O construcionismo social tem como premissa básica considerar que a realidade na qual vivemos e que podemos conhecer, faz parte de uma construção social, inclusive a própria noção de indivíduo, ou seja, “nada é real, a menos que as pessoas concordem que assim o seja”. (GERGEN, 2010, p. 20).
Neste sentido, o “significado” não está dentro da mente de alguém, tampouco se trata de um pensamento privado (GERGEN, 2010), mas é articulado na relação com o outro, construindo-se na linguagem. Assim, para compreendermos os significados do erotismo, temos que levar em conta que nossas palavras, nossas atitudes, nossos sentimentos e pensamentos recebem influência de outras épocas, assim como estão inseridos numa determinada tradição cultural, ou seja, somos herdeiros e criadores de novas construções sociais a respeito de sexualidade e erotismo.
Como herdeiros e criadores de novas construções sociais, ao estudarmos a história da nossa sexualidade, precisaremos estar atentos aos registros históricos que nos permitem observar o olhar daquele que relata, as relações de poder e de saber que influenciaram determinada época, suas consequências no cotidiano, os discursos que podem ter sustentado algumas decisões, a nossa herança e a influência em nosso pensar, sentir e agir nos dias de hoje no que se refere à sexualidade e ao erotismo.
O Construcionismo Social contribui nesse estudo sobre a sexualidade da seguinte maneira:
1. reconhece a importância da linguagem e, consequentemente, dos discursos sociais e das práticas discursivas sobre sexo;
2. compreende a linguagem em uso como ação e reconhece o discurso social como o “uso institucionalizado da linguagem” (SPINK, 2004, p. 42) e, como tal, permanece no tempo e só pode ser percebido numa análise de tempo longo que evidencia seu relativismo histórico e cultural. Vale a pena esclarecer que Spink (2004, p. 51) divide o contexto discursivo em três tempos: o tempo longo que destaca os conteúdos culturais que se definem ao longo da história da civilização, razão esta que justifica nossa necessidade de compreendermos a história da sexualidade no Ocidente; o tempo vivido que define nossas linguagens sociais nos processos de socialização e, no caso de nossa pesquisa, justifica a importância de contextualizarmos a maneira como, nos dias atuais, expressamos nossa sexualidade e vivenciamos o erotismo. E para finalizar, o tempo curto que nos
mostra os processos dialógicos que serão evidenciados nesta pesquisa no capítulo que abordamos o Método.
3. as práticas discursivas sobre nossa sexualidade, por sua vez, podem ser definidas como oportunidades de ressignificação, de rupturas e de produção de sentido onde as pessoas, por ouvirem e falarem umas com as outras, se posicionam diante de suas relações sociais (SPINK, 2004, p. 46).
4. o construcionismo social, uma vez que questiona toda e qualquer noção essencialista, permite-nos compreender a sexualidade como socialmente construída. Portanto, o Construcionismo Social fundamenta a posição aqui adotada, a de não termos definições apriorísticas sobre o que pode ser compreendido como erotismo e de como devemos viver nossa sexualidade.
5. permitem-se fazer distinções entre comportamento sexual e identidade sexual e, ao questionar as noções universais de papéis de gênero, subverte a suposta ordem sexo, gênero e desejo.
6. pauta-se no estudo dos movimentos sociais, das questões de poder, entre outras, o que de certa maneira favoreceu a polifonia, permitindo que as minorias tivessem voz (movimento feminista, liberação sexual, movimento gay, movimento negro).
7. contribui para a desconstrução ou desfamiliarização das noções normativas de conduta sexual. Compreende que nossas certezas fazem parte de uma tradição representada por um discurso social que traduz a voz das instituições e nos deixa o constante exercício de questionar as definições que a nossa sociedade dá para as categorias sexuais, culturalmente determinadas.
8. compreende a natureza intersubjetiva dos significados atribuídos à sexualidade e ao erotismo que são compartilhados e contextualizados em diferentes culturas, num dado momento histórico, inserido em determinado movimento social.
9. Alerta para o risco de exclusão e reducionismo, ao olharmos para a sexualidade com lentes binárias (certo ou errado, saudável ou doente).
