• No results found

Ice discharge from the Antarctic Ice Sheet directly impacts global sea level, making ice sheet dynamics a central topic in

In document FRAM FORUM 2017 (sider 102-105)

A Teoria da Variação (ou Sociolinguística Quantitativa), proposta por William Labov em 1972, tem como objeto de estudo a variação da língua no contexto social de uma determinada comunidade de fala. Esse modelo coloca em discussão a concepção (formalista) adotada pelos gerativistas, para quem a língua seria um sistema homogêneo, uniforme e estático, ao contrapor a relação língua/homogeneidade e ao incorporar a noção de variação sistemática motivada por pressões sociais que “continuamente operam sobre a língua” (LABOV, 1972, p.3).

Segundo Weinreich, Labov e Herzog (1968), é na heterogeneidade ordenada, característica das línguas, que se há de buscar explicações para os processos que resultam na mudança linguística. Para isso, faz-se necessário descrever e analisar a língua do indivíduo na comunidade em situação real de fala. Com base nessas considerações, dois princípios básicos norteiam o estudo da língua à luz dessa perspectiva: 1) a estrutura linguística deixa de ser identificada como homogênea e passa a ser concebida como heterogênea e estruturada; 2) as gramáticas nas quais as mudanças ocorrem representam as gramáticas da comunidade de fala, entendida por Labov (1972, p.158) como um grupo de pessoas que compartilham um mesmo sistema normativo de valores na interpretação dos fenômenos linguísticos, bem como as mesmas normas e atitudes diante do uso da linguagem.

Segundo Guy (2001), são características da comunidade de fala o compartilhamento de palavras, sons ou construções gramaticais que são usadas na comunidade; a densidade de comunicação interna relativamente alta, já que as pessoas, normalmente, falam mais com as que pertencem ao mesmo grupo (igreja, estudantes, jogadores, profissionais) do que com aquelas que não o integram; e as normas compartilhadas, isto é, as atitudes em comum sobre o uso da língua, as normas comuns sobre a direção da variação estilística e as avaliações sociais similares sobre variáveis linguísticas.

Ao trabalhar com o conceito de comunidade de fala, a Sociolinguística procura estabelecer quais características um grupo de falantes compartilha para, então, embasar pesquisas e correlacionar fatores atuantes na variação e na mudança da língua. Com isso, busca definir as semelhanças e as diferenças linguísticas de um determinado grupo social. Ademais, investiga a razão pela qual certos grupos de falantes compartilham traços linguísticos que os distinguem de outros grupos, voltando-se ao exame da língua em situação real de fala, ou seja, ao vernáculo, propriedade da comunidade e não do indivíduo.

Segundo Tarallo (1994, p.19), o vernáculo é “o veículo linguístico de comunicação usado em situações naturais de interação social, do tipo comunicação face a face”. É, pois, do falar vernacular que se extraem as variáveis linguísticas, entendidas como escolhas entre duas ou mais variantes distintas, mas linguisticamente equivalentes. Dentre as propriedades consideradas essenciais para a caracterização de uma variável linguística, Labov (1972) sugere quatro, a saber:

First, we want an item that is frequent, which occurs so often in the course of undirected natural conversation that its behavior can be charted from unstructured contexts and brief interviews. Secondly, it should be structural: the more the item is integrated into a larger system of functioning units, the greater will be the intrinsic linguistic interest of our study. Third, the distribution of the feature should be highly stratified: that is, our preliminary explorations should suggest an asymmetric distribution over a wide range of age levels or other ordered strata of society. […] On the one hand, we would like the feature to be salient, for us as well as for the speaker, in order to study the direct relations of social attitudes and language behavior. But on the other hand, we value immunity from conscious distortion, which greatly simplifies the problem of reliability of the data (LABOV, 1972, p.8)14.

