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Durante nossa “viagem” pela história da sexualidade pudemos contemplar inúmeras mudanças sociais ao longo do tempo as quais certamente influenciaram e continuam influenciando nossa vida sexual.

Constatamos que ao longo dos séculos passados, fartos discursos sociais passaram a definir na nossa sexualidade o que era saudável ou não, assim como a transformação de vários conceitos sobre sexo. Dentre tantos, queremos destacar o conceito de erotismo e da pornografia, empregados ora como sinônimos ora distintos, com certo julgamento moral.

No Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss (2009) encontramos: Erótico: [...] que provoca amor, desejo sexual [...] (p.789)

Erotismo: [...] estado de excitação sexual [...] (p.789)

Pornográfico: [...] indecente, imoral, libertino [...] (p. 1526)

Pornografia: [...] característica do que fere o pudor [...] (p. 1526)

Se confrontarmos as definições do dicionário com os dias de hoje, parece necessária uma urgente atualização dos conceitos.

O livro Cinquenta Tons de Cinza, da escritora Erika Leonard James, publicado em 2011, pode ser descrito como um fenômeno de vendas na literatura erótica. A história retrata o envolvimento de uma estudante virgem de 21 anos que passa a ser escrava sexual, por sua própria vontade, num relacionamento sadomasoquista com um executivo jovem, atraente e rico que se rende aos encantos do amor e se apaixona pela jovem. Se, de um lado, ao longo da história nossa heroína se transforma em mulher, do outro, lado nosso herói é transformado em um macho dócil absolutamente apaixonado pela mocinha. Esse fenômeno de vendas está sendo tratado como “pornô das mamães”, ou seja, é permitido não só para “mocinhas de família” como também para “mamães direitas”.

Até poucos anos atrás os homens eram a maioria dos leitores de literatura erótica e pornográfica, hoje não mais; as mulheres independentemente de classe social e estado civil também viraram consumidoras assíduas deste tipo de leitura.

Como bem nos coloca Bauman (2004/2011a/2011b) vivemos num “mundo líquido” e como tal, estar em evidência faz parte de nossa identidade fluída: você é o que você consome, e o que você mostra, a intimidade é pública e faz parte do momento, consumir a intimidade dos outros.

A sociedade de consumo promove e incentiva não só o desejo, mas também prega que os desejos foram feitos para serem realizados e nos cobramos concretizá-los; esta é uma sociedade que não abre espaço para a frustração, a realização do desejo precisa ser imediata.

Marina & Penas (1999) ao estudarem a origem das palavras, perceberam que levando-se em conta o envolvimento emocional, um sentimento pode produzir outros sentimentos como é o caso da palavra “desejo”. Um desejo pode provocar outros desejos, assim como outros sentimentos como por ex.: o desejo de comprar algo leva ao desejo de consumir outra coisa, que pode me levar à frustração caso eu não a consiga.

Desejar significa “echar en falta un astro [...] es, ante todo, el sentimiento de

ausencia, aunque más tarde se impuso el significado de ‘buscar, obtener, anhelar’“

(MARINA & PENAS,1999, p. 66). Com a falta de algo surge o desejo, que leva a uma vontade incontrolável de realizá-lo, que provoca outros sentimentos que levam a um novo desejo, e assim cria-se um ciclo vicioso que nos leva ao mesmo lugar.

Neste sentido, o desejo é um grande aliado para a sociedade de consumo; desejar é querer possuir, ter, conquistar. O problema é que utilizamos esse desejo da cultura de consumo para nossos relacionamentos, pois não se pode ter alguém como seu, não se possui alguém, o outro também tem seus próprios e outros desejos.

O sociólogo Anthony Giddens, em seu livro “A transformação da Intimidade”, escreve que:

[...] Confiar em alguém significa renunciar às oportunidades de controlá-lo ou de forçar as suas atividades dentro de algum molde particular. Mas a autonomia concedida ao outro não será necessariamente utilizada de modo a preencher as necessidades do parceiro no relacionamento. As pessoas “crescem separadas”- esta é uma observação bastante comum (1993, p. 155) .

O pensamento de Giddens (1993) convida-nos a refletir também sobre a influência do amor romântico como citamos anteriormente, os discursos dominantes dessa herança social, atrelados aos da nossa sociedade de consumo nos trazem a ideia da procura por nossa “alma gêmea”, nosso “par perfeito”, alguém que foi feito para satisfazer aos nossos desejos e necessidades. Como bem coloca o autor a confiança num relacionamento implica em autonomia, em nosso olhar, além disso, incluímos a liberdade.