É entre essas epistemologias: o Pensamento Sistêmico Novo Paradigmático (VASCONCELOS, 2003) e o Construcionismo Social,4 que queremos transitar para compreendermos o discurso erótico que nos influencia em nossas concepções acerca de nossa sexualidade, tendo em vista as ponderações de Grandesso (2000, p. 96) sobre: a “base paradigmática comum – pós-moderna”; e “refletirem variações em torno da noção de que o significado (grifo meu) é uma construção ativa do indivíduo na linguagem” (2000, p. 58); podemos considerar que ambas questionam a verdade absoluta e as certezas com que conhecemos o mundo e a nós mesmos; recuperam a capacidade de perceber como podemos construir a vida ao nosso redor, concordam que o observador cria a noção de realidade; desafiam a visão tradicional da mente individual e independente do mundo, questionam a autoridade da ciência clássica, e nos impulsionam à reflexão a partir de contextos sociais e não individuais.
4 Embora muitos estudiosos do Construcionismo Social compreendam-o como um movimento, preferi considerá-lo como uma Epistemologia, dado que estou interessada em como conhecemos o que conhecemos (sexualidade e o erotismo no caso deste estudo).
5 MÉTODO
A partir de nossa prática como terapeuta familiar e de casal, podemos considerar que falar de “intimidade sexual” não é tão natural quanto o conceito popular da liberalidade dos brasileiros; basta observarmos que quando o assunto é sexo, na maioria das vezes, as informações obtidas numa sessão individual são bem diferentes quando a mesma pessoa está diante de seu parceiro(a).
De certa maneira, acreditamos que numa pesquisa que envolve sobre a intimidade sexual das pessoas, poderíamos correr o risco da dúvida: as informações levantadas em entrevistas poderiam refletir a espontaneidade dos entrevistados? Existiria outro instrumento de pesquisa que pudéssemos utilizar para falar de sexualidade? Foi então que pensamos na magia do cinema como recurso metodológico.
Existem muitas histórias de vida, refletidas em filmes a que assistimos no cinema ou na TV; partes de nossa vida podem ser identificadas nesses dramas, nas comédias e nos filmes de ficção; pensamentos de uma época são representados nas roupas dos personagens, no enredo das histórias apresentadas, na interação entre os personagens: sem dúvida existem filmes que marcaram nossas vidas. Como Oscar Wilde poderia nos questionar: “A arte imita a vida ou a vida imita a arte?”
Emprestando as palavras de Passarelli (1998, p. 10): “[...] o sujeito da enunciação cinematográfica é construído no momento em que alguém assiste a um dado filme, e é somente na relação entre espectador e objeto fílmico que um sentido sobre o filme pode ser produzido”.
Este autor nos ajuda na compreensão de que: assim como o discurso e a linguagem são construções sociais, o filme pode ser “entendido como um discurso e sua interpretação ou análise deve levar em consideração todos os atores que participam de seu processo de criação/construção” (PASSARELLI, in SPINK, 1998 p. 274).
Para esta dissertação não estamos nos detendo numa análise crítica do cinema, nos jogos de câmera, nem tampouco no estilo do diretor do filme; estamos dialogando com todas as vozes com que temos compartilhado esta construção conjunta, como já citamos no início deste capítulo, e incluímos agora a presença do objeto fílmico.
Podemos pensar que a busca do conhecimento sempre esteve atrelada ao encontro com a verdade na ciência moderna e considerávamos aquele que a “descobriu”, um expert no assunto.
Ao assumirmos uma postura pós-moderna, essa necessidade dá lugar à compreensão do conhecimento como uma construção conjunta, em nosso caso, entre: pesquisador, orientador, autores convidados no diálogo da pesquisa, tema de investigação, nossa experiência clínica, nossa experiência de vida, o contexto histórico e cultural em que estamos inseridos, a instituição acadêmica à qual pertencemos (PUC-SP), os participantes da pesquisa e, sem dúvida, você, leitor.
Retomando nosso objetivo mais amplo que é “compreender as articulações
entre as práticas e os discursos acerca da sexualidade considerando as transformações ocorridas nas últimas décadas”; se fez presente outra necessidade e
outro objetivo parcial, à medida em que nossa pesquisa progredia tais como: quais os principais discursos sobre o erotismo e a sexualidade presentes na história do cinema e como estes discursos são, comparativamente, expressos no filme Lolita em suas duas versões, em épocas diferentes (1962 e 1997).
