As entrevistas foram conduzidas com o objetivo de identificar quais elementos seriam enfatizados no discurso dos participantes. A intenção era verificar se esses elementos teriam relação com aqueles propostos por Sandoval e Airhihenbuwa em seus modelos teóricos. Dessa forma, o roteiro da entrevista tomou como pressuposto esses modelos, mas a condução da entrevista permitiu que os participantes registrassem, livremente, seus comentários sobre o assunto.
Nos relatos dos entrevistados, não foi observada diferença de posicionamento em função da classe social econômica que o estabelecimento alegou atender. Por
outro lado, uma diferença significativa foi constatada quando comparados os discursos por ramo de serviço. Estabelecimentos do mesmo segmento parecem mais propícios a se posicionarem de maneira semelhante. Proprietários e gerentes dos bares e danceterias mostraram apoio à política de restrição do tabagismo em ambientes fechados. Entretanto, afirmaram haver uma naturalização desses segmentos, como locais em que é permitido fumar apesar da lei estabelecer o contrário.
Em termos de facilitadores, os estabelecimentos dispõem de cinzeiro, ponto de venda de cigarro e mesas reservadas para fumantes, o que indica a liberação para fumar. Essas mesas, entretanto, compartilham o mesmo sistema de ventilação. Em alguns casos, em especial nos bares, elas estão separadas da ala de não-fumantes apenas geograficamente. Há, entre os entrevistados desses segmentos, o sentimento de que, em local de lazer, como bar e danceteria, o tabagismo deve ser tolerado. Eles acrescentam ainda que, em locais onde se consome bebida alcoólica, é natural que os tabagistas também fumem.
O mesmo raciocínio que associa o lazer e o consumo casado43 com bebida alcoólica é aplicado também para justificar a tolerância do tabagismo nos segmentos de cafés e de restaurantes que funcionam à noite. Sobre este último, parte-se da idéia de que, no almoço, as pessoas estão em intervalo do trabalho e seguem uma rotina nesse sentido. À noite, quando as pessoas saem para jantar fora, elas estão em situação de lazer e, por isso, os restaurantes acabam sendo mais tolerantes com o tabagismo.
Contudo, entre os estabelecimentos deste estudo que trabalham com refeições como carro-chefe dos serviços (os restaurantes, lanchonetes e o café), observou-se que a tendência é ser menos flexível com o tabagismo. O proprietário da lanchonete, em especial, afirmou que, embora tenham ponto de venda de cigarro, em nenhuma das suas lojas é permitido fumar. Quando algum cliente acende o cigarro dentro do ambiente, a abordagem do funcionário é imediata no sentido de coibir esse comportamento.
43 Consumo casado significa a associação de dois ou mais produtos. No caso do tabagismo, é popularmente disseminada, por exemplo, a idéia de que determinadas bebidas (alcoólica e café) “pedem um cigarro”.
Nos restaurantes, constatou-se que a preferência é não permitir fumar no local, sendo que um deles restringe o hábito terminantemente. A gerente desse estabelecimento alegou que o cigarro é considerado uma importante fonte de contaminação de alimentos, sendo proibido, inclusive, que seus funcionários fumem na área interna. Quando saem do local para fumar na rua, ao voltar, eles têm que seguir o procedimento padrão de desinfecção das mãos.
Em contrapartida, o outro restaurante tem o uso liberado, embora informalmente procure acomodar os clientes em áreas diferenciadas. Não há controle rigoroso sobre fumar dentro do restaurante. Já o gerente do café disse que o estabelecimento se posiciona no meio termo. Ou seja, tem ponto tem venda, tem cinzeiro e ala de fumantes separada geograficamente, mas o proprietário está investindo, atualmente, num novo sistema de ventilação para contornar o problema da fumaça.
A questão da fumaça do cigarro foi referida por todos os entrevistados dessa etapa do estudo. Entretanto, com exceção de um shopping center, a associação que fizeram foi mais no sentido do desconforto que causa, em função de ter cabelo e roupas impregnados com o cheiro do cigarro, e também porque provoca ardor nos olhos e irritação na garganta. Nenhum deles mencionou que a fumaça do tabaco é um poluente que causa graves problemas de saúde. Nenhum deles colocou o tabagismo passivo como fator de risco.
A gerente do shopping em questão foi a única pessoa que abordou os aspectos nocivos da PTA. Ela afirmou que, quando decidiram implantar a política do ambiente totalmente livre do tabaco no estabelecimento, eles buscaram parceria com a Vigilância Sanitária. Com isso, receberam material educativo com informações diversificadas sobre o problema do tabagismo. O gerente do outro
shopping center informou que a administração entende que a lei deva ser cumprida
e sinaliza a proibição de fumar nos locais onde as pessoas circulam, mas essa medida não é suficiente para inibir os fumantes.
De forma geral, a tônica dos entrevistados girou em torno de três pontos:
1. a preocupação com os possíveis prejuízos financeiros para o estabelecimento advindos da proibição de fumar em seus ambientes;
2. o descrédito em relação à eficácia da lei e das ações do governo; 3. o comportamento dos clientes em relação à questão do tabagismo.
