Option Values and the Timing of Climate Policy
4. Decision criteria
Ladeando e, por vezes, confundindo-se com as origens da urbe de Limeira, a Fazenda Ibicaba – que também impulsionou a formação de cidades como Rio Claro e Cordeirópolis - originou-se na Sesmaria do Morro Azul, instalada na cabeceira do Ribeirão do Pinhal133.
A presença do Senador Vergueiro, fundador da fazenda, que estabeleceu seus negócios e interesses na região, impulsionou a instalação das aglomerações locais, dos acessos aos pontos estratégicos, bem como os de apoio como Campinas, Piracicaba e a capital do Estado.
A Ibicaba (FIGURA 10) foi pioneira, no Brasil, no processo de substituição de mão- de-obra escrava pelo trabalho dos imigrantes europeus, colonos de procedência suíça, portuguesa e alemã, que trinta anos após a fundação da fazenda ali ingressaram.
FIGURA 10. Vista geral da Fazenda Ibicaba no século XIX. Fonte: HEFLINGER JUNIOR, 2009, p. 41.
133 Nota do autor: Área onde hoje se encontra a confluência entre as Rodovias Estaduais, Washington Luís (SP
Como comentaram autores como Busch (1967) e Heflinger (1999), nos idos de 1840 aconteceu a primeira imigração de cunho particular rumo ao Brasil, quando 80 famílias portuguesas da Província do Minho foram conduzidas para a Ibicaba. Esta primeira experiência não resultou em sucesso por diversos fatores, dentre os quais a situação vivida pelo Senador e seu clã, quando dos resultados da Revolução Liberal de 1842.
Na Fazenda Ibicaba foi aplicado um sistema de parceria, idealizado por Vergueiro, que se pautava nos sistemas de colonização utilizados nos Estados Unidos, com financiamento advindo em parte de verbas estatais conseguidas e destinadas para esta finalidade pelo senador junto ao orçamento do governo Imperial.
Cabe salientar que a Vergueiro & Cia. foi responsável pela vinda de imigrantes da Europa, antes da abolição da escravatura, uma vez que ela recrutava os trabalhadores, financiava com respaldo estatal a viagem, e o colono era obrigado a quitar sua dívida com trabalho, por um período de, no mínimo, quatro anos.
O contrato de parceria, segundo Heflinger (1999), apresentava várias cláusulas que incomodavam os imigrantes, que se sentiam lesados, o que ocasionava desconforto na relação entre os contratantes e os contratados.
Tal situação foi se tornando cada vez mais tensa, pois as famílias de colonos recebiam um número determinado de pés de café para cultivar, colher e beneficiar, além de espaços ou “roças” para o plantio de subsistência, ou seja, além de produzir para os patrões, tinham que produzir o próprio alimento, ou comprá-lo na mercearia da fazenda a preços extorsivos.
O produto da venda do café, por exemplo, era partido entre colono e fazendeiro, devendo prevalecer o mesmo princípio para as sobras da produção de subsistência que o colono viesse a vender. A tais contratos denominava-se “Sistema de Parceria".
Djalma Forjaz (1924) observou que a Ibicaba foi uma das primeiras, senão a primeira fazenda na área de Limeira, a plantar café, inicialmente com 6 mil pés.
Imigrantes portugueses, suíços e alemães, nos idos de 1847, chegaram à fazenda. Cerca de 500 pessoas viviam na Ibicaba aquela época, que funcionava como uma espécie de comunidade autônoma, tendo, por exemplo, a circulação de uma moeda própria viviam na Ibicaba aquela época, que funcionava como uma espécie de comunidade autônoma, tendo, por exemplo, a circulação de uma moeda própria 134.
Este modelo de colonização obteve sucesso durante praticamente uma década e serviu de exemplo para outras fazendas no país. Entretanto, com o passar dos anos, as dificuldades
impostas aos trabalhadores, aliadas a fatores como a adaptação ao clima, às culturas locais, à subordinação econômica aos fazendeiros, estabeleceu uma crise no sistema.
A insatisfação dos colonos em não conseguirem saldar suas dívidas, estas possivelmente baseadas em um tipo de contabilidade questionável, culminou, por volta de 1857, com a chamada “Revolta dos Parceiros".
Durante a rebelião, destacou-se o mestre escola Thomaz Davatz, que era homem letrado e exercia também papel de observador do governo suíço na Fazenda Ibicaba.
Como observou Stahlberg (2003), o professor fora enviado para o Brasil no intuito de exercer as atividades mencionadas, mas também de verificar as reais condições a que eram submetidos os colonos recrutados naquele país, e conseguiu, àquela época, que as autoridades suíças tomassem conhecimento das condições em que viviam os colonos no Brasil.