Recentemente, uma pesquisa de doutorado (ZORDAN, 2010) analisou o conteúdo de revistas femininas e masculinas, onde observando que nas femininas, as mulheres buscam sexo, prazer e um relacionamento duradouro a fim de constituir uma família. Ainda que numa das revistas o conteúdo seja direcionado para mulheres mais liberais e independentes do que na outra, ao final, o sonho continua sendo o mesmo: uma relação estável e duradoura. Nas revistas masculinas, os homens buscam sexo e prazer; estar envolvido com apenas uma mulher depõe contra sua masculinidade; eles querem seu lugar no mundo e relacionamento amoroso-sexual, porém, sem compromisso.

A cultura do desejo e do consumo criou outro tipo de serviço “a literatura de autoajuda” que descreve o passo a passo para conseguirmos o que desejamos. “O segredo da realização de nossos desejos depende de nossa mente” , o que se vende é: “você é capaz de conseguir realizar tudo, absolutamente tudo o que desejar” e “o que você deseja acontece” ! O homem é o centro do universo!

Como lidar com a frustração quando não conseguimos realizar exatamente como planejamos nossos desejos? Como lidar com a agressividade e violência geradas por essa frustração?

O que fazemos com a ética e nossos valores morais? Qual o espaço para a insatisfação? Como encarar a imagem projetada no espelho quando estamos frente a frente com as nossas limitações? Numa sociedade que cobra a beleza e a juventude como encarar o próprio envelhecimento?

Vivemos numa cultura do consumo e do desejo (ter, possuir), produzimos doenças para vender remédios, produzimos personagens que atuam numa “performance” que consomem erotismo, que vendem roupas e acessórios eróticos, dispomos de pílulas que nos deixam mais potentes sexualmente e transformam corpos em esculturas deixando-nos mais atraentes, assim como ajudam a concretizar inúmeras fantasias sexuais. São tempos das “mulheres frutas” (melancia, pêra) e do “homem viagra” .

Bidarra (2006) nos chama a atenção para o que denomina como “performance”. Segundo a autora, os meios de comunicação propõem modelos de comportamento erótico bastante normativos, nas cenas eróticas que simulam um orgasmo, é comum ouvirem-se “gritos e gemidos”, ou mesmo, produz-se um estereótipo de sedução; que será rigidamente reproduzido por nossos jovens e alguns adultos, ainda que nada sintam; imitados como modelo, garantem o nosso suposto poder de seduzir e isso nada tem de erótico.

Podemos também perceber essa “performance” em vários filmes pornográficos encontrados nas locadoras ou na internet. Ainda que atualmente existam filmes produzidos e dirigidos por e para mulheres, em cujo enredo se evidencie uma história de envolvimento entre os personagens, o sexo explícito ainda rouba a cena: belos corpos nus, homens superpotentes e mulheres sensuais.

Os corpos fragmentados nas cenas focam nas nádegas, nos seios, na vagina, no pênis. A atuação da mulher apresenta uma fêmea sedutora e que se despe lentamente, enlouquecendo o indefeso espectador, com sua dança sensual e strip-

tease.

A performance do homem apresenta um macho, privilegiado pela natureza com um enorme falo ereto, capaz de inundar o corpo da mulher com sua ejaculação, levando à loucura sua parceira, arrebatada pela excitação de vê-lo, assim como desperta a inveja ou mesmo a imagem idealizada do atento espectador.

Díaz-Benítez (2010) pesquisou sobre o universo pornográfico e fez interessante observação, ao afirmar que o filme pornográfico prioriza o ato sexual em si e não necessariamente explora a imaginação. Outro aspecto curioso de seu estudo refere-se aos casos nos quais ocorre a inesperada ejaculação feminina nas filmagens: se para os homens ela é sinônimo de virilidade e potência, para as mulheres ela é motivo de constrangimento, uma vez que não conhecem o próprio corpo (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010).

Segundo Paz (1995) o erotismo é uma “metáfora da sexualidade”, a “poética do corpo” , já a poesia é a “erotização da linguagem”. Poesia e erotismo nascem dos sentidos e inventam configurações imaginárias como os poemas e as cerimônias.

