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2 Teori og tidligere forskning

2.6 Språkhandlinger

2.6.6 Dialogiske språkhandlinger og IC-modellen

Fui desaconselhada por quase todos os funcionários a conversar com Raquel, o que despertou ainda mais a vontade de conhecê-la. No primeiro dia em que estive em sua cela, segundo o socioeducador que me acompanhava, ela fingiu estar dormindo. Entretanto, no dia em que a procurei em sala de aula para consultá- la sobre sua voluntariedade em participar desta pesquisa ela não só se dispôs a me dar entrevista, como conversou algumas vezes comigo com muito respeito, boa vontade e atenção. Em uma das visitas que fiz aos blocos para realizar registros fotográficos, ela me recebeu dentro de sua cela e fez questão de posar para fotos

dizendo-me que eu poderia registrar e que era para e colocar sua foto em minha pesquisa sem a tarja.

Raquel tem 18 anos. É uma moça alta, esguia, de pele clara, olhos vivos castanhos escuros, nariz afilado e fala boa parte do tempo balançando a cabeça, dando movimento aos cabelos longos e escuros, ou ajeitando-os com a mão. É muito bonita e tem consciência de sua beleza. No decorrer de toda nossa convivência, apresentou-se sempre muito tranquila e, diferente dos demais, pouco ansiosa. Não se manifesta sem estímulo – se não houver pergunta, pouco fala. Talvez seja um pouco tímida ou apenas reservada. Responde às perguntas de forma pausada e não desvia o olhar da pesquisadora, exceto quando para lembrar algum fato. Apresenta constantemente um sorriso estilo Monalisa. Em determinados trechos da entrevista, ao contar algumas passagens, solta sorrisos e, algumas vezes gagueja. Procura ter um controle sobre a gagueira falando pausadamente.

Raquel é a filha do meio de uma família composta por pais separados (há seis anos) e três irmãs. A mãe é professora, o pai empresário, a irmã mais velha fisioterapeuta e a mais nova cursa o Ensino Fundamental. A renda familiar mensal gira em torno de R$ 20.000,00 (vinte mil reais).

Aos 13 anos, saiu de casa para viver maritalmente com um rapaz de 23 anos, apesar dos pais não concordarem com o relacionamento. Assim como decidiu morar com o rapaz, decidiu terminar o relacionamento e voltou para casa. Foi neste período que começou a usar maconha, de modo experimental, e depois passou a usar de forma abusiva, não só a maconha como também a cocaína. Para os pais, negou o uso da substância até os 16 anos, quando sofreu uma overdose, foi hospitalizada e reanimada por diversas vezes em atendimento de urgência. Por pouco não foi a óbito. Desistiu de estudar por duas vezes porque perdeu o interesse pelos os estudos e preferia passar o tempo com os amigos, na praça atrás da escola, fumando e bebendo.

Revelou que quando criança costumava se isolar e não gostava de brincar com outras crianças, de dividir seus brinquedos. Até hoje não gosta de dividir suas coisas. Faz referência a sua mãe como uma pessoa atenciosa, mas “meu pai, conversa pouco, gosta é de dar ordens. É um mulherengo, por isso se separaram”. Diz sentir falta do pai porque não teve amor e carinho por parte dele, mas que ele nunca deixou faltar nada em sua casa. Traduz em seu comportamento poucas emoções e sentimentos com relação ao apoio e à afeição da figura paterna, dizendo

que a falta de confiança demostrada pelo pai em sua recuperação lhe causa mal- estar.

No decorrer da adolescência, esteve envolvida em vários roubos a estabelecimentos comerciais, seja por diversão, por consumismo ou por necessidade de dinheiro para o consumo de drogas. Nunca participou de galeras. Sempre que efetuou roubos foi na companhia de amigas, colegas, parceiros ou namorados.

Raquel foi recolhida por latrocínio. Estava aguardando a concentrada em 1o de abril, mas não sofreu progressão de medida socioeducativa. Questionou o juiz na hora da audiência quando ele disse que ela precisava melhorar o comportamento, uma vez que, segundo ela, seu comportamento já melhorou muito.

