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3 Metode og materiale

3.3 Datamateriale

3.3.5 Analyse av materialet

Após a concordância em participar da pesquisa, me concedendo uma primeira entrevista, Joaquim ficou bastante ansioso. Não podia me ver no pátio de esportes ou passar no corredor da escola que corria para o visor da porta e em tom alto perguntava insistentemente se eu havia esquecido dele, se ele ainda estava em minha lista e quando ia chegar a vez dele conversar comigo.

Joaquim tem 19 anos. É moreno, baixinho, musculoso, cabelos crespos raspados na lateral no formato do desenho de três linhas paralelas. Dentes separados, lábios grossos, olhos muito vivos castanhos escuros e pequenos que se

desviam do meu olhar. Sempre de calça jeans, tênis e camisa estilo polo apresenta- se muito sorridente e falante. Gesticula bastante e é muito agitado, inquieto. Na entrevista, muda de posição na cadeira constantemente. Sua documentação com a trajetória no CSE-RR está condensada em duas pastas com um grande quantitativo de documentos - dois volumes. Possui inúmeras ocorrências por evasão e indisciplina. Segundo ele, é considerado pelos outros muito agressivo. Conta que já cumpriu várias medidas socioeducativas por roubo, latrocínio, estupro de vulnerável e homicídio. Atualmente, cumpre medidas socioeducativas acumuladas por homicídio, roubo, tentativa de homicídio e estupro.

Joaquim me relata que foi criado em abrigos: “logo pequeno eu fui parar no abrigo, era muito atentado”. É o mais novo de 6 irmãos. Todos foram adotados por famílias diferentes. Recorda que o pai era alcoólatra e faleceu de cirrose hepática, a mãe foi para o garimpo e o Conselho tutelar o recolheu com os irmãos a um abrigo, onde, entre fugas e retornos, morou dos 5 aos 13 nos de idade. Desde cedo praticava pequenos furtos nas ruas. Segundo Joaquim, roubava porque gostava de ir para Lan house.

Aos 14, reencontrou a mãe e foi morar com ela. Foi apreendido por roubo, porte de arma de fogo – revolver calibre 38 – e tentativa de homicídio do pai do assassino de um de seus irmãos. A mãe faleceu em 2013, também de cirrose hepática, no dia de seu aniversário. O padrasto, também alcoólatra, após a morte de sua mãe foi para o garimpo, onde cometeu dois homicídios e fugiu para Cuiabá, de onde não mais voltou.

Em uma de suas saídas do CSE-RR, conseguiu um emprego de caseiro na fazenda do antigo prefeito, onde trabalhou por sete meses. Na Vila próxima à fazenda conheceu uma moça com a qual manteve um relacionamento por seis meses. Desse relacionamento, surgiu uma filha. Conta que o fim do relacionamento foi por causa de um engano e causou seu retorno ao “mundo do crime:

“Eu tinha recebido um dinheiro, daí fui prá vila e enchi a cara de cachaça... voltei prá casa... lá na fazenda... eu cheguei... vi ela deitada com um cara na rede... mas eu não sabia que era o irmão dela... acabei... final das contas, acabei quebrando os dois. Depois que eu bati é que ela veio falar que era o irmão dela, aí já era tarde. Ela aí ela foi embora prá casa dela... aí quando deu umas seis horas, vi aquele cara vindo: - falei mermão (sic) aquele cara ali é o seu Sr. Diogo, que é o pai dela. Seu Sr. Diogo tava vindo com uma 12 prá me matar. Aí bati os peitos no meio do

rio, atravessei, ele deu dois tiros atrás de mim. Só sei que eu fui lá prá fazenda do Papito. Passei quase um dia andando dentro da mata prá chegar lá na fazenda. Quando cheguei na fazenda, me mandaram embora de lá prá cá [Boa Vista]. Aí cheguei aqui... já tinha perdido a moto. A moto já tinha ficado prá lá. Eu também num ia mais buscar... cheguei aqui sem dinheiro, sem nada…estava enfezado... rapá eu vou roubar... conhecia um parceiro aí... o (...)... nós peguemo um carro, um prisma, comecemo a fazer assalto aí. Nesse dia nós metemo 16 assaltos num dia. Foi distribuidora, os comércios pequenos e uma loja de farda. ” (Joaquim – 19 anos)

Dos seus irmãos, um foi assassinado, a outra mora em São Paulo, com a qual perdeu o contato. Os demais moram em Roraima, constituíram família e trabalham. Morou um tempo com um deles, mas como assaltou a casa do irmão, perdeu a confiança, foi expulso e perdeu o contato. Tinha uma certa afinidade com o outro irmão que o acolheu em sua casa, mas por uma desavença com a cunhada, tentou contra a vida do irmão e foi expulso, perdendo o apoio e o contato também com este irmão. Tem ainda um irmão que, segundo ele, não o conhece. Diz que “...já fui morar com eles, mas eu sempre me dei bem eu mesmo sozinho... eu nunca gostei de andar com eles, não... nunca me dei bem assim”.

Conta que a família não o visita: “me largaram de mão” e fala com satisfação de uma senhora que conheceu e, segundo ele, tem o ajudado. Compara o carinho que sente por ela como se fora por uma mãe. Define-a como uma pessoa bondosa que vem visitá-lo e conversa dando-lhe bons conselhos.

No que se refere à escolaridade, atualmente encontra-se no 6o ano, cursando no CSE-RR.

Participou da concentrada de 1o de abril e recebeu extinção de medida socioeducativa.

Em outubro de 2016, apareceu estampado na primeira página do jornal local, muito machucado em virtude de linchamento praticado pela população, sendo recolhido à Cadeia Pública.

