• No results found

I. Marc general de la recerca

2. Definició del problema

Penso ser importante explicar o porquê de debater-se a pertinência da capoeira no campo das artes marciais e que implicações teóricas e metodológicas podem trazer para esta pesquisa. Estas implicações teóricas e metodológicas constituem a razão central pela qual trago este debate, aparentemente irrelevante, para as páginas da tese. Convém deixar claro que a categorização da capoeira, enquanto arte marcial, tem o inconveniente de realizar um enquadramento limitante, uma vez que a capoeira está bem para lá de uma simples arte marcial e pode ser conceituada de outras formas. Contudo não pude ignorar o facto de que ela pertence ao quadrante das lutas, mesmo nas suas formas mais tradicionais e que, no campo dos estudos sobre as artes marciais, ela tem sido preterida como referência e como termo de comparação com outros desportos de combate.

Muitos autores das Ciências Sociais, tais como Assunção (2005) e Lewis (1992), têm considerado a capoeira como uma arte marcial, salvo as suas peculiaridades e segmentos. Convém realçar, em primeiro plano, que a compreensão dos praticantes sobre a capoeira, nos grupos estudados, remete para a sua representação como uma luta. Muitos dos praticantes destes grupos foram e são praticantes de outras artes marciais e chegaram à capoeira por via de outras lutas. Os filmes de artes marciais foram importantes para eles, como veremos, no processo de escolha da capoeira como arte marcial. Tendo começado noutros tipos de lutas, alguns dos líderes dos grupos utilizaram os seus conhecimentos prévios de ensino e prática de outras artes para dinamizarem e difundirem a capoeira e os seus grupos. Assim como a capoeira na

50 sua origem resultou da junção de várias formas de luta e dança, e foi refeita nos anos 30 com a introdução de técnicas de outras lutas, ainda no presente semelhante prática continua ativa, com o adicional de que também as outras lutas foram influenciadas por ela. As artes marciais, em particular as orientais, constituíram uma grande indústria e, como tal, utilizaram as diferentes estratégias do mercado capitalista para se difundirem e crescerem. Estas estratégias também foram e são utilizadas conscientemente pelos capoeiristas, tirando partido de conhecimentos que concerniam às suas vivências e observações noutros desportos de combate.

A noção de Artes Marciais é controversa, em particular na capoeira, e tão pouco é consensual entre os estudiosos dos desportos de combate. Paul Bowman (2010) refere, a título de exemplo, que na realização de um estudo patrocinado pela UNESCO sobre as artes marciais no mundo, a falta de consenso dos estudiosos sobre um conceito de trabalho comum acerca das artes marciais acarretou o encerramento da pesquisa. Contudo, existe um conjunto de proposições gerais que permitem caracterizar as Artes Marciais.

A compreensão de Jones (2002) sobre as Artes Marciais levou-o a pensá-la a partir de comportamentos estilizados e que podem obedecer a um modelo geral designado por um conjunto de características. Entre essas características destacam-se:

1. A ênfase no contacto físico e no combate que pode envolver o uso dos pés e das mãos. Eventualmente, em alguns segmentos da capoeira, como a capoeira Angola, esse contacto pode ser diminuto, o que contudo não diminui o grau de marcialidade do jogo. Diz-se na capoeira que “não se joga contra o outro, mas com o outro”, o que não é inteiramente verdade nalgumas circunstâncias, mas que constitui um facto na capoeira.

2. O ritual é um elemento fundamental em qualquer segmento da capoeira. Ele envolve a organização da orquestra, de instrumentos necessários à roda, a condução dessa orquestra, o repertório de músicas, bem como os comportamentos durante o jogo. Vertentes mais ortodoxas da capoeira visualizam a existência e a importância do ritual de diferentes formas, argumentando que, em alguns casos mais do que outros, esse ritual é mais claro e vivido do que em outros segmentos.

51 3. A técnica, repetição e treino. Como prática corporal a capoeira requer treino, simulações de técnicas individuais ou em pares. Em alguns casos utilizam-se rodas treinos, em que situações reais de jogo são simuladas no âmbito da aula. 4. Entretenimento. No caso da capoeira esse entretenimento dá-se pelas diferentes formas que a roda de capoeira pode assumir, particularmente na sua vertente de demonstração e performance pública. No passado, bem como no presente, as apresentações para fins turísticos, em teatros e ginásios, constituíram uma forma de entretenimento para o público que podia assistir a situações de risco propositadamente coreografadas.