Nas palavras do autor:

[...] Antes de mais, o erotismo é exclusivamente humano: é sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e a vontade dos homens. A primeira nota que diferencia o erotismo da sexualidade é a infinita variedade de formas em que ele se manifesta, em todas as épocas e em todas as terras. O erotismo é invenção, variação incessante; o sexo é sempre o mesmo. O protagonista do acto erótico é o sexo ou, mais exactamente, os sexos. O plural é de rigor porque, inclusive nos prazeres chamados solitários, o desejo sexual inventa sempre um par imaginário... ou muitos. Em todo o encontro erótico há uma personagem invisível e sempre activa: a imaginação, o desejo. No acto erótico intervêm sempre dois ou mais, nunca um só. Aqui aparece a primeira diferença entre a sexualidade animal e o erotismo humano: no segundo, um ou vários dos participantes pode ser um ente imaginário. Somente os homens e as mulheres copulam com íncubos e súcubos (PAZ,1995, p. 13).

Paz (1995) destaca o aspecto “subversivo” do sexo, na medida em que ignora as classes e as hierarquias; surge na literatura de todas as épocas e culturas, e transgride os mandamentos religiosos quando se converte numa necessidade individual.

Sexo diferencia-se de erotismo na medida em que no primeiro, o objetivo maior pode estar ligado à reprodução, à perpetuação da espécie, ou a outros interesses. No erotismo, por sua vez, o objetivo maior é o prazer. Este prazer é fruto do uso da nossa imaginação, faz uso da fantasia, nos coloca diante do nosso desejo, nos liga a alguém (um ou mais) e cria rituais a fim de se atingir o orgasmo.

O erotismo é movido pela descoberta, pela conquista, pelo desejo de possuir, mas para buscar o prazer precisamos da liberdade: só quem é livre, ousa aventurar- se. Aventura esta que nos coloca diante de contrastes: nossa luz e nossa sombra, nosso egoísmo e nossa generosidade, o vazio do que nos falta e a sensação de completude, exige de nós muita intimidade com nós mesmos antes de sermos com o outro.

A intimidade erótica não tem nada a ver com quantidade de relações sexuais ou com performance, como bem nos ensinou Bidarra (2006).

O erotismo é exclusivamente algo do ser humano, já o instinto sexual é comum a todos os animais (PAZ,1995; BIDARRA, 2006) .

Com o apoio das palavras de Macedo (2005, p. 165) encontramos conforto: [...] Nossa maneira de perceber o mundo, nossa compreensão dos problemas e mesmo nossos desejos, opiniões, nossas certezas e dúvidas mudam. Daí que o pensar em identidade como essência é pensar em imutabilidade, a qual está longe de acontecer, não só pela mudança contínua do contexto do universo que habitamos, como pela plasticidade e capacidade de adaptação, aprendizagem e criatividade do ser humano.

Se o entendimento sobre o mundo a nossa volta está em constante transformação, se as necessidades mudam ao longo do tempo tanto quanto nossas certezas e dúvidas e se a identidade é mutável, acreditamos que a realidade é construída pelas relações e na linguagem.2 E que as concepções sobre a sexualidade são construções sociais e como somos seres relacionais,3 o que se poderia definir e distinguir como erótico ou pornográfico dependerá das comunidades linguísticas de quem se propõe a tal tarefa. Vale ressaltar neste                                                                                                                

2 Esse conceito está desenvolvido no Cap. 4 – Perspectivas Teóricas.

sentido a dificuldade em atribuir-se um sentido universal para o erotismo que represente o do homem e outro para o da mulher.

Segundo Leloup (1993) a palavra pecado vem do grego “hamartia” e quer dizer “errar o alvo”. Assim o pecado, para esse autor, pode ser compreendido como uma desorientação do desejo, em outras palavras: pecado é o desvio que evidencia a distância entre o que se deseja e aquilo que se obtém.

Precisamos refletir acerca da fidelidade ao nosso desejo, no cuidado de “não pecarmos” no sentido de errar nossa mira, na responsabilidade por nossas escolhas, não do desejo-capricho, não do desejo de fazer do outro nosso objeto, não o desejo de submeter o outro; mas sim, admitindo a necessidade do outro em nossa vida. Não porque precisamos dele para sobreviver ou atender as nossas necessidades, mas porque precisamos dessas diferenças (entre mim e o outro), e isso é também admitir a importância do relacionamento, dos vínculos.

Estabelecer vínculos, para algumas pessoas, pode ser mais fácil do que para outras; alguns se entregam, em seus relacionamentos, mais que os outros; mas para se entregar é preciso confiar em si mesmo, no outro e na vida, e nessa entrega não há garantias de nada a não ser a de vivermos por um tempo.

Mas para não pecarmos no sentido que Leloup nos ensina, precisamos saber o que realmente desejamos. Será que sabemos?