremos de discutir nesta tese, aprofundando conceitos, interrogando possibilidades, investigando o fenômeno através de sua experiência desde tenra idade, é a mesma que identifico carente de Educação e apropriação em mim.

Sim, a vivência plena da mediunidade é um ato educativo por excelência, donde o autoconhecimento, o esclarecimento sobre os mecanismos do fenômeno em questão e o recolhimento seriam a chave mestra para a observância de seus efeitos corporais, emocionais e comportamentais de forma equilibrada, pois, mais uma vez iluminados pelas assertivas de Denis (2014, p. 63): “Quantas faculdades preciosas, todavia, não se perdem, à míngua de atenção e de cultura! [...]. A mediunidade é uma delicada flor que, para desabrochar, necessita de acuradas precauções e assíduos cuidados”.

Confrontando, ao mesmo tempo em que complementando a definição acima, Klimo (data apud ALMEIDA, 2004), dá-nos definição mais eficientemente científica e neutra

– parêntese que fazemos neste instante que refletimos sobre as cenas da mediunidade no filme

da nossa vida –, pois que esta seria “[...] a comunicação provinda de uma fonte que é considerada existir em um outro nível ou dimensão além da realidade física conhecida e que também não proviria da mente normal do médium”.

Por todas essas considerações, e por tantas outras que, de tão soberanas e profundas jamais caberiam no estrito espaço de algumas linhas, vejo que deixei para trás o vazio de uma existência que a maturidade agora convida à transformação.

Em meio ao luto de mim mesma, sobressaem em finas frestas filetes da aurora de um novo tempo, bem mais firme, como o descrito nas breves, mas, absurdamente profundas reflexões com que Freud nos presenteia quando relata uma caminhada ao lado de dois

interlocutores anônimos, num “[...] dia de verão, [...] através de campos sorridentes [...]”

(FREUD, 1996h, p. 317).

Esse texto, o mais marcante para mim após anos de estudo do saber psicanalítico

– porque alimentou a minha alma, e de nada adiantam os quilométricos textos lidos, muitas

vezes para desfile vazio de erudição, se não construírem em nós renovadas perspectivas existenciais – cuja tônica pessimista dos companheiros de Freud naquele momento, resultado da dura visão provocada pelos horrores da iminência da Primeira Guerra Mundial, discute a transitoriedade das coisas (expressas na citação à Natureza e à Arte), das edificações materiais, e aqui arrisco complementar: das pessoas.

Envoltos que estavam numa aura de incertezas, Freud (1996h, p. 317) divaga sabiamente, como que tomado por uma sutil intuição:

O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. [...] A limitação da possibilidade de fruição eleva o valor dessa fruição. [...] A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhe empresta renovado encanto. Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela.

Embora argumentando a favor da materialidade das coisas, das riquezas da civilização fragilizada ante o torpor provocado pela guerra naquele momento, a essência da discussão é tocante, suscitando uma indagação: o que resta de nós quando nossas antigas convicções são destruídas pela força dos acontecimentos ou pelo encerramento natural dos fundamentos no tempo e no espaço da juventude espiritual? A resposta é automática: a reconstrução! A reconstrução de nós mesmos...

As convicções, vencidas pela força da maturidade, pela impermanência própria da condição do espírito, reclamam que deixemos ir aquela parcela de nós mesmos, aquele centro fundante sempre pronto a responder às nossas restritas inquietações, que, de tão urgentes, minam as respostas profundas que possamos construir na profundidade do encontro com um novo ser que, em última instância, somos nós reconfigurados.

