Tendo em vista a inseparabilidade entre o político, o técnico e o administrativo (Campos, 2003), os frequentadores da Roda de Saberes foram convidados pelo Apoiador a fazerem parte de um Grupo de Trabalho (GT), ou uma comissão de Trabalhadores que se responsabilizariam pelo dispositivo e facilitariam a interlocução entre as equipes e o dispositivo no levantamento de demandas e no desencadeamento de ações locais de Educação Permanente em Roda. Considerando os dez recursos da Paideia de Campos (2003), os aspectos citados relacionam-se ao primeiro, sexto e sétimo recurso da metodologia.
Esse grupo configurou-se com diversos Trabalhadores ao longo de 2014, incluindo Acompanhantes e Apoiadores, além de técnicos, que decidiram se encontrar em distintos lugares da cidade como uma forma de ocupar e transitar por ela, mas também de agenciar, algo que os membros relacionavam com a Roda de Saberes por esta proporcionar encontros de diversos elementos, como de distintos modos de viver, que possibilitavam micro transformações para a produção de sentido (Deleuze; Guattari, 1995).
O Agenciamento diz respeito aos processos pelos quais formas de subjetividade são produzidas, a confluência de fatores que produzem sentido, de forma indissociável a práticas concretas e relações de poder. O Agenciamento faz passar uma multiplicidade na outra que põe em jogo, em nós e fora de nós, as populações, as diferenças, os Territórios, os devires, os
afetos, os acontecimentos e relações constituídas no e pelo registro social (Deleuze; Guattari, 1976).
Já nos primeiros encontros os membros pactuaram o funcionamento do GT. Era um dispositivo aberto, com participação de pessoas diferentes, de diferentes equipes, onde seriam aceitos novos membros que desejassem participar e sua participação deveria ser espontânea e dentro das possibilidades de cada um, como a própria Roda de Saberes.
A Metodologia Paideia propõe o estabelecimento de um contrato entre os participantes do coletivo que se queira trabalhar, uma vinculação e um acordo entre os participantes, sejam eles, profissionais, gestores, organizações e/ou usuários (Campos, 2003).
O GT pactuou uma série de acordos de funcionamento, sob o qual agiu durante sua existência, o ano de 2014:
Todas as decisões eram democráticas, fruto do consenso coletivo ou da maioria numérica, os Apoiadores eram ali, portanto, apenas mais um membro.
As reuniões tinham poder deliberativo para legitimar as decisões que eram tomadas a cada encontro, independente do quórum.
A cada encontro, os presentes elaboravam ata que era então divulgada aos integrantes do GT para facilitar a comunicação e a ciência de todos.
Identificaram que a Roda de Saberes tinha uma plasticidade de momentos diretivos e outros abertos frente ao objetivo de cada encontro, coube ao GT identificar cada momento.
Os membros do GT que quisessem, se rodiziariam no papel de facilitador de cada encontro.
Os membros assumiram a responsabilidade de interlocução entre as equipes e a
Roda de Saberes.
O dispositivo era um espaço de reflexão e cuidado do trabalhador, mas que influenciava na eficiência destes nas conduções do caso, o que se aproxima do terceiro e quinto recurso da metodologia.
As rodas se abriram à participação de Trabalhadores de todas as equipes do programa.
As pautas não seriam simples respostas às demandas das equipes, mas síntese delas com as análises e ofertas do GT.
A cada Roda de Saberes, os profissionais realizavam balanço, articulando-o ao planejamento da próxima, em um processo contínuo de experimentação e análise.
E concensuou-se que o objetivo da Roda de Saberes seria o de alcançar o máximo de gestão democrática possível, nela e nas equipes, através dela.
Assim, o GT da Roda de Saberes constituiu seu funcionamento de maneira que era possível relacioná-la à diretriz da metodologia Paideia, onde os temas deveriam surgir do próprio grupo, fruto do encontro entre os vários desejos e perspectivas ali presentes, mas que fossem submetidos a uma avaliação em Roda. E ainda outra: a elaboração de um Projeto de Intervenção em conjunto, que seria a própria Roda de Saberes (Campos, 2003).
