3 PROPORTIONALITY
3.2 Diffusion
A grande particularidade todo este projeto hegeliano é a sua ideia de conclusão ou fim da Filosofia pela exposição e realização do Sistema – contudo, a sua conclusão não pode ser entendida fora dos processos já delineados, pelo que esta não corresponde a uma anedótica suspensão da Filosofia. O Sistema não foi criado para parar e impedir o desenvolvimento, a mobilidade, o progresso; o seu fim ou realização devida do Espírito é, algo paradoxalmente, mas coerente com o resto da exposição, o elemento próprio do Espírito. Ou seja: o Sistema não esgota a produção futura – esgota a fundamentação e expressão futura desta, pois esgotou ou processo do real.
Ora, uma dificuldade parece surgir ao apresentar esta envolvência do futuro pelo Sistema: em que sentido pode a Filosofia estar realizada e concluída no seu ser devido se prossegue, se resume, se continua? Como pode o princípio ter-se já realizado e concluído quando o dar-se e manifestar-se do real continua? Bem, esta dificuldade é de difícil resolução – e em termos da construção lógico-ontológica de Hegel, é possível que
seja uma tensão insuperável da sua exposição69. Contudo, a minha caracterização aqui
está voltada para o que o Sistema gerou enquanto um tipo distinto de construção, de informação regrada. Por isso, tal dificuldade, nos termos desta análise, pode ser precisada segundo o conceito de elemento final e a construtividade que lhe é inerente como a solução de fundamento absoluto, o que caracteriza esse final de maneira distinta enquanto produto gerado nos seus termos de se ter gerado.
O elemento concluído esgotou todo o procedimento possível do Espírito e concretizou-o nesse novo elemento – o que significa que a vida espiritual deste se dá agora neste novo contexto. O trabalho de Hegel foi o de realizar e anunciar uma nova era – esse término
69 Vejam-se as tensões entre o último Schelling e Hegel acerca da capacidade de resolução e conclusão do
84 não corresponde a um cessar, mas à conquista do Espírito que se sabe e realiza-se enquanto tal, o que comporta uma Idade espiritual distinta, em que a execução do
Sistema precisou os seus novos termos possíveis e necessários70. Logo, o cessar aqui
designado é o do Espírito enquanto buscando o seu elemento, a sua concretização – o seu novo elemento é uma reconstituição e perspetivação nova, mutada, que supostamente construiu as bases dessa integração e compreensão do que ocorre na descoberta total do que genuinamente se é.
E neste sentido descoberto ao realizarmos propriamente a Filosofia como ciência da verdade, todos os seus preceitos e procedimentos possíveis foram justificados na sua necessidade e recolocados na sua aceção plena neste novo elemento – o que implica também que, porque tal fundamentação constringe na sua exposição a construção que somos capazes de fazer em filosofia, todo e qualquer procedimento filosófico que instanciemos tem já, responsivamente, uma implicação de aderência e resposta e justificação pelo Sistema. Ao realizar o novo elemento de encarnar próprio do Espírito, todos os seus recursos são reinstanciação do que já fora integrado no decurso do desenvolvimento; pelo que é envolvido igualmente pelo Sistema em como se dá e segundo que construções, que princípios, que capacidade e necessidade de determinação e, em caso de ser uma tese filosófica, de construção.
O Sistema foi realizado para, no momento da sua realização, ter criado um plano geral de explicação e replicação independente do que surge para lá e de fora dele como envolvendo-o e sendo por ele, consequentemente, envolvido no elemento geral que criou e demonstrou. Enquanto fundamentação, tornou-se algo para lá de uma mera tese, mas algo capaz de modificação e adaptação pelos princípios próprios que assumiu. A sua vitória final, a sua derradeira glória, enquanto projeto, seria ele próprio, porque se realizou enquanto algo, tornar-se também ele independente e capaz de modificação. O projeto hegeliano realizar-se-ia, finalmente, como a derradeira integração de Mundo, Sujeito e Vida, simbolizada no seu Sistema e dada nela como concretização, de gerar algo unitariamente vivo nesse elemento.
Tese Central #6 – Envolvência
70 A Fenomenologia, portanto, preparou este elemento, e a sua sucessão de figuras para a consciência
pode agora ser reposta nos âmbitos de abordagem própria de outras matérias e precisá-las para o Sistema: a História, a Religião, a Arte, etc…
85 Se a envolvência é, consoante a definição anteriormente dada, a reunião intrínseca e imanente de uma determinação/conceito por um outro em que se implicam mutuamente de dada maneira, quando aplicada ao plano de envolvência do produzido e integrado enquanto tal face a outros produzidos e integrados enquanto tal, então ganha um novo cariz face à sua execução. Neste novo caso, o espaço lógico-ontológico estabelecido face à interação de algo não é determinado através dessa interação, pois a integração e conservação são o que constitui propriamente o seu plano-envolvência de interação – e, nesse sentido, a envolvência corresponde à dinamização desse integrado segundo os padrões e atividade próprios, mas igualmente face ao preservado e integrado anteriormente – ou a sua organização das várias partes que o determinaram como relacionalmente envolvidas. Ou seja: a envolvência aqui em causa corresponde à readequação da atividade de algo do produzido pelo processo face a outro algo produzido pelo processo, em que ambos mantêm a sua força e atividade, mas tais são tomadas como parte do próprio plano-envolvência do processo face ao que ainda não reassumiu e positou como seu e efetivado por si. Neste sentido, quando implicamos que o processo ou o seu produzido integrado envolve algo, o que é o Processo estabelecendo a sua dominância ontológica-lógica no seu estabelecer de um campo de imanência face ao real, e esse estabelecer interseta-se e co-relaciona-se num momento total do desenvolvimento. Por isso, a envolvência permite a especificidade de âmbitos (o movimento na consciência fenomenal, o movimento na história,…) complementar-se num grau geral da efetivação do Espírito.
Tese Central #7 – Fundamentação como o estado gerado pelo processo
O fundamentar equivale não apenas à explicação adequada da razão própria de algo ser dado e estar através do processo, mas implica também o seu ser dado para e no processo enquanto por ele produzido – logo, esta efetivação é relativa à coisa enquanto tal a ser desenvolvida, sim, mas também à efetivação e a sua fundamentação como elevação da coisa para o processo enquanto tal. O que isto significa: a realização de algo pelo processo é relativa também ao processo. Este sentido próprio deriva da produtividade do espírito recriar aquilo com que lida no seu sentido e tipo de determinação, e renova-os por relação ao seu próprio processo e efetivação.
86 Na unificação das duas teses centrais anteriores, conseguimos perceber como o próprio processo tem que ser tomado em conta, pois a sua conclusão é-lhe igualmente relativa. Neste sentido, a sua processualidade é ela mesma um dar-se face ao que se lhe decorre na efetivação, tanto como produto, como algo sintetizado enquanto produto para o próprio processo. Devido a esta dimensão, não é que o Processo seja negado na sua fundamentação e determinação como observância genuína, mas face à sua realização plena enquanto fim, ou seja, o Sistema, que a sua atividade é reequacionada. Dado que não está a ser dado como processo de efetivação do espírito, mas reassunção de si face ao alcance do seu fim próprio, o Sistema tem que ser precisado como algo vivo, ou com a pretensão supra-orgânica de ter esgotado a Totalidade. É esta dimensão do Sistema vivo que falta detalhar, ou melhor, a sua independência relativa ao seu esgotamento próprio da figuração e configuração de tudo quanto se possa dar.
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Tópico #7 - O Sistema Vivo e Independente ou a Realidade da Construção filosófica / Transição para a heurística geral