5. A busca por uma força interior. Essa busca por uma energia interior nas Artes Marciais orientais era expressa por um caminho em busca de uma espiritualidade mais elevada, concebida por alguns como um estado Zen. Na capoeira essa busca a longo prazo não é deliberada e intencional, sendo que tende a pensar-se na aquisição da mandinga e do axé como momentos de êxtase do praticante.

Jones (2002) irá, por fim, deixar claro que não necessariamente todas as características serão observadas, mas se a maioria delas estiver presente, certamente tratar-se-á de uma Arte Marcial. Devo destacar que existem outros aspetos que, no entanto, distanciam a capoeira das artes marciais no seu formato clássico: um deles é o facto de não haver claramente vencedores nem vencidos, uma vez que esta determinação é bastante subjetiva. Vencer ocasionalmente na capoeira pode passar apenas por mostrar ao outro que se poderia ter finalizado o jogo com uma técnica eficaz e não efetivamente executá-la. Um outro elemento a enfatizar é o acompanhamento musical da capoeira, que pode tornar a luta num jogo ou numa performance teatral ou dramática, conforme Lewis (1992).

O desafio metodológico de tratar as artes marciais começa na constatação do que elas foram e se tornaram, como são praticadas e de que forma podemos buscar e apreender as informações necessárias para a construção das nossas pesquisas sobre o tema. Devo deixar claro que o enquadramento da capoeira, enquanto uma arte marcial, de nenhuma forma a reduz no conjunto de outras possibilidades que ela apresenta e possui. Mesmo quando realizada de maneira lúdica, ela não deixa de ser uma arte marcial, cujo fim neste caso, pode ligar se com a diversão e o

52 entretenimento. Enquadrá-la como arte marcial, como se pode constatar, tem sido uma das estratégias dos capoeiristas para expandi-la, difundi-la e fixá-la a nichos de mercado. Não obstante, existirão outras tendências que se prendem a diferentes segmentos, representações e compreensões da capoeira.

Será pertinente destacar a importância do corpo e a sua relação com as artes marciais e a afro-brasilidade, a ela supostamente inerente. Por que fazê-lo? Como se poderá verificar, o corpo do capoeira é o corpo que dança, que luta, que canta e que performatiza a cultura, o corpo que se deixa possuir por divindades ou recusa a sua possessão. Quando se fala em afro-brasilidade, fala-se na construção de um corpo identitário híbrido que, no contexto transnacional, se expressa por uma performance dos praticantes. É através do corpo que os praticantes, principalmente os não brasileiros, mostram a sua intimidade com a cultura cuja assimilação só pode ser feita e exteriorizada pelo corpo. Sódré (2002), numa biografia sobre o mítico mestre Bimba, falará sobre o mestre utilizando a metáfora de um corpo de mandinga, como recetáculo de algo que se anexa à sua identidade. Corpo de mandinga é um corpo treinado e instruído para exteriorizar reações dentro e fora da roda. Ao mesmo tempo, é um corpo revestido pelo sagrado que o protege e se faz possuidor de forças extrassensoriais que se utilizam na roda.

Se compreendermos a capoeira, mesmo nas suas mais variadas vertentes, como uma arte marcial, é imprescindível o uso do próprio corpo como suporte de apreensão do ethos que envolve o grupo e os indivíduos que a praticam. Loic Wacquant (2002), no seu estudo sobre o boxe, advoga que existe um capital corpo, como sendo o conjunto de potencialidades que o corpo pode desenvolver ao longo do seu treino como pugilista. Esse capital vem da perceção que o boxeador possui na vivência do seu próprio corpo, mas que só poderá ser apreendida e percebida inteiramente pelo pesquisador ao tornar-se um praticante, condição sem a qual não lhe será possível sentir plenamente o que sentirá um verdadeiro lutador. Devido à sua inserção no mundo do pugilismo, Wacquant qualificou a sua pesquisa como sendo uma participação observante, em que seria possível, exposto a uns longos anos de treinos, “deslizar melhor para dentro da pele do boxeador” (Wacquant 2002: 24). O autor acentua, contudo, que foi necessário anexar a observação e a participação, entrevistas em profundidade, bem como a história de vida dos seus parceiros de treino

53 que constituíram objeto de estudo. Acrescento que, no meu trabalho, tomei de empréstimo a proposta do autor, sendo que a pesquisa que passou, em grande parte, pela participação ativa nas vivências dos capoeiristas locais, também anexou a componente de entrevistas em profundidade que, não tendo sido aqui apresentadas no formato usual de histórias de vida, foi concebida como tal.

