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Neste capítulo procuraremos discorrer sobre a concepção de Educação que embasa nossa tese, proposta que se encontra fundamentada numa certa revivescência de pressupostos educacionais em comunhão com a Espiritualidade, mas que, no nosso entendimento, o transcende, pois que não conseguimos ver uma desconexão entre um campo e outro. Daí propormos que a transformação espiritual se faz em intimidade com a formação e a transcendência em eventos que sustentam uma experiência que, em si, denota uma emancipação em variados aspectos e que produzem impacto na vida do ser humano.

A assertiva acima parece circular sobre um eixo, mas, esta deve ser de fato uma retroalimentação que concorra para um avanço do homem – desta feita e tomado aqui como espírito em estado de evolução –, afirmando as bases que, na história do pensamento moderno, produziu uma cisão de efeitos negativos sobre este que é o fundamento de uma Educação que podemos, também, nomear de Espiritual.

Em nome do novo Deus, o Positivismo, de outro Deus, o Cientificismo, da nova Deusa, a racionalidade e, da madre-superiora, a Razão, mata-se o espírito. Instâncias doravante normativas das sociabilidades, das subjetividades, das ainda capengas espiritualidades – ou para sermos mais precisos da espiritualidade apostólica, ortodoxa, arquejante – renegam a porção que poderia remeter as práticas educacionais a uma produtividade efetiva, mas, que a confinam, por desconsiderá-la, nos “calabouços” da reserva e do preconceito.

Tal conduta, muito mais por inabilidade em agregar um ponto de vista mais abrangente ao seu olhar sobre os múltiplos fenômenos que nos diferenciam dos demais animais – nossos companheiros na cadeia evolutiva biológica e espiritual, para continuar as heresias que fundamentam nosso pensamento –, foi o bastante para delimitar, circunscrever a capacidade de transcendência humana ao estreito círculo da matéria, desconsiderando suas potencialidades e, por consequência, sua responsabilidade ao situar, esta existência, como uma passagem – importante, mas, mais uma passagem, na arquitetura geral da nossa vida na eternidade –, devendo ser construída em conexão com o antes, o durante e o devir que nos fundamenta numa perspectiva de espíritos em marcha evolutiva.

É a superação, parafraseando Edgar Morin (2011), que, ao se remeter a uma

“resistência quase biológica do espírito”, podemos dizer que é a resistência à condição

biológica do homem, pois, se ela conforma nossa condição humana, faz com que esta, retomando suas bases, compreenda que é mais suprema e complexa que um apanhado de ossos, artérias e conexões neuronais basilares para a mente.

A circularidade que pode, paradoxalmente, contribuir para nosso julgamento, foi a mesma que, subjacente, fundamentou o pensamento mais integral de Morin (2011, p. 46). Vejamos se na sua filosofia educacional poderemos nos fazer ouvir:

A hominização conduz a novo início. O hominídeo humaniza-se. Doravante, o conceito de homem tem duplo princípio; um princípio biofísico e um psicossociocultural, um remetendo ao outro. Somos originários do cosmos, da natureza, da vida, mas, devido à própria humanidade, à nossa cultura, à nossa mente, à nossa consciência, tornamo-nos estranhos a este cosmos, que nos parece secretamente íntimo. Nosso pensamento e nossa consciência fazem-nos conhecer o mundo físico e distanciam-nos dele. O próprio fato de considerar racional e cientificamente o universo separa-nos dele. Desenvolvemo-nos além do mundo físico e vivo. É neste ‘além’ que tem lugar a plenitude e a humanidade. À maneira de ponto do holograma, trazemos, no seio de nossa singularidade, não somente toda a humanidade e toda a vida, mas também quase todo o cosmos, incluindo seu mistério, que, sem dúvida, jaz no fundo da natureza humana.

Herança da tese cartesiana que situou numa dualidade, ou polaridade, as esferas constitutivas do homem e, por consequência, da vida, quais sejam, segundo Morin (2011, p.