14 Primeiramente, queremos um item que seja frequente, o qual ocorra tão frequentemente no curso da conversação natural indireta que seu comportamento possa ser traçado em contextos desestruturados e em entrevistas breves. Em segundo lugar, o item deve ser estrutural: quanto mais o item estiver integrado a um sistema maior de unidades funcionais, maior será o interesse linguístico intrínseco de nosso estudo. Em terceiro lugar, a distribuição do traço deve ser altamente estratificada: ou seja, nossas explorações preliminares devem sugerir uma distribuição assimétrica sobre uma ampla gama de faixas etárias ou outro estrato ordenado da sociedade. [...] Por um lado, gostaríamos que o traço fosse saliente, tanto para nós quanto para o falante, a fim de estudar as relações diretas de atitudes sociais e de comportamento linguístico. Mas, por outro lado, valorizamos a isenção oriunda de distorção consciente, a qual simplifica muito o problema da confiabilidade dos dados (Tradução nossa).

Os primeiros trabalhos variacionistas dedicaram-se às variáveis gramaticais (fonológicas e morfológicas) a partir da noção de regra variável (LABOV, 1969). Esse conceito redefiniu e, de certo modo, expandiu a noção de opcionalidade da Fonologia Gerativa, ao incluir restrições linguísticas e sofrer o efeito, na expressão dos valores de suas frequências relativas, das restrições sociais. Segundo Camacho (2013), a proposta incorporou, posteriormente, os efeitos dos parâmetros extralinguísticos envolvidos na realização da variável, valorizando, assim, as motivações presentes na comunidade de fala.

Fasold (1991), no entanto, afirma que a noção de regra variável como parte da teoria linguística foi, aos poucos, sendo abandonada, devido, provavelmente, (i) à compreensão de que era problemática a explanação das motivações linguísticas e sociais referentes às frequências expressas pelas regras variáveis e (ii) à incompatibilidade entre teorias que explicam estrutura linguística e teorias que tratam do uso da língua. De acordo com Hazen (2007, p.77), tal fato não causou prejuízo ao campo sociolinguístico, já que a avaliação quantitativa da variação linguística diacrônica e sincrônica foi mantida.

Independentemente do fato de os condicionadores serem linguísticos ou sociais, a premissa fundamental do modelo variacionista permaneceu a mesma: a distribuição das formas em variação do fenômeno linguístico variável que se deseja analisar (variável dependente) pode relacionar-se com categorias linguísticas e sociais(variáveis independentes) que são manipuladas na investigação e cujos efeitos se pretende avaliar (FIELD, 2009).

Para a condução da análise sociolinguística que segue o modelo apresentado, é necessário o levantamento de um número representativo de ocorrências do fenômeno analisado, por meio da interação direta ou indireta entre o pesquisador e os membros da comunidade. Nesse sentido, Labov (1972) salienta os cuidados que o sociolinguista tem de tomar ao lidar com os recursos tecnológicos para a gravação, uma vez que, quando o falante sabe que está sendo observado, tende a produzir um estilo de fala mais formal.

Nesse momento, segundo Labov (1972, 2008), instaura-se o paradoxo do observador, pois “o objetivo da pesquisa sociolinguística na comunidade de fala deve ser descobrir como as pessoas falam quando não estão sendo observadas, no entanto só podemos obter esses dados através da observação sistemática” (LABOV, 2008, p.244). Para amenizar o problema, o autor sugere que o pesquisador elabore um roteiro de perguntas e que, em momentos oportunos, induza o falante a relatar suas experiências pessoais (infância, cotidiano, situação de perigo, histórias de vida), haja vista que esse

tipo de abordagem propicia ao falante voltar-se mais para o fato narrado do que para o próprio discurso.

A Teoria da Variação legou à Linguistica a certeza de que a variação é inerente ao comportamento social de qualquer ser humano (adulto e criança), tanto sincronicamente como diacronicamente. Toda mudança passa por etapas de variação, embora nem toda variação produza mudança (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968). Na fase da aquisição da linguagem, não deve ser diferente, pois o input a que a criança é exposta também sofre variação. Os estudos iniciais sobre a aquisição da variação sociolinguística são discutidos na próxima seção.

In document FRAM FORUM 2017 (sider 102-105)

Outline

RELATERTE DOKUMENTER