Contudo, é necessário ultrapassar a visão do corpo como suporte de identidades sociais apenas, mas como constructo que articula sentidos e significados cosmológicos (Viveiro e Castro 1996). Um possível corpo de mandinga na sua vertente mágico-espiritual é um corpo que relaciona dois espaços cosmológicos, o do sagrado e o do profano. É também o corpo da performance, da expressão, em que umas das vertentes é sua exterioridade como identidade social - no caso da capoeira, afro- brasileira e, portanto, crioula. Esta afro-brasilidade do corpo do capoeirista estava circunscrita à legitimidade do corpo de pele negra e, por força dos processos globais, abriu-se aos não negros e mestiços através da expressão do corpo enquanto performance de uma cultura. Não é importante se um pai ou mãe de santo é branco ou branca e o mesmo para um capoeirista; o que interessa é como ele ou ela performatizam com intimidade a cultura incorporada através da gestualidade e da teatralização.

Fazenda (1996) fala-nos de um corpo natural, ideia advinda do meio artístico da dança e da busca por seus profissionais de uma nova expressividade mandatária do seu tempo. A ideia de um corpo natural surge como forma de desconstranger o corpo, libertá-lo de ditames do enclausuramento e do artificialismo a que estava relegado na dança clássica como o Balé. Isadora Ducan, a dançarina protagonista desta mudança, no início do século XX, propõe uma dança que seria mais espontânea, liberta, emotiva e mais próxima de um tipo de expressão corriqueira do andar, correr e saltar. Por trás desta inovação estava a ideia de que se tratava de movimentos “naturais”. Segundo Fazenda (1996), por naturais compreenda-se também uma relação entre o ser humano e a natureza. Contudo, existia um conjunto de proposições políticas de alinhar o corpo com o seu tempo e com a cultura americana contemporânea. Estão subjacentes à noção de corpo ideais como a liberdade, antiexclusão social e democracia.

Nos anos 60 e 70 do século XX, a ideia de um corpo natural retoma fôlego, engajada na improvisação e na espontaneidade. No entanto, para os protagonistas

54 desta busca, a aquisição de um corpo naturalizado poderia ser obtida através de métodos e, em particular, pela incorporação de práticas, formas, valores e significados, ou seja, de um habitus. “O habitus naturaliza o corpo, conferindo-lhe a capacidade de realizar gestos, movimentos e ações sem que, e de cada vez que os realiza, tenha consciência da forma como o faz, tal como acontece com a linguagem.” (Fazenda 1996: 148).

Esclareço que a busca por um corpo natural na capoeira não é, tal como na dança, uma busca estética. Apesar de se situar algures entre a dança, o jogo e a luta, a capoeira é uma Arte Marcial que tenta combinar a estética com a eficiência e a marcialidade. Adiciono que os diferentes segmentos da capoeira se regem por buscas diferentes que concernem a maneira de ver a própria capoeira, bem como o contexto da sua formação e devir social. Como tal, a busca de um corpo natural na capoeira é a busca com uma relação telúrica e ontológica das suas raízes. Não é na verdade uma busca obcecada, embora constante e tangível apenas num plano imaginário. Não existe na capoeira a preocupação estética de performatizar-se em consonância com seu tempo, com valores sociais da sua época, muito embora exista um conjunto de valores de ordem libertária que ela tenta propagar. Trata-se de valores que se julgam essenciais e da sua natureza intrínseca e mitológica, de uma luta ou dança nascida pera libertar os negros da escravidão. Se pensarmos de forma aprofundada neste valor mitológico de uma luta ou dança que pretende libertar o ser humano, falamos de um corpo negro romântico, porém guerreiro, e de uma busca idílica de qualquer ser humano em qualquer época da humanidade. No entanto, antecipo que, na pesquisa dos grupos de capoeira em Portugal e na Polónia, foi possível verificar que as preocupações sociais dos atores envolvidos estariam presentes na forma como eles tencionavam projetar a capoeira nas suas sociedades, o que é indiretamente uma maneira de se projetaram socialmente.

De volta ao corpo de mandinga é preciso afirmar que se trata de um corpo racializado e em muito envolvido na ideia da democracia racial brasileira. Um corpo que propõe consensos raciais e interculturais como princípio mercadológico nas ofertas globais. Trata-se de um corpo mercadoria apetecível aos gostos mundializados.

55