Com relação ao primeiro ponto, observou-se que existe, principalmente, uma preocupação com a diminuição da clientela. Os entrevistados dos estabelecimentos que disseram que ainda não adotaram a política de restrição do fumo no local acreditam que essa medida pode levar a uma perda significativa do número de freqüentadores. Para eles, os estabelecimentos não teriam estrutura para suportar esse impacto em suas contas.
Eles apresentam esse argumento como justificativa e também associam sua decisão à concorrência do mercado. Como afirmaram alguns entrevistados, muitos estabelecimentos do mesmo segmento permitem fumar em seus ambientes. Logo, se eles resolvessem restringir o fumo em seus locais, certamente perderiam clientes para os concorrentes. Nesse sentido, os entrevistados afirmaram que uma ação de controle só poderia ser eficiente se aplicada em todos os estabelecimentos do mesmo segmento.
Além do receio de perder em clientela, os estabelecimentos que têm ponto de venda de cigarro levantaram uma questão importante: o subsídio recebido da indústria tabaqueira é uma fonte de recursos significativa. No caso de uma das danceterias, em especial, parte da sua programação cultural (apresentação de bandas) é apoiada por um fabricante de cigarro e, sem esse incentivo, o estabelecimento não conseguiria promover alguns shows. Para alguns entrevistados, proibir os clientes de fumar em seus estabelecimentos também afetaria a relação com a indústria tabaqueira e, conseqüentemente, traria um impacto financeiro negativo para o negócio.
Sobre o segundo ponto enfatizado pelos entrevistados, constatou-se um sentimento de descrédito em relação ao controle do tabagismo em ambientes fechados. Esse sentimento se pauta pela falta de clareza em relação à Lei Federal n.º 9.294/96 e pela falta de fiscalização, por parte do governo, quanto ao seu cumprimento por parte dos estabelecimentos e cidadãos. Para os entrevistados,
esses dois fatores dificultam a ação do estabelecimento, pois também colocam em questão a relação prestador de serviço e clientes.
No primeiro caso, eles acreditam que a lei não é devidamente regulamentada, pois ela não esclarece quais são as penalidades decorrentes da sua infração. Em geral, os estabelecimentos não sabem que medidas podem tomar quando alguém descumpre a lei. Conforme justificaram alguns entrevistados, a idéia, culturalmente disseminada, de que “o cliente sempre tem razão” acaba imperando, o que leva os estabelecimentos a recuarem diante dos clientes.
Sem o entendimento sobre até que ponto o estabelecimento tem autonomia para coibir esse comportamento, a expectativa dos entrevistados é de que o próprio governo passasse a fiscalizar mais a implantação da lei. Como alegaram alguns deles, se houvesse uma fiscalização rigorosa, eles poderiam atribuir o cumprimento da lei à pressão do governo e não “queimariam sua própria imagem” perante os clientes. Para eles, a lei deveria estabelecer multas e penalidades para aqueles que a infringem. Mas, ainda assim, os estabelecimentos não teriam autonomia para aplicá- las, necessitando recorrer à autoridade competente. Especialmente os entrevistados dos estabelecimentos que não adotaram a lei/norma interna disseram que não cabe à administração do local impor o cumprimento da lei aos seus clientes.
E, nesse sentido, o ciclo volta a se fechar com o sentimento de que o Estado não teria condições para fiscalizar todos os estabelecimentos da cidade, mas que cabe aos órgãos competentes fazer alguma coisa. Espera-se que a política de restrição seja legitimada na prática, pela própria sociedade, para que, então, os estabelecimentos possam reforçá-la. No discurso dos entrevistados, principalmente daqueles que ainda não implantaram rigorosamente a lei em suas empresas, não é o estabelecimento que permite fumar, e sim o fumante que não obedece à lei. Assim, não há nada que o estabelecimento possa fazer para mudar essa realidade.
A respeito do comportamento dos clientes, terceiro ponto mais enfatizado, os entrevistados acreditam haver certo protecionismo por parte dos não-fumantes em relação aos fumantes. Eles atribuem isso ao fato de que, em uma roda de amigos, dificilmente aqueles que não fumam reclamam dos colegas que estão fumando. Além disso, na concepção deles, parece existir o entendimento mútuo de que
estabelecimentos do ramo de entretenimento são voltados ao lazer e fumar faz parte dessa cultura.
Com exceção do shopping center que adotou a política do ambiente totalmente livre do tabaco, nenhum outro estabelecimento recebeu reclamações significativas dos clientes não-fumantes. Para os entrevistados, há uma cumplicidade que favorece o comportamento do fumante, pois o tabagismo é visto como um hábito difícil de romper.
O argumento mais comum entre os pesquisados é o de que a relação entre prestadores de serviços e clientes é baseada na satisfação do cliente. Como os não- fumantes pouco reclamam da fumaça do cigarro no ambiente, entende-se que ambos os lados estejam satisfeitos.
Isto é, o estabelecimento procura atender às expectativas da maioria dos seus clientes como forma de garantir a satisfação pelos seus serviços. Não havendo pressão dos clientes não-fumantes, a tendência é permitir que os clientes tabagistas possam continuar fumando no local.
4.3. PERFIL DOS PESQUISADOS E DOS ESTABELECIMENTOS NO ESTUDO