Do ato Infracional:

Neste dia, estava bebendo no bar com uns amigos quando chegou uma mulher pedindo socorro porque o filho queria tomar o dinheiro dela. Então, segundo ele:

“Ela entrou lá prá pedir socorro, falando que o filho dela queria o dinheiro dela. Aí o Orlando levantou da mesa e disse: - como é que é? Ela falou: - Não... ele quer tomar meu dinheiro. Quando ela terminou de falar, o cara vinha entrando na porta. Ele já vinha com terçado na mão, era o Marcelino.

Nós tava tudo com faca. Cada um com uma faca. Só bebia armado. Aí o Orlando pegou ele, deu uma gravata nele e furou. Deu uma facada aqui (aponta para a região) nele e saiu arrastando ele pro outro lado da rua. A mãe do moleque tava vendo tudo. Arrastamos ele. Só tinha só o pessoal do bar, só. Na rua num tinha ninguém, não. Então levamos ele pro campinho e furemos ele. Jogamos ele no chão e quando tiramos a faca ele ficou lá, se tremendo todo no chão. Eu prá mim ele num ia levantar mais, não. Mas na hora, quando Orlando tava limpando a faca, bateu aquela vontade forte de olhar prá trás... quando eu olhei, o cara já vinha em cima com o terçado, aí eu empurrei. Ainda deu tempo de empurrar o Orlando. O Orlando caiu pro lado, o terçado passou raspando aí eu segurei na mão dele e comecei a furar ele. Dei facada na cara, no braço, uma costela. Aí o Orlando segurou ele por trás e começou a furar ele. 23 facadas no total. Foi quando decidimos abrir o bucho dele. Depois arrastemo ele pro mato. A mãe dele ficou chorando lá. Aí de lá nós saímos.

Fui para a casa de minha madrinha e tava tomando banho quando a policia chegou. Tinham estourado [a policia] o dedo de Orlando para ele entregar nós. Eles me pegaro, mas eu consegui me safar com uma semi- liberdade. Não sei o que houve lá, mas eu me safei.

Voltei para o abrigo e lá briguei com o Sócrates. Ele foi querer ameaçar um amigo meu aí eu peguei um pedaço de cano com um bicozinho assim e furei ele oito vezes. Aí eu peguei outra sentença. Fugi e foi quando fizemos as pazes e fomos vender droga junto.

(...) eu tava sem dinheiro para pagar a dívida que eu tinha com o cara que me dava a droga para vender. Então, resolvi meter o assalto numa lojinha, ali perto da Delegacia de Mulher. Por causa desse assalto foi que cai aqui de novo e fiquei. Essa loja era tipo uma farmácia. Tinha cosmético, perfume, um bocado de coisa. Roubemos lá, pegamos um bocado de coisa. Quando eu olhei e vi que tinha um cofre. Eu tava sozinho... o cara que tinha ficado do lado de fora já tinha falado desse cofre. Aí na hora que eu me abracei com o cofre, tentei levantar... e força? Que num tem? Aí eu olhei prum lado olhei pro outro... já tava com o dinheiro mesmo... quando eu saio na porta, tá cheio de gente. Aí eu acabei botando a arma na cabeça da mulher, o pessoal saiu de frente da loja, que tinha muita gente olhando. Botei a arma e nem me toquei que ela tava grávida. Saí correndo com a arma na mão ainda, com celular, dinheiro... saí correndo, entrei na rua da delegacia com o pessoal correndo atrás de mim e acabaram me pegando. Aí eu fui pego pelo Bope e fui preso de novo. Já tava aqui no CSE-RR quando chegou os outros processos. Chegou tudo duma vez, os três fechado. No total são três, aí fiquei respondendo sem possibilidade de sair. ” ” (Joaquim – 19 anos)

“Não sinto nada. Acho que nada... dá tudo um branco... a pessoa fica no branco.

Nos assaltos é adrenalina. Eu chego procurando, atrás do dinheiro. Pergunto: cadê o dinheiro? Cadê o dinheiro? Se num diz eu bato e ... vixe... bato é muito. Já tirei dedo, unha de cara que não me disse onde tava o dinheiro.

Quando nós vamos é prá matar ou morrer. A gente está no roubo, então é a prá matar ou prá morrer, mano. É a única coisa que o cara pensa... porque se o cara tiver armado, ele num vai dispensar não... ele vai tacar bala sem dó, então eu taco primeiro.

Eu acho assim, se a pessoa vai roubar, ele tá ali, ele tá sujeito a tudo ali. Ali ele tá sujeito a tudo... fazer de tudo e pode acontecer de tudo... ali pode aconteceu de tu morrer... de tu apanhar até dizer chega se a população te pegar. Prá num acontecer isso, a pessoa tem que fazer coisas que num quer, né? ” ” (Joaquim – 19 anos)

Da sensação pós ato:

“Depois que cheguei aqui dentro é que eu vim ver, bateu a lembrança que eu tinha botado a arma na cabeça da ... feito aquilo com uma mulher grávida. Isso é.… acho que... a pessoa fica meio sem graça. Eu ficava pensando: caralho eu botei a arma naquela mulher grávida! Como será que ela num tá agora? Mas foi por causa do pessoal da janela... tinha muita gente no vidro... olhando assim na frente da loja e eu nem vi que ela tava grávida, tava entretido querendo colher dinheiro e jóias.

Agora eu lembro mais da cena do Marcelino lá. Tá doido mano, a cena é palha! Aquilo ali ó, até hoje me bate umas lembrança assim. (...) Batia só medo mesmo, do pessoal da família dele, duma coisa assim. ” (Joaquim – 19 anos) ”