Faremos a seguir algumas considerações sobre a utilização das Tecnologias Digitais nas atividades de Modelagem, temática abordada por autores como Franchi (2002 e 2007), Machado (2012), Nina (2005), Salandini (2011), Costa (2008), Araújo (2002), Silva (2010), Malheiros (2004), entre outros. Utilizaremos o termo Tecnologias Digitais no sentido geral, como sinônimo de Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC, informática etc.
No desenvolvimento de atividades de Modelagem Matemática, a utilização das Tecnologias Digitais foi surgindo naturalmente como apoio nas buscas, organização, tratamento e apresentação de dados para comunicação a distância entre os participantes, realização de textos colaborativos, entre outras formas de uso.
Araujo (2002, p. 43-44) ao referir-se ao uso que os alunos fazem das Tecnologias em atividades de Modelagem, evidencia:
[...] parece haver uma solicitação natural pelo uso de computadores e/ou calculadoras quando se está desenvolvendo algum trabalho de Modelagem Matemática, e essa naturalidade já era apontada no contexto externo à Educação Matemática.
Aos poucos, as tecnologias foram sendo utilizadas de maneiras diversas ligadas à Modelagem. Malheiros e Franchi (2013, p. 179-180) ao referirem-se às conclusões da pesquisa de Malheiros (2004) sobre a produção de alunos em ambientes de Modelagem, destacam:
Através dos exemplos de trabalhos discutidos é possível ver como, ao longo dos anos, as tecnologias vão, pouco a pouco, se incorporando aos trabalhos dos alunos: inicialmente as calculadoras gráficas, mais tarde os softwares (como o Excel, por exemplo) para esboços de gráficos, permitindo interpretações e comparação entre resultados experimentais e teoria, e, posteriormente, também a Internet como fonte de pesquisa e coleta inicial de dados para a Modelagem.
Araújo (2002, p. 45) baseando-se em Blum e Niss (1991), aponta quatro aspectos de relevância para a utilização das Tecnologias Digitais em atividades de Modelagem Matemática.
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1) a possibilidade de lidar com problemas mais complexos e dados mais realísticos;
2) a possibilidade de melhor se concentrar nos processos de Modelagem devido ao alívio que as tecnologias proporcionam aos cálculos de rotina; 3) a possibilidade de melhor compreender os problemas por meio de variação de parâmetros, estudos numéricos, algébricos e gráficos;
4) a possibilidade de lidar com problemas que podem ser inacessíveis do ponto de vista teórico para uma dada idade, por meio de simulações numéricas ou gráficas.
Com isso, a Modelagem foi ganhando novas possibilidades como evidencia Franchi (2007, p. 185-186):
Muitas das dificuldades do processo de Modelagem ficaram superadas pela facilidade de coleta e tratamento de dados e pela manipulação das representações (matrizes, planilhas, gráficos ou equações) através da utilização de softwares e da Internet. O modelo pode ser construído com mais liberdade, sem o receio de que o tratamento matemático possa ser demasiadamente complicado, ou difícil de ser abordado naquela etapa de escolaridade. A utilização da Informática pode também facilitar a comunicação entre as pessoas envolvidas no processo de construção do modelo, possibilitando um constante diálogo em momentos não presenciais.
Para a mesma direção apontam as conclusões da pesquisa de Diniz (2007) cujo objetivo era investigar como alunos do primeiro ano do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estatual Paulista (UNESP), campus de Rio Claro/SP, utilizam as Tecnologias Digitais em atividades de Modelagem Matemática na disciplina Matemática Aplicada. O pesquisador concluiu que os alunos utilizaram a Internet para realizar parte das suas pesquisas com uma seleção, a priori, de sites identificados como confiáveis. Utilizaram softwares gráficos para realizar simulações, possibilitando previsões, e também e-mail para realização de discussões entre os componentes do grupo e produção de um relatório escrito.
A interação entre Internet e Modelagem já aparece nas publicações. Borba e Malheiros (2007) chamam atenção para possíveis transformações nas práticas de Modelagem pelo uso da Internet que, além de ser usada como fonte de dados, pode redirecionar ações na sala de aula por possibilitar verificar e interpretar resultados. Outro aspecto apontado por Borba e Penteado (2001) é a maior facilidade proporcionada pela Internet para a abordagem de problemas abertos propostos pelos alunos. Borba (2009) esclarece que a utilização da Internet em atividades de Modelagem aumentou as chances de os alunos investigarem problemas que de fato os interessam.
35 Estudos também apontam possibilidades de utilização da rede para trabalhos colaborativos em ambientes virtuais. Borba e Malheiros (2007) discutem o desenvolvimento de Projetos de Modelagem relativos a temas escolhidos pelos participantes, que eram professores em um curso de extensão, ministrado a distância, utilizando um ambiente virtual denominado Centro Virtual de Modelagem (CVM).
Também Ferreira (2013) destaca a possibilidade de trabalhos de Modelagem serem desenvolvidos de forma colaborativa utilizando a web 2.0. Citando Coutinho e Junior (2007, p. 199), esclarece que a web 2.0 “é um meio de utilização da rede global de forma colaborativa, ou seja, a internet é construída pelo usuário compartilhando o conhecimento de forma coletiva e descentralizada de autoridade, com liberdade de utilizar e reeditar”. Em sua pesquisa, Ferreira (2013) utiliza as Tecnologias Digitais como auxilio nas atividades de Modelagem Matemática para abordar, com alunos do ensino médio, o tema função na perspectiva da Educação Matemática Crítica. São utilizados recursos da Internet para busca de dados e para elaboração de textos colaborativos no Google Doc’s, assim como softwares para organização, tratamento e apresentação dos dados e resultados. Ferreira (2013) enfatiza a facilidade de obtenção de dados na Internet, o que possibilita a realização de pesquisas sobre temas atuais que, através de livros ou revistas impressas, seriam difíceis de serem realizadas. Destaca também as facilidades da Web 2.0 para armazenamento dos textos e dados obtidos ao longo das atividades de Modelagem e também para a sistematização das informações, trabalhos, discussões e conclusões dos alunos por meio da elaboração, de forma colaborativa e assíncrona, de um texto no Google Doc’s.
Os referenciais anteriormente abordados foram escolhidos por entendermos que dão suporte ao tipo de atividade que planejamos desenvolver. Nossa intenção era desenvolver atividades de Modelagem Matemática, a partir de temas escolhidos pelos alunos, de acordo com os objetivos da Educação Matemática Crítica. A concepção de Modelagem de Barbosa (2001) foi escolhida por caracterizar a Modelagem como um ambiente de aprendizagem com características de Cenários para investigação e com referência à realidade, o que está de acordo com a EMC. Abordamos relações entre a Modelagem e as Tecnologias Digitais por reconhecermos a sinergia existente entre as atividades de Modelagem e o uso de tecnologias. Era também nossa intensão utilizar esse tipo de recurso. Dedicamos também especial atenção aos diálogos por serem eles a forma de comunicação que consideramos apropriada para constituição dos cenários para investigação por serem imprescindíveis para as abordagens dos temas de forma crítica e
36 também porque através deles poderíamos identificar as posturas críticas dos alunos que buscávamos observar.
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