Precisamos dialogar novamente com Denis (2013, p. 290), pois ele sintetiza nosso raciocínio objetivando aquilo que sentimos no nosso ser, no silêncio da transformação que advogamos nesta tese, através da interface entre Educação e Doutrina Espírita, aliás, experimentada em nós, com pleno conhecimento de causa:

Há em toda alma humana dois centros, ou melhor, duas esferas de ação e expressão. Um delas, circunscrita à outra, manifesta a personalidade, o ‘eu’, com suas paixões, suas fraquezas, sua mobilidade, sua insuficiência. [...] A outra, interna, profunda, imutável, é, ao mesmo tempo, a sede de consciência, a fonte da vida espiritual, o templo de Deus em nós. [...] Por um, perpetuamo-nos em mundos materiais, onde tudo é inferioridade, incerteza, dor; pelo outro, temos entrada nos mundos celestes, onde tudo é paz, serenidade, grandeza.

Nesse sentido, quando o fenômeno sobre o qual nos debruçamos nasce concomitantemente nos recônditos de nossa alma, vemos seus contornos iluminados pela força de nossa própria experiência. O mecanismo, portanto, é este, apesar de, na história do pensamento racional ocidental, as impressões sobre as possibilidades de emancipação da alma sempre terem sido sepultadas em pontos de vista distorcidos e extremistas.

O fato de abraçarmos, de corpo e alma, as duas causas – a do espírito e a da razão

– nos leva a pensar os fenômenos sociais numa lógica envolta em tabus acadêmicos e

religiosos; porém, foi justamente o fato de considerarmos a amplitude destes – mais uma vez

– na experiência que vivi e vivo em minha própria carne, que propomos uma tese alicerçada

num olhar entre dois mundos, entre duas realidades, situada em dois universos colocados tradicionalmente em lugares radicalmente opostos um ao outro.

Agora, saindo um pouco do terreno da intimidade, vemos que a observação participante de Gilberto Freyre analisada por Sevcenko (2004) retrata objetivamente aquilo que para nós se processou na intimidade.

Enquanto a intelectualidade brasileira buscava oferecer respostas ao debate sobre a nossa identidade centrando-se numa unicidade definidora do nosso “caráter nacional”, Freyre, com a sua observação participante, desagregaria as nossas dimensões étnicas constitutivas como forma de responder à multifatorialidade cultural da nossa gente. Isso só foi possível com a observação umbilical que empreendeu.

Da mesma forma, proponho uma discussão que descentraliza as respostas rasteiras e até negligentes sobre a transformação humana através da conjunção entre os dois campos evocados, porque expressos, gravados nas fibras mais profundas da minha alma.

Certamente que a horizontalidade das respostas do célebre historiador do Brasil pode ser motivo de crítica dada a inconsistência da transposição dos seus objetivos para os aqui apresentados, mas, acaso a tradição acadêmica nos oferece terreno mais fértil sobre o qual nos fundamentemos, se não apenas o das pesquisas rasas nos termos aqui defendidos, sem a participação espiritual do pesquisador?

Quando muito, encontramos assertivas como a de Darcy Ribeiro (1995, p. 17) que, embora sincero quanto às suas pretensões, residentes na alma de um homem de fé, jamais

foram divulgadas, sob pena de tornar menor aquele que contribuiu solidamente para a construção do pensamento social sobre o Brasil:

[...] não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira a influir as pessoas, que aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo.

Assim, a escolha por trabalhar conceitos acadêmicos seguindo uma lógica também espiritual é, antes de tudo, uma escolha ética da pesquisadora que, em revelando suas convicções religiosas e transformações mais íntimas, deseja perverter “o mito da neutralidade

científica” (JAPIASSU, 1975), ajudando a lançar mais lenha na fogueira das obsessões

acadêmicas.

Tais obsessões ingenuamente não contam com o fato de que, através da escolha do pesquisador, este está se dando a conhecer ao mundo; o objeto, portanto, fala por ele, donde seus pensamentos fundamentais, suas valorações mais íntimas, enfim, a juventude de suas aspirações – à maneira das desconstruções no divã – eclodem das brumas por vezes revoltas do seu espírito (BACHELARD, 1999).

Sábia desconstrução de uma produção pretensamente neutra, higiênica e isenta da subjetividade do pesquisador... Sábia desconstrução!