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“Todos nós somos responsáveis por aquilo que

nós fazemos... Somos responsáveis, também, por aquilo que deixamos de fazer quando somos convidados a agir e não aproveitamos a

oportunidade.”

(Carlos Roberto Campetti)

Esperamos, com esta pesquisa, por singelo que possam parecer tanto o nosso intento quanto o nosso argumento, incentivar duas frentes que pensamos ser fundamentais nas lides acadêmicas e sociais contemporâneas. Uma de caráter metódico, referente ao tipo de

pesquisa que produzimos na universidade, e outra, de impacto educacional, que pensamos apenas avançar quando a primeira de fato se estabelecer6:

1. A aceitação de temas como o que aqui trazemos – que seja o da Educação e sua aproximação com a Doutrina Espírita7– pela universidade, e que;

2. A transformação espiritual experimentada pelo personagem central de nosso trabalho de doutoramento, bem como pelos demais sujeitos que foram por nós entrevistados, e que orbitam nesse processo – convidados a dividir suas experiências – sejam vistas como um fenômeno humano, no afã de justificar que a mudança interior do indivíduo possui ligação estreita com a mudança de suas ações no meio social, produzindo, assim, uma transformação educacional necessária ao complexo momento que vivemos.

Já vislumbramos um horizonte bem mais aberto e menos árido às temáticas dessa natureza, como nos sugere Morais (2014, p. 120), ao narrar sua própria experiência:

O autor dessas páginas esteve quarenta e dois anos dentro de universidades; o que lhe permite testemunhar que, quando foi aluno, nós – os que tínhamos uma fé – nos constrangíamos em declarar nossa escolha religiosa em sala de aula. Costumavam, os colegas, olhar para nós como uma ‘espécie em extinção’. Mas, este autor, em seus últimos quinze anos de docência, em graduação e pós-graduação, quando no ensino fazia alguma referência ou comentário espiritualista, era como se a classe se acendesse e, aí, o docente tinha que pôr de parte seu roteiro para atender aos sôfregos interesses espirituais dos alunos e alunas.

Porém, embora percebendo um maior elastecimento na aceitação de temas qual o que trazemos para a discussão, ainda lamentamos a posição extremista de companheiros que, em professando uma fé distinta da nossa, enveredam pela crítica destrutiva de aspectos de nossa opção evangélico-doutrinária – inclusive o fazendo sem fundamentação e conhecimento adequados – o que, infelizmente, pode vir a dificultar o avanço na aceitação desses temas, pois, observadores externos podem concluir que os mesmos não são tratados com o devido respeitos nem por aqueles que dizem buscar um espaço para estudos dessa natureza.

Tais proposições configuram-se urgentes no ambiente universitário atual que, assistindo à chegada de sugestões de pesquisa seguindo a mesma linha discursiva da nossa, precisa esmaecer seus parâmetros conservadores para a aceitação de um novo gênero de

6 Sobre o aumento de temáticas que envolvem a Doutrina Espírita nos espaços acadêmicos, sugerimos, também: Betarello (2010), Maia (2015) e Sampaio (2009).

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Interessante notar que encontramos mais facilmente tais tipos de pesquisa nas áreas das ciências biomédicas, cujas investigações se ocupam das fronteiras entre a saúde mental e a loucura/saúde mental e a mediunidade, tentando uma definição deduzida de um novo paradigma, que é o do espírito. Para isso, os estudos históricos ensejam o conhecimento das dificuldades pelas quais passaram aqueles que experienciaram o fenômeno, bem como aqueles que estavam envolvidos na sua divulgação ou pensamento inicial. Sugerimos leitura de Jabert (2008).

temas8 que remetem, muito intimamente, à transformação individual do pesquisador o que teria, como mais um desdobramento dessa cadeia, a formação última do aluno, sujeito aprendente que, ao inquietar-se com um problema, gênese de uma possível pesquisa no futuro, geralmente o faz valendo-se de sua história pessoal e valorativa.