Nossa escolha pelo filme Lolita justifica-se por: inicialmente, elaboramos uma relação de filmes que retratassem em seu enredo questões sobre a sexualidade e alguns títulos nos vieram à lembrança: Último tango em Paris, Lolita, Vick Cristina Barcelona, Pecados Íntimos, A dama da lotação entre outros. Esta lista foi criada a partir da memória pessoal e por conversas trocadas com Mariana Pirajá, uma jovem cineasta.
Uma das importantes colaborações da banca de qualificação para este trabalho foi a sugestão da análise de um único filme em duas versões: Lolita 1962 e 1997 nas quais poderíamos analisar em dois momentos sociais distintos, como a mesma história foi retratada e quais as mudanças mais significativas na sexualidade.
O filme Lolita traz em seu enredo um conteúdo que evidencia os discursos sobre a sexualidade da época em que foi filmado, oferecendo rico material de análise das transformações sofridas de uma versão à outra: vislumbramos 35 anos de história e de mudanças sociais significativas tais como: o advento da pílula anticoncepcional que possibilitou a desvinculação entre sexualidade e maternidade; a revolução sexual e o feminismo dos anos 60; a legalização do divórcio em 1977, no Brasil, que favoreceu o surgimento de novos arranjos familiares, a valorização da satisfação na relação conjugal; as novas formas de relacionamento amoroso e sexual.
Nestes termos, para melhor compor com esta pesquisa teórica o método adotado foi o qualitativo na medida em que favorece a inclusão de todas as vozes com que dialogamos ao longo da produção desta dissertação e ao mesmo tempo que evidencia o contexto das inter-relações, considera seus significados e intenções (GUBA e LINCOLN, 1994) quando o tema é a sexualidade.
Levando-se em conta todas essas reflexões, outra questão se fez presente: quem seriam os participantes da pesquisa e com que instrumento trabalharíamos?
Na análise de filmes, primeiramente nos limitamos a algumas cenas que retrataram nosso objeto de estudo, ato que se denomina “segmentação”, ou seja, a divisão do filme em sequências que nos permitiram a identificação de blocos narrativos (PASSARELLI, in SPINK, 1998, p. 279) com ênfase aos discursos sobre sexo.
Isso feito, introduzimos a proposta da “poética social” na medida em que considera a inclusão do pesquisador na produção de sentidos, nas palavras de Guanaes & Japur (2008, p. 119):
[...] Na prática da poética social , o pesquisador é considerado parte inseparável do processo de produção de sentidos, sendo seu objetivo a criação de estratégias retóricas que permitam a abertura a novas possibilidades de significação dos eventos investigados. A pesquisa é caracterizada como um processo vivo de construção e reconstrução de sentidos de mundo, isto é, constitui-se uma prática dialógica [...].
Podemos dizer que a poética social é uma prática de pesquisa que se caracteriza pela relação direta do pesquisador com seu objeto de estudo, explorando cuidadosamente o que se denomina “momentos marcantes”, por capturar a atenção e despertar seu interesse. Ainda com Guanaes & Japur:
[...] Por meio da poética social, busca-se enfatizar as ocorrências singulares, os momentos marcantes, as relações nunca construídas nas interações ou diálogos anteriores com a questão estudada. O pesquisador [...] visa construir relações ou conexões criativas entre os eventos estudados e outros aspectos da vida social, ampliando as possibilidades de descrição dos mesmos. [...] ... Na prática da poética social, a linguagem do pesquisador não é afirmativa ou explicativa, mas alusiva, parcial e exploratória (grifo meu). [...] Estas não buscam esgotar as possibilidades de significação dos eventos estudados, mas sim criar um senso de experiência compartilhada [...] Parte-se do princípio de que um texto científico não é, em si mesmo, significativo. É no diálogo com outras vozes que este ganha sentido, podendo então ser construído como uma opção discursiva útil à criação de novos modos de ação no mundo (2008 p. 119).
Neste sentido, o participante desta pesquisa pode ser considerado como o próprio pesquisador.