25), “Sujeito/Objeto, Alma/Corpo, Espírito/Matéria, Qualidade/Quantidade, Finalidade/

Causalidade, Sentimento/Razão, Liberdade/Determinismo e Existência/Essência”, seria o acirramento dos paradigmas, consoante às suas determinações próprias, reforçados pela racionalização que, ao invés de contemplar as esferas de possibilidades dos fenômenos, rechaça-os, inviabilizando o diálogo com o real que se apresenta, mas que necessita de bases outras para sua verificação. Ainda que as mesmas, porém com um espectro ampliado de análise.

Esta assertiva é-nos importante, pois, se pensamos que pela via do autoconhecimento – que é a capacidade, também, de se perceber integral em potência, mas, falível e incompleto em estrutura moral –, atingimos essa parcela considerável de transformação espiritual decorrente de uma Educação Espiritual, necessário se faz que tenhamos lucidez sobre a fratura produzida em nós pelo excesso de racionalização produzido na Modernidade.

Obedecendo antes a um modelo mecanicista e determinista para considerar o mundo, fruto muito mais de um ato de racionalização que propriamente de racionalidade, Morin (2011, p. 22-23) refletirá que:

A racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. [...] A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado das ideias, e não a propriedade de um sistema de ideias. O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. [...] sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. É não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências. A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas as mentes dos cientistas e dos técnicos e de que são desprovidos os demais. Os sábios atomistas, racionais em suas áreas de competência e sob a coação do laboratório, podem ser completamente irracionais na política ou na vida privada. Da mesma forma, a racionalidade não é uma qualidade da qual a civilização ocidental teria o monopólio. O ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que, em qualquer sociedade, mesmo arcaica, há racionalidade na elaboração das ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo, ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais, estão também presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso.

Ou seja, chegando o homem naquele que parece ser seu objetivo último, o fundamento de suas ações e desejos cotidianos, qual seja a apropriação tecnológica dos tempos, espaços e relações, melancolicamente constata o que a sabedoria popular

Sob muitos aspectos a razão – esta grande conselheira e reformadora das inclinações malsãs e sedutoras sobre as quais recorrentemente nos deixamos envolver, via de mão dupla das mais altas às mais baixas realizações humanas (BAUDELAIRE, 1996) – tem participação ativa e fundamental quanto às escolhas nobres ou deletérias que fazemos, principalmente, se levarmos em conta que a natureza nos remete a uma condição em que o burilamento de nosso trato animal mais identitário se faz necessário ao nosso pertencimento social (FREUD, 1996d).

O problema está em fazermos a escolha mais coerente, pois embora já suficientemente refinados nas operações lógicas que servem à nossa leitura e transformação do/no mundo, problemáticas existenciais e sociais tais como violência, fundamentalismos étnicos, religiosos, de gênero, adoecimentos psíquicos graves, suicídio, têm se alastrado consideravelmente – resultado, lógico, do nível de complexidade das grandes cidades e do aumento progressivamente maior da população –, atestando que continuamos reincidindo nos equívocos que, no final das contas, foram os responsáveis pelas guerras e derramamento de sangue ao longo da história da humanidade.

Apesar de referir-se à moda como elemento de desprendimento e transcendência em relação à condição animal primeva arraigada no homem, é válida a assertiva bem dita, mesmo que pessimista, do poeta sobre nosso traço originário:

[...] analisemos tudo o que é natural, todas as ações e desejos do puro homem natural, nada encontraremos senão horror. Tudo quanto é belo e nobre é o resultado da razão e do cálculo. O crime, cujo gosto o animal humano hauriu no ventre da mãe, é originalmente natural. A virtude, ao contrário, é artificial, sobrenatural, já que foram necessários, em todas as épocas e em todas as nações, deuses e profetas para ensiná-la à humanidade animalizada [...]. (BAUDELAIRE, 1996, p. 62). Embora exacerbando a importância da atividade lógica e exterior ao homem, é lícito concordarmos com Baudelaire, tendo em vista que esse é o meio através do qual melhoramos a qualidade da nossa vida e das nossas relações, se assim quisermos.