De acordo com Maia Nonato (2011, p. 195):

Formação (com ‘o’ fechado) significa pôr numa fôrma, enquadrar, produzir sujeitos de uma mesma forma como numa linha de montagem, conformar todos os sujeitos a uma forma preestabelecida; formação (com ‘o’ aberto), ao contrário, significaria construir uma forma, dar uma forma enquanto produção do sujeito no tempo, produzir uma forma em ação, levando-se em consideração as especificidades de cada sujeito, sua história, o contexto de seu desenvolvimento, processo que necessariamente produz sujeitos diferentes.

Assim, pensamos ser importante fugir das posições tradicionalmente eleitas que muito mais atestam contra os fundamentos da universidade, em que estas “[...] devem ser lugares de investigação, documentação, criatividade e ensino [...] locais onde urge encontrar-se um sábio equilíbrio no qual contraponteiem de forma produtiva as

necessidades individuais e as universais” (MORAIS, 2014, p. 111), que propriamente uma

atitude de pesquisa frente a fenômenos que, em si, trazem subjacentes a diversidade das inclinações subjetivas e culturais do ser humano.

Podemos dizer que este é um objeto essencialmente brasileiro, pois, não se conhece povo mais afeito à experiência religiosa que o brasileiro, cujo sincretismo modela sua sociabilidade, fundando uma maneira de expressão religiosa completamente particular em face da ligação umbilical que ele possui com o sagrado, mas, de igual monta, também podemos afirmar que esse objeto é essencialmente humano.

Dessa forma, se nos cabe, como devidamente nos alerta Maia (2011), pensar a humanidade do ponto de vista da aprendizagem, dos dispositivos que desenvolvemos potencializando assim nossa força frente aos elementos da natureza, da consciência e do inconsciente, do simbolismo que nos viabiliza ascendermos à cadeia cognitiva das operações

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Apesar de atualmente estudos dessa natureza serem mais aceitos, essa queixa antiga ainda é recorrente entre os que “militam” nesta seara há mais tempo e provam as dificuldades de tratar de temáticas que envolvam, por exemplo, a mediunidade, fator central da vida de Carlos Roberto Campetti, e, agente transformador das suas ações e escolhas desde prematura idade. De acordo com Almeida e Lotufo (2003), os estudos que envolvem as várias expressões da mediunidade, tais como, “[...] as experiências anômalas (EA) (vivências incomuns ou que se acredita diferentes do habitual e das explicações usualmente aceitas como realidade: alucinações, sinestesias e vivências interpretadas como telepáticas...) e os estados alterados de consciência (EAC) são descritos em todas as civilizações de todas as eras, constituindo-se elementos importantes na história das sociedades. Apesar disso, têm recebido pouca atenção da comunidade científica, ou são abordados de forma pouco rigorosa”.

lógico-formais, achamos por bem pensar a humanidade, nesta tese de doutoramento, sob o ponto de vista de sua espiritualidade.

Uma espiritualidade que, fruto da aproximação entre dois campos aparentemente diversos e excludentes9, toma melhor conotação quando estes se consorciam, desencadeando uma transformação que, longe de desconstruir os critérios de objetividade que tão valorosamente contribuíram para o avanço progressivo da humanidade, melhor é entendida quando toma por seus tais critérios, inclusive para mais bem apreender as verdades essenciais,

pois, “não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade”10

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Almejamos contribuir para um espaço de formação universitária mais democrático, no quesito por nós observado como fundamental para o ser humano e, consequentemente, para o estudantes de graduação e pós-graduação que, podendo se debruçar sobre os meandros de uma porção importante que congrega suas escolhas éticas, subjetivas e culturais, que é a religião e/ou espiritualidade, podem experimentar com mais lucidez todas as possibilidades que estas podem lhes oferecer, bem com a aplicabilidade destas nas comunidades e famílias a que pertencem.