Estes componentes criaram um grupo nas redes sociais e um grupo de mensagens em um aplicativo de celular e assim iniciaram uma conversa diária sobre o cotidiano do trabalho, divulgavam materiais, ideias, textos, eventos e cursos. Um dos primeiros eventos a serem divulgados foi a Semana Nacional de Humanização de 2014, na qual a Roda de Saberes se inscreveu, por decisão do GT.
Além disso, criaram um e-mail do GT para a comunicação direta com as equipes, desvinculando a Roda dos Saberes ao Apoiador. A formação do GT foi oficializada através de um e-mail enviado às equipes e cada membro do grupo conversou sobre isso com as respectivas unidades.
Uma das grandes contribuições do GT foi que seus membros traziam valiosas devolutivas dos Trabalhadores sobre o dispositivo que recebeu mudanças, conforme o oitavo recurso da metodologia. Uma das primeiras colocações foi a de que alguns membros das equipes não se interessavam pela Roda de Saberes, pois muitas vezes a terminologia e as palavras não eram entendidas.
O grupo considerou que a discussão poderia acontecer de forma a assumir que os presentes conhecessem todos os conceitos trabalhados, mas também afirmou a necessidade de fazer uso contextualizado de termos técnicos, juntamente com a apropriação coletiva destes termos como forma de aumento de contratualidade social e das ferramentas conceituais dos participantes. Assim inscreveu-se um passo metodológico aos encontros: pactuar que os presentes devessem perguntar sempre que não estivessem entendendo alguma palavra ou termo.
Outra devolutiva de alguns membros era que alguns encontros ficavam sem solução, que não motivava os participantes para o trabalho e gerava angústia.
Esta foi mais uma provocação valiosa ao grupo que refletiu sobre o dispositivo que agencia encontros entre as pessoas, o que pode gerar afetos negativos (Chauí, 1996).
Foi colocado que tudo na vida contemporânea, tem um objetivo, uma meta, um lugar pré-determinado a se chegar. Para os demais participantes, com a Roda de Saberes não haveria este lugar a se chegar, talvez apenas a própria reflexão, que favoreceria um maior acolhimento e leveza dele.
Mas todos ponderaram que deveria ser encontrado um equilíbrio entre a abertura total para a discussão e a orientação dela, justamente algo que Moura (2003) chama a atenção no Clube dos Saberes. Chegou-se à conclusão que seria necessário reforçar o fechamento dos encontros ao realizar uma devolutiva sobre o que foi produzido em cada um deles.
A partir destas devolutivas, apresentação de cada participante, as Rodas de Saberes convencionou que: Não haveria saberes maiores, somente diferentes, é um espaço de troca entre todos os saberes (da vida, acadêmicos, práticos, técnicos, entre outros); Em caso de qualquer dúvida, o participante deveria perguntar sem hesitar; todos deveriam se expressar e respeitar-se; o dispositivo era democrático, portanto um momento onde se busca deixar os cargos e hierarquias de fora; cada Roda de Saberes era fruto do encontro entre os presentes, portanto a responsabilidade por ele era compartilhada; e os presentes levavam para as suas respectivas equipes as reflexões que cada presente considerar válidas.
Após cada Roda de Saberes foi feito um fechamento, com os presentes colocando suas impressões referentes ao momento, de que forma estas impressões correspondiam a uma expectativa inicial e, no encerramento, um balanço dos principais pontos trabalhados e agradecimento pela participação, incentivando que os conteúdos fossem repassados às equipes.
Estes incrementos metodológicos se mostraram eficientes já nos primeiros encontros. As discussões contaram com participações mais variadas e o número de pessoas frequentando a roda aumentou 53%.
As sensações trazidas pelos membros do GT provinham da vivência direta entre o trabalho do programa com seus casos, em seus Territórios e em seus contextos institucionais, que eram colocadas em discussão e análise pelo grupo.
Assim, o GT também facilitava a aproximação com o que de fato ocorria nas equipes, funcionando como uma rede capilarizada viva e sensível, importante para direcionar ações da
Roda de Saberes relevantes aos Trabalhadores que viessem ao encontro de demandas