O próprio Davatz (1972) anexa, ao seu livro, uma carta com instruções a ele endereçada pela Comissão Diretora dos Conselhos Municipais de Pratigau e legalizada pela Chancelaria Civil do Cantão Suíço de Grisões, onde se questionam, dentre outros assuntos de ordem geral, quais conselhos devem ser dados aos novos imigrantes Em relação aos religiosos: se existem meios de protestantes e católicos professarem seus cultos, e aos econômicos: quanto pode ganhar por ano uma criança de até dez anos e em que tipos de trabalho135.
Acerca desta condição de Davatz, como observador do governo de seu país, Dean também apontou:
[...] Davatz recebera do governo cantonal a incumbência de enviar de volta um relatório minucioso sobre as condições em Ibicaba. Isso era do conhecimento do Vergueiro, que o tratava com deferência espacial na fazenda – possivelmente, segundo presumia Davatz, na esperança de um relato favorável. Ao contrário, escreveu uma exposição pessimista, que foi lida, de algum modo, por um dos administradores. Davatz imediatamente foi chamado a se apresentar a Luiz Vergueiro, um dos filhos de Nicolau, que imediatamente o ameaçou de mandar matar.(DEAN, 1977, p. 103-104)
A situação na Ibicaba foi se agravando, pautada no descontentamento dos colonos com relação à situação econômica e tratamento dispensado pelos fazendeiros, tanto que, nos idos de 1857, explodiu a revolta em Ibicaba, com a família Vergueiro sendo segregada dentro da sede, e sendo necessária a intervenção de uma comitiva enviada pelo governo provincial para esfriar os ânimos136.
135 Cf. DAVATZ, 1972, p. 144 e 260-263. 136 Cf. DAVATZ, 1972, p. 187-197.
Posteriormente a estas ocorrências, Davatz conseguiu voltar ao seu país e os Vergueiro justificaram-se por intermédio de cartas aos governos Provincial e Imperial, e por discursos do senador no plenário137.
Ao retornar à Europa, após as ocorrências na Fazenda, Davatz publicou seu livro “Memórias de um colono no Brasil" e, com isso, conseguiu inibir, naquele continente, o ciclo da imigração para o Brasil, até as décadas finais do século XIX.
Como comentou Witter (1982), a revolta repercutiu internacionalmente, ocasionando, por exemplo, a proibição de imigração pelo governo da Prússia para o Brasil e, por alguns anos, o processo entrou em estagnação.
Entretanto, a imigração ressurgiria no Brasil no final do século XIX, pela necessidade de substituição do trabalho escravo pelo livre, como apontou Silveira:
A grande imigração estrangeira subsidiada seria a principal fonte de mão de obra para a expansão cafeeira, na verdade não substituindo o escravo, mas sim preenchendo novas vagas demandadas do processo de expansão dos cafezais em fazendas recém formadas no Oeste Novo paulista. O insucesso do sistema de parceria da metade do século XIX seria, pois, esquecido pelos fazendeiros, que, em São Paulo, optariam, na sua maioria, pela mão de obra estrangeira, principalmente pelo fato de esses indivíduos serem totalmente expropriados e dispostos a venderem sua força de trabalho, se sujeitando aos rigores do trabalho regular. (SILVEIRA, 2007, p. 109)
Na Ibicaba, a mão-de-obra escrava (FIGURA 11) ainda persistia às vésperas da Abolição, como apontaram Heflinger & Levy:
Às vésperas da Abolição, em 1887, haveria, na fazenda Ibicaba, cerca de 400 escravos e aproximadamente 40 trabalhadores livres, de maioria italiana. A fazenda iria a leilão, em 1889, e seria arrematada pela família Levy, cujos membros teriam imigrado da região do Reno, Alemanha, em 1857, para tornarem-se colonos de Vergueiro e Cia., em terras brasileiras.(HEFLINGER & LEVY, 1999, p.19)
Com o falecimento do Senador, em 1859, como comentou Forjaz (1924), a fazenda iniciou processo de decadência, inclusive tendo reduzidas suas dimensões. Foi a leilão nos idos de 1890, sendo arrematada pelos irmãos Simão e José Levy, ex-colonos da fazenda.
Heflinger (2002) comentou que a Ibicaba teve três sedes (as duas iniciais foram demolidas), que se alternaram pelos ciclos da fazenda: a primeira do período da formação, quando da existência do engenho e produção de cana-de-açúcar, entre as décadas de 1820 e 1850; a segunda da era do café, entre 1850 e 1910, e a terceira após 1910, construída pelos Levy (FIGURA 12).
FIGURA 11. Mão de obra escrava trabalhando no cafezal da Ibicaba. Fonte: HEFLINGER JUNIOR & LEVY, 2010, p. 17
FIGURA 12. Segunda sede da fazenda Ibicaba no final do século XIX.. Fonte: HEFLINGER JUNIOR, 2009, p. 60.