Tal lucidez é importante substrato que nos apoia, como decorrência de um espírito crítico que acolhe racionalmente a presença do divino nas nossas vidas, postura que se reflete nas palavras de Carlos Campetti e emoldura nosso raciocínio:

Deus nos criou para a felicidade que a gente mesmo constrói e, dentro desse conceito, nós vamos encontrar Jesus colocando: ‘O Pai trabalha ainda agora, e eu também’. Então, Jesus nos vem trazer uma realidade que transcende o campo da matéria. No momento em que ele vai crucificado e todo mundo entende aquilo como algo especial, que só aconteceu com ele, ele vem nos dar o exemplo daquilo que acontece com todos nós. Então, quando há a Ressurreição, todo mundo pensa que aquilo é um milagre ocorrido com Jesus, mas, a Ressurreição é um fato que ocorre com todo mundo, mas, não nesse sentido místico que as religiões acostumaram a gente a entender dessa maneira. Não! Na realidade é um fenômeno natural da vida. A vida continua... Então, a Ressurreição é nada mais que um símbolo da continuação da vida, em que o indivíduo tem a oportunidade da renovação e da transformação constante, para alcançar o seu objetivo, que é a sua integração dentro do plano divino, para ser um colaborador consciente dentro do plano divino, e, portanto feliz, por estar cumprindo a função para a qual ele foi criado11.

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Referimo-nos à Educação e à Doutrina Espírita. 10

Allan Kardec (2013), paradoxalmente, inicia a obra mais religiosa dentre todas as da chamada codificação justamente com uma afirmação que remete a um raciocínio lógico, demarcando que, embora analisando à luz da Doutrina Espírita trechos fundamentais destacados dos evangelhos, o faz seguindo critérios de objetividade tendo em conta a cultura, as aparentes incongruências e as passagens que são alvo de julgamento de críticos de outras denominações religiosas.

Temos em mente, desta feita, que os aspectos que narraremos, inspirados na vida de Carlos Campetti – o processo de autoconhecimento, a internacionalização de propósitos voltados ao bem, alicerçados numa Educação universal do espírito cultivada através do estudo continuado proposto pelo ideal de Educação da Doutrina Espírita –, iluminados também pela experiência dos demais sujeitos que colaboraram com nossa pesquisa, podem provocar uma mudança naqueles que sorvem seus conceitos.

Assim, aspectos instrucionais somados à porção moral da Doutrina Espírita podem promover uma transformação espiritual considerável nos indivíduos consultados, pois criam o ambiente propício para que o sentimento de espiritualidade possa nascer, embora a experiência com este último seja completamente particular de cada um, enquanto que o primeiro reveste-se apenas de ensino, transmissão e conceitos muitas das vezes.

De acordo com Otto (1992, p. 89):

[...] para esclarecer a essência do numinoso [do sagrado como elemento imponderável – excerto nosso] é conveniente perguntar como é que ele se exprime e manifesta, como se propaga e transmite de alma para alma. Em boa verdade, não se transmite no sentido próprio da palavra; não pode ensinar-se. Apenas se pode fazer despertar no espírito. Por vezes, diz-se a mesma coisa da religião em geral e no seu conjunto. Mas é um erro. Muitos elementos que contém podem ensinar-se, transmitir-se por meio de conceitos, traduzir-se de forma didática, exceto precisamente o sentimento que lhe serve de fundo e de infra-estrutura. Só pode ser provocado, excitado, despertado. E isto, não por meio de palavras, mas da mesma maneira que se transmitem normalmente os estados da alma e os sentimentos, como os da simpatia, partilhando aquilo que se produz na alma de outrem, como uma participação sentimental.

O envolvimento dos participantes na prática religiosa reiterada que estudos, encontros fraternos, atividades assistenciais, palestras, congressos temáticos, suscitam, em primeira mão, favorecendo a que estes, num primeiro momento convidados a um hábito semanal, possam estar abertos a que naturalmente a atitude espiritual faça parte das suas vidas cotidianas, e este é um ponto capital que intencionamos favorecer com esta pesquisa.

Logicamente, analisamos e embasamos nossa afirmação na experiência de sujeitos que caminharam ao encontro de suas práticas espirituais dentro desse contexto, mas, aqui não podemos descartar que a ausência dessas atividades e a ambiência que fomenta a espiritualidade de cada um possam ser desencadeadas a partir de outros caminhos trilhados, em outros sujeitos, com outras predisposições e perfis, mas, a nós compete discutir os aspectos que julgamos muito positivos com as práticas que descreveremos nas vidas contadas pelos próprios sujeitos.