Do ato Infracional:

Raquel me conta que se encontrava numa fase em que estava “fissurada por dinheiro”. Já havia ido à casa de um advogado com uma amiga garota de programa e observado o que tinha no ambiente:

“Eu conheci a casa dele, ele era divorciado. (...). Nesse tempo que eu estava fissurada por dinheiro. Eu falei para My Friend desse advogado. Ele perguntou qual era o carro que ele tinha e eu falei que ele tinha um corola. Eu achava que era um corola, mas nem era. Nem sei que carro era, mas era tipo um corola. A gente estava tentando ver um lugar para roubar, para assaltar. A gente saia de bairro em bairro (risos) atrás de um lugar para gente assaltar (risos). (...). A gente ia ver outro lugar para roubar, aí não dava certo...nenhum lugar dava certo prá gente roubar. Daí a gente estava na casa dele, fumando e eu não parava de pensar e falar. Eu queria fazer isso (roubar e matar o advogado). Eu disse que ia ser hoje e acabou. Eu falei: “Bora na casa desse advogado hoje! ” Aí a gente pegou e foi. Ele (My Friend) falou assim: “e o revólver? ” Eu disse: “pega uma faca aí, bora lá! ” Ele pegou a faca e botou na mochila e a gente foi lá na casa desse advogado. Quando chegou aqui no Bairro União, no caminho da casa do advogado, ele falou que ia na praça falar com um menino que ele conhecia, para pegar um revolver lá com ele. Quando a gente chegou lá o menino não estava mais. Aí ele chamou outro menino. Foi quando esse menino (o terceiro do grupo que matou o advogado) apareceu na história.

Então nós seguimos para a casa do advogado. Primeiro eu liguei para ele (advogado) dizendo que ia lá, depois eu liguei dizendo que já tava chegando e ele disse: - tá bom, eu vou te esperar aqui na frente.

Eu falei para os meninos assim: - olha, eu vou entrar. Eu vou conversar com ele, vou enrolar ele. Daqui a uns minutos vocês chegam lá na frente que eu vou abrir o portão. Vocês ficam olhando o portão.

Então eu fui lá para a casa dele. Aí eu cheguei na casa desse advogado, entrei.... Ele era safado, num sabe? Rapidinho ele me recebeu. Fiquei conversando com ele, bebendo e sabe né...

Quando esse advogado foi colocar um cd, uma coisa assim, um som, eu peguei o controle em cima da mesa e rapidinho abri o portão. Eu não vi os meninos entrando, mas eu dei só um tempinho e fechei de novo. Foi quando ele foi no banheiro, eu fui no arredor da casa para ver se os meninos estavam lá e eles estavam. Daí eu falei que era prá gente roubar ele. Aí eu falei. Espera aí que a qualquer momento vocês podem entrar que eu vou ficar lá na mesa, sentada, conversando com ele.

Aí passou um tempo, os meninos entraram e pegaram no pescoço dele. Na hora ele tava sentado na mesa comigo. My Friend entrou e começou a dar um monte de facada nele. Ele não reagiu, mas eu tava tão obcecada por dinheiro que eu disse: - mata, mata e vamo umbora. Ele disse, tá bom, então vou matar ele. Eu disse. Tá bom, então mata ele. A gente já tinha combinado antes que ia matar ele. A gente tava ali por causa disso. Aí a gente deu dezesseis facadas nele. O menino lá (o terceiro do grupo) lá, não fez nada não. Ele ficou com medo, ficou tipo... traumatizado, nervoso, tremendo. E eu que pensava que eu que fosse ficar assim (risos). Eu não fiquei mesmo! Aí eu falei: - O cara tá se mexendo, (risos) e fui lá e tum, tum, tum (bate a mão na mesa simulando as facadas). Depois de 16 facadas o cara ainda ficou se mexendo lá. Aí a gente foi e tum, tum, tum deu outras facadas e roubou tudo que tinha na casa.

A gente pegou e botou tudo dentro do carro dele e botamos ele na mala do carro. Tinha um gato lá que ficava perto desse cara, era um gatinho dele. Daí até o gato foi no porta mala também. (Raquel – 18 anos)”

Da sensação no momento do ato:

“Ah, eu não senti nada não. Só adrenalina. Eu só queria saber do dinheiro. Não queria saber dele, não.” (Raquel – 18 anos

Da sensação pós ato:

“Quando eu tava lá na Guiana, teve um tempo que eu tinha maconha que sobrava, eu tinha de quilo, só que nem sempre eu fumava. E quando eu não fumava é que eu via o que eu tinha feito, o que tinha acontecido. Mas quando eu fumava, tipo, a gente se esquece disso.

Quando eu não fumava, sei lá, pensava um pouco na minha família. Mas nele? Num pensava nele não, no advogado. Só pensei nele aqui dentro porque se eu não tivesse feito isso eu não tava aqui, né”.

E também eu não conhecia nada sobre ele. Nesse dia (do crime) que a gente tava conversando na mesa, foi que ele me falou que ele tinha filho, que tinha ex-mulher, que era divorciado, isso e aquilo. E nesse momento os meninos já entraram e eu não pude fazer nada. Não tinha como eu voltar atrás. Mas também, hoje em dia, eu não fico me culpando não, por causa disso não, não por causa desse caso.

Tu te arrependes? Eu? Eu me arrependo, só que já aconteceu e eu não posso fazer nada (fala com ar de desdém ou pouco caso, sacodindo os ombros). ” (Raquel – 18 anos)