Segundo comentários deste autor e dos demais que elaboraram descrições de Ibicaba, como Davatz (1972), Busch (1967) e Witter (1982), no decorrer do século XIX existiam ali algumas colônias138 – habitações para os trabalhadores, além de bosque, cocheiras, edifício para a administração, mercearia, usina de força139, capela, casa do administrador, e duas tulhas. A primeira, construída com a senzala embaixo, e uma segunda tulha, sendo a área de cada uma delas perto da casa dos 1.000 m2 (FIGURA 13).
FIGURA 13. Implantação da fazenda Ibicaba século XX.. Fonte: SCARIATO, 2009, p.162.
Próximos às edificações localizavam-se arrimo e aquedutos dos lavadores de café e um terreiro ladrilhado para secagem do grão, que em sua máxima extensão chegou a ter quase 50.000m2 (FIGURA 14).
138 Heflinger (2002) observou que durante alguns anos da década de 1850, a Ibicaba tinha mais de uma dezena de
colônias e algumas sessões que, com o período de decadência após a Revolta dos Parceiros, foram sendo desmembradas e vendidas, formando fazendas independentes, como é o caso das fazendas Colônia Grande e Santo Antônio. Nos seus 92 alqueires restantes na atualidade, se localizam apenas cinco casas espalhadas pela propriedade e uma colônia onde somente quatro casas e a escola estão em pé, mas fechadas.
139 Heflinger (2002) argumentou que esta usina de força funcionava com três locomóveis - máquinas que
Acerca deste processo e dos equipamentos envolvidos na produção, Benincasa comentou:
As grandes plantações e as enormes safras, obtidas nas fazendas cafeeiras surgidas nas zonas Paulista e Mojiana, forçaram o uso dos dois tipos de beneficiamento numa mesma fazenda: por via seca e por via úmida. Assim, é comum observar ainda os grandes tanques de lavagem do café, as máquinas despolpadoras e os tanques de fermentação, usados no método por via úmida, e também dois tipos de terreiros, aqueles destinados ao café em coco, ou com casca, característicos do método por via seca, e aqueles destinados aos grãos despolpados. Ambos geralmente pavimentados. [...] A complexidade dos terreiros era enorme: ele era cortado por diversos canais que iam separando os grãos despolpados para algumas quadras e os grãos em coco para outras, de modo a não misturá-los, obtendo, ao final, tipos diversos de cafés, destinados a mercados diferentes. Os lavadores também aumentaram sua eficiência, surgindo tipos muito mais eficazes na retirada de impurezas como pedras, folhas e gravetos. Por essa época surge o lavador denominado “maravilha”, muito empregado nas grandes fazendas, que era composto de dois tanques de lavagem, dispostos sucessivamente, que retiravam com alto grau de perfeição aquelas impurezas, e ajudavam muito o processo de beneficiamento nas máquinas. (BENINCASA, 2007, Vol. 2, p. 304 e 312)
FIGURA 14. Edificações para a produção de café da fazenda Ibicaba (séculos XIX. E XX). Fonte: Fotos de Vladimir Benincasa, 2003.
Entre o terreiro e a sede estavam ainda a fábrica de farinha - moinho mecânico, e a torre do relógio (FIGURA 15), que controlava o tempo de serviço dos funcionários e servia como mirante.
Também faziam parte da propriedade estruturas como escola, paiol, pocilga e uma cocheira para ovinos, sendo as estruturas mantidas com mão-de-obra da própria fazenda:
Nas décadas de 1880 e 1890, com novas levas de imigrantes, principalmente italianos, superou-se o impacto da abolição da escravatura. Os europeus instalaram várias oficinas na Ibicaba (ferraria, carpintaria, marcenaria, selaria etc.) que forneciam seus produtos, inclusive agrícolas, para outras fazendas. (QUEIROZ, 2007, p. 56)
Assim, as relações comerciais e de trabalho na fazenda se integravam ao processo econômico em desenvolvimento, tanto em Limeira como no Oeste Paulista, região onde na primeira metade do século XIX estruturavam-se as bases da economia cafeeira.
Esta economia teve como estruturadoras as ações pautadas nos interesses e políticas socioespaciais impostas pelos dirigentes municipais, acompanhando, por exemplo, as relações de trabalho e processos produtivos efetuados na Ibicaba.
FIGURA 15. Relógio da fazenda Ibicaba (séculos XIX. E XX). Fonte: Fotos de Vladimir Benincasa, 2003.
Político e comerciante influente, Vergueiro, cujo prestígio junto à classe dominante viabilizava trânsito livre pelas esferas governamentais, obteve sucessivas concessões e benesses para que suas propriedades se formassem e ampliassem sob condições privilegiadas, em especial no período de ascensão do café.
Analogamente aos avanços da Ibicaba, Limeira acabou por assimilar as práticas vantajosas, obtendo para si posição estratégica no Oeste Paulista do século XIX, em especial quanto a sua localização e condições de acesso e transportes.