Desse modo, no trajeto que fazemos do instinto ao máximo da utilização de nossa capacidade de raciocínio, estaremos sempre realizando escolhas que inviabilizarão ou potencializarão importantes aspectos de nosso desenvolvimento em sociedade, pilares através dos quais construímos nossa emancipação rumo a uma cultura que notadamente terá a nossa feição, cabendo às gerações predecessoras a responsabilidade de oferecer às mentes que se formam a tradição de princípios éticos que acreditamos serem minimamente universais, não importando a civilização onde estes se manifestem.

Mas, voltando ao nosso raciocínio primeiro, o homem especulou as bases materiais, condicionantes da vida em nosso planeta, mas, o problema se dá em pensar que a vida pulsa apenas nessa direção, nessa matriz.

Por isso, quando Freud concebe a sua segunda teoria do inconsciente – e aqui nos remetemos à chamada segunda tópica, ou a segunda teoria do aparelho psíquico (FREUD, 1996a), em que à pulsão de vida corresponde em igual proporção uma pulsão de morte, isto no que concerne ao inconsciente –, este o faz especulando a base instintual do homem, aquela parcela que se nega veementemente a condição civilizatória, apesar de não poder fugir dela.

Esta concepção foi outro pensamento que, de certa maneira contribuiu para a fixação do homem em bases materiais no território oportuno da Modernidade. Mas, mais oportuno seria se conhecêssemos a riqueza de suas reflexões, que ampliam o conceito de inconsciente, situando-o numa transcendência, quando reconhece que a matéria não seria apenas campo do investimento melancólico, raiz e fim de todo o nosso desejo, mas, condição de superação quando sua fragilidade se perde na destruição/finitude que invariavelmente haverá de sofrer.

Apesar de avançar numa direção nunca antes imaginada, pois pela primeira vez há uma observação e uma consequente cartografia da dinâmica do psiquismo, a partir dos sonhos, dos sintomas da histeria tão em voga nos espetáculos oitocentistas na Europa de então e das ações cotidianas, vemos que esta concepção se tornou hegemônica. E presa apenas a ela foi o máximo que chegamos até hoje, de forma a dificultar a apreensão de um pensamento mais estrutural de Freud, quando este ensaia uma tímida concepção da transcendência do homem.

Tímida, mas pertinente quando ele avalia que a mesma força que nos compele ao ódio existe em igual proporção no amor, sendo esta dualidade que, ao mesmo tempo nos lembra nossa condição hominal, terrena, orgânica, instintual, mas que apela para uma estratégia nessa potência, nem sempre considerada, que neutralize essas forças (FREUD, 1996f, p. 309):

Realmente, é estranho tanto à nossa inteligência quanto aos nossos sentimentos aliar assim o amor ao ódio; mas a Natureza, fazendo uso desse par de opostos, consegue manter o amor sempre vigilante e renovado, a fim de protegê-lo contra o ódio que jaz, à espreita, por detrás dele. Poder-se-ia dizer que devemos as mais belas florações de nosso amor à reação contra o impulso hostil que sentimos dentro de nós.

De sorte que se prefere ficar com o Freud que na tentativa de ajuste de um pensamento que deslocava o homem da condição puramente biológica, tenta pensar este inserindo sua experiência psíquica nesta condição, como é o caso do projeto para uma

psicologia científica encontrado nos textos das primeiras publicações psicanalíticas (1893- 1899).

Mas, se até para Freud foi difícil inserir um novo pensamento, como o que experimentou nos círculos das sociedades médicas de então, por que se surpreender com o mesmo estranhamento quando falamos de espírito em meio aos pressupostos materialistas que, segundo Kardec (2008c), reforçaram o afastamento do homem da aceitação de sua condição espiritual?

Freud (1996j) narra o seu mal-estar, mas, desta feita, no desajuste de sua vanguarda em relação ao conservadorismo acadêmico da época:

Voltarei agora ao ano de 1886, época em que me estabeleci em Viena como especialista em doenças nervosas. Cabia-me apresentar um relatório perante a ‘Gesellschaft der Aerzte’ [Sociedade de Medicina] sobre o que vira e aprendera com Charcot. Tive, porém, má recepção. Pessoas de autoridade, como o presidente (Bamberger, o médico), declararam que o que eu disse era inacreditável. Meynert desafiou-me a encontrar alguns casos em Viena semelhantes àqueles que eu descrevera e a apresenta-los perante a sociedade. Tentei fazê-lo; mas os médicos mais antigos, em cujos departamentos encontrei casos dessa natureza, recusaram-se a permitir-me observá-los ou a trabalhar neles. Um deles, velho cirurgião, a realidade irrompeu com a exclamação: ‘Mas, meu caro senhor, como pode dizer tal tolice? Hysteron [sic] significa útero. Assim, como pode um homem ser histérico?’ Objetei em vão que o que desejava não era ter meu diagnóstico aprovado, mas ter o caso posto à minha disposição. Por fim, fora do hospital, deparei-me com um caso de hemianestesia histérica clássica em um homem, e demonstrei-o perante a ‘Gesellschaft der Aerzte’ [1886s]. Dessa vez fui aplaudido, mas não adquiriram mais interesse por mim. A impressão de que as altas autoridades haviam rejeitado minhas inovações permaneceu inabalável; e, com minha histeria em homem e minha produção de paralisias histéricas por sugestão, vi-me forçado a ingressar na Oposição. Como logo depois fui excluído do laboratório de anatomia cerebral e como durante intermináveis trimestres não tive onde pronunciar minhas conferências, afastei-me da vida acadêmica e deixei de frequentar as sociedades eruditas. Faz uma geração inteira desde que visitei a ‘Gesellschaft der Aerzte’. Dessa forma, quem sabe exista certa dificuldade em admitir que inclusive ele, no crepúsculo da vida, assumiu que, ou pensamos de maneira mais transcendente as anomalias sociais ou incorremos no erro de reduzir o homem a estas mesmas anomalias, sem oferecer-lhe uma saída possível a esse desespero. Fato tão bem recitado pelo coro na tragédia Édipo Rei, de Sófocles (2002) que, embora recuando em muito no tempo, a uma peça da Época Clássica, é impossível não percebermos que continua de uma atualidade desconcertante.

É dessa visão fatalista que colhemos uma meditação sobre o destino do homem que, em última instância, desdobra-se na possibilidade que este mal-estar produza um pensamento sobre se de fato somos compostos por matéria somente, quando nos deparamos com a ideia de finitude, e com ela a erradicação de todas as nossas realizações intelecto-relacionais:

De todas as incontáveis maravilhas da natureza, de todas a maior é o homem! Singrando os mares profundos, impelido pelos ventos do sul, desafia as vagas imensas que rugem ao redor! Gê, a deusa suprema, que a todos suporta em sua eternidade, ele a rasga com suas charruas que, todos os anos, revolvem e fertilizam o solo, movidas pela força das alimárias! Ele captura e domina os pássaros ligeiros; criativo, o homem enleia nas malhas de suas redes os animais selvagens e os habitantes do mar. Doma a fera agressiva acostumada à luta, põe a sela no cavalo bravo e mete a canga no pescoço do furioso touro da montanha. E o homem desenvolveu a língua, a capacidade de pensar e os costumes moralizados. Também aprendeu a se proteger das intempéries e dos rigores da natureza! Fecundo em seus recursos, ele foi realizar o ideal almejado! Só da morte ele jamais terá meio de escapar, embora muitas doenças, outrora fatais, já têm hoje remédio eficaz para a cura. (SÓFOCLES, 2002, p. 93).

Desse modo, o homem doma a fera, a natureza, concebe estratégias para ascender ao topo da cadeia que, para ele, não é apenas alimentar, mas, sim, uma condição que ele atinge a partir de seus méritos cognitivo-racionais, porém, apenas da morte ele jamais poderá fugir e, também, da incompletude que os avanços civilizatórios foram incapazes de suprir.

Assim, posto que foram estes os desdobramentos da Modernidade, é importante compreendermos os aspectos mais relevantes desse momento da história da civilização ocidental por entendermos o protagonismo assumido pelo materialismo e, acima de tudo, por ser contraditoriamente o momento da história da humanidade a partir do qual emerge a figura de Allan Kardec, com sua proposta educativo-evangélico-doutrinária, que é a Doutrina Espírita, a qual nos dedicaremos no item subsequente.

Tais problemáticas levaram Gilberto Freyre (2001) a dedicar reflexão ao tempo acelerado que, desde a Revolução Industrial, o homem moderno passou a experimentar, construindo celeremente as coisas –, no ritmo das engrenagens das máquinas e, ao mesmo tempo, coisificando-se, trocando, assim, o ritmo lento de vida e do trabalho, pela automação de produtos e atitudes.

No mundo de agora, estamos diante de todo um complexo social ou sociocultural em transformação de moderno para pós-moderno [...]. Quem toca no assunto aparentemente frívolo que é o desaparecimento, do Brasil urbano, de cafés e confeitarias, [...], toca num conjunto de hábitos e valores que com ele se relacionam de modo ostensivo ou sutil e, em alguns pontos, contraditório. Toca em relações dos homens [...] com o sentido de tempo. Toca em atitudes dos homens para com as formas das mulheres: barrocas ou brevilíneas, as preferidas outrora pelos homes, quer jovens, quer idosos – nos dias do muito doce comido lenta e voluptuosamente nas confeitarias e ainda hoje apreciadas por muitos dos idosos – góticas ou longilíneas, as preferidas atualmente pelos jovens quase sem exceção no Ocidente e parece que, revolucionariamente, no próprio Oriente Médio. Toca em predominâncias de conceitos ou de preconceitos de higiene e de estética – inclusive de higiene de alimentação e de estética de formas de corpo – revolucionários com a revivescência, pelos jovens, dos hábitos de demorados encontros de amigos com amigos [...]: hábitos abandonados sob a tirania da ética do tempo-dinheiro. (FREYRE, 2001, p. 68-69).

Não poderíamos desprezar a contribuição de Álvaro de Campos (heterônimo do poeta Fernando Pessoa) sobre o tempo que transcorre rápido, que é produção e que é dinheiro,

que é febril ao mesmo que fabril, que é velocidade e máquina. A “Ode triunfal” diz o

seguinte:

[...]

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! [...]

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro. Porque o presente é todo o passado e o futuro

[...]

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina!

[...]

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. Maravilhosa gente humana que vive como os cães, Que está abaixo de todos os sistemas morais, Para quem nenhuma religião foi feita, Nenhuma arte criada,

Nenhuma política destinada a eles! [...]

Eia e hurrah por mim e tudo, máquinas a trabalhar, eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (PESSOA, 2016, p. 249-250).

Criador e criatura confundem-se29, portanto, num caldo, amálgama (RODRIGUES, 1999, p. 109) que, se antes era da urbanidade em crescente transformação, esquadrinhamento das coletividades, objetivando organizar initerruptamente o espaço, fragmentando-o, higienizando-o, seguindo o modelo imposto pela medicina social de cunho coletivo (FOUCAULT, 1979), o desdobramento foi crescente para as relações entre os homens e, consequentemente, para a relação do homem consigo mesmo.

Apenas a título de informação, Foucault pergunta e responde em que consistiam os três objetivos da medicina urbana, mais presente na França, distinta da medicina social

praticada na Alemanha, “de Estado, [...], da força de trabalho”. Vejamos:

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Lembremos do filme de Charlie Chaplin, Tempos modernos (Modern Times, 1936), cujo simbólico começo da película se dá com a melancólica chegada dos ponteiros do relógio às seis horas da manhã, momento fatídico para o trabalhador da fábrica, pois anuncia o começo de uma nova jornada. Vale considerarmos, também, que as primeiras tomadas dos irmãos Lumière, na França, testando a